Página inicial

 

Voltar

 

A QUESTÃO DA SALVAÇÃO

 

 Valter da Rosa Borges

 

           

            Há duas doutrinas religiosas básicas:

            a) a que ensina que a vida física é resultante de um pecado original ou de uma escolha equivocada em tempos remotos ou em outra dimensão da realidade;

            b) a que afirma que a vida física faz parte de um programa evolucionário cósmico.

 

            Para quase todas as religiões, o pecado ou a perdição decorre do rompimento da relação entre o homem e Deus.

            Divergem, porém, quanto as causas desta ruptura e os meios de restabelecer a antiga comunhão.

            O Espiritismo ensina que não houve qualquer ruptura entre o homem e Deus e, por conseguinte, não existiu qualquer erro primordial da humanidade. Deus criou os espíritos simples e ignorantes para que estes, através de seus próprios esforços, no curso de inúmeras reencarnações, possam alcançar, um dia, a perfeição.

            E divergem, ainda, se este afastamento pode ser definitivo e eterno para uma parte  dos homens ou se é temporário, resolvendo-se na reunificação de todas as criaturas com a Divindade.

 

            O Catolicismo e o Protestanismo sustentam que a separação pode ser definitiva para uma parte da humanidade, importando, para ela, no sofrimento eterno.

            Segundo o Zoroastrismo, em cada milênio haverá um novo Salvador, nascido de uma virgem e da semente de Zoroastro ou Zaratustra. Por ocasião de seu nascimento, surgirá uma estrela brilhante, a qual conduzirá mensageiros para adorá-lo e oferecer-lhe presentes.

            No fim dos tempos, surgirá um Salvador - Saoshyant. Haverá, então, a ressurreição, a qual não será de corpos, mas espiritual.

            A angeologia, a ressurreição, paraíso, purgatório e inferno, o messianismo foram idéias do Zoroastrismo, absorvidas pelo profetismo judaico. Paul de Breuil afirma que os Evangelhos, o Apocalipse e as Epístolas paulinianas "abundam de conceitos zoroástricos" e assevera que o zoroastrismo é "o pensamento que deu a luz ao melhor do cristianismo através do criptojudaísmo."

            Para o Zoroastrismo, não há danação eterna. O castigo no Além é espiritual, consistindo numa longa permanência nas trevas.

 

            Vardhamana Mahavira, fundador do Jainismo, pregava que a salvação depende do esforço do homem e não da graça dos deuses.

            O Jainismo também ensinava que não existe o castigo eterno.

 

            O Budismo se dividiu em duas escolas principais:

            a) a Escola Theravada, também chamada de Hinayana (Pequeno Veículo);

            b) a Escola Mahayana (Grande Veículo).

 

            A Escola Hinayna se conservou fiel ao Budismo original, não se deixando influenciar por inovações místicas. Ela se preocupa com a salvação individual, ensinando que a disciplina monástica é o meio de obtê-la.

            Ensina, ainda, que só existe um Buda para cada época.

            A Escola Mahayana ampliou a doutrina budista, criando o ideal do Bodhisattva, ou seja, aquele que, levado pela compaixão, adia a sua entrada no Nirvana para ajudar na salvação da humanidade. A concepção do Bodhisattva resultou na doutrina da transferência do mérito, amenizando o ensinamento de Buda de que o homem se salva exclusivamente pelo seu esforço. Assim, sob esse enfoque, um Bodhisattva pode transferir seus méritos a outros homens, ajudando-os na sua libertação.

Todo homem é, potencialmente, um Buda, mas necessita de ajuda para despertar sua natureza espiritual. Necessita, portanto, do impulso de um Salvador externo - o Bodhisattwa -   para despertar o Salvador interno, que é a sua natureza búdica.

A Escola Mahayana proclama a salvação de todos e o serviço secular constitui o meio para a realização dessa meta. Ensina, também, que existe um grande número de Budas.

Foi através da Escola Mahayana que o Budismo se tornou uma religião universal.

A concepção salvacionista do Catolicismo se assemelha, de certa forma, à doutrina do Bodhisattva.

 

            Distinções entre a Escola Hinayana e a Escola Mahayana:

            a) A Hinayana, mantendo a ortodoxia budista, ensina que os homens devem buscar a sua própria salvação, enquanto a Mahayana insiste no poder da graça;

            b) A Hinayana prega a firme vontade de não reencarnar para logo alcançar a condição de Buda, enquanto a Mahayana propõe ao homem chegar ao Buda gradualmente, mediante inumeráveis reencarnações;

            c) A Hinayana afirma que a salvação se dá pela observância do Óctuplo Caminho e a Mahayana declara que a salvação é alcançada, não somente pelo Óctuplo Caminho, mas também pela repetição do nome de Buda, pelas oferendas, pela oração, pela firmeza da fé e pela meditação;

            d) A Hinayana afirma que Buda teve um corpo real e a Mahayana ensina que este corpo era aparente, concepção esta que teve similar no docetismo ocidental a respeito do corpo aparente de Jesus;

            e) A Hinayana assevera que os elementos (skandhas) que compõem as aparências transitórias são reais, enquanto a Mahayana proclama a total irrealidade do universo.

 

            Gosala repudiou a lei do Karma, afirmando que todo esforço humano é inútil e ineficaz, porque tudo acontece por acaso.

            Segundo Gosala, nenhum esforço moral ou ascético é capaz de reduzir o número de renascimentos. Cada mônada vital (Jiva) deverá cumprir, inexoravelmente, todo curso normal de sua evolução, fixado em 84.000 renascimentos, desde as formas mais elementares da natureza até o reino humano. A sua liberação ocorrerá automaticamente, quando cumprir o seu último renascimento.

            Gosala asseverou que, no final de um Mahakalpa, ocorrerá a salvação universal. É uma antecipação da doutrina da apocatástase, de Plotino.

 

            Buda considerou esta doutrina fatalista de perniciosa e a pior de todas as doutrinas falsas de seu tempo.

 

            A Escola Ioga, fundada por Patanjali, ensinava que o conhecimento metafísico não pode, por si só, conduzir o homem à libertação. Só uma técnica de meditação e uma prática ascética - a Ioga - poderão levar o homem a esse desiderato.

            Há cinco barreiras que devem ser transpostas para se alcançar a libertação: a ignorância, o egoísmo, o apego às coisas, a aversão e o anseio pela vida.

            Os obstáculos que distraem a mente são a doença, a languidez, a vacilação, a preguiça, a falta de cuidado, a noção errônea, o apego, a incapacidade de alcançar a comunhão e a instabilidade.

            O iogue, para alcançar seu objetivo libertário, tem de obedecer a uma disciplina, cujas condições são: o ascetismo, a instrução e a devoção.

            A libertação se realiza através da prática e por estágios. Esses estágios são:

            a) o domínio de si mesmo (Yama), que consiste em não fazer o mal, não mentir, não roubar, não cobiçar e ser casto em ações, palavras e pensamentos;

            b) o dever religioso (Niyama), que consiste na penitência, no estudo, no contentamento, na limpeza e na adoração de Deus;

            c) a postura (Asana), que consiste em posturas corporais;

            d) a respiração (Pranayama), que consiste em técnicas de inspirar, reter e expirar o alento;

            e) a abstração (Pratyara), mediante o qual o indivíduo começa a fase final de sua libertação, cortando as ligações com o mundo exterior através da introspecção;

            f) a concentração (Dharana), através da qual a mente se fixa num ponto particular, como no umbigo, na ponta do nariz, no lótus do coração;

            g) a meditação (Dhyana), que envolve a compreensão do  objeto e sua totalidade;

            h) a união (Samadhi), que anula a distinção entre o sujeito e o objeto.

 

            Para a Escola Purva-Mimansa, a libertação ocorre através da observância do ritual e da lei (Dharma).

 

            O Maniqueísmo, fundado por Mani, pregava que, para obter a salvação, o homem deveria obedecer a Lei dos Três Selos, apostos sobre a mão, os lábios e o peito.

            O selo da mão o impede de matar. O dos lábios, de dizer mentiras. E o do peito, de ter desejos profanos.

            Esta purificação, pela obediência da Lei dos Três Selos, se revela no decurso de sucessivas existências na Terra.

            Só as pessoas más estão sujeitas à condenação eterna logo após a morte. Aquelas onde o bem e o mal se equilibram terão direito a uma nova existência sob forma de homem ou de animal.

            O homem atual foi criado pelo deus do mal e só pode libertar-se pelo conhecimento da verdadeira ciência.

            Segundo o Maniqueísmo, Adão e Eva foram gerados por um casal de demônios.

 

            O Tantrismo, também denominado de Budismo mágico, promove a exaltação do sexo como um caminho para a salvação. O corpo sadio é o objeto do Tantrismo, pois é por intermédio dele que é possível alcançar a beatitude.

            O Tantrismo apresenta duas modalidades:

            a) o da direita, que dá ênfase ao princípio masculino;

            b) o da esquerda, também conhecido por Shaktismo e associado ao Shivaísmo e que prefere o princípio feminino.

            O Tantrismo da direita ensina que as paixões devem ser sublimadas a fim de que se transformem em veículos de iluminação.

            O Tantrismo da esquerda se utiliza das paixões, em sua força instintiva, para alcançar a salvação.

 

            Orígenes criou a doutrina da apocatástase, a qual ensinava que, no fim dos tempos, todas as criaturas, inclusive o diabo, serão perdoadas e salvas.

            Da afirmativa de São Paulo de que Deus é tudo e está em todas as coisas, Orígenes concluiu que, estando Deus em todas as pessoas e em todas as coisas, tudo será salvo no final do processo cósmico.

            Segundo Norman Cohn, o século III veria a primeira tentativa para desacreditar o milenarismo, quando Orígenes, provavelmente o mais influente teólogo da Igreja antiga, começou a apresentar o Reino dos Céus como um acontecimento que teria lugar, não no espaço ou no tempo, mas apenas nas almas dos crentes.

            Orígenes substituiu uma escatologia coletiva e milenarista por uma escatologia da alma individual.

 

            A Cabala também apregoa que tudo se salvará, pois ninguém ou qualquer coisa é integralmente mau. Assim, no fim dos tempos, não haverá castigos nem culpados.

            Agostinho sustentava que o homem é salvo pela graça.

            No estado original, o homem era completamente livre, podendo escolher entre o bem e o mal. Com a queda, porém, ele perdeu a liberdade de escolher o bem, tornando-se propenso a pecar. A sua anterior possibilidade de não pecar (posse non pecare) se converteu, atualmente, na impossibilidade de não pecar (non posse non pecare), ou seja, na necessidade de pecar (necessitas pecandi). O  homem, no entanto, pode praticar atos meritórios, os quais, porém, não modificam sua natureza vocacionada para o mal. E esta natureza essencialmente má é transmissível hereditariamente, tornando, assim, o pecado original inevitável e universal.

            Esta culpa herdada, embora removida pelo batismo, permanece como perversão da vontade e inclinação para o mal, impedindo o homem de ser essencialmente bom e, por conseguinte, livre para escolher o bem. 

            Argumentava Agostinho que, sendo o homem essencialmente mau, ele só pode ser salvo pela graça e não pela vontade. O homem, por si, nada pode fazer para salvar-se. A graça é a única fonte de salvação e esta depende exclusivamente da vontade de Deus. Por isso, Agostinho é cognominado de Doutor da Graça.

            Ao afirmar que o homem é salvo pela graça, Agostinho antecipou a doutrina da pre

destinação, elaborada por Calvino séculos depois.

            Há certas pessoas que, mesmo fora da Igreja, foram predestinadas por Deus à salvação. Do mesmo modo, existem pessoas que Deus predestinou à perdição. É a chamada doutrina da dupla predestinação.

 

            Contrariamente a Agostinho e maior adversário deste, Pelágio asseverou que o homem se salva por sua vontade e não em razão de uma graça divina.

            Proclamou que o homem se salva por sua vontade e não pela graça, porque ele é o único responsável por seus pecados. Não existe o pecado original, automática e universal-mente compartilhado pela descendência de Adão.

            E argumentou:

            "Se o pecado é ingênito, não é voluntário; se é voluntário, não é ingênito."

            O pecado, dizia Pelágio, não é defeito da natureza ou do caráter do homem,  mas, sim, da vontade.

            O pecado é ato volitivo e, por isso, não pode ser transmitido hereditariamente. As-sim, as crianças pequenas são incapazes de pecar, porque não sabem escolher, consciente-mente, o que querem. O seu batismo, portanto, é destituído de eficácia.

            Se o pecado é universal, sua explicação reside no hábito bastante enraizado no ho-mem de pecar, tornando-a, assim, propenso ao pecado.

 

            Tomás de Aquino, apoiando Agostinho, asseverava que o homem é incapaz de, por seu esforço, receber a graça salvífica. Ele nada pode fazer para ter fé. O início da fé coincide com a vinda da graça.

 

            Huberto Rohden refutava a doutrina da perdição eterna,  aduzindo que nenhum ser finito poderia sofrer infinitamente.

            Procurou conciliar as posições de Agostinho e Pelágio, argumentando:

            "Nenhum redentor redime o homem de fora; a redenção vem essencialmente de dentro, como um despertar da alma, como um brotar de semente, como uma expansão da consciência individual para a consciência universal. Mas, em vista da fraqueza humana, é quase sempre necessário um fator externo que dê o primeiro impulso a esse processo, a essa "reação em cadeia". Pode uma semente conter em si vida potencial perfeita; se não encontrar ambiente favorável, de solo e de sol, não despertará essa vida latente; mas, quando colocada num ambiente propício, despertará, brotará, crescerá em vida atual essa vida potencial. Certamente não foi a umidade do solo nem o calor do sol que deram vida à semente, mas esses fatores externos foram necessários como condições para acordar a vida dormente."

            E acrescentou:

            "Moisés, Buda, Krishna, Maomé, Jesus - todos eles são agentes externos para libertar dentro do homem um elemento interno; mas o verdadeiro redentor é invariavelmente o Cristo interno do próprio homem, a mais profunda essência do nosso ser."

 

            Observou Alan Watts:

            "Não praticamos o Zen para nos tornarmos Buda: praticamo-lo porque desde sempre fomos Buda."

 

            Todas as religiões estão, portanto, de acordo em que a situação do homem não é definitiva e satisfatória, embora divirjam quanto as suas causas e quanto aos processos para a sua libertação ou salvação.

 

            Mas, afinal, o que vem a ser a salvação?

            O resgate de pecados, sejam coletivos ou individuais?

            A libertação do mundo material, onde o espírito imergiu, voluntária ou involuntariamente?

            Ou a conscientização de que todos os seres individuais são manifestações de um mesmo Todo ou Divindade?

            O homem pode admitir que é um modo de individualização de Deus. Mas essa atitude, meramente intelectual, não produz qualquer efeito.

            Só quando o homem experimenta ser um modo de  Deus é que ocorre a sua transformação ou "salvação".

            O "pecado" não consiste apenas na ignorância de que somos um modo de  Deus, mas na mera atitude intelectual deste conhecimento. É a experiência de ser um modo de Deus que atualiza a Divindade que existe latente em cada pessoa humana.

            Herdamos dos nossos antepassados não apenas as disposições físicas e psicológicas, mas também os seus "pecados", ou seja, tudo aquilo que neles não foi adequadamente resolvido. Essa hereditariedade “contaminada" é o que podemos denominar de "pecado original" e se constitui um empecilho para o homem desenvolver suas potencialidades pessoais.

            Tornar-se indivíduo é livrar-se deste "pecado original" e esta “salvação" do estigma herdado pode ser feito pelo próprio homem sozinho ou com ajuda psicoterápica.

            Cada homem, ao nascer, é a imagem individualizada da coletividade humana ou, mais especificamente, de determinado contexto cultural. Este também integra seu "pecado original". E sua "salvação" consiste em individualizar-se, ou seja, em adquirir uma relativa autonomia dentro da própria condição humana, acordando da hipnose cultural.

            Se Deus está imanente no homem como pode este se corromper? Em sua essência, o homem é incorruptível, porque a essência do homem é Deus. Porém, na condição de indivíduo, ele pode, consciente ou inconscientemente, privar-se de se reconhecer como expressão particularizada da Divindade.