TEMPO
O tempo nem sempre apaga
as nódoas do já vivido,
principalmente o sofrido
e as fundas marcas do amado.
O
tempo é a eternidade
que se perdeu de si mesma.
O
presente nunca é puro:
há sempre as nódoas do passado.
O espaço do passado
cresce a cada instante
pelos aluviões do presente;
Mas o espaço do presente
é sempre o mesmo.
O passado cresce como musgo
nas paredes do presente,
até que não haja paredes
livres para o presente.
Até que não haja presente
e nem existam paredes.
Na infância, os olhos límpidos
vêem o mundo claramente
sem a catarata do tempo.
A fé no visto e no sonho.
A vida maior que a morte.
O corpo livre do peso
do vivido e não vivido,
do perdido e do não gasto.
Na velhice, os olhos turvos,
a opacidade do mundo,
a fé no que não se vê,
a morte maior que a vida,
recordações (e não sonhos),
algumas já desbotadas
ou outras reinventadas,
e as sensações prazerosas,
que o corpo já esqueceu.
Há um tempo de fazer,
um tempo de desfazer,
um tempo de procurar,
um tempo de desistir.
Há um tempo de crescer,
outro de diminuir,
um tempo de se apegar,
outro, de restituir.
Há um tempo de ser mais
e outro de não mais ser.
Quem passou? O que passou?
Tudo o que existe é agora.
O agora é sem bagagem:
tudo o mais é fardo inútil.
Somente o agora é sólido.
A ilusão da permanência:
o oficio de embalsamar
os cadáveres do tempo.
Não há dois num só agora:
cada qual se relaciona
com o passado dos outros.
Nunca fomos, nem seremos:
o nosso quem é agora.
É preciso encontrar, na continuidade do tempo, os vazios descontínuos que nos fazem sentir que somos a eternidade.
O tempo que foi é maior do que o tempo que é.
Há sempre um passado a refazer e um futuro a fazer. O presente é a oficina.
Quando perdemos a noção do tempo, não há tempo a preencher.
É no tempo que fabricamos as nossas ilusões, tecemos os nossos sentimos e procuramos soluções para as nossas fantasias. O tempo é a argila e somos os oleiros. Assim, o que é construído com a argila é da responsabilidade do oleiro.
Somos seres temporais, e polemizamos sobre o que é o tempo. Há um tempo objetivo. Há um tempo subjetivo. E estamos confusos na tentativa de compreendê-los. Talvez sejam as duas faces de uma mesma moeda.
É comum as pessoas falarem em passar o tempo, em matar o tempo, como se fosse algo incômodo, quando nada sabem fazer com ele. E há aquelas que não sabem utilizá-lo proveitosamente e se lamentam da rapidez como, na sua percepção, o tempo passa.
Sejamos moderados em gastar o nosso tempo com os outros. Ele nos é precioso, porque não sabemos o quanto dele ainda iremos dispor.
O tempo oxidante
escoa
na ampulheta do vazio.
O que fazer de nós
se a eternidade
às vezes pesa
por um momento
nos ombros frágeis dos dias?
O infinito é
possível:
o agora não tem tamanho.
Quem passou? O que
passou?
Tudo o que existe é agora.
O agora é sem bagagem:
tudo o mais é fardo inútil.
Somente o agora é sólido.
A ilusão da permanência:
o oficio de embalsamar
os cadáveres do tempo.
Não há dois num só agora:
cada qual se relaciona
com o passado dos outros.
Nunca fomos, nem seremos:
o nosso quem é agora.