Voltaire (François-Marie Arouet) (1694-1778)

 

VRB – O que você pensa da metafísica?

 

Voltaire – A metafísica, com freqüência, é o romance do espírito.

Os homens se conduzem pelo costume, e não pela metafísica. Um único homem eloqüente, sagaz e acreditado terá muito poder sobre os homens; cem filósofos não terão nenhum se forem apenas filósofos.

Há uma centena de cursos de filosofia nos quais me explicam coisas de que ninguém pode ter a menor noção. Este me quer fazer entender a Trindade pela física; diz-me que ela se assemelha às três dimensões da matéria. Deixo-o falar e passo depressa. Aquele pretende convencer-me da transubstanciação, mostrando-me, pelas leis do movimento, como um acidente pode existir sem sujeito e como um mesmo corpo pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tapo os ouvidos e passo ainda mais depressa.

Pascal, o próprio Blaise Pascal, o autor das Cartas provinciais, profere estas palavras: “Achais impossível que Deus seja infinito e sem partes? Quero então mostrar-vos uma coisa indivisível e infinita: é um ponto movendo-se para todos os lados a uma velocidade infinita, pois ele está em todos os lugares, totalmente em cada lugar”.

Um ponto matemático que se move! Ó céus! Um ponto que só existe na cabeça do geômetra, que está em toda parte e ao mesmo tempo e que tem uma velocidade infinita, como se a velocidade infinita real pudesse existir! Cada palavra é uma loucura, e foi um grande homem que proferiu essas loucuras!

 

VRB – Nos momentos de calamidade coletiva ou de desgraças individuais, as pessoas desesperadas sentem-se injustiçadas por Deus.

 

Voltaire – Em relação às acusações de injustiça e crueldade que se fazem a Deus, respondo primeiro que, supondo-se que exista um mal moral (o que me parece uma quimera), esse mal moral é tão impossível de explicar no sistema da matéria quanto no de um Deus. Respondo em seguida que não temos da justiça outras idéias além das que concebemos acerca de toda ação útil à sociedade, idéias estas conformes às leis estabelecidas por nós para o bem comum: ora, como essa idéia nada mais é que uma idéia de relação de homem para homem, ela não pode ter nenhuma analogia com Deus. É tão absurdo, nesse sentido, afirmar que Deus é justo ou injusto quanto dizer que Deus é azul ou quadrado.

É, pois, insensato reprovar a Deus porque as moscas são comidas pelas aranhas e porque os homens vivem apenas oitenta anos, porque eles abusam de sua liberdade para se destruírem uns aos outros, porque têm doenças, paixões cruéis etc., pois não temos decerto nenhuma idéia de que os homens e as moscas devessem ser eternos. Para bem assegurar que uma coisa é má, deve-se ver ao mesmo tempo que se poderia fazer melhor. Não podemos certamente julgar que uma máquina é imperfeita senão pela idéia da perfeição que lhe falta; não podemos, por exemplo, julgar que os três lados de um triângulo são desiguais se não temos a idéia de um triângulo eqüilátero; não podemos dizer que um relógio é ruim se não temos uma idéia distinta de um certo número de espaços iguais que o ponteiro desse relógio deve igualmente percorrer. Mas quem terá uma idéia segunda a qual este nosso mundo infringe a sabedoria divina?

 

VRB – Há filósofos e místicos que afirmam que o mundo físico é ilusório e, portanto, que tudo é aparência.

 

Voltaire – Concedamos a esses senhores, por um momento, ainda mais do que eles pedem: eles pretendem que não se pode provar-lhes que existem corpos; admitamos que eles próprios provem que não existem corpos. Que se seguirá daí? Nós nos conduziremos diferentemente em nossa vida? Teremos ideias diferentes sobre o que quer que seja? Será preciso apenas mudar uma palavra nesses discursos. Quando, por exemplo, se tiver travado uma batalha qualquer, cumprirá dizer que dez mil homens parecem ter sido mortos, que um certo oficial parece ter a perna quebrada e que um cirurgião parecerá amputá-la. Do mesmo modo, quando tivermos fome, pediremos a aparência de um pedaço de pão a fim de parecer que digerimos.

 

VRB – Você acredita em milagre?

 

Voltaire – Os próprios Santos Doutores muitas vezes confessaram não haver mais milagres em seu tempo. São Crisóstomo diz explicitamente: "Os dons extraordinários do espírito eram dados mesmo aos indignos, porque então a Igreja precisava de milagres; mas hoje eles não são dados nem mesmo aos dignos, porque a Igreja não precisa mais deles." Em seguida reconhece que não há mais ninguém que ressuscite os mortos, nem mesmo que cure os doentes.

O próprio santo Agostinho, apesar do milagre de Gervásio e Protásio, diz em sua Cidade de Deus: "Por que esses milagres que se faziam antigamente não se fazem mais hoje?" e dá a mesma razão: "Porque é, dizem, que não se fazem agora os milagres que dizeis se faziam antes? Eu poderia responder com verdade que, antes de o mundo acreditar, eles eram necessários para que o mundo acreditasse."

Defini os termos, digo-vos, ou jamais nos entenderemos. "Miraculum, rés miranda, prodigium, portentum, monstrum." Milagre, coisa admirável; prodigium, que anuncia algo espantoso; portentum, portador de novidades; monstrum, coisa a ser mostrada por sua raridade.

Essas foram as primeiras idéias que tivemos acerca dos milagres.

Assim como tudo vai se refinando, também esta definição foi refinada; passou-se a chamar milagre o que é impossível à natureza; sem pensar, entretanto, que isso equivalia a dizer que todo milagre é realmente impossível. Pois o que é a natureza? Entendeis por esta palavra a ordem eterna das coisas. Um milagre seria pois impossível no âmbito dessa ordem. Nesse sentido Deus não poderia fazer milagres.

Se entendeis por milagre um efeito cuja causa não podeis ver, nesse sentido tudo é milagre. A atração e a direção do imã são milagres permanentes. Um caracol cuja cabeça se renova é um milagre. O nascimento de cada animal, a produção de cada vegetal, são milagres cotidianos.

Mas estamos tão acostumados com esses prodígios que eles perderam o nome de admiráveis, de miraculosos.

Concebemos, pois, uma outra idéia de milagre. É, segundo a opinião vulgar, o que nunca havia acontecido e o que nunca acontecerá.

 

VRB – Se Deus opera milagres, não está Ele contrariando a Ordem que criou?

