Ramakrishna

Ramakrishna (1836-1886). Foi um dos mais importantes líderes religiosos da Índia, e reverenciado por milhões de Hindus e não-Hindus como um mensageiro de Deus.

Toda sua vida foi dedicada inteiramente a uma ininterrupta contemplação de Deus. Ele atingiu uma profunda percepção da divindade e que continua atraindo os buscadores de Deus de todas as religiões, fascinados pela sua vida e seus ensinamentos.

 

 

VRB – É importante a fé para o ser humano? Ou ele pode prescindir dela?

 

Ramakrishna – Aquele que tem fé, tem tudo; e aquele que carece de fé, carece de tudo.

Permanece sempre firme e constante em tua própria fé, mas afasta-te de todo fanatismo e intolerância.

Aquele que pode entregar-se à vontade do Todo-Poderoso, com simples fé e sincero amor, realiza o Senhor rapidamente.

 

VRB – Há pessoas que criticam a fé dos outros, chamando-a de “fé cega”

 

Ramakrishna – Acaso a fé não é totalmente cega? Ademais, quais são os seus olhos? Diz-se fé ou conhecimento? De outro modo, o que é essa singular noção, pela qual a fé em alguns casos é cega e em outros tem olhos?

A menos que chegue a ter a fé da criança, é difícil a alguém realizar Deus.  Se a mãe diz ao filhinho: “Esse é teu irmão”, ele crê piamente que a pessoa referida é realmente seu irmão. Se a mãe lhe diz: “Não vás ali, porque há um espantalho”, o garotinho pensa que realmente ali há um espantalho. Apieda-se Deus quando percebe no homem essa fé infantil. Ninguém pode alcançar a Deus com a mente calculadora do homem mundano.

 

VRB – Os fanáticos proclamam que só a sua religião é verdadeira. 

 

Ramakrishna – A rã do poço nada reconhece melhor e maior que seu próprio poço. Assim são todos os fanáticos. Pensam nada poder existir de melhor que a sua crença particular.

As diferentes religiões são os distintos caminhos que conduzem o homem ao Único Deus, que tem mil nomes e mil formas; que é Impessoal, como princípio da Verdade e do Amor; é Imanente em tudo e se manifesta em todos os seres e objetos do universo; em Seu aspecto transcendental é inefável, eterno, o Um sem segundo.

Todas as religiões são caminhos que levam a Deus, mas estes caminhos não são Deus.

O homem comum, por ignorância, considera sua religião a melhor e faz muito alvoroço; mas, quando a sua mente é iluminada pelo verdadeiro Conhecimento, desaparecem todas as suas querelas sectárias.

Nunca ofendas a religião de outro.

Não insinues ser a tua religião melhor que a de outro.

 

VRB – Há pessoas que viajam para as mais longínquas regiões em busca de uma religião que possam acreditar ser a verdadeira. Não é isso uma busca inútil, uma esperança ilusória?

 

Ramakrishna – Podemos visitar a Terra inteira e não encontrar a verdadeira religião em nenhum lugar. Ela só existe no coração de cada um. Aquele que não a tem dentro de si, não a encontrará fora de si.

 

VRB – Se Deus está em tudo, então todos os seres são divinos. Então, não devemos fazer distinção entre eles. Ou devemos, segundo as circunstâncias?

 

Ramakrishna – É certo que Deus reside também no tigre, mas nem por isso devemos ir abraçar esse animal. É certo que Deus mora até nos seres mais perversos, mas não é próprio buscar a sua companhia.

 

VRB – A vaidade é comum entre as pessoas, embora quase todas afirmem que são modestas. O religioso pode administrar melhor a sua vaidade do que as pessoas comuns?

 

Ramakrishna – Podem desaparecer gradualmente as vaidades comuns a todos os homens, mas difícil de morrer é a vaidade de um religioso a respeito da sua religiosidade.

 

VRB – Muitos dos que se julgam mestres ou gurus gostam de viver cercados de discípulos. Parece-me que eles precisam tanto dos discípulos, como os discípulos precisam deles.

 

Ramakrishna – Aquele que se crê líder e forma seita, demonstra não ter ego maduro.

Aquele que é capaz de chegar a Deus com sinceridade, com oração fervorosa e anelo intenso, não tem necessidade de guru.

Quem busca honra e fama funda seitas.

Se um homem ainda não iluminado toma a si a responsabilidade de salvar a outro, não tem fim o sofrimento de ambos. Não desaparece o ego do discípulo, nem se cortam seus liames mundanos. Se cai um discípulo debaixo da influência de mestre incompetente, jamais alcança a liberação.

 

VRB – Como se pratica verdadeiramente uma religião?

 

Ramakrishna – Verdadeira religião é a praticada em segredo e em silêncio, mas é  farsa e arremedo a praticada com ostentação e vaidade.

Quem não encontra Deus dentro de si mesmo, tampouco o achará fora. Mas o que O vê no templo da sua própria alma, esse também O vê no templo do universo.

 

VRB – Tem a alimentação alguma influência na vida espiritual?

 

Ramakrishna – Mesmo que um homem coma carne de porco, se ama a Deus é bem-aventurado. Mas é desditoso aquele que, embora se alimente de azeite e de arroz, tem a mente submersa na luxúria e no ouro.

Para um vegetariano, comedor de comidas simples descondimentadas, mas sem desejo de realizar a Deus, para ele essa comida à base de vegetais é o mesmo que a carne de vaca. Mas, para aquele que come carne de vaca e deseja alcançar a Deus, a carne é como a comida dos deuses.

 

VRB – Se Deus é infinito, Ele não tem forma. O infinito é necessariamente amorfo.

 

Ramakrishna – Deus é sem forma e também tem forma. Ademais, Ele transcende a forma e o sem forma. Somente Ele sabe tudo o que é.

O Senhor manifesta-se com forma ou sem forma, de conformidade com as necessidades do devoto.

O devoto que viu Deus num só aspecto, conhece unicamente este aspecto. Mas aquele que O viu em muitos aspectos, pode dizer: “Todas as formas são de Deus, porque Deus é multiforme”. Ele é sem forma e também tem forma, e muitas são as suas formas que ninguém conhece.

Deus é um, mas os Seus aspectos são muitos. Como o mesmo homem pode ser pai, irmão e marido, e ser chamado com vários nomes por diversas pessoas, assim o único Deus é descrito de numerosos modos, de conformidade com o aspecto particular pelo qual aparece a cada um de Seus devotos.

Pode o homem compreender de Deus somente aquilo que Ele o faz compreender.

Qualquer coisa crida, e adotada como meio de realizar Deus, não se deve criticar.

Segui buscando a Deus, cada um à sua maneira, sem criticar a rota dos demais, nem considerá-la como a própria.

O Senhor revela-se aos Seus devotos de acordo com a capacidade e natureza das suas mentes.

 

VRB – Qual o valor das cerimônias e dos rituais religiosos?

 

Ramakrishna – As cerimônias e os rituais não mais são necessários para aquele que alcançou a mais elevada Verdade: Deus.

O culto das imagens é necessário a princípio, mas não depois. As várias e distintas formas usadas na adoração foram previstas para satisfazer as necessidades de diversos homens nas diferentes etapas de evolução espiritual.

Se um adorador se convence de que as imagens representativas da Deidade são verdadeiramente divinas, então, adorando-as, chega à Divindade. Mas não recebe  benefício algum com a adoração, se considera  as imagens tão só como argila, palha ou pedra.

Ao construir-se uma casa, é indispensável o andaime; mas, terminada a construção, retira-se o andaime. Do mesmo modo, o culto das imagens é necessário a princípio, mas não depois de adquirida a verdadeira vocação.

Para que brote o grão de arroz, o germe é a parte essencial, considerando-se não ter importância a casca. Sem embargo, se se semeia o arroz descascado, não germina. Para que nasça e se converta em planta, deve enterrar-se o grão inteiro. Depois de colhê-lo, se se deseja comer arroz puro e branco, tira-se-lhe a casca. Do mesmo modo, os ritos e as cerimônias são necessários para desenvolver e perpetuar a religião. São os receptáculos que contém as sementes da verdade, e portanto devem ser praticados até que se alcance a verdade central existente neles.

Tem muito pouco valor em si a ostra que contém a pérola, mas é essencial para que a pérola se desenvolva. Assim também, as cerimônias e rituais não mais são necessários para aquele que alcançou a mais elevada verdade: Deus.

Devem seguir-se os rituais. Mas, para quem cresce em espiritualidade, é desnecessária a sua observância.  

 

VRB – Não há uma definição satisfatória para a palavra perfeição. Mesmo assim, lhe pergunto: o que é um homem perfeito?

 

Ramakrishna – Há duas classes de homens perfeitos: os que alcançaram a perfeição por meio de disciplina e evolução espiritual; e os que a alcançaram pela graça, mas estes são muito raros.

Há duas classes de homens perfeitos neste mundo: aqueles que, ao realizarem a Verdade, se tornam silenciosos e desfrutam em si mesmos a felicidade sem pensar nos outros; e aqueles que, depois de realizarem a Verdade, não acham felicidade em conservá-la oculta e pregam em voz alta: "Vinde todos e gozai da felicidade comigo!"

 

VRB – Conforme os Evangelhos, Jesus afirmou que se não nos tornarmos uma criança não veremos o reino dos céus

 

Ramakrishna - Os grandes homens têm a natureza do menino. Sentem-se como meninos ante Deus e estão desprovidos de toda arrogância.

Feliz aquele que pode permanecer como criança durante sua vida inteira, livre como o ar da madrugada, viçoso como a flor recém-aberta e puro com a gota de orvalho.

Enquanto não te tornes simples como criança, não receberás a iluminação Divina. Esquece toda a tua sabedoria mundana e ignora-a por completo, como se foras um pequenino; só assim chegarás a conhecer a Verdade.

A simplicidade mental conduzir-te-á facilmente a Deus. Se uma pessoa é simples, as ensinanças espirituais frutificam espontaneamente nela, com a mesma facilidade com que germinam as sementes na terra cultivada, livre de pedras.

 

VRB – Se muitas pessoas crêem que Deus está imanente em todos os seres, por que, então, elas sofrem?

 

Ramakrishna – Deus reside em todos os homens, mas nem todos os homens residem em Deus. Por isso eles sofrem.

O homem sofre pela falta de fé em Deus.

 

VRB – Os materialistas estão convictos de que nascer e morrer são a única realidade para todos os seres vivos.

 

Ramakrishna – O nascimento e a morte são como bolhas em cima de água. A água é real, mas as bolhas são efêmeras; levantam-se em cima da água e depois tornam a cair. Assim também Deus é um oceano, cujas bolhas são as almas. Nascem graças a Ele, existem nele e retornam para Ele.

 

VRB – A razão é superior à fé, ou a fé é superior à razão? Na minha opinião, razão e fé são domínios cognitivos diferentes e, por isso, nenhuma comparação entre elas é possível.

 

Ramakrishna – A razão é fraca. A fé é onipotente. A razão não pode ir muito longe; é obrigada a parar em determinado ponto. Diante da fé, o pecado, a injustiça, a frivolidade e a ignorância fogem.

 

VRB – As pessoas, mesmo as que não acreditam em Deus, gostam de discutir sobre Ele.

 

Ramakrishna – Enquanto o homem está distante de Deus, encontra-se no bulício de sofismas e discussões; mas, ao aproximar-se de Deus, abando­na todos os argumentos e disputas e obtém a clara e vivida percepção dos mistérios de Deus.

Quando se está enchendo o cântaro, ouve-se um “glu glu”; mas uma vez cheio cessa o ruído.  De modo similar, entretém em vão disputas acerca da Sua existência e natureza o homem que não achou a Deus. Aquele, porém, que O viu goza em silêncio a dita Divina.  O “glu glu” é o raciocínio, o discernimento que, pela vontade da minha Divina Mãe, nos conduz ao verdadeiro conhecimento. Indica esse ruído não estar cheio o cântaro e o fato mesmo de raciocinar demonstra não ter sido alcançada a meta.  Não obstante, faz-se ouvir de novo o “glu glu” se se verte a água do cântaro cheio em outro pote, quando o sábio transmite ao discípulo a água da Divina Sa­bedoria.

Cheia, não faz mais ruído a jarra. Igualmente não fala muito o homem de realização.

 

VRB – Que necessidade tem então a leitura de livros ditos sagrados?

 

Ramakrishna – Tratar de explicar Deus depois de ter lido as escrituras, é como falar a outro sobre a cidade de Benares depois de a ter visto só no mapa.

Enquanto o homem discute sobre doutrinas e dogmas, demonstra não ter provado o néctar da verdadeira fé. Provado, surge o silêncio.

 

VRB – Há certos gurus que proclamam possuir poderes psíquicos. Que valor tem esses poderes para a espiritualidade?

 

RamakrishnaUm homem, depois de quatorze anos de duras penitências em bosque solitário, obteve ao fim o poder de caminhar sobre as águas.  Contentíssimo com a aquisição, foi ver a seu guru e disse-lhe: “Mestre, adquiri o poder de caminhar sobre as águas”.  O guru o repreendeu, dizendo: “Que vergonha!  É esse o resultado de quatorze anos de labor? O que adquiriste tem o valor equivalente a dez cêntimos. Isso que podes fazer depois de quatorze anos de penitência, a gente comum o faz pagando dez cêntimos a um barqueiro”.

 

VRB – Conseqüentemente...

 

RamakrishnaDevem evitar-se os poderes psíquicos como o excremento. Tais poderes vêm por si mesmos,  em conseqüência das práticas  espirituais  e controle  dos  sentidos.   Aquele,  porém,  que  estabelece  sua mente nos poderes psíquicos aí se detém e não pode subir mais alto.

Aqueles que têm baixas tendências buscam poderes ocultos para curar enfermidades, ganhar pleitos, caminhar sobre as águas e coisas similares.

Obraria nesciamente o mendigo, se fosse ao palácio do rei para pedir coisas insignificantes, como abóboras e pepinos. Também constituiria nescidade dirigir-se o devoto ao Rei dos reis para implorar poderes psíquicos, em vez dos inapreciáveis dons do verdadeiro conhecimento e o amor de Deus.

 

VRB – São as paixões um empecilho para a espiritualização do ser humano?

 

Ramakrishna – O ardente desejo das coisas do mundo deve ser canalizado para o ardente anelo de ver a Deus. Assim deve ser feito com todas as paixões. Estas não devem ser desarraigadas, mas sim educadas.

Se hás de enlouquecer, enlouquece de amor a Deus e não pelas coisas do mundo.

 

VRB – A filosofia oriental ensina que a cada época da humanidade surge um avatar para orientá-la. Em que diferem entre si esses avatares?

 

Ramakrishna – O Avatar é sempre um e o mesmo. Mergulhando no oceano da vida, o Deus único surge num lugar e é conhecido como Krishna, e depois de outra imersão, aparece em outro lugar e é conhecido como Jesus.

Por que louvais a glória e os poderes de Deus? Acaso um filho, diante de seu pai, fica pensando: Meu pai tem tantas casas, tantos cavalos, tantas vacas e tantos jardins? Ou unicamente se deleita em usufruir a sua presença e lhe devotar seu amor. O verdadeiro devoto, em vez de entregar-se a tais pensamentos, entra em íntimas relações com o Criador, amando-o, vivendo em harmonia com Ele.

Os Avatares são, com respeito a Brahman, o mesmo que as ondas em relação ao oceano.

Nos Avatares, Deus manifesta-se plenamente.

 

VRB – Por não se referir, em nenhum momento, a Deus, Buda é tido como ateu por muitos estudiosos.

 

Ramakrishna – Buda não era ateu; o que ocorria é que ele não podia exprimir as suas realizações da Divindade. O estado experimental na realização do ser é algo entre  existir e não existir. O existir e o não existir são modificações da natureza. A Realidade está além de ambos esses estados.

 

VRB – O Cristianismo deu muito ênfase ao pecado.

 

Ramakrishna – Li um livro cristão que, do começo ao fim, só fala em pecado. E o devoto repete a todo momento: “Sou um grande pecador!” Com esse tipo de pensamento, aquele que não é um grande pecador acabará sendo o que pensa.

De tanto pensar, o homem termina sendo o que pensa que é.

É para principiantes a adoração por temor ao fogo do inferno. Pessoas há que acreditam consistir a religião no sentido do pecado. Esquecem que isso ocorre no estágio inicial e mais baixo da espiritualidade.

 

VRB – Os espiritualistas apregoam que o eu ou ego é um empecilho para a experiência mística do ser humano com a Divindade.

 

Ramakrishna – Há duas espécies de egos: o maduro e o imaturo. O ego maduro sabe que nada é seu, que tudo é do Senhor, enquanto o ego imaturo se apega às coisas e só fala: “eu”, “meu”. A alma individual e o Ser Universal estão separadas graças a esse “eu” interposto entre ambos.

Nem o sol nem a lua podem refletir-se claramente na água lamacenta. Assim a Alma Universal não pode realizar-se perfeitamente em nós, enquanto não afastamos o véu da ilusão, isto é, enquanto perdurar o sentido do “eu” e do “meu”. A escravidão e a liberdade são frutos do espírito.

A idéia do ego individual é como se alguém, após cercar uma porção de água do rio Ganges, chamasse-a de “meu Ganges”.

Se achas impossível suprimir a consciência do “eu”, então converte-o em “eu servidor”.

Enquanto tu fores pessoa com ego próprio, não te será possível conceber e perceber Deus de outro modo que como pessoa.

A união com Deus só se atinge quando a mente está absolutamente calma, quaisquer que tenham sido os caminhos utilizados para se chegar a isso.

Não se pode ver a Deus enquanto existir o menor vestígio de desejo.

 

VRB – É ainda polêmica a questão do livre arbítrio e do determinismo. Ambos se excluem ou se complementam?

 

Ramakrishna – O livre arbítrio é relativo e tão curto quanto a corda que prende a vaca à estaca: esta pode mover-se em espaço restrito. Assim o homem: pensa que pode muito, mas não pode ir além dos limites que lhe impõe o Senhor.

 

VRB – Qual o valor dos livros ditos sagrados para o conhecimento de Deus?

 

Ramakrishna - Apenas indicam o caminho conducente a Deus os livros sagrados. Conhecido o caminho, a que servem os livros?

Duas classes de pessoas podem obter o conhecimento do Ser: aqueles cuja mente não está abarrotada de erudição, vale dizer, cheia de idéias alheias, e aqueles que, depois de estudar as escrituras e as ciências, chegam à conclusão de nada saberem.

 

VRB – Como uma pessoa realmente espiritualizada pode ser reconhecida?

 

Ramakrishna – Quando a flor se abre e a brisa esparge o seu perfume, acodem as abelhas sem ser chamadas. Vão as formigas aonde encontram algo doce. Do mesmo modo, quando o homem se torna puro e a doce influência do seu caráter se espalha por toda parte, todos os buscadores da Verdade sentem-se naturalmente atraídos por ele.

 

VRB – Alguns místicos tiveram momentos de vacilação em sua fé. João da Cruz deu a essa experiência angustiante o nome de “noite escura da alma”. O que você pensa a respeito disso?

 

Ramakrishna – Forma a água das torrentes,  em  alguns lugares de seu leito, remoinhos e remansos, mas logo retoma livremente o seu rápido curso. Do mesmo modo, o coração do devoto, de vez em quando, é presa do torvelinho da desesperação, do pesar e da falta de fé; mas isto é tão só extravio momentâneo e de curta duração.

 

VRB – Como pode uma pessoa viver no mundo sem ser afetado por ele?

 

Ramakrishna – Viva no mundo, mas não sejas do mundo.

Pode o bote estar na água, mas a água não deve entrar no bote. Pode o aspirante viver no mundo, mas o mundo não teve viver dentro dele.

O vento tanto leva o perfume do sândalo como o odor da carniça, mas não se mistura com um nem com outro. Assim, a alma emancipada vive no mundo sem se misturar com ele.

 

VRB – Se Deus está em tudo, ele pode ser encontrado indiferentemente em qualquer lugar?

 

Ramakrishna – O leite da vaca está espalhado por todo o corpo do animal, através do seu sangue; mas não conseguirás leite ordenhando as orelhas ou chifres. Somente do ubre terás leite. Do mesmo modo, Deus penetra todo o universo, mas não O podes ver em todas as partes. Mais facilmente Ele se manifesta nos sagrados templos, saturados do espírito de devoção, que os devotos de outro tempo lhes infundiram com sua vida e práticas espirituais.

Buscas a Deus? Então busca-O no homem. Mais se manifesta a Divindade no homem que em qualquer outro objeto. Busca um homem cujo coração transborde de amor a Deus, um homem que viva, se mova e tenha o seu ser em Deus. Num homem assim, embriagado de amor Divino, Deus se manifesta a Si Mesmo.

 

VRB – Sob o ponto de vista exclusivamente espiritual, como se explica a enfermidade?

 

Ramakrishna – A enfermidade é a taxa que a alma paga pelo uso do corpo, tal como o inquilino paga o aluguer da casa em que vive.

 

VRB – Segundo alguns religiosos, a paciência é uma das virtudes mais importantes para a vida espiritual.

 

Ramakrishna – A qualidade de ser paciente é da mais alta importância para o homem.

Fixa-te na bigorna do ferreiro: tantos golpes recebe e não se move do lugar. Aprende da bigorna a ter paciência e a saber resistir.

 

VRB – Os Evangelhos relatam que Jesus, em certa ocasião, afirmara: “quem é a minha mãe, quem são os irmãos? Minha mãe e meus irmãos são aqueles que fazem a vontade do meu Pai”. Palavras aparentemente estranhas. Qual a sua opinião a respeito?

 

Ramakrishna – