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SÚMULA DE ENTREVISTAS

 

Fizemos uma súmula selecionada de questões que nos foram propostas em cursos, palestras, seminários e entrevistas, desde o lançamento, em 1976, do nosso livro “Introdução ao Paranormal”, até 1979.

Na medida do possível, procuramos responder às perguntas, segundo foram formuladas, imbuídos do propósito de obediência à neutralidade científica.

As nossas respostas não pretendem fornecer soluções, mas ofertar subsídios para o estudo cada vez mais aprofundado e sistemático da fenomenologia paranormal

 

P - Pode-se conferir status de ciência, à Parapsicologia?

 

R - Toda ciência tem objeto próprio e um peculiar procedimento metodológico.

O objeto da Parapsicologia é o fenômeno paranormal. Para sua pesquisa, são empregados, segundo a orientação de cada parapsicólogo e na conformidade dos casos, tanto o método quantitativo-estatístico-matemático da escola norte-americana, quanto o método qualitativo da escola soviética.

A Parapsicologia, por conseguinte, é uma ciência.

 

P - Acha que a Parapsicologia, confinada como está a um modelo oficial das ciências, possa traduzir, para seu próprio código, mensagens que escapam ao processo científico habitual?

 

R - Se a Parapsicologia adotar, unicamente, o método quantitativo-estatístico-matemático não poderá investigar, adequadamente, todos os fenômenos da paranormalidade. É necessário que o procedimento científico não amesquinhe o objeto da pesquisa, mas possua suficiente elasticidade conceituai e a necessária versatilidade experimental para lidar com a riqueza e a complexidade de tais fenômenos.

Não há, pois, de se cogitar de um método sui-generis para a Parapsicologia, mas, sim, da adoção deste ou daquele processo científico ha­bitual, compatível com o tipo de fenômeno paranormal pesquisado.

 

P - Quais os caminhos a serem percorridos pela Parapsicologia, num mundo cada vez mais dominado pela técnica?

 

R - Os caminhos da Parapsicologia são os caminhos do homem.

Os fenômenos paranormais, descortinando novas potencialidades da natureza humana, são uma evidência incontestável de que a técnica cons­titui uma simples estratégia de aplicação racional do conhecimento científico e, não, instrumento adequado e eficaz para a apreensão da  sempre fugidia realidade. Eles demonstram que o real é sempre novo e, por isso, não redutível a qualquer padrão epistemológico.

O homem é muito mais do que aquilo do que se suspeitava. Ele é detentor de poderes e faculdades que, em futuro não tão remoto, poderão tornar obsoletos os seus adjutórios materiais. Será, não resta dúvida, o definitivo domínio da mente sobre a matéria, sem necessidade do concurso dos habituais intermediários físicos. Porque a mente do homem será a sua natural extensão, o seu melhor instrumento de atuação sobre o mundo exterior.

 

P - Há, por acaso, interesses comuns capazes de ligarem a ciência psicanalítica à ciência parapsicológica?

 

R - Claro que sim. Afinal, todos nos interessamos em conhecer, cada vez melhor, as estruturas mais profundas da mente humana. Somos escafandristas empenhados na mesma aventura submarina, partilhando de assombros paralelos ante a luxuriante paisagem deste pélago psíquico. E o inconsciente é, por certo, o território comum de todos os psiquistas, conquanto disputem sobre seus direitos na demarcação das áreas de atividade de cada um.

 

P - A Parapsicologia dispõe de elementos capazes de explicar, de forma concreta, o fenômeno do sonho?

 

R - A Parapsicologia não se ocupa, especificamente, com os sonhos, mas com tudo aquilo que os sonhos possam revelar a respeito do misterio­so universo do inconsciente.

Ainda não existe uma codificação, de natureza estritamente cientí­fica para explicar o sonho, mas, tão somente, duvidosas abordagens empíricas, de mistura, não raro, com práticas mágicas e supersticiosas.

Dúvida não há de que a maioria dos sonhos é produzida por elementos extraídos das atividades vigílicas, associados a conteúdos desconhecidos do psiquismo profundo. É esta a razão pela qual os sonhos se apresentam tão ilógicos, principalmente se os queremos compreender pelos padrões do nosso comportamento consciente e convencional.  Os sonhos são mensagens vertidas em linguagem de abstruso simbolismo e de gramática singular.

Há sonhos, porém, de natureza paranormal. Estes, sim, interessam à Parapsicologia, porque favorecem uma maior compreensão dos possíveis mecanismos dos fenômenos de psi-gama, notadamente o da telepatia.

 

P - Já se disse que a Parapsicologia se encontra num impasse, porque não apresenta nada de novo e as informações sobre os fenômenos que ela estuda já se tomam enfadonhas e repetitivas.

 

R - Toda ciência é, irremediavelmente, maçante e, raramente, apresenta algo de novo. O seu desenvolvimento é lento e cauteloso. Dada a sua estrutura metodológica, ela se esmera na repetibilidade ad nauseam  dos seus experimentos, quantificando-os o mais possível com o propósito de lhes imprimir uma significação estatística.

Ciência é paciência e, não, entretenimento. Ela não se propõe a apresentar "novidades" ou "estoque sempre renovado" para atender a demanda do mercado consumidor.

É possível que a desordenada publicidade que se faz em tomo da Parapsicologia, através da Imprensa e, notadamente, em programas de televisão, venha contribuindo para a distorção de sua imagem. E, desta onda de sensacionalismo, se aproveitam os exploradores da credulidade pública para a promoção dos seus pretensos "poderes", cobrando consultas e "curas", ou ministrando cursos espetaculares para iniciação dos papalvos na senda dos "mistérios", rotulando-se, para isso, de "médiuns" ou de "parapsicólogos".

Vivemos numa época de permanente questionamento do conhecimento em todos os seus níveis, numa tentativa de unificação e sistematização que, a cada dia, parece mais difícil. É uma tarefa ciclópica, porém necessária, mesmo sabendo-se que a consumação dessa almejada síntese seja, inapelavelmente, provisória e insatisfatória. Contudo, é de máxima importância a proposição de um novo modelo abrangentemente intercientífico para evitar ou, ao menos, retardar o processo de pulverização e extrema especialização do conhecimento.

Revisam-se os conceitos mais gerais e abstratos, como os da Vida, da Matéria e da Mente. A cada passo, constatamos a precariedade e a insuficiência do nosso patrimônio gnosiológico quanto à natureza dos fenômenos físicos, biológicos e psíquicos à medida que sondamos as suas estruturas mais recônditas. Quanto mais somamos conhecimentos, tanto mais criticamos postulados e princípios até então ina­baláveis, o que nos obriga a uma atitude de crescente cautela em nossos procedimentos epistemológicos.

Por que seria a Parapsicologia uma exceção a essa regra? Principalmente se ela lida com uma categoria de fenômenos dos quais as outras ciências, aferradas ao seu campo específico de pesquisas, nem sequer cogitam?

A melancólica conclusão a que chegamos é que a Parapsicologia assu­miu, perante o público sempre ansioso por milagres, uma fisionomia marcantemente religiosa e carismática.

 

P - A Parapsicologia lida com fenômenos misteriosos. Seu campo, se é que assim podemos dizer, é o sobrenatural. Não será, por essa circunstância, que ela assume semelhança com a magia e o ocultismo?

 

R - Na verdade, a Parapsicologia é, popularmente, confundida como movimentos ocultistas, doutrinas iniciáticas, magia e outros exotismos, ensejando campo propício â proliferação dos profissionais do mistério. Há esotéricos que se dizem parapsicólogo e, sob esse título, exercem suas atividades cabalísticas.

Chega-se também ao cúmulo de se usar a Parapsicologia como instrumento de sectarismo religioso.

A Parapsicologia é uma ciência e não se apresta para confirmar ou invalidar os princípios ou os dogmas desta ou daquela religião. Portanto, qualquer suposição, nesse sentido, é tão grossa estultice como se afirmar que a Biologia é contra ou a favor da doutrina que defende a natureza especial do corpo de Jesus.

Gradativamente, porém, os fenômenos paranormais vão perdendo a sua auréola de mistério e, em breve, passarão a integrar o cotidiano das pessoas. Embora inexplicáveis à luz do academicismo científico, já não são mais tão perturbadores como outrora. Tanto assim é que as pessoas, atualmente, não demonstram tanta relutância em relatar experiências insólitas ocorridas com elas ou com terceiros. Descontados os exageros do envolvimento emocional ou possíveis erros de percepção, sempre é difícil, em cada caso, isolar o fato paranormal de sua  ganga de subjetivismo.

A fenomenologia paranormal é incômoda porque ameaça o imobilismo das constrições ortodoxas, invalidando concepções sedimentadas em certas áreas do conhecimento humano.

A Parapsicologia não faz acordos de convivência - ou mesmo de conveniência - para a manutenção de um modelo oficial e acadêmico da realidade. Não se intimida com os fatos "malditos", legados à marginalidade pelo reacionarismo dos que pretendem aprisionar a vida numa fórmula matemática, num silogismo filosófico, numa revelação religiosa dogmática ou numa experiência de laboratório.

 

P - Há diferença entre o Espiritismo e a Parapsicologia, ou ambas, no fundo, são a mesma coisa?

 

R – O Espiritismo é uma doutrina espiritualista, cuja forte tônica religiosa de seus adeptos relegou a plano secundário os seus outros dois aspectos: o cientifico e o filosófico.

A Parapsicologia é uma ciência e, por isso, nada tem a ver com a posição filosófica ou religiosa de cada parapsicólogo em particular.

Allan Kardec define o Espiritismo como "uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal". Assim, a doutrina espírita admite, como provada, a existência da alma, o que tem levado seus seguidores a minimizar e até mesmo a estigmatizar a atividade do inconsciente do médium nas manifestações paranormais. Em conseqüência, a maioria dos espíritas tem a tendência de atribuir à intervenção dos espíritos a tudo que acontece de aparentemente extraordinário.

A Parapsicologia, ao contrário, tem por objeto o estudo e a pesquisa dos fenômenos paranormais. Ela não se interessa pela "natureza, origem e destino dos Espíritos", porque, sob o ponto de vista estritamente científico, a sobrevivência não está provada, conquanto já existam fortes evidências em seu abono.

A Parapsicologia, portanto, não nega, e nem afirma a existência da alma, embora as investigações sobre determinados fatos que sugerem a sobrevivência comecem a ocupar um papel de realce na pauta de suas pesquisas. Aliás, o próprio J. B. Rhine reconheceu que "a pesquisa da ESP faz diretamente surgir a questão do lugar da personalidade no sistema espaço-tempo, oferecendo positiva indicação a favor da sobrevivência". E, em obra que escreveu de parceria com J. G. Pratt, de declarou que "correto é dizer que a investigação da hipótese da sobrevivência e da comunicação dos espíritos seria investigação parapsíquica".

Para a doutrina espírita, as pesquisas realizadas no passado provaram, cientificamente, a sobrevivência, o que justifica a preocupação dos seus estudos sobre a vida espiritual com fundamento nas comunicações mediúnicas.

Já a Parapsicologia, caminhando, cautelosamente, por caminhos tão íngremes na pesquisa da paranormalidade, encara o problema da sobre­vivência, como assunto de séria investigação científica, por se constituir a hipótese que melhor se apresta à explicação de certos fenômenos paranormais.

O Espiritismo, codificado por Kardec, vê o médium como um simples instrumento dos espíritos desencarnados, raramente agindo por si mes­mo, embora nem todos os espíritas, como Aksakof e Flammarion, aceitem esse entendimento.

Diz Alexandre Aksakof que ”o estudo da parte intelectual dos fenômenos mediúnicos nos coage a reconhecer, antes de tudo, que grande número desses fenômenos, dos mais freqüentes, deve ser atribuído à atividade inconsciente do próprio médium".

Do mesmo sentido se manifesta Camilo Flammarion ao asseverar que "a observação das coisas, tais como se dão, mostra-nos que em geral os mortos não voltam e que as manifestações de além túmulo são exceções".

Anteriormente, o próprio Allan Kardec reconhecera que "as comunicações do além túmulo são cercadas de mais dificuldades do que se pensa".

Tudo isso vem a demonstrar que, ao contrário do que comumente pensa a maioria dos espíritas, a regra geral não é o fenômeno mediúnico, ou seja, a manifestação do espírito de um morto, mas o fenômeno anímico, isto é aquele que se origina da atividade do inconsciente do médium.

A Parapsicologia, sem afetar imediatamente as suas pesquisas â existência de espíritos desencarnados, procura a explicação dos fenômenos da psi nos poderes da própria mente humana, em nível independente da consciência. Afinal de contas, muito pouco se sabe a respeito das atividades mentais e seria realmente um procedimento precipitado e anticientífico excluir da jurisdição do cérebro certos fenômenos psíquicos só porque não se ajustam aos conhecimentos atuais referentes à nossa atividade nervosa superior.

A Parapsicologia, ao eleger a hipótese do inconsciente como prioritária na explicação dos fenômenos paranormais, vai, coincidentemente, ao encontro da lúcida recomendação de um dos grandes vultos do Espiritismo, Ernesto Bozzano, quando advertiu que "para resolver o grande problema da sobrevivência do espírito humano desencarnado, o melhor método é o de estudar os poderes do espírito humano encarnado".

Em suma, é altamente provável que um conhecimento mais aprofundado da mente humana, sua natureza, funções e poderes, resultem, afinal, na prova verdadeiramente científica da sobrevivência e na conseqüente compreensão dos seus problemas correlatos.

 

P - Qual o lugar que ocupa a cosmovisão kardecista em sua explicação dos fenômenos ditos parapsicológicos?

 

R - Kardec foi quem primeiro sistematizou a fenomenologia paranormal a sua cosmovisão é ainda válida, em quase todos os aspectos, para o entendimento geral e unificado desses fenômenos. O que acontece é que as obras da codificação kardecista são mais elogiadas e criticadas do que lidas e meditadas. Tudo o que ele escreveu, com o "bom senso que sempre o caracterizou, vem sendo repetido, de certo modo, pelos para psicólogos, talvez com maior precisão, graças à manipulação de nomenclaturas e de conceitos mais adequados.

Ninguém pode negar o valor de "O Livro dos Médiuns", não só pelo seu conteúdo e sistematização, mas também por constituir um marco histórico na literatura paranormal.

 

P - Diz-se que a Parapsicologia ainda não é uma ciência, porque seu campo de pesquisa é constituído de fatos discutíveis, destituídos, portanto, de abordagem e controle experimentais.

 

R - A Parapsicologia é uma ciência em fase de estruturação de sua nomenclatura, catalogando e classificando fenômenos, aprimorando seus métodos, elaborando seus princípios e hipóteses e sistematizando suas pesquisas. Por isso, no atual estágio de sua evolução, ainda carente da necessária precisão conceitual, ressente-se das naturais vacilações no que tange à interpretarão segura dos fenômenos paranormais.

A Parapsicologia é uma ciência de vanguarda, porque se situa nas fronteiras do conhecimento científico. Porém, não se confunde com a ficção científica ou com a futurologia, porque  lida com  fatos concretos, embora insólitos, e, não, com conjecturas e probabilidades. De igual modo, em nada se assemelha ao ocultismo, porque não fabrica e nem administra mistérios.

A Parapsicologia, portanto, não tem por objeto o mistério, mas os fenômenos misteriosos que ainda o são por insuficiência do conhecimento acadêmico. Ela não é contra, nem muito menos a favor, de qualquer doutrina religiosa ou filosófica, embora certos parapsicólogos não observem esse princípio de neutralidade científica. A Parapsicologia observa, registra, estuda e investiga todos os casos insubmissos aos modelos cognitivos das ciências oficiais. Tudo o que ela pode aventar, arrimada nos casos pesquisados, é que a mente humana não é suscetível de um reducionismo neurológico, e denota possuir leis próprias e de maior alcance operacional.

O parapsicólogo não é um caçador de "fantasmas", mas um pesquisador dos fatos "malditos", deliberadamente rejeitados por numerosos cientistas, numa cômoda negativa a-priorj, receosos, talvez, de comprometer o seu esquema epistemológico do universo.

É importante também frisar que o fenômeno paranormal não é tão freqüente como se imagina. Por conseguinte, deve-se usar de toda cautela ao se classificar um fenômeno, aparentemente insólito, de paranormal. Muitas coisas estranhas que acontecem às pessoas não passam de distúrbios psíquicos ou traumas emocionais, facilmente identificáveis e tratáveis por um profissional especializado.

Nunca é demais, por outro lado, advertir ao público quanto à proliferação de charlatães que, travestidos de parapsicólogos, pretendem resolver todos os problemas de seus incautos clientes, como se fossem psicoterapeutas.

Ao parapsicólogo não compete fazer psicoterapia, seja a que pretexto for, pois não dispõe de competência ou treino profissional para isso, a não ser que ele próprio seja um psicólogo ou um psiquiatra. Seu dever é averiguar se a pessoa que o procura, dizendo-se acicatada por acontecimentos estranhos e inexplicáveis, é ou não portadora de uma possível faculdade paranormal. Em caso afirmativo, cabe ao parapsicólogo esclarecê-la a respeito desses fenômenos, orientando-a quanto à atitude que deve assumir perante os mesmos e submetê-la, se ela o deseje, à experimentação controlada de suas faculdades.

A Parapsicologia, por conseguinte, pela circunstância de lidar com fenômenos misteriosos, é bastante vulnerável ao assédio de detratores vigaristas e amantes do insólito, o que dificulta, sobremaneira, seu desenvolvimento regular e retarda sua admissão no concerto das demais ciências oficiais.

Este reconhecimento, porém, é simples questão de tempo.

 

P - Qual o conceito da Parapsicologia a respeito do médium e do fenômeno mediúnico? É o médium uma pessoa normal?

 

R – O problema central da Parapsicologia é o médium, considerado, até prova em contrário, como a causa exclusiva dos fenômenos paranormais.

É possível que as pessoas, ao menos uma vez na vida, passem por uma experiência paranormal, sem que, por isso, sejam médiuns. A habitualidade  de tais fenômenos é o que caracteriza a existência dessa aptidão em uma pessoa. Assim, sob o ponto de vista da Parapsicologia, médium não é aquele que tem mediunidade, pois a mediunidade – a manifestação de um espírito desencarnado – é uma hipótese e não um fato.

O médium não é uma pessoa excêntrica, nem, muito menos, um ser especial, dotado de um dom ou de um carisma. A paranormalidade não é qualquer tipo de psicopatia, embora, em certas circunstâncias, possa afetar o equilíbrio emocional e psíquico do médium.

Também é um erro pensar-se que todas as pessoas que participam, na qualidade de médiuns, de "trabalhos espirituais" em centros espíritas e terreiros de Umbanda, na verdade o sejam. Muitas das "manifestações e "comunicações mediúnicas" podem ser facilmente explicadas como simples fenômenos psicológicos.

Não raro - repetimos - a paranormalidade ocasiona problemas. Estes decorrem mais da falta de informação que as pessoas têm sobre o assunto do que mesmo da paranormalidade em si. Não se nega, contudo, que certa classe de tais fenômenos é bastante incômoda e até mesmo prejudicial para o médium - os fenômenos de poltergeist, por exemplo. Não obstante, em alguns os casos, a paranormalidade pode ser incorporável à rotina da vida. A resistência ao fenômeno é que, em geral, produz desajuste emocional e psíquico. E o medo aumenta a sensação de desconforto e de angústia, podendo resultar em intensa neurose situacional. Se, por acaso, a experiência paranormal ocorre em pessoa com problemas psicológicos, possivelmente apresentará uma síndrome bastante complexa para uma abordagem terapêutica convencional. Em tal  emergência, acicatada por estranhas perturbações, essa pessoa iniciará uma longa romaria aos consultórios de psicólogos e psiquiatras, aos centros espíritas e terreiros de Umbanda.

Psicólogos e psiquiatras  lhe dirão que tudo o que ela sente não passa de conflitos existenciais não resolvidos, produzindo, em conseqüência, alterações somáticas e distúrbios neurovegetativos.

Os espíritas e umbandistas lhe assegurarão que se trata de um caso de "obsessão" - influência maléfica de "espíritos desencarnados" ou de "exus" sobre o consulente - ou de manifestação de mediunidade. Nesta última hipótese, sendo a mediunidade, segundo o Espiritismo, uma missão ou uma provação, o médium está obrigado a desenvolvê-la, dela se utilizan­do para a prática do bem, em seu próprio benefício espiritual.

Há, assim, uma tendência generalizada de se considerar o médium como uma pessoa diferente, excepcional.

Tal distinção concorre, muitas vezes, para alterar-lhe a personalidade, principalmente se ele se torna famoso em sua comunidade religiosa, passando a receber atenções espe­ciais e privilégios. A partir daí, tudo fará, conscientemente ou não, para manter sua posição de destaque, como abençoado medianeiro entre espíritos desencarnados e as pessoas. Nessa situação de "corretor da espiritualidade", agenciando soluções para as pessoas desorientadas, ele compensa suas próprias frustrações e necessidade de afirmação, exercendo incontestável, embora disfarçado, domínio sobre seus compa­nheiros de fé. A falta de senso crítico, as necessidades emocionais de segurança, a imaturidade e o despreparo intelectual da maioria das pessoas levam-nas a acreditar, piamente, nas "orientações espirituais” por mais estapafúrdias que sejam. A dúvida levantada sobre tais "comunicações" é sempre recebida com hostilidade pelos fieis, o que põe a salvo o médium de incômodas críticas à sua mediunidade. Ele, assim, exerce uma forma de liderança religiosa, na qualidade de preposto do líder invisível, o "guia espiritual" do centro ou do terreiro. Aliás, em nosso livro “Introdução ao Paranormal”, já havíamos advertido:

"É de bom alvitre, por isso, que os médiuns fiquem sob a orientação e o controle de pessoas experimentadas e conhecedoras do assunto, a salvo de leigos e místicos, os quais, por seu despreparo científico e psicológico, poderão ocasionar-lhes sérios prejuízos de natureza física e/ou psíquica.

"Não é possível qualquer pesquisa, séria e produtiva, no campo da paranormalidade, sem um conhecimento aprofundado da personalidade sensitivo, através de testes adequados, aplicados por especialista competentes".

Praticamente impossível, portanto, a pesquisa com médiuns filiados a movimentos religiosos, porque, sob o pretexto de "fazer a caridade”, eles se furtam a uma pesquisa científica de seus dons mediúnicos.

Desde a fundação do nosso Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas – 1º de janeiro de 1973 - até a presente data, raríssimas vezes tivemos a oportunidade de pesquisar um fenômeno paranormal de induvidosa autenticidade. Raro é o médium, como Arigó, que, demonstrando alto espírito de compreensão, colaborou na pesquisa científica de sua paranormalidade, sem prejuízo de suas atividades caritativas ou de sua convicção religiosa. Quase todos fogem da pesquisa, apoiados nessa evasiva estratégica por seus grêmios religiosos, sob o surrado refrão de que todo cientista é um céptico.

 

P - Como são realizadas, sob sua orientação, as pesquisas no Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas? Quais os resultados até agora obtidos?

 

R - Já asseveramos, anteriormente, que nem tudo o que é aparentemente insólito e inexplicável é fenômeno paranormal. As pessoas, em sua maioria, se deixam seduzir, num misto de fascínio e de terror, pelo maravilhoso, preferindo a fantasia á realidade. Atraídas pelo fantás­tico, pelo sobrenatural, tornam-se ingênuas e facilmente sugestionáveis, predispondo-se a "experiências transcendentais" e comunicações cabalísticas com seres de outras dimensões e discos voadores.

O homem é amante incorrigível do mistério e se apaixona, perdidamente, por tudo o que não pode compreender ou dominar. Daí, o inusitado interesse que os fenômenos paranormais despertam em espíritos infantis carentes de proteção e ânimo crítico, levando-os a se tomarem adeptos fervorosos e militantes fanáticos de grupos religiosos, que pretendem manter ligações permanentes com espíritos desencarnados e seres de outros planetas.

É necessário, por isso, conscientizar o público de que a Parapsicologia nada tem a ver com essas excentricidades e de que os delírios do inconsciente de pseudos médiuns não constituem fenômenos paranormais. Há tanta gente preocupada com os espíritos fabricados pela sua imaginação que chega ao cúmulo de esquecer-se do seu próprio! Nesse clima de exacerbado misticismo, a pesquisa parapsicológica se depara com obstácu­los quase sempre intransponíveis, prejudicando e retardando o estudo sistemático das manifestações paranormais.

Quando fundamos o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, estávamos cientes e conscientes dessas dificuldades. E, por isso estabelecemos um projeto modesto de pesquisa, com vista as nossas limitações e a real dimensão do problema.

Em nossa metodologia de trabalho, dividimos o procedimento investigatório em duas modalidades: a) casos espontâneos; b) experimentação controlada.

No tratamento dos casos espontâneos, valemo-nos do inquérito, que consiste na coleta de testemunhos das pessoas que presenciaram um pretenso fenômeno paranormal, ouvido, também, o possível médium, o qual de logo, é convidado a uma pesquisa em laboratório. Em caso de aceitação, passamos à fase seguinte - a experimentação controlada. Na hipótese contrária, são registradas, minuciosamente, todas as circunstâncias em que o fenômeno ocorreu, para a eventualidade de sua repetição.

Infelizmente, todos os casos investigados pelo nosso Instituto, até agora,  não resistiram a uma análise mais acurada e foram rejeitados por discutíveis ou falsos.

As nossas experimentações controladas também não tiveram melhor sorte. Nesse tipo de pesquisa, o médium, ou, genericamente, o investigando, é, previamente, entrevistado para avaliação de seu grau de conhecimentos, seus problemas existenciais e seu tipo de personalidade. Em seguida, iniciamos a série de sessões experimentais, segundo a modalidade do fenômeno pesquisado - geralmente, os de psi-gama - com o investigando sob o controle dos nossos pesquisadores. Procuramos, na oportunidade, conscientizá-lo de que ele não é uma cobaia, um simples objeto, mas um pesquisador também engajado no experimento, pois melhor do que ninguém, pode observar as mínimas singularidades do processo em que se encontra.

Dos poucos médiuns espíritas que conseguimos pesquisar, nessas condições, nenhum perseverou até o fim, alegando os mais diversos motivos para justificar a desistência. Um deles, uma senhora que se dizia médium, com 30 anos de ofício, abandonou, de repente, as experiências, porque estava “perdendo a mediunidade”.

Há tempos atrás, convidamos um médium de materialização, famoso em certos arraiais espíritas, para uma demonstração, em sessão controlada, de suas decantadas faculdades. Porém, o zeloso "guia espiritual" do médium se opôs, peremptoriamente, à realização da experiência e nos recomendou a leitura do Evangelho.

Freqüentemente, através de vários amigos espíritas, tomamos conhecimento das maravilhas que acontecem em "sessões mediúnicas", realizadas em caráter doméstico ou em centros espíritas. Todavia, quando demonstramos interesse em participar dessas reuniões, eles se mostram reticentes ou tergiversam, alegando, como de praxe, que submeterão nosso pleito a apreciação do "guia espiritual" do seu grupo. Acontece que, até agora, nenhum "guia espiritual" deferiu nossa pretensão, o que nos deixa a impressão incômoda de que não temos o mínimo prestígio com as pessoas do Além.

Não queremos dizer, com isso, que os fenômenos, tão entusiasticamente relatados por pessoas que nos merecem confiança, não sejam autênticos. Porém, da maneira, como vêm possivelmente ocorrendo, estão destituídos de validade científica e apenas servem como matéria de doutrinação religiosa ou convicção pessoal.

A maioria dos parapsicólogos procura obter um relativo controle sobre o fenômeno paranormal, adotando, em suas pesquisas, o método quantitativo-estatístico-matemático, preconizado por Rhine, mediante o emprego do baralho Zener. O método, contudo, por suas limitações, não proporciona, resultados brilhantes - nem sequer animadores -, pois a interminável repetição das experiências afeta, desfavoravelmente, o desempenho das pessoas pesquisadas, à medida que se prolongam. O índice inicial de acertos, com a continuação monótona do experimento, tende quase sempre a declinar. É possível que um maior espaçamento entre as experiências, conquanto ampliando, demasiadamente, o tempo da pesquisa, possa proporcionar resultados mais alentadores, pela diluição da monotonia sempre emergente nessa metodologia.

Atualmente, em nosso Instituto, estamos introduzindo procedimentos lúdicos à pesquisa, com o propósito de manter elevado o nível motivacional, minimizando ou mesmo anulando o "efeito de declínio",

Com o emprego do método qualitativo, os resultados são mais encorajadores, pois não se visa o controle do fenômeno, mas do médium, com o propósito de se minimizar a possibilidade da fraude. O fenômeno produzido em tais circunstâncias vale por si mesmo. Pouco importa o número de sessões consumidas nessa empresa, pois um só resultado satisfatório, obtido em irrepreensíveis condições de controle, compensa toda uma série, por mais longa que seja, de tentativas fracassadas. As pesquisas soviéticas, com base na metodologia qualitativa e apresentando resultados altamente positivos, são uma prova irretorquível da sua superioridade operacional sobre o método quantitativo das experiências norte-americanas.

A pesquisa paranormal tem suas regras que, uma vez observadas, poderão concorrer, eficazmente, para a adequada condução dos experimentos, tornando possível o seu êxito.

A mais importante dessas regras é a de não exigir do médium a realização de um fenômeno que ele jamais produziu, ou forçá-lo a mudar o estilo de sua manifestação paranormal.

Outra regra importante é aquela, que recomenda a adoção de medidas que promovam o bom relacionamento pessoal entre médium e pesquisadores, o que, evidentemente, não dispensa, em qualquer hipótese, a sistemática fiscalização e rígido controle das experiências.

Finalmente, é de todo recomendável que se estimule permanentemente a autoconfiança do médium, com a finalidade de melhorar o seu desempenho, conscientizando-o sempre de que ele não é responsável pelo êxito ou fracasso das experiências.

É assim que procedemos no Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, onde nos movimentamos num permanente clima de estudos e de experiências, elaborando hipóteses de trabalho, criando e renovando testes, numa atividade metodológica crítica, e contínua para uma compreensão cada vez maior e mais profunda do fenômeno paranormal.

 

P – O Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas investiga to­das as modalidades de fenômenos paranormais ou se dedica exclusivamente a pesquisa de alguns deles?

 

R – O Instituto pesquisa, prioritariamente, a modalidade psi-gama: telepatia, clarividência e precognição e, ainda, os fenômenos de memória extracerebral, projeção da consciência, personalidades secundá­rias e outras manifestações singulares do psiquismo profundo.

Estamos, atualmente, testando um tipo de experimento a que denominamos de prospecção psi. - uma sondagem do inconsciente através da hipnose - com a finalidade de avaliar, experimentalmente, o patrimônio mnemônico e a capacidade criativa da mente profunda, liberada ao máximo da censura seletivizante do processo consciente. Essa pesquisa, visando ao conhecimento sempre maior do psiquismo humano em nível inconsciente, ainda se encontra na fase exploratória, onde testamos as estratégias iniciais, observando, cuidadosamente, o comportamento de cada pessoa submetida ao experimento, nas diversas situações preestabelecidas de controle metodológico. O prazo mínimo previsto para a con­clusão da primeira fase da pesquisa é de três anos, e ela é dividida em estágios bem definidos, desde a fixação da amostragem, através da sele­ção dos candidatos, até os experimentos finais, quando, então, serão elaborados os mapas estatísticos dos resultados obtidos. Pretendemos, assim, mediante uma metodologia adequada, liberar o poder criativo que existe, latente, em todo o indivíduo, mas que, no estado de vigília, não se manifesta livremente, por força do mecanismo freudiano da censura. Acreditamos, firmemente, que certos fenômenos paranormais guardam estreita semelhança e mesmo afinidade com a criação artística e, por conseguinte, devem estar submetidos às mesmas leis, até agora desconhecidas.

Nas nossas experiências de prospecção psi freqüentemente nos deparamos com manifestações bem elaboradas de personalidades secundárias, as quais, em certos ambientes religiosos e desavisados, seriam catalogadas como "espíritos". A mente humana é tão fértil que, em circunstâncias especiais, é capaz de criar réplicas psíquicas de si mesma e elaborar o que Flournoy denominou de "romances subliminares", principalmente quando a personalidade vigílica é inidônea para utilizar o material disponível de suas forças criadoras. Empregando, como instrumento preferencial a sugestão, procuramos movimentar, psiquicamente, a pessoa pesquisada em situações tempo espaciais preestabelecidas, estimulando-a a improvisar soluções à guisa de exercício de sua capacidade criativa. A sua memória é, assim, excitada, de maneira progressiva, segregando fatos reais, aparentemente esquecidos, ou, mediante engenhosas associações, num procedimento heurístico, compondo "acontecimentos", muitos dos quais de inegável riqueza artesanal.

Em outro tipo de experimento, o pesquisado é induzido a se deslocar, psiquicamente, para dimensões imaginárias, realizando "viagens" de inspeção em outros mundos, físicos ou extrafísicos, ou, ainda, a regredir ou a progredir no tempo em busca de civilizações passadas ou futuras.

Nessa atividade exploratória de alta complexidade de desempenho psí­quico, manipulamos com fenômenos de telepatia, clarividência, precognição e até de memória extracerebral. Em tais ocasiões, procuramos ava­liar, através de instrumentação adequada, a presença e a importância dos ritmos alfa nas manifestações daqueles fenômenos.

O processo que estamos adotando não é inédito. Apenas foi reformula­do o modelo operacional da experimentação clássica, com a inclusão de algumas variáveis de controle, tendo em vista o propósito específico do projeto.

Finalmente, esclarecemos que a nossa pesquisa não se propõe a conceder prioridade experimental aos já famosos fenômenos de memória extracerebral. Eles fazem parte, naturalmente, desse tipo de investigação pois, em muitos casos, sugerem um acervo mnemônico não redutível ao contexto existencial da pessoa pesquisada, o que leva o observador bem  intencionado a considerar, mais seriamente, a hipótese da reencarnação.

 

P - Você encara a reencarnação como um dado tão filosófico quanto o da imortalidade?

 

R - Não. A hipótese da reencarnação é passível de abordagem experimental  o que não ocorre com a da imortalidade. Ademais, não se deve confundir imortalidade com sobrevivência. É possível provar que o homem sobrevive, mas, não, que seja imortal. A sobrevivência é apenas a continuidade da consciência após a destruição do corpo físico. O próprio J. B. Rhine é um dos que reconhecem que os fenômenos paranormais sugerem fortemente a sobrevivência. A prova desse fato, contudo, não importa, necessariamente, na comprovação científica da imortalidade, mas, tão somente, na sua probabilidade filosófica ou fortalecimento da fé religiosa. Resta, porém, saber o que sobrevive do homem e como ele sobrevive

Por outro lado, os casos de memória extra-cerebral, notadamente em crianças, pesquisados por Ian Stevenson e H. Banerjee, reforçam, de maneira impressionante, a hipótese da reencarnação.

 

P - Apesar da falta de indícios, nos termos da ciência, em torno da reencarnação, acha, por isso, que a impossibilidade de confirmá-la elimine o problema filosófico colocado por ela?

 

R - Mesmo que a reencarnação seja, um dia, provada cientificamente - do que não temos a menor dúvida -, não resolverá o problema filosófico da existência. Ampliará, isto sim, os horizontes conceptuais da reali­dade, exigindo uma nova reformulação dos postulados científicos e filosóficos e, até mesmo, um novo modelo mais abrangente do Universo.

A memória extracerebral é um fato paranormal indiscutível e a reencarnação é, ainda, uma hipótese, porém de alto grau de probabilidade. Acreditamos que, em fu­turo próximo, a reencarnação seja a única explicação para essa singularidade criptomnésica.

A precognição, assim como a telepatia, se refere a fatos psíquicos, apenas com uma diferença: a telepatia, como tradicionalmente é entendida, diz respeito a eventos psíquicos que aconteceram ou estão acontecendo com determinada pessoa - dores, emoções, desmaios, etc - ou nas suas relações com o mundo objetivo, enquanto a precognição se refere a eventos psíquicos que ainda não se "materializaram", porque só acontecerão no futuro. A precognição, assim, é um fato psíquico, originado de uma intenção, um pensamento, que poderá ou não acontecer no mundo físico. Ela só pode ser assim chamada, quando o evento psíquico, cujo acontecer foi previsto, se realiza como fato material. Qual, pois, substancialmente, a diferença entre a telepatia e a precognição, se ambas apenas se distinguem por um elemento temporal? Os fatos psíquicos futurizáveis já estão presentes no inconsciente das pessoas e, por isso, podem ser apreendidos telepaticamente. Logo, a precognição é telepatia de fato psíquico futurizável, pois o presente contém, potencialmente, o futuro, como o próprio presente nada mais é do que a atualização de latências pretéritas. Assim, o futuro é também é presentificado. Ainda na pesquisa dos casos espontâneos, a telepatia também se con­funde com a clarividência e quase sempre é difícil se estabelecer, na prática, uma distinção precisa entre os dois fenômenos. A clarividência é percepção paranormal de acontecimentos físicos. É possível, con­tudo, que uma alucinação telepática seja interpretada como uma manifestação de clarividência. A rigor, não sabemos, em muito desses casos, se o médium percebeu um fato por clarividência, ou se o captou, como alu­cinação telepática verídica, do inconsciente de alguém que o estava, naquele momento, presenciando. Deixamos, propositadamente, de referir-nos ao fenômeno de projeção da consciência, também conhecido como via­gem astral, bilocação ou desdobramento, pois, dada a sua complexidade e implicações, está a merecer uma investigação mais profunda e sistemática.