 

Voltaire – Hobbes, Collins, milorde Bolinbroke, e outros, perguntam, em primeiro lugar: se é verossímil que Deus desarranje o plano do universo; se o Ser eterno, ao fazer as leis, não as fez eternas; se o Ser imutável não o é em suas obras; se é verossímil que o Ser infinito tenha perspectivas particula­res, e que, tendo submetido a natureza inteira a uma regra universal, viole-a em favor de um único recanto nesse pequeno globo? se, estando tudo visivelmente encadeado, um só elo da cadeia universal pode desarranjar-se sem que a constituição do universo seja prejudicada? se, por exemplo, a terra interrompeu seu curso durante nove ou dez horas, e a lua o seu, para favorecer a derrota de algumas centenas de amorreus, não seria absolutamente necessário que todo o resto do mundo planetário tivesse sido transtornado?

 

VRB – Os seres humanos ou lamentam por não ser livres ou querem ampliar o seu grau de liberdade. No entanto, muito se discute sobre o que é liberdade. Qual a sua opinião a respeito?

 

Voltaire – Despojemos, em primeiro lugar, a questão de todas as quimeras com que se costuma embaraçá-la e definamos o que entendemos por essa palavra, liberdade. A liberdade é unicamente o poder de agir. Se uma pedra se movesse por sua escolha, ela seria livre; os animais e os homens têm esse poder; portanto são livres.

 

Querer e agir é precisamente a mesma coisa que ser livre.

 

É efetivamente certo que existem homens mais livres uns do que os outros, pela mesma razão de que não somos igualmente esclarecidos, igualmente robustos etc. A liberdade é a saúde da alma; poucas pessoas têm essa saúde inteira e inalterável. Nossa liberdade é frágil e limitada, como todas as nossas faculdades. Nós a fortalecemos ao nos acostumarmos a fazer reflexões, e esse exercício da alma torna-a um pouco mais vigorosa. Mas, por mais esforços que façamos, jamais conseguiremos tornar nossa razão soberana de todos os nossos desejos; sempre haverá, em nossa alma como em nosso corpo, movimentos involuntários. Não somos nem livres, nem sábios, nem fortes, nem sãos, nem espirituais senão num grau ínfimo. Se fôssemos sempre livres, seríamos o que Deus é. Contentemo-nos com uma partilha conveniente na posição que ocupamos na natureza. Mas não imaginemos que nos faltam as próprias coisas cujo gozo sentimos; e, só porque não temos os atributos de um Deus, não renunciemos às faculdades de um homem.

 

Ser verdadeiramente livre é poder. Quando posso fazer o que quero, eis a minha liberdade; mas quero necessariamente o que quero; do contrário quereria sem razão, sem causa, o que é impossível. Minha liberdade consiste em andar quando quero andar e quando não tenho a gota.

 

Minha liberdade consiste em não praticar uma ação má quando meu espírito a vê como necessariamente má; em subjugar uma paixão quando meu espírito me faz sentir o perigo que ela representa e quando o horror dessa ação combate poderosamente o meu desejo. Podemos reprimir nossas paixões, mas então não somos mais livres ao reprimir os nossos desejos do que ao deixar-nos arrastar por nossas tendências: pois num e noutro caso seguimos irresistivelmente nossa última idéia, e essa última idéia é necessária; portanto, faço necessariamente o que ela me dita. É estranho que os homens não estejam contentes com esse quinhão de liberdade, isto é, com o poder, que receberam da natureza, de em vários casos fazer o que querem; os astros não a têm; nós a possuímos, e nosso orgulho às vezes nos faz crer que a possuímos ainda mais. Imaginamos que temos o dom incompreensível e absurdo de querer sem outra razão, sem outro motivo que o de querer.

 

VRB – Há certos comportamentos que estão presentes em todos os povos e em todas as épocas e que, portanto, são paradigmáticos.

 

Voltaire – Todos os povos que se conduzem tão diferentemente, se reúnem nesse ponto, o de chamar virtuoso o que é conforme as leis que eles estabeleceram e criminoso o que é contrário a elas.

 

A virtude e o vício, o bem e o mal moral são pois, em todos os países, aquilo que é útil ou prejudicial à sociedade, e em todos os lugares e em todos os tempos aquele que sacrifica mais ao bem público é aquele a quem se chamará mais virtuoso. Parece, portanto, que as boas ações nada mais são que as ações das quais tiramos vantagem, e os crimes, as ações que nos são contrárias. A virtude é o hábito de fazer coisas que agradam aos homens, e o vício, o hábito de fazer coisas que lhes desagradam.

Todos amamos a verdade e dela fazemos uma virtude, porque é de nosso interesse não sermos enganados.

 

VRB – Uma das grande discussões filosóficas é se a substância de tudo é a matéria ou o espírito.

 

Voltaire – Não podendo ter nenhuma noção a não ser por experiência, é impossível que um dia venhamos a saber o que é a matéria. Nós tocamos, vemos as propriedades dessa substância; mas a própria palavra substância, o que está embaixo, nos adverte que esse embaixo nos será desconhecido para sempre: por mais coisas que descubramos acerca de suas aparências, sempre restará esse embaixo por descobrir. Pela mesma razão, jamais saberemos por nós mesmos o que é o espírito. É uma palavra que originariamente significa sopro e da qual nos temos servido para tentar expressar de maneira vaga e imperfeita aquilo que nos dá os pensamentos. Mas, ainda que, por um prodígio que não cabe supor, tivéssemos uma leve idéia da substância desse espírito, não teríamos avançado mais; nunca poderíamos adivinhar como essa substância recebe sentimentos e pensamentos. Sabemos efetivamente que temos um pouco de inteligência, mas como a temos? Isto é segredo da natureza, e ela não o revelou a nenhum mortal.

 

VRB – Os materialistas asseguram que o que chamamos de alma não passa de um atributo da matéria. E há espiritualistas que afirmam que o ser humano é o único animal dotado de alma. O que você pensa a respeito?

 

Voltaire – Os animais sentem como nós; portanto não pode ser senão por um excesso de vaidade ridícula que os homens se atribuem uma alma de uma espécie diferente da que anima os bichos. Está claro portanto, até aqui, que nem os filósofos nem eu sabemos o que é essa alma; apenas me está provado que há algo de comum entre o animal chamado homem e o que se chama de bicho. Vejamos se essa faculdade comum a todos esses animais é matéria ou não.

É impossível, dizem-me, que a matéria pense. Não vejo essa impossibilidade. Se o pensamento fosse um composto da matéria, como me dizem, eu confessaria que o pensamento deveria ser extenso e divisível; mas, se o pensamento é um atributo de Deus dado à matéria, não vejo por que esse atributo deva ser extenso e divisível; pois vejo que Deus comunicou outras propriedades à matéria, as quais não têm nem extensão nem divisibilidade; o movimento, a gravitação, por exemplo, que age sem corpos intermediários e que age na razão direta da massa, e não das superfícies, e na razão duplamente inversa das distâncias, é uma qualidade real demonstrada e cuja causa é tão oculta quanto a do pensamento.

Numa palavra, só posso julgar de acordo com o que vejo, e segundo o que me parece mais provável; vejo que em toda a natureza os mesmos efeitos supõem uma mesma causa. Assim, julgo que a mesma causa atua nos animais e nos homens na proporção dos seus órgãos; e creio que esse princípio comum aos homens e aos animais é um atributo dado por Deus à matéria. Pois, se o que se chama de alma fosse um ser à parte, fosse qual fosse a natureza desse ser, eu deveria acreditar que o pensamento é a sua essência, ou então não teria nenhuma idéia clara dessa substância. Assim, todos os que admitiram uma alma imaterial foram obrigados a dizer que essa alma sempre pensa; mas apelo para a consciência de todos os homens: eles pensam ininterruptamente? Pensam quando estão dormindo um sono pleno e profundo? Os animais têm ideias a todos os momentos? Alguém que desmaiou tem muitas idéias nesse estado, que é realmente uma morte passageira? Se a alma não pensa sempre, é portanto absurdo reconhecer no homem uma substância cuja essência é pensar. Que poderíamos concluir daí, senão que Deus organizou os corpos para pensar como para comer e para digerir? Ao me informar da história do gênero humano, aprendo que por longo tempo os homens tiveram sobre esse assunto a mesma opinião que eu.

 

VRB – Deus: eis uma questão que sempre mobilizou crentes e ateus.

 

Voltaire – Somos sua obra. Eis aí uma verdade interessante para nós: porque saber pela filosofia em que tempo ele fez o homem, o que ele fazia antes; se ele está na matéria, se está no vazio, se está num ponto, se age sempre ou não, se age em toda parte, se age fora dele ou dentro dele; tudo isso são questões que redobram em mim o sentimento de minha profunda ignorância.

Adoro o Deus por meio de quem penso sem saber como penso.

 

VRB – Deus é cognoscível?

 

Voltaire – Já convencido de que, não conhecendo o que sou, não posso conhecer o que é o meu autor, minha ignorância me acabrunha a cada instante e eu me consolo refletindo sem cessar que não importa que eu saiba se meu senhor está ou não na extensão, contanto que eu nada faça contra a consciência que ele me deu. De todos os sistemas que os homens inventaram acerca da Divindade, qual será então o que abraçarei? Nenhum outro que não o de adorá-la.

 

VRB – Quanto mais falamos sobre Deus, mais nos complicamos. E disso não escaparam os nossos melhores filósofos.

 

Voltaire – Acusou-se o sábio Bayle de haver atacado Spinoza duramente, sem entendê-lo: duramente, concordo; injustamente, não o creio. Seria estranho que Bayle não o tivesse entendido. Ele descobriu facilmente o ponto fraco desse castelo encantado; viu, com efeito, que Spinoza compõe o seu Deus de partes, conquanto seja obrigado a se desdizer, assombrado com seu próprio sistema. Baye viu como é insensato fazer de Deus astro e abóbora, pensamento e estrume, batente e batido. Viu que essa fábula está muito abaixo da de Proteu. Talvez Bayle devesse ater-se à palavra modalidades e não a partes, uma vez que é essa palavra, modalidades, que Spinoza emprega sempre. Mas é igualmente irrelevante, se não me engano, que o excremento de um animal seja uma modalidade ou uma parte do Ser supremo.

Bayle não combateu, é verdade, as razões pelas quais Spinoza sustenta a impossibilidade da criação; mas é porque a criação propriamente dita é um objeto de fé, e não de filosofia; é porque essa opinião não é de modo algum particular a Spinoza; é porque toda a Antiguidade pensara como ele. Ele ataca apenas a idéia absurda de um Deus simples composto de partes, de um Deus que se come e se digere a si mesmo, que ama e odeia a mesma coisa ao mesmo tempo etc. Spinoza se serve sempre da palavra Deus; Bayle o pega por suas próprias palavras.

No fundo, porém, Spinoza não reconhece Deus algum; provavelmente só empregou essa expressão, só disse que cumpre servir e amar a Deus para não amedrontar o gênero humano.

 

VRB – E sobre a eternidade?

 

Voltaire – A existência de um único átomo me parece provar a eternidade da existência, mas nada me prova o nada.

 

VRB – Você acredita na sobrevivência da alma?

 

Voltaire – Seria bem doce, com efeito, sobreviver a si mesmo, conservar eternamente a parte mais excelente do seu ser na destruição da outra, viver para sempre com seus amigos etc.! Essa quimera (a considerá-la neste único sentido) seria consoladora em meio a misérias reais. Eis talvez por que se inventou outrora o sistema da metempsicose; mas será que esse sistema tem mais verossimilhança do que as Mil e uma noites? E não será ele um fruto da imaginação viva e absurda da maioria dos filósofos orientais? Suponho porém, a despeito de todas as probabilidades, que Deus conserva após a morte do homem aquilo que se chama sua alma e que abandone a alma do animal ao curso da destruição ordinária de todas as coisas: pergunto o que o homem ganhará com isso; pergunto o que o espírito de João terá em comum com João quando ele estiver morto.

O que constitui a pessoa de João, o que faz com que João seja ele mesmo, e o mesmo que ele era ontem aos seus próprios olhos, é que ele se relembre das idéias que tinha ontem, e que em seu entendimento ele una sua existência de ontem à de hoje; pois, se tivesse perdido inteiramente a memória, sua existência passada lhe haveria de ser tão estranha quanto a de um outro homem; ele tanto poderia ser o João de ontem, a mesma pessoa, quanto ser Sócrates ou César. Ora, suponho que João, em sua última doença, perdeu absolutamente a memória e morre, por conseguinte, sem ser aquele mesmo João que viveu: Deus devolverá à sua alma essa memória que ele perdeu? criará de novo essas idéias que já não existem? nesse caso, não será um homem totalmente novo, tão diferente do primeiro quanto um indiano o é de um europeu?

Mas pode-se dizer também que, tendo João perdido inteiramente a memória antes de morrer, sua alma poderá recuperá-la da mesma forma que a recuperamos após o desmaio ou após um delírio: porque um homem que tenha perdido inteiramente a memória numa doença grave não deixa de ser o mesmo homem depois de recuperar a memória; portanto a alma de João, se ele tem uma, e se ela for imortal pela vontade do Criador, como se supõe, poderá recuperar a memória depois de sua morte, exatamente como a recupera após o desmaio durante a vida; portanto João será o mesmo homem.

 

VRB – Há séculos, teólogos e filósofos discutem sobre o bem e o mal. Pergunto-lhe, por isso, a sua opinião sobre o assunto.

 

Voltaire – Perguntarei aos que fazem essa pergunta se existe frio e calor, doce e amargo, cheiro bom e cheiro ruim que não seja em relação a nós. Não é verdade que um homem que pretendesse que o calor existe por si só seria um raciocinador bem ridículo? Por que, pois, aquele que pretende que o bem moral existe independentemente de nós raciocinaria melhor?' Nosso bem e nosso mal físico só têm existência em relação a nós: por que o nosso bem e o nosso mal moral estariam noutro caso?

Os desígnios do Criador, que queria que o homem vivesse em sociedade, não estão suficientemente cumpridos? Se houvesse alguma lei caída do céu que com toda a clareza tivesse ensinado aos seres humanos a vontade de Deus, então o bem moral não seria outra coisa senão a conformidade a essa lei. Quando Deus disser aos homens: "Quero que haja tantos e tantos reinos sobre a terra, e não uma república. Quero que os caçulas tenham todos os bens dos pais e que se puna com a morte quem quer que coma perus ou porco", então essas leis se tornarão certamente a regra imutável do bem e do mal. Mas, como Deus não se dignou, que eu saiba, imiscuir-se assim na nossa conduta, é preciso que nos atenhamos às dádivas que ele nos fez. Essas dádivas são a razão, o amor-próprio, a benevolência para com a nossa espécie, as necessidades, as paixões, todos meios pelos quais estabelecemos a sociedade.

Nesse ponto, muitas pessoas estão prontas para me dizer: Se encontro meu bem-estar em conturbar vossa sociedade, em matar, em roubar, em caluniar, não serei então detido por nada e poderei entregar-me sem escrúpulo a todas as minhas paixões? Não tenho outra coisa a dizer a essas pessoas senão que provavelmente elas serão enforcadas, assim como eu mandarei matar os lobos que quiserem roubar os meus carneiros; é precisamente para elas que as leis são feitas, da mesma maneira que as telhas foram inventadas contra a geada e contra a chuva. Com relação aos príncipes que detêm a força e dela abusam para desolar o mundo, que enviam para a morte uma parte dos homens e reduzem a outra à miséria, a culpa é dos homens se eles sofrem essas devastações abomináveis, que muitas vezes chegam a honrar com o nome de virtude: não devem queixar-se senão de si mesmos, das más leis que eles fizeram ou da pouca coragem que os impede de fazer executar boas leis.

Todos esses príncipes que fizeram tanto mal aos homens são os primeiros a gritar que Deus estipulou regras sobre o bem e o mal. Não há nenhum desses flagelos da terra que não faça atos solenes de religião; e não vejo muita vantagem em ter semelhantes regras. É uma infelicidade inerente à humanidade que, apesar de toda a vontade que temos de nos conservar, nos destruamos mutuamente com furor e com loucura. Quase todos os animais se entredevoram, e na espécie humana os machos se exterminam pela guerra. Parece ainda que Deus previu essa calamidade ao fazer nascer entre nós mais machos do que fêmeas: com efeito, os povos que parecem ter pensado mais de perto nos interesses da humanidade e que mantêm registros exatos dos nascimentos e das mortes se aperceberam de que, em média, nascem todos os anos um duodécimo de machos a mais do que fêmeas.

De tudo isso será fácil ver que é muito provável que todos esses homicídios e banditismos sejam funestos à sociedade, sem interessar em nada à Divindade. Deus pôs os homens e os animais sobre a terra: cabe a eles se conduzirem o melhor possível. Ai das moscas que caem nas malhas da aranha, ai do touro que for atacado por um leão e das ovelhas que forem encontradas pelos lobos! Mas, se uma ovelha fosse dizer a um lobo: Faltas ao bem moral, Deus te punirá, o lobo lhe responderia: Faço o meu bem físico, e parece que a Deus não preocupa muito se eu te como ou não. O melhor que a ovelha tinha a fazer era não se afastar do pastor e do cão que podiam defendê-la.

Prouvera ao céu que, com efeito, um Ser supremo nos houvesse dado leis e nos tivesse proposto castigos e recompensas! Que nos tivesse dito: Isso é vício, isso é virtude em si. Mas estamos tão longe de ter regras do bem e do mal que, de todos os que ousaram dar leis aos homens da parte de Deus, não há um que não tenha dado a décima milésima parte das regras de que temos necessidade para a conduta na vida.

 

VRB – A pena de morte, vez por outra, é tema de discussão, quando aumenta o índice de criminalidade e as autoridades, pelos mais diversos motivos, se mostram incompetentes para a solução do problema. O que fazer com um criminoso cuja recuperação pareça improvável?

 

Voltaire – Vede se é necessário matá-lo quando é possível puni-lo de outra maneira, exceto num único caso: aquele em que não houvesse outro meio de salvar a vida da maioria. É o caso em que se mata um cão raivoso.

Em qualquer outra circunstância, condenai o criminoso a viver para ser útil; que ele trabalhe continuamente para seu país, porque ele prejudicou seu país. É preciso reparar o prejuízo; a morte não repara nada.

Um falsário é um excelente artista. Numa prisão perpétua, poderia ser empregado em seu próprio ofício, a trabalhar com a verdadeira moeda do Estado.

 

VRB – Certas pessoas disfarçam sua ferocidade sob o pretexto de zelo religioso e justificam as ações que praticam contra seus inimigos, afirmando que eles são inimigos de Deus. Por isso, as “guerras santas” não produzem sentimentos de culpa e transformam fanáticos em heróis e mártires, além de agraciá-los com sedutoras recompensas no Além.

 

Voltaire – Quando pensamos em todos os males que foram produzidos pelo fanatismo, sentimos vergonha de sermos humanos.

Entrevista com Voltaire

 

VRB – O que você pensa da metafísica?

 

Voltaire – A metafísica, com freqüência, é o romance do espírito.

Os homens se conduzem pelo costume, e não pela metafísica. Um único homem eloqüente, sagaz e acreditado terá muito poder sobre os homens; cem filósofos não terão nenhum se forem apenas filósofos.

Há uma centena de cursos de filosofia nos quais me explicam coisas de que ninguém pode ter a menor noção. Este me quer fazer entender a Trindade pela física; diz-me que ela se assemelha às três dimensões da matéria. Deixo-o falar e passo depressa. Aquele pretende convencer-me da transubstanciação, mostrando-me, pelas leis do movimento, como um acidente pode existir sem sujeito e como um mesmo corpo pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tapo os ouvidos e passo ainda mais depressa.

Pascal, o próprio Blaise Pascal, o autor das Cartas provinciais, profere estas palavras: “Achais impossível que Deus seja infinito e sem partes? Quero então mostrar-vos uma coisa indivisível e infinita: é um ponto movendo-se para todos os lados a uma velocidade infinita, pois ele está em todos os lugares, totalmente em cada lugar”.

Um ponto matemático que se move! Ó céus! Um ponto que só existe na cabeça do geômetra, que está em toda parte e ao mesmo tempo e que tem uma velocidade infinita, como se a velocidade infinita real pudesse existir! Cada palavra é uma loucura, e foi um grande homem que proferiu essas loucuras!

 

VRB – Nos momentos de calamidade coletiva ou de desgraças individuais, as pessoas desesperadas sentem-se injustiçadas por Deus.

 

Voltaire – Em relação às acusações de injustiça e crueldade que se fazem a Deus, respondo primeiro que, supondo-se que exista um mal moral (o que me parece uma quimera), esse mal moral é tão impossível de explicar no sistema da matéria quanto no de um Deus. Respondo em seguida que não temos da justiça outras idéias além das que concebemos acerca de toda ação útil à sociedade, idéias estas conformes às leis estabelecidas por nós para o bem comum: ora, como essa idéia nada mais é que uma idéia de relação de homem para homem, ela não pode ter nenhuma analogia com Deus. É tão absurdo, nesse sentido, afirmar que Deus é justo ou injusto quanto dizer que Deus é azul ou quadrado.

É, pois, insensato reprovar a Deus porque as moscas são comidas pelas aranhas e porque os homens vivem apenas oitenta anos, porque eles abusam de sua liberdade para se destruírem uns aos outros, porque têm doenças, paixões cruéis etc., pois não temos decerto nenhuma idéia de que os homens e as moscas devessem ser eternos. Para bem assegurar que uma coisa é má, deve-se ver ao mesmo tempo que se poderia fazer melhor. Não podemos certamente julgar que uma máquina é imperfeita senão pela idéia da perfeição que lhe falta; não podemos, por exemplo, julgar que os três lados de um triângulo são desiguais se não temos a idéia de um triângulo eqüilátero; não podemos dizer que um relógio é ruim se não temos uma idéia distinta de um certo número de espaços iguais que o ponteiro desse relógio deve igualmente percorrer. Mas quem terá uma idéia segunda a qual este nosso mundo infringe a sabedoria divina?

 

VRB – Há filósofos e místicos que afirmam que o mundo físico é ilusório e, portanto, que tudo é aparência.

 

Voltaire – Concedamos a esses senhores, por um momento, ainda mais do que eles pedem: eles pretendem que não se pode provar-lhes que existem corpos; admitamos que eles próprios provem que não existem corpos. Que se seguirá daí? Nós nos conduziremos diferentemente em nossa vida? Teremos ideias diferentes sobre o que quer que seja? Será preciso apenas mudar uma palavra nesses discursos. Quando, por exemplo, se tiver travado uma batalha qualquer, cumprirá dizer que dez mil homens parecem ter sido mortos, que um certo oficial parece ter a perna quebrada e que um cirurgião parecerá amputá-la. Do mesmo modo, quando tivermos fome, pediremos a aparência de um pedaço de pão a fim de parecer que digerimos.

 

VRB – Você acredita em milagre?

 

Voltaire – Os próprios Santos Doutores muitas vezes confessaram não haver mais milagres em seu tempo. São Crisóstomo diz explicitamente: "Os dons extraordinários do espírito eram dados mesmo aos indignos, porque então a Igreja precisava de milagres; mas hoje eles não são dados nem mesmo aos dignos, porque a Igreja não precisa mais deles." Em seguida reconhece que não há mais ninguém que ressuscite os mortos, nem mesmo que cure os doentes.

O próprio santo Agostinho, apesar do milagre de Gervásio e Protásio, diz em sua Cidade de Deus: "Por que esses milagres que se faziam antigamente não se fazem mais hoje?" e dá a mesma razão: "Porque é, dizem, que não se fazem agora os milagres que dizeis se faziam antes? Eu poderia responder com verdade que, antes de o mundo acreditar, eles eram necessários para que o mundo acreditasse."

Defini os termos, digo-vos, ou jamais nos entenderemos. "Miraculum, rés miranda, prodigium, portentum, monstrum." Milagre, coisa admirável; prodigium, que anuncia algo espantoso; portentum, portador de novidades; monstrum, coisa a ser mostrada por sua raridade.

Essas foram as primeiras idéias que tivemos acerca dos milagres.

Assim como tudo vai se refinando, também esta definição foi refinada; passou-se a chamar milagre o que é impossível à natureza; sem pensar, entretanto, que isso equivalia a dizer que todo milagre é realmente impossível. Pois o que é a natureza? Entendeis por esta palavra a ordem eterna das coisas. Um milagre seria pois impossível no âmbito dessa ordem. Nesse sentido Deus não poderia fazer milagres.

Se entendeis por milagre um efeito cuja causa não podeis ver, nesse sentido tudo é milagre. A atração e a direção do imã são milagres permanentes. Um caracol cuja cabeça se renova é um milagre. O nascimento de cada animal, a produção de cada vegetal, são milagres cotidianos.

Mas estamos tão acostumados com esses prodígios que eles perderam o nome de admiráveis, de miraculosos.

Concebemos, pois, uma outra idéia de milagre. É, segundo a opinião vulgar, o que nunca havia acontecido e o que nunca acontecerá.

 

VRB – Se Deus opera milagres, não está Ele contrariando a Ordem que criou?

 

Voltaire – Hobbes, Collins, milorde Bolinbroke, e outros, perguntam, em primeiro lugar: se é verossímil que Deus desarranje o plano do universo; se o Ser eterno, ao fazer as leis, não as fez eternas; se o Ser imutável não o é em suas obras; se é verossímil que o Ser infinito tenha perspectivas particula­res, e que, tendo submetido a natureza inteira a uma regra universal, viole-a em favor de um único recanto nesse pequeno globo? se, estando tudo visivelmente encadeado, um só elo da cadeia universal pode desarranjar-se sem que a constituição do universo seja prejudicada? se, por exemplo, a terra interrompeu seu curso durante nove ou dez horas, e a lua o seu, para favorecer a derrota de algumas centenas de amorreus, não seria absolutamente necessário que todo o resto do mundo planetário tivesse sido transtornado?

 

VRB – Os seres humanos ou lamentam por não ser livres ou querem ampliar o seu grau de liberdade. No entanto, muito se discute sobre o que é liberdade. Qual a sua opinião a respeito?

 

Voltaire – Despojemos, em primeiro lugar, a questão de todas as quimeras com que se costuma embaraçá-la e definamos o que entendemos por essa palavra, liberdade. A liberdade é unicamente o poder de agir. Se uma pedra se movesse por sua escolha, ela seria livre; os animais e os homens têm esse poder; portanto são livres.

Querer e agir é precisamente a mesma coisa que ser livre.

É efetivamente certo que existem homens mais livres uns do que os outros, pela mesma razão de que não somos igualmente esclarecidos, igualmente robustos etc. A liberdade é a saúde da alma; poucas pessoas têm essa saúde inteira e inalterável. Nossa liberdade é frágil e limitada, como todas as nossas faculdades. Nós a fortalecemos ao nos acostumarmos a fazer reflexões, e esse exercício da alma torna-a um pouco mais vigorosa. Mas, por mais esforços que façamos, jamais conseguiremos tornar nossa razão soberana de todos os nossos desejos; sempre haverá, em nossa alma como em nosso corpo, movimentos involuntários. Não somos nem livres, nem sábios, nem fortes, nem sãos, nem espirituais senão num grau ínfimo. Se fôssemos sempre livres, seríamos o que Deus é. Contentemo-nos com uma partilha conveniente na posição que ocupamos na natureza. Mas não imaginemos que nos faltam as próprias coisas cujo gozo sentimos; e, só porque não temos os atributos de um Deus, não renunciemos às faculdades de um homem.

Ser verdadeiramente livre é poder. Quando posso fazer o que quero, eis a minha liberdade; mas quero necessariamente o que quero; do contrário quereria sem razão, sem causa, o que é impossível. Minha liberdade consiste em andar quando quero andar e quando não tenho a gota.

Minha liberdade consiste em não praticar uma ação má quando meu espírito a vê como necessariamente má; em subjugar uma paixão quando meu espírito me faz sentir o perigo que ela representa e quando o horror dessa ação combate poderosamente o meu desejo. Podemos reprimir nossas paixões, mas então não somos mais livres ao reprimir os nossos desejos do que ao deixar-nos arrastar por nossas tendências: pois num e noutro caso seguimos irresistivelmente nossa última idéia, e essa última idéia é necessária; portanto, faço necessariamente o que ela me dita. É estranho que os homens não estejam contentes com esse quinhão de liberdade, isto é, com o poder, que receberam da natureza, de em vários casos fazer o que querem; os astros não a têm; nós a possuímos, e nosso orgulho às vezes nos faz crer que a possuímos ainda mais. Imaginamos que temos o dom incompreensível e absurdo de querer sem outra razão, sem outro motivo que o de querer.

 

VRB – Há certos comportamentos que estão presentes em todos os povos e em todas as épocas e que, portanto, são paradigmáticos.

 

Voltaire – Todos os povos que se conduzem tão diferentemente, se reúnem nesse ponto, o de chamar virtuoso o que é conforme as leis que eles estabeleceram e criminoso o que é contrário a elas.

A virtude e o vício, o bem e o mal moral são pois, em todos os países, aquilo que é útil ou prejudicial à sociedade, e em todos os lugares e em todos os tempos aquele que sacrifica mais ao bem público é aquele a quem se chamará mais virtuoso. Parece, portanto, que as boas ações nada mais são que as ações das quais tiramos vantagem, e os crimes, as ações que nos são contrárias. A virtude é o hábito de fazer coisas que agradam aos homens, e o vício, o hábito de fazer coisas que lhes desagradam.

Todos amamos a verdade e dela fazemos uma virtude, porque é de nosso interesse não sermos enganados.

 

VRB – Uma das grande discussões filosóficas é se a substância de tudo é a matéria ou o espírito.

 

Voltaire – Não podendo ter nenhuma noção a não ser por experiência, é impossível que um dia venhamos a saber o que é a matéria. Nós tocamos, vemos as propriedades dessa substância; mas a própria palavra substância, o que está embaixo, nos adverte que esse embaixo nos será desconhecido para sempre: por mais coisas que descubramos acerca de suas aparências, sempre restará esse embaixo por descobrir. Pela mesma razão, jamais saberemos por nós mesmos o que é o espírito. É uma palavra que originariamente significa sopro e da qual nos temos servido para tentar expressar de maneira vaga e imperfeita aquilo que nos dá os pensamentos. Mas, ainda que, por um prodígio que não cabe supor, tivéssemos uma leve idéia da substância desse espírito, não teríamos avançado mais; nunca poderíamos adivinhar como essa substância recebe sentimentos e pensamentos. Sabemos efetivamente que temos um pouco de inteligência, mas como a temos? Isto é segredo da natureza, e ela não o revelou a nenhum mortal.

 

VRB – Os materialistas asseguram que o que chamamos de alma não passa de um atributo da matéria. E há espiritualistas que afirmam que o ser humano é o único animal dotado de alma. O que você pensa a respeito?

 

Voltaire – Os animais sentem como nós; portanto não pode ser senão por um excesso de vaidade ridícula que os homens se atribuem uma alma de uma espécie diferente da que anima os bichos. Está claro portanto, até aqui, que nem os filósofos nem eu sabemos o que é essa alma; apenas me está provado que há algo de comum entre o animal chamado homem e o que se chama de bicho. Vejamos se essa faculdade comum a todos esses animais é matéria ou não.

É impossível, dizem-me, que a matéria pense. Não vejo essa impossibilidade. Se o pensamento fosse um composto da matéria, como me dizem, eu confessaria que o pensamento deveria ser extenso e divisível; mas, se o pensamento é um atributo de Deus dado à matéria, não vejo por que esse atributo deva ser extenso e divisível; pois vejo que Deus comunicou outras propriedades à matéria, as quais não têm nem extensão nem divisibilidade; o movimento, a gravitação, por exemplo, que age sem corpos intermediários e que age na razão direta da massa, e não das superfícies, e na razão duplamente inversa das distâncias, é uma qualidade real demonstrada e cuja causa é tão oculta quanto a do pensamento.

Numa palavra, só posso julgar de acordo com o que vejo, e segundo o que me parece mais provável; vejo que em toda a natureza os mesmos efeitos supõem uma mesma causa. Assim, julgo que a mesma causa atua nos animais e nos homens na proporção dos seus órgãos; e creio que esse princípio comum aos homens e aos animais é um atributo dado por Deus à matéria. Pois, se o que se chama de alma fosse um ser à parte, fosse qual fosse a natureza desse ser, eu deveria acreditar que o pensamento é a sua essência, ou então não teria nenhuma idéia clara dessa substância. Assim, todos os que admitiram uma alma imaterial foram obrigados a dizer que essa alma sempre pensa; mas apelo para a consciência de todos os homens: eles pensam ininterruptamente? Pensam quando estão dormindo um sono pleno e profundo? Os animais têm ideias a todos os momentos? Alguém que desmaiou tem muitas idéias nesse estado, que é realmente uma morte passageira? Se a alma não pensa sempre, é portanto absurdo reconhecer no homem uma substância cuja essência é pensar. Que poderíamos concluir daí, senão que Deus organizou os corpos para pensar como para comer e para digerir? Ao me informar da história do gênero humano, aprendo que por longo tempo os homens tiveram sobre esse assunto a mesma opinião que eu.

 

VRB – Deus: eis uma questão que sempre mobilizou crentes e ateus.

 

Voltaire – Somos sua obra. Eis aí uma verdade interessante para nós: porque saber pela filosofia em que tempo ele fez o homem, o que ele fazia antes; se ele está na matéria, se está no vazio, se está num ponto, se age sempre ou não, se age em toda parte, se age fora dele ou dentro dele; tudo isso são questões que redobram em mim o sentimento de minha profunda ignorância.

Adoro o Deus por meio de quem penso sem saber como penso.

 

VRB – Deus é cognoscível?

 

Voltaire – Já convencido de que, não conhecendo o que sou, não posso conhecer o que é o meu autor, minha ignorância me acabrunha a cada instante e eu me consolo refletindo sem cessar que não importa que eu saiba se meu senhor está ou não na extensão, contanto que eu nada faça contra a consciência que ele me deu. De todos os sistemas que os homens inventaram acerca da Divindade, qual será então o que abraçarei? Nenhum outro que não o de adorá-la.

 

VRB – Quanto mais falamos sobre Deus, mais nos complicamos. E disso não escaparam os nossos melhores filósofos.

 

Voltaire – Acusou-se o sábio Bayle de haver atacado Spinoza duramente, sem entendê-lo: duramente, concordo; injustamente, não o creio. Seria estranho que Bayle não o tivesse entendido. Ele descobriu facilmente o ponto fraco desse castelo encantado; viu, com efeito, que Spinoza compõe o seu Deus de partes, conquanto seja obrigado a se desdizer, assombrado com seu próprio sistema. Baye viu como é insensato fazer de Deus astro e abóbora, pensamento e estrume, batente e batido. Viu que essa fábula está muito abaixo da de Proteu. Talvez Bayle devesse ater-se à palavra modalidades e não a partes, uma vez que é essa palavra, modalidades, que Spinoza emprega sempre. Mas é igualmente irrelevante, se não me engano, que o excremento de um animal seja uma modalidade ou uma parte do Ser supremo.

Bayle não combateu, é verdade, as razões pelas quais Spinoza sustenta a impossibilidade da criação; mas é porque a criação propriamente dita é um objeto de fé, e não de filosofia; é porque essa opinião não é de modo algum particular a Spinoza; é porque toda a Antiguidade pensara como ele. Ele ataca apenas a idéia absurda de um Deus simples composto de partes, de um Deus que se come e se digere a si mesmo, que ama e odeia a mesma coisa ao mesmo tempo etc. Spinoza se serve sempre da palavra Deus; Bayle o pega por suas próprias palavras.

No fundo, porém, Spinoza não reconhece Deus algum; provavelmente só empregou essa expressão, só disse que cumpre servir e amar a Deus para não amedrontar o gênero humano.

 

VRB – E sobre a eternidade?

 

Voltaire – A existência de um único átomo me parece provar a eternidade da existência, mas nada me prova o nada.

 

VRB – Você acredita na sobrevivência da alma?

 

Voltaire – Seria bem doce, com efeito, sobreviver a si mesmo, conservar eternamente a parte mais excelente do seu ser na destruição da outra, viver para sempre com seus amigos etc.! Essa quimera (a considerá-la neste único sentido) seria consoladora em meio a misérias reais. Eis talvez por que se inventou outrora o sistema da metempsicose; mas será que esse sistema tem mais verossimilhança do que as Mil e uma noites? E não será ele um fruto da imaginação viva e absurda da maioria dos filósofos orientais? Suponho porém, a despeito de todas as probabilidades, que Deus conserva após a morte do homem aquilo que se chama sua alma e que abandone a alma do animal ao curso da destruição ordinária de todas as coisas: pergunto o que o homem ganhará com isso; pergunto o que o espírito de João terá em comum com João quando ele estiver morto.

O que constitui a pessoa de João, o que faz com que João seja ele mesmo, e o mesmo que ele era ontem aos seus próprios olhos, é que ele se relembre das idéias que tinha ontem, e que em seu entendimento ele una sua existência de ontem à de hoje; pois, se tivesse perdido inteiramente a memória, sua existência passada lhe haveria de ser tão estranha quanto a de um outro homem; ele tanto poderia ser o João de ontem, a mesma pessoa, quanto ser Sócrates ou César. Ora, suponho que João, em sua última doença, perdeu absolutamente a memória e morre, por conseguinte, sem ser aquele mesmo João que viveu: Deus devolverá à sua alma essa memória que ele perdeu? criará de novo essas idéias que já não existem? nesse caso, não será um homem totalmente novo, tão diferente do primeiro quanto um indiano o é de um europeu?

Mas pode-se dizer também que, tendo João perdido inteiramente a memória antes de morrer, sua alma poderá recuperá-la da mesma forma que a recuperamos após o desmaio ou após um delírio: porque um homem que tenha perdido inteiramente a memória numa doença grave não deixa de ser o mesmo homem depois de recuperar a memória; portanto a alma de João, se ele tem uma, e se ela for imortal pela vontade do Criador, como se supõe, poderá recuperar a memória depois de sua morte, exatamente como a recupera após o desmaio durante a vida; portanto João será o mesmo homem.

 

VRB – Há séculos, teólogos e filósofos discutem sobre o bem e o mal. Pergunto-lhe, por isso, a sua opinião sobre o assunto.

 

Voltaire – Perguntarei aos que fazem essa pergunta se existe frio e calor, doce e amargo, cheiro bom e cheiro ruim que não seja em relação a nós. Não é verdade que um homem que pretendesse que o calor existe por si só seria um raciocinador bem ridículo? Por que, pois, aquele que pretende que o bem moral existe independentemente de nós raciocinaria melhor?' Nosso bem e nosso mal físico só têm existência em relação a nós: por que o nosso bem e o nosso mal moral estariam noutro caso?

Os desígnios do Criador, que queria que o homem vivesse em sociedade, não estão suficientemente cumpridos? Se houvesse alguma lei caída do céu que com toda a clareza tivesse ensinado aos seres humanos a vontade de Deus, então o bem moral não seria outra coisa senão a conformidade a essa lei. Quando Deus disser aos homens: "Quero que haja tantos e tantos reinos sobre a terra, e não uma república. Quero que os caçulas tenham todos os bens dos pais e que se puna com a morte quem quer que coma perus ou porco", então essas leis se tornarão certamente a regra imutável do bem e do mal. Mas, como Deus não se dignou, que eu saiba, imiscuir-se assim na nossa conduta, é preciso que nos atenhamos às dádivas que ele nos fez. Essas dádivas são a razão, o amor-próprio, a benevolência para com a nossa espécie, as necessidades, as paixões, todos meios pelos quais estabelecemos a sociedade.

Nesse ponto, muitas pessoas estão prontas para me dizer: Se encontro meu bem-estar em conturbar vossa sociedade, em matar, em roubar, em caluniar, não serei então detido por nada e poderei entregar-me sem escrúpulo a todas as minhas paixões? Não tenho outra coisa a dizer a essas pessoas senão que provavelmente elas serão enforcadas, assim como eu mandarei matar os lobos que quiserem roubar os meus carneiros; é precisamente para elas que as leis são feitas, da mesma maneira que as telhas foram inventadas contra a geada e contra a chuva. Com relação aos príncipes que detêm a força e dela abusam para desolar o mundo, que enviam para a morte uma parte dos homens e reduzem a outra à miséria, a culpa é dos homens se eles sofrem essas devastações abomináveis, que muitas vezes chegam a honrar com o nome de virtude: não devem queixar-se senão de si mesmos, das más leis que eles fizeram ou da pouca coragem que os impede de fazer executar boas leis.

Todos esses príncipes que fizeram tanto mal aos homens são os primeiros a gritar que Deus estipulou regras sobre o bem e o mal. Não há nenhum desses flagelos da terra que não faça atos solenes de religião; e não vejo muita vantagem em ter semelhantes regras. É uma infelicidade inerente à humanidade que, apesar de toda a vontade que temos de nos conservar, nos destruamos mutuamente com furor e com loucura. Quase todos os animais se entredevoram, e na espécie humana os machos se exterminam pela guerra. Parece ainda que Deus previu essa calamidade ao fazer nascer entre nós mais machos do que fêmeas: com efeito, os povos que parecem ter pensado mais de perto nos interesses da humanidade e que mantêm registros exatos dos nascimentos e das mortes se aperceberam de que, em média, nascem todos os anos um duodécimo de machos a mais do que fêmeas.

De tudo isso será fácil ver que é muito provável que todos esses homicídios e banditismos sejam funestos à sociedade, sem interessar em nada à Divindade. Deus pôs os homens e os animais sobre a terra: cabe a eles se conduzirem o melhor possível. Ai das moscas que caem nas malhas da aranha, ai do touro que for atacado por um leão e das ovelhas que forem encontradas pelos lobos! Mas, se uma ovelha fosse dizer a um lobo: Faltas ao bem moral, Deus te punirá, o lobo lhe responderia: Faço o meu bem físico, e parece que a Deus não preocupa muito se eu te como ou não. O melhor que a ovelha tinha a fazer era não se afastar do pastor e do cão que podiam defendê-la.

Prouvera ao céu que, com efeito, um Ser supremo nos houvesse dado leis e nos tivesse proposto castigos e recompensas! Que nos tivesse dito: Isso é vício, isso é virtude em si. Mas estamos tão longe de ter regras do bem e do mal que, de todos os que ousaram dar leis aos homens da parte de Deus, não há um que não tenha dado a décima milésima parte das regras de que temos necessidade para a conduta na vida.

 

VRB – A pena de morte, vez por outra, é tema de discussão, quando aumenta o índice de criminalidade e as autoridades, pelos mais diversos motivos, se mostram incompetentes para a solução do problema. O que fazer com um criminoso cuja recuperação pareça improvável?

 

Voltaire – Vede se é necessário matá-lo quando é possível puni-lo de outra maneira, exceto num único caso: aquele em que não houvesse outro meio de salvar a vida da maioria. É o caso em que se mata um cão raivoso.

Em qualquer outra circunstância, condenai o criminoso a viver para ser útil; que ele trabalhe continuamente para seu país, porque ele prejudicou seu país. É preciso reparar o prejuízo; a morte não repara nada.

Um falsário é um excelente artista. Numa prisão perpétua, poderia ser empregado em seu próprio ofício, a trabalhar com a verdadeira moeda do Estado.

 

VRB – Certas pessoas disfarçam sua ferocidade sob o pretexto de zelo religioso e justificam as ações que praticam contra seus inimigos, afirmando que eles são inimigos de Deus. Por isso, as “guerras santas” não produzem sentimentos de culpa e transformam fanáticos em heróis e mártires, além de agraciá-los com sedutoras recompensas no Além.

 

Voltaire – Quando pensamos em todos os males que foram produzidos pelo fanatismo, sentimos vergonha de sermos humanos.