Na experimentação controlada com os testes do baralho Zener, a pesquisa da telepatia pode ser prejudicada pela percepção extra-sensorial da carta-alvo ou pela sua adivinhação – clarividência, precognição – antes mesmo que o telepata emissor possa vê-la. De igual modo, a pesquisa da clarividência pode ser prejudicada pela precognição, pois o clarividente pode adivinhar a carta alvo antes do seu lançamento.

Tais dificuldades, infelizmente, são intransponíveis porque esbarram numa classificação tradicionalizada, porém destituída de qualquer utilidade prática.

 

P - Vez por outra, na imprensa sensacionalista, surge a figura de um novo curandeiro, dotado de poderes extraordinários e realizando façanhas milagrosas. Há algum fundo de verdade em tudo isso ou essas apregoadas curas não passam de grosseira mistificação ou meramente resultado de fatores sugestivos?

 

R - Antes de discutirmos o mérito da questão, é necessário indagar se existe uma terapêutica paralela àquela utilizada pela Medicina.

As pessoas sempre obtiveram, de um modo ou de outro, através de processos denominados "naturais", a cura para os seus males. É evidente, contudo, que os meios utilizados por essa terapêutica "natural são empíricos e não obedecem a uma técnica orientada pela razão e pelo conhecimento. Além do mais, os resultados obtidos - alguns até extraordinários - são, na maioria dos casos, duvidosos, pois consistem, quase sempre, na simples remoção de sintomas. E, nisto, consiste o grande perigo do curandeirismo: o mascaramento dos sintomas, impedindo a precisão do diagnóstico e comprometendo a possibilidade clínica da cura.

Indiscutível, portanto, a existência de uma terapêutica empírica que, através de procedimentos mágicos e apelos sugestivos, é capaz de, em proporção ignorada, restabelecer o equilíbrio orgânico de pessoas aparentemente doentes. E, de propósito, utilizamos a expressão "aparentemente doentes", porque, como demonstrou a medicina psicossomática, grande parte de nossas enfermidades é de natureza psíquica e emocional e, não, orgânica. Assim, podemos dizer, de certo modo, que o curandeirismo é uma arte: a arte de curar pela sugestão, mediante a manipulação de elementos mágicos suscetíveis de alterar o estado psíquico do paciente, com reflexos modificadores no seu funcionamento orgânico.

Podemos conceituar o curandeiro como aquele que pretende curar enfermidades pela virtude de seus pretensos poderes. Não raramente, ele se julga um ser excepcional, um missionário, uma pessoa poderosa, o que poderá levá-lo a uma impermeável megalomania e paranóia delirante.

Geralmente, o curandeiro é oriundo da classe pobre, sem qualquer preparo intelectual, desejoso de se afirmar na vida e sem qualquer preocupação quanto aos meios de atingir seus objetivos. E, quando se vê, de uma hora para outra, guindado a um certo status na sociedade, emprega, todos os seus esforços para manter e até melhorar a posição conquistada. Por isso, seja movido pela vaidade, seja movido pela cupidez, procura atuar em faixa própria, criando o seu grupo de adeptos. Promove-se pela imprensa e evita, a todo custo, qualquer investigação científica.

Todavia, nem todo aquele que se diz possuidor de poderes de cura realmente os possui. Na maioria dos casos, são pessoas dotadas de forte personalidade e de grande capacidade de persuasão. Assim, as curas obtidas por esses pretensos curandeiros — alguns de natureza orgânica  - podem ser explicadas psicologicamente, embora ainda pouco se saiba dos mecanismos de interação entre a mente e o corpo. Ora, uma pessoa possuidora de tais atributos poderá contribuir, de maneira  extraordinária, para uma mais ampla compreensão da terapêutica ortodoxa e acadêmica, com o maior aproveitamento do elemento psíquico na gênese das curas. Se a fé pode curar, por que não a utilizar como eficaz adjutório na recuperação orgânica do paciente?

Por conseguinte, essas pessoas, de excelente poder sugestivo e de rara habilidade em despertar a fé nas pessoas, deveriam, sem perda de tempo, ser aproveitadas pela Medicina, em uma atividade paramédica, devidamente controlada. O perigo reside justamente no fato de se tolerar que esses curandeiros permaneçam à solta, iludindo, conscientemente ou não, os verdadeiros enfermos, prometendo-lhes alívio para os seus males com a simples remoção dos sintomas, mas, por outro lado, contribuindo para o agravamento da doença, tornando-a, não raras vezes, incurável. Há curandeiros que, em um atentado  contra a saúde pública, chegam a proibir que os seus pacientes consultem médicos, ou lhes ordenam que suspendam a medicação ou o tratamento a que se vêm submetendo.

Mas, agora, é de se perguntar se não existem curas milagrosas e curandeiros autênticos. Existem sim, mas são raros os casos e também raras essas pessoas.

Sem querer penetrar o domínio religioso, a Parapsicologia vem estu­dando, atentamente, os fenômenos de curas paranormais e já pode assegurar a sua realidade. Sim, há curas paranormais. E também há pessoas que possuem um tipo de energia desconhecida, denominada de telergia, capaz de atuar fora do seu contexto orgânico e causar modificações nas coisas materiais e até nos seres vivos, inclusive o próprio homem. Os fenômenos de psi-kapa são a prova irrefutável do misterioso poder que a mente possui de agir diretamente sobre o mundo exterior, prescindindo do concurso de sua instrumentação biológica.

Se uma pessoa possui telergia e procura aplicá-la em benefício de terceiros, ela é, realmente, um curandeiro. Mas, para o exercício seguro de sua paranormalidade, deverá abster-se de atuar em faixa própria e permitir que a sua atividade terapêutica seja, permanentemente, supervisionada por um médico. Só assim, a cura paranormal poderá constituir, futuramente, um excelente auxiliar da Medicina.

 

P - A Parapsicologia vê no inconsciente a explicação para todos os fenômenos paranormais. O que é, na, verdade, esse inconsciente?

 

R - O inconsciente, a rigor, não tem definição precisa. É uma estratégia provisória, uma hipótese de trabalho, que busca entender a mente humana em sua totalidade, com exclusão, como é obvio, da área da atividade consciente. É um dado empírico ainda carente de precisão conceitual. Em termos simples e gerais, podemos dizer que o inconsciente é o es­tado potencial da mente, constituído de todas as experiências pretéritas de cada indivíduo, e de outros conteúdos de origem desconhecida. Omitimo-nos, aqui, de comentários sobre a discutida dicotomia entre in­consciente pessoal e inconsciente coletivo, por situar-se a polêmica em nível mais filosófico do que científico.

A atividade consciente é altamente seletiva e, por isso, constitui o nosso mínimo psíquico. No estado de vigília, desenvolvemos uma ação psíquica, estritamente pragmática e, assim, só percebemos e conscientizamos aquilo que, no momento, nos interessa. O que ganhamos em nitidez perceptual e melhoria de desempenho prático, perdemos em amplitude sensorial mais abrangente. Quanto mais atenção, maior poder de seleção e, conseqüentemente, menor capacidade de resposta a estímulos de outra natureza.

O inconsciente, portanto, é um processo. Mas um processo de extrema complexidade, porque envolve dois níveis operacionais distintos: os au­tomatismos psicofisiológicos, como o instinto e a memória, e as atividades criadoras, como a intuição dos gênios e a inspiração dos artistas. Não se pode, portanto, tratar o inconsciente como se fosse um todo homogêneo, mas, sim, referi-lo a um dos seus aspectos específicos, em cada caso concreto, conforme a natureza dos conteúdos explicitados.

O inconsciente, metaforicamente, é um aposento às escuras, onde todas as coisas estão em seu lugar. Porém, é impossível saber a quantidade de coisas que existe na escuridão. Primeiramente porque, para isso, seria necessário que todo o aposento fosse inteira e instantaneamente iluminado, o que, sob o ponto de vista científico, parece impossível, pois o consciente é um trêfego vagalume, voando sem rumo certo, na imensa escuridão do inconsciente. E, finalmente, porque o aposento escuro, cujos limites desconhecemos, não cessa de receber novos objetos que vão, ali, se entulhando numa arrumação talvez aleatória.

Há pessoas que afirmam ter obtido a iluminação, ou seja, aquele estado transcendental, onde o homem é a consciência absoluta de si mesmo. Como, porém, essa experiência ê incomunicável, indescritível, não se pode afirmar ou negar a sua realidade.

Tudo o que podemos conhecer, portanto, do inconsciente, é fragmentado, particularizado. A lembrança é o caminho percorrido pela luz da consciência, iluminando vivências que pareciam perdidas. O máximo que podemos fazer é ampliar o foco luminoso da lanterna consciencial, dilatando, assim, o território mnemônico observado, mediante determinadas técnicas, notadamente a hipnose.

As pesquisas do inconsciente têm demonstrado que sabemos muito mais coisas, do que imaginamos. Parece que, na verdade, o esquecimento não existe. Ele nada mais é do que o estado de latência do vivido: é a escuridão do inconsciente. O que está esquecido não está perdido: é apenas um objeto no escuro.

Em outro nível operacional, o inconsciente apresenta um desempenho tão assombroso que impossível se torna a compreensão desse processo pela capacidade habitual de determinado indivíduo em seu estado de vigília. Com a violência imprevista de uma erupção vulcânica, afloram à consciência as descobertas e os inventos científicos, os pensamentos revolucionários, as obras de arte e as manifestações mediúnicas. E tudo o que podemos dizer dessa explosão de genialidade oculta é que a mente, em certas circunstâncias desconhecidas, funcionando de maneira mais espontânea e mais desafogada do reducionismo do consciente, é capaz de estabelecer surpreendentes associações de seus conteúdos, aumentando, assim, extraordinariamente, a sua capacidade criadora.

Podemos dar um nome qualquer a cada uma dessas irrupções psíquicas: intuição, inspiração, criptomnésia, mediunidade. Ou, ainda, tentar ex­plicar o fenômeno pela genialidade, onisciência do inconsciente, tele­patia, reencarnação, comunicação de mortos e mais o que se queira. A discussão de cada uma das hipóteses não levaria a qualquer resultado prático, pois, no estado atual dos nossos conhecimentos, toda conclusão a que se pudesse chegar seria, necessariamente, provisória e carente de um sólido alicerce científico.

 

P - No seu esforço como cientista dedicado ao estudo dos fenômenos parapsicológicos, a sua fé está centrada nos fenômenos enquanto tais ou na suposta capacidade da Parapsicologia para explicá-los?

 

R - A minha fé está centrada numa cosmovisão monística do universo onde os fenômenos paranormais se ajustam, operacionalmente em seu nível específico.

Nem tudo a ciência pode provar e mesmo as provas científicas estão sujeitas a revisões e emendas. Aliás, o conhecimento científico não é dogmático, mas provisório. E muitas "provas científicas" nada mais são do que brilhantes hipóteses de trabalho.

A fé não depende do fato e nem todo fato merece fé, pois sempre é possível que a sua observação tenha sido insuficiente ou distorcida. A fé não se prova necessariamente com fatos, nem um conjunto de fatos, racionalmente ordenados, pode validar a fé. Porém, em determinadas situações, os fatos podem sugerir ou mesmo provar a procedência de um postulado filosófico ou religioso.

 

P - Há parapsicólogos que admitem a sobrevivência e a comunicabilidade entre vivos e mortos. Essa questão não parece impertinente à pesquisa parapsicológica. A morte é um fato ou produto da nossa deficiência sensória que não nos permite perceber além de determinadas vibrações? Será a sobrevivência um produto de nosso desejo de continuidade, uma fuga à dura realidade?

 

R - Inegavelmente, a questão da sobrevivência se impõe à investigação parapsicológica.

Ora, ninguém pode negar a realidade do fenômeno morte. É imprescindível, no  entanto, conhecermos, cada vez mais, sobre ela. Sem se saber o que ela é, não se pode discutir o problema da sobrevivência. O que nos impede, porém, de compreender essa questão é o medo irracional que temos da morte.

P - Por que tememos a morte?

 

R - Tememos a morte em si, ou algo que nos pode suceder depois dela? Se tememos a morte em si, estamos sofrendo por algo que, para nós, ainda não existe, porque estamos vivos. Sofremos, portanto, pela morte dos outros, não pela nossa, pois, na precisa observação de Epicuro, “quando existimos, não há morte e, quando há morte, já não existimos”.

Tem razão Alan Watts: "Se a morte é o fim, jamais saberemos o que perdemos”.

Logo, não há que temer a morte, pois se ela é uma perda, o perdedor já não existe para lamentá-la. Assim, quem morre, nada perde - outros é que poderão perder com a morte de alguém -, pois a perda pela morte só ocorre com ela e, depois dela, já não há mais perda  para quem morreu. O medo da morte é, portanto, irracional, eis que a morte não traz qualquer prejuízo a quem morreu. É a vida que nos faz sofrer, quando nos preocupamos  com as conseqüências de nossa morte.

Também não há que se chorar por quem morreu. Se a morte é o fim, como pensam alguns, aquele que morreu já não é e, quem já não é, não sofre. Na verdade, nós não sofremos pelos nossos mortos - sejamos materialistas ou espiritualistas, mas sofremos por nós mesmos, pelo vazio existencial que eles nos deixaram.

Tememos a morte e, no entanto, vivemos morrendo todos os dias. Morte é transformação, e tudo se transforma permanentemente. A nossa ilusão consiste em querer conservar o que muda. Se tudo se transforma, nada há que conservar. A vida não é algo estático. Viver é estar em contínua mudança. Porém, relutamos em mudar ou morrer, porque desejamos ou acreditamos ser uma substância imutável. Se vivêssemos, plenamente, todas as nossas mudanças, sem apego ao que fomos ou ao que julgamos ser, a morte não nos intimidaria. É a nossa resistência à mudança, o nosso apego obsessivo às coisas e àspessoas que geram todo esse inútil  sofrimento ante o inevitável processo transformista. Queremos ser um ponto fixo num universo dinâmico e, embalados nessa ilusão, buscamos negar a morte. Se, porém, mudássemos com a mudança, a morte, psicologicamente, inexistiria para nós. Ressuscitaríamos  sempre novos em cada mudança. Queremos, porém, continuar, indefinidamente, como somos. Daí, a observação oportuna de Krishnamurti: "Não vos interessa a morte, interessa-vos apenas a vossa própria continuidade como memória".

Inutilmente, o homem procura em si o fixo e o imutável, a fim de afirmar: isto sou eu. Ora, o fixo e o imutável não existem e o homem permanece, psicologicamente, morto para a vida, enquanto acalenta essa ilusão. Só é vivo o que muda e é sempre novo em cada mudança.  Quem pensa não mudar, vive na morte psicológica de sua fixidez. Porque o eu não tem núcleo. Onde não há eu, não há morte.

 

P - Se tudo está em permanente mudança, como se admitir a sobrevivência da personalidade após a morte?

 

P - O que é a personalidade? Nada mais que um conjunto de elementos psíquicos, integrando uma unidade mnemônica e funcional, de natureza dinâmica, agindo e reagindo segundo as características do ambiente físico e social. Assim, a personalidade não é algo estático, mas em permanentes mudanças físicas e psíquicas. Por isso, a personalidade é perecível, porque ela mesma está a morrer todos os dias na renovação periódica de seus componentes biológicos. A personalidade é a expressão psicológica da integração do indivíduo com o ambiente em que vive. Ela náo é causa de si mesma, mas a resultante de processos integrativos do ser humano com a realidade circunjacente. O homem, pois, como personalidade, não sobrevive à morte, pois a personalidade nada mais é do que um simples momento do processo transformista.

 

P - Então o homem não sobrevive à morte?

 

R - Analisemos o que entendemos por sobrevivência. Se a sobrevivência é a admissão da imutabilidade de algo, então nada sobrevive.

Se a mudança é descontinuidade, tudo então é sempre novo e, em conseqüência, nada sobrevive.

Porém, se a mudança é continuidade transformada, lógico nos parece que a sobrevivência é possível. Se o homem não sobrevive como personalidade, poderá, no entanto, sobreviver como consciência unitária das as suas transformações. Porque o homem não é apenas o que se transforma, mas a consciência naquilo e daquilo que se transforma.

Os fenômenos estudados pelo Espiritismo, pela Metapsíquica e, atualmente, pela Parapsicologia sugerem a sobrevivência de algo do ser humano.

Mas, o que é este algo?

Alguns parapsicólogos - a minoria - admitem a sobrevivência da memória, baseados na lei da conservação da matéria e da energia, postulando, assim, a existência de restos ou fragmentos psíquicos da personalidade, dispersos pelo espaço, os quais, em certas circunstâncias, podem ser captados pela mente de um médium, dando a impressão de comunicação de espíritos. Aceitam, portanto, a permanência dos efeitos, mesmo extinta a causa que os gerou. Para eles, a título de exemplo, o violino que produziu uma sonata pode ser destruído, mas a sonata permanecerá eterna em alguma parte do universo. A sonata, por conseguinte, se tornou imortal e, não, cada nota musical isoladamente. Ora, se um conjunto de sons pode sobreviver indefinidamente, se um conjunto de elementos psíquicos pode, do mesmo modo, sobreviver como memória, por que não se poderia admitir a sobrevida da consciência?

Os materialistas apregoam a transferência do patrimônio experiencial de cada indivíduo biológico para a matéria em sua expressão sistêmica e de sua redistribuição aos novos seres criados, através dos obscuros caminhos da genética. Assim, a matéria, na sua totalidade, nada perderia com o desaparecimento de suas infinitas individualizações. A sua memória seria colossal, como única herdeira de todas as suas criaturas.  O que é de estarrecer, porém, nessa hipótese, é como a matéria possa ser inconsciente como um Todo e consciente em suas manifestações hominais. E mais: por que, estando a matéria em evolução, só tenha atingido a autoconsciência em um dos seus espécimes - o ser humano -, o qual, apesar desse privilégio, não consegue perpetuar-se, mesmo sendo o ápice da evolução material.

Mas por que estranho motivo o indivíduo não sobrevive em sua integridade autoconsciente, conquanto remanesça à maneira de um zumbi, como uma desengonçada memória ambulante, passível de assimilação e vivificação temporária pelo ávido inconsciente de algum médium?

A Natureza, como estupenda organização, revela, em todos os seus níveis operacionais, a existência de uma programação preestabelecida. Já é um truísmo a afirmação de que, se há um programa, necessariamente tem de existir um programador. Qualquer máquina não se autoconstrói nem se autoprograma pela reunião fortuita de suas peças, as quais, por sua vez, não se autofabricam. As peças são fabricadas pelo acaso e pelo acaso se reúnem numa complexidade organizada? Um programa não pode ser causa de si mesmo, mas expressão da vontade e da inteligência de um programador.

O ser humano sente profundamente a necessidade de sobreviver, e aspira a imortalidade. Parece-nos, então, sugestivo este desejo de perpetuação como indício revelador da nossa sobrevivência pessoal. Custa-nos acreditar que, em relação a nós, a natureza tenha cometido um lamentável equívoco, programando-lhe uma necessidade falsa. Acresce, ainda, que, em todos os tempos e lugares, de uma forma ou de outra, dos povos mais primitivos aos mais civilizados, o homem sempre teve a intuição, nebulosa ou definida, de sua sobrevivência, desde uma simples sombra deambulante e imprecisa até um espírito consciente de sua continuidade após a morte de seu corpo físico.

O parapsicólogo Milan Rizl admite a possibilidade da sobrevivência, achando plausível que "a personalidade humana exista em diferen­tes níveis e abranja também as partes componentes não materiais". Do mesmo modo G. N. M. Tyrrell, com apoio em certos fenômenos paranormais, defende "la possibilidad de que los muertos se encuentren detrás de una gran parte del material producido por los mediums e sensitivos”.

Parece-nos evidente que, sobrevivendo à morte orgânica e passando existir numa ambiência possivelmente diversa daquela  em que vivia, o ser humano não conserve a sua antiga personalidade, senão durante certo tempo após o desencarne, enquanto não se completa o período de adaptação à nova realidade. Talvez seja esta a explicação para o "desinteresse" de­monstrado pelos mortos de se comunicarem com parentes e amigos, quando já transcorridos alguns anos de seu falecimento.

Gardner Murphy também entende que a pergunta se a personalidade so­brevive à morte, está colocada inadequadamente. Ele assevera que, existindo uma interação entre o eu e o ambiente, uma vez mudado este a personalidade também se modifica. Broad argumenta do mesmo modo e indaga se essa mudança não afetaria, também, as recordações da vida corpórea.

O ser humano, por conseguinte, não sobrevive como personalidade, mas como uma nova expressão ontológica, numa continuidade qualitativa da consciência a expressar-se em sua nova realidade existencial.

 

P – O que é a psicocinesia ou telecinesia? Há alguma relação entre a psicocinesia e a telergia? Qual a natureza da telergia?

R - A psicocinesia ou telecinesia é a ação da mente humana sobre o mundo exterior, sem o emprego de qualquer extensão biológica do organismo. Em seu sentido estrito, a psicocinesia é o movimento de objetos mediante uma ação paranormal.

A telergia se define como uma energia desconhecida, porém de natureza orgânica, mediante a qual o médium pode, conscientemente ou não, produzir fenômenos de psi-kapa. Pensam alguns parapsicólogos que ela se origina da parte anterior do córtex cerebral.

Em certos fenômenos, a telergia se comporta como se fosse de natureza física e, em outros, como se fosse de natureza não-física.

Nas suas experiências em psicocinesia (PC), Rhine chegou à conclusão que “dificilmente poder-se-ia alimentar qualquer dúvida a natureza não-física da PC”. As provas, diz ele, evidenciam “não seguirem os resultados da PC as leis da mecânica”. “Portanto, o processo da PC não é reação do cérebro sobre o objeto. Não é o cérebro como processo físico, mas o espírito como força não-física que influi sobre os dados que rolam".

Outros experimentos demonstraram a natureza física da telergia: ela é sensível às radiações ultravioletas e à luz vermelha, podendo ser interceptada por outros obstáculos materiais. O médium Rudy Schneider, trabalhando sob a orientação do Dr. Osty, produziu notáveis fenômenos de telecinesia, nos quais ficou constatado que a telergia pode absorver ou refratar os raios infravermelhos.

Os magistas, no passado, já conheciam a telergia sob outra denominação - força ódica - e a utilizavam nas suas experiências de exteriorização da sensibilidade. Papus observou que a água, a cera, as substâncias gordurosas, viscosas e aveludadas, e a lã possuíam a propriedade de armazenar a sensibilidade exteriorizada pelo paciente durante a experimentação.

Constatou-se, ainda, que o papelão e a lã amortecem e até anulam ação da telergia. Ela se acumula mais facilmente na madeira, notada­mente a madeira seca, facilitando a produção do fenômeno de toribismo ou "raps".

Max Freedom Long asseverou que a telergia ou força vital "pode ser armazenada por algum tempo em substâncias várias, quais sejam, madeira, papel ou pano. A água recebe e armazena as cargas de força vital. O mesmo, entretanto, não se dá com o vidro". Aliás, o físico John Taylor também observou que o vidro não parece ser afetado pela força telérgica no tipo de fenômeno que ele denominou de "efeito Geller".

Embora os metais não favoreçam muito a ação da telergia, o Dr. Rejdak declara que o cobre parece atrair essa energia, também chamada energia psicotrônica.

As experiências realizadas pelos parapsicólogos soviéticos evidenciam que a psicocinesia opera com mais facilidade em objetos rolantes.

Já se procurou explicar a natureza da telergia pela bioeletricidade com efeitos análogos à eletricidade estática. Andrija Puharich relata uma interessante experiência realizada por Uri Geller. "Uri é capaz de "entortar" o jato de água, aproximando o dedo seco do fluxo. Mas não conseguiu fazê-lo com o dedo ou a mão quando molhados; parece que a pele úmida neutralizava a carga elétrica".

Assegura John Taylor que Uri Geller demonstrou, experimentalmente, que possui um campo magnético efetivo. Para Taylor,"o eletromagnetismo pode conter um dos mecanismos que funcionam no efeito Geller", embora esse efeito não seja radiação eletromagnética ou ionizante.

Dos dedos da médium Alla Vinogradova saltam faíscas, elétricas na direção do objeto por ela manipulado psicocineticamente. A fluorescência de uma lâmpada de neon, colocada próxima a Vinogradova indicou a existência de campos eletrostáticos até de 10.000 volts por centímetro ao seu redor.

O psiquiatra Alberto Lyra refere um caso, citado por Ferre, "duma mulher cujos dedos atraiam corpos leves, os vestidos aderiam ao corpo, o linho, aproximando à sua pele, produzia uma crepitação acompanhada de luminosidade. O fenômeno intensificava-se quando ela estava sob tensão emocional".

Parece, pois, evidente que a telergia, em certas circunstâncias, se manifesta como uma espécie de bioeletricidade.

A ação telérgica é, geralmente, espontânea. Nos assustadores fenômenos de poltergeist, ela, quase sempre, se origina de distúrbios fi­siológicos de uma criança na fase da puberdade.

Acredita Gabriel Delanne que essa "força vital" pode exteriorizar-se parcialmente, "quando o corpo não goza saúde perfeita".

Os chamados "médiuns de efeitos físicos", talvez por uma desconhecida peculiaridade fisiológica, produzem, freqüentemente, fenômenos telérgicos, sob as mais diversas modalidades, mas sem exercer, conscientemente, qualquer controle sobre eles.

Nos fenômenos de psicocinesia, alguns médiuns - notadamente os soviéticos - têm produzido, por sua vontade, a manifestação telérgica.

O que demonstra a natureza orgânica da telergia é o conjunto de alterações fisiológicas que ela provoca no médium, como a aceleração dos batimentos cardíacos - até 240 por minuto -, excessiva elevação da taxa de açúcar, perturbações do sistema endócrino, convulsões, intensificação respiratória, sudorese, parestesia, culminando num estado de exaustão física e mental. Alguns médiuns chegam a perder dois quilos ao término de cada sessão experimental.

Há indícios de que a telecinesia também se relaciona com a visão. Scheilla Ostrander e Lynn Schroeder relatam uma significativa experiência de psicocinesia com Nelya Mikhailova. "Durante a fase de aceleração, o EEG acusou tremenda atividade na região do cérebro que controla a visão. Seria a explosiva atividade dessa parte do cérebro uma das razões por que ela ficava, às vezes, temporariamente cega depois de um teste de PK?” E, mais adiante, informam que os poderosos campos magnéticos, colocados em volta do corpo da médium, começavam a pulsar no momento da ação psicocinética, focalizando-se na direção do seu olhar.

Os parapsicólogos russos acreditam que os olhos emitem raios, que são captados pela glândula pineal. Seria essa a explicação do famoso "mau olhado"?

Assim como há pessoas que perdem telergia, há outras que a absorvem. Justinus Kerner dizia que a Sra. Hauffe, a vidente de Prevorst, roubava, inconscientemente, a energia das pessoas que a cercavam. Algumas delas se sentiam fracas, quando permaneciam muito tempo junto da médium. Hauffe informou a Justinus Kerner que recebia a energia das pessoas que a cercavam. Algumas delas se sentiam fracas quando permaneciam muito tempo junto da médium. Hauffe afirmava que recebia a energia das pessoas pelos olhos e pela extremidade dos dedos.

Tem-se teorizado que a ocasião mais favorável para o fenômeno psicocinético é durante os distúrbios magnéticos da Terra, em virtude da atividade das manchas solares. Inexiste, porém, qualquer confirmação dessa afirmativa.

Hoje já se sabe, principalmente em virtude do livro de Peter Tompkins e Christopher Bird "A Vida Secreta das Plantas", a misteriosa influência que uma pessoa pode exerce sobre o mundo vegetal. Por isso, atualmente, no Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, estamos realizando experimentos iniciais com o propósito de in­vestigar se, nesse tipo de relacionamento entre o ser humano e a planta, existe algum elemento telérgico. Talvez, no futuro, em caso de êxito desse experimento, possamos determinar se uma pessoa é ou não dotada de aptidão paranormal pela maneira como as plantas, em dada situação experimental, reajam a sua presença.

Outro projeto, ainda em fase de estudo no nosso Instituto, diz respeito à utilização da máquina Kirlian para demonstração de possível transmissão de telergia de uma pessoa para a matéria inanimada, por exemplo - uma moeda. Pavlita diz ter demonstrado que é possível transferir a energia de corpos vivos para a matéria sem vida, asseverando que a água é que melhor revela essa influência. Diga-se, de passagem que os ocultistas e os espíritas já sabiam da propriedade que a água possui de depositária de impressões psíquicas.

Pretendemos, com esse tipo de experimento, averiguar se uma pessoa que se diz médium curador é capaz de provar sua paranormalidade, transferindo a telergia para a moeda, sob controle kirliangráfico. Experiências de transmissão telérgica entre pessoas não constituem, para nós, prova satisfatória, pois as modificações apresentadas nas kirliangrafias podem ser explicadas por fatores sugestivos, determinando alterações fisiológicas tanto na pessoa que pensa estar doando energia como na­quela que acredita estar recebendo-a. Esse inconveniente, no entanto, poderá ser removido, se os registros kirliangráficos demonstrarem alterações nas auras do médium curador e da moeda, visto que as mudanças espectrais verificadas na fotografia da moeda não podem ser atribuídas à sugestão.

 

P - O comunicado paranormal personificado é sempre produto do inconsciente do médium? Ou é possível que, em casos excepcionalíssimos, possa ser atribuído a um espírito desencarnado, também chamado por alguns parapsicólogos de agente teta?

 

R - Em Parapsicologia, como já vimos, a hipótese prioritária para a gênese de todos os fenômenos paranormais é o inconsciente do médium.

Não somos, porém, ortodoxos, aceitando, incondicionalmente, essa explicação, embora reconheçamos sua inquestionável solidez, pois ainda não conhecemos todas as potencialidades da mente humana. Assim, até prova em contrário, devemos atribuir ao inconsciente todas as proezas paranormais sem necessidade do concurso de uma entidade extracorpórea.

 

Até o fim do século XIX, todo conhecimento psicológico se resumia na vida psíquica consciente, não obstante a acirrada polêmica entre von Hartmann e Alexandre Aksakof sobre o papel do inconsciente nos fenômenos até então chamados de espíritas. É a Sigismund Freud que se deve o conhecimento dessa nova instância da mente humana à luz de uma bem elaborada sistematização conceitual. E a importância da atividade psíquica mudou de fulcro, deslocando-se do campo da consciência para o misterioso território do inconsciente.

Hoje sabemos que a nossa personalidade é um produto de condicionamentos culturais, uma atividade de compromisso com a realidade social. Em nosso estado de vigília, não passamos de uma máscara, de um mecanismo bem ou mal ajustado às engrenagens da grande máquina da sociedade. Por isso, nessas condições, não somos o que queremos, mas representamos que devemos ser na conformidade dos padrões e dos valores culturais. Assim, a nossa personalidade, o nosso eu consciente é uma diminuta parcela do nosso eu total a que chamamos de inconsciente.

Acontece, porém, que a personalidade, além de ser incapaz de expressar todas as potencialidades do ser total, ainda o faz de maneira inadequada, distorcida, adulterada, segundo as características dos seus condicionamentos. A consciência é uma abertura estreita, através da qual tudo o que somos procura comunicar-se com a realidade exterior. O inconsciente é, em sua essência, uma pulsão, uma tensão, forçando uma angustiosa saída pelo reduzido calibre do estado de vigília. Na maioria das pessoas, essa pressão é controlada pelos mais diversos processos, mantendo-se nos níveis toleráveis de segurança. Em ou­tras, porém, a pressão é tão forte que arromba a represa da censura e irrompe, violentamente, sobre a atividade consciente, inundando e devastando as construções do nosso universo vigílico. Estes surtos podem ser esporádicos, causando danos facilmente reparáveis: são as neuroses. Mas podem ser constantes, resultando em prejuízos permanentes: são as psicoses. É a vingança do inconsciente contra a tirania sufocante da censura do consciente.

Em outras ocasiões, porém, o inconsciente, numa estratégia singular e bem elaborada, manifesta-se, como se fosse uma personalidade autônoma, substituindo-se, despoticamente, ao eu consciente, nas relações com o mundo exterior. Esse outro eu passa, então, a ser o porta-voz das reais necessidades do indivíduo, dando vazão aos seus desejos reprimi dos, liberando as suas tensões e recalques. Travestido de "outro", o verdadeiro eu daquela pessoa passa a viver tudo aquilo que lhe era negado e proibido pela sua  posição na sociedade. Esse "outro", a personalidade secundária, é, essencialmente, um protesto e uma liberação existencial contra o jugo das convenções e preconceitos sociais.

A personalidade secundária, por isso, não tem "história". Pode ser mais ou menos estruturada, com idéias e sentimentos próprios, e até mesmo "traços biográficos". Mas, a pesquisa exaustiva de cada caso dessa natureza leva à inevitável conclusão de sua existência fictícia. As personalidades secundárias mais débeis se esquivam, por todos os modos, dos assédios que lhes são feitos, visando à comprovação de sua identidade, e logo se esvaem. Outras, porém, são mais resistentes e versáteis, embora sucumbam, depois de certo tempo, pois nada mais são do que formas transitórias do psiquismo humano. Na verdade, somos uma federação de inúmeros centros psíquicos autônomos, cuja manifestação de soberania unitária nem sempre é preservada a vida inteira.

Há casos, porém, em que a personalidade "invasora" não pode ser interpretada como uma simples dramatização do inconsciente. Então, te­mos de convir que, ao menos aparentemente, estamos lidando com uma personalidade mediúnica, ou agente teta, em virtude das provas inequívocas de sua identificação.

 

P - As chamadas "obsessões" e "possessões" são sempre manifestações de espíritos desencarnados?

 

R - Freqüentemente, um processo obsessivo é uma revolta intrapsíquica, um conflito entre dois níveis psíquicos, podendo degenerar em esquizofrenia ou paranóia. Assim, o "obsessor" é uma personalidade secundá­ria, uma espécie de carrasco do inconsciente, vingador do eu real, agredindo, perseguindo, castigando e até "matando" o eu consciente, numa intensa atividade de parasitismo psíquico. Um adequado tratamento psicológico poderá conciliar os adversários, restabelecendo a unidade administrativa mental.

Porém, se se tratar de um agente teta, faz-se necessária a intervenção de um parapsicólogo experiente para lidar com o caso. Também é conveniente a presença de um médium bem treinado para estabelecer contato telepático com o "obsessor", atraindo-o psiquicamente para si, afastando-o, temporariamente, do campo mental de sua vítima, inteiramente envolvida pela sua influência dominadora. O médium deixa personalizar-se pelo agente teta, "incorporando-o". Empatiza com ele, mas não se permite dominar por seus impulsos e emoções. Torna-se, vicariamente, o próprio agente teta, vivenciando-o, assumindo até suas posturas e cacoetes. Somatiza seus antigos sofrimentos, chegando a acusar seqüelas  deles em seu próprio organismo após a "desincorporação". Na verdade, se trata de uma extraordinária catarse paranormal, onde o agente teta descarrega todos os seus ressentimentos contra o mundo que já deixou. É nessa ocasião que ele deve ser "doutrinado", orientado e convencido para mudar a sua atitude existencial, reconciliando-se consigo mesmo e perdoando, pelo esquecimento, tudo aquilo que motivou suas dores passadas. É uma tarefa árdua e que exige extrema sensibilidade do parapsicólogo, pois, se a "doutrinação" funcionar, o agente teta poderá abandonar definitivamente a sua vítima, devolvendo-lhe a sua saúde e bem estar.

 

P - Existe algum procedimento terapêutico para restabelecer o equilibro psíquico e emocional de uma pessoa atormentada por personalidade se­cundária?

 

R - Existe, sim. O parapsicólogo deve, inicialmente, começar esse tratamento com a própria personalidade secundária, a fim de atingir, indiretamente, a pessoa que nela se esconde. Ele não vai eliminar a personalidade secundária, praticar uma espécie de eutanásia psíquica, mas integrá-la, com paciência e habilidade, na personalidade consciente, tonando-as numa só, porém muito mais rica e produtiva. É preciso ter sempre em mente que a personalidade secundária não é um “outro”, mas, ao contrário, o verdadeiro eu, incompatibilizado com a máscara do eu consciente. Ambas merecem, no entanto, tratamento igualitário, embora devam funcionar em níveis diversos. E o paciente deve estar cônscio da necessidade desse procedimento dualístico: o que ele é na verdade e que ele deve aparentar ser.

Geralmente, as pessoas se identificam de tal maneira com os seus papéis sociais, com a sua "máscara" que se tornam verdadeiramente ignorantes do seu eu real, de suas necessidades e anseios mais profundos. Por isso, quando a pressão do inconsciente se torna insuportável, vazando seus conteúdos na atividade vigílica, afetando o comportamento habitual, a pessoa tem a impressão de que está sendo atormentada por um "outro eu", por uma "força estranha", por um "poder demoníaco" e outras coisas mais. É quando, em desespero, procura um centro espírita ou um terreiro de Umbanda, onde o seu "obsessor" é posto para fora e tratado segundo determinados processos empíricos, os quais nem sempre dão resultado. Pelo contrário: cronificam os problemas do "obsidiado". Porque, na verdade, a questão não reside em "afastar" o incômodo "obsessor", mas integrá-lo na personalidade consciente, formando uma nova unidade psíquica.

No nosso modo de ver, o trabalho do parapsicólogo, ao lidar com problemas de personalidade secundária, é  conduzir o paciente a essa integração. Dialogando com a personalidade secundária como se fosse um "outro", ele, de enviés, está conversando com o eu real do paciente, convencendo-o a perdoar-se, a compreender a necessidade social de sua "máscara", apesar de todas as violências que, através dela, sejam praticadas contra a sua autenticidade. Uma vez obtidos o perdão e a compreensão e conciliados o eu real com a sua "máscara", a função do parapsicólogo terminou, pois a continuidade do processo terapêutico passa a ficar sob a responsabilidade exclusiva do paciente.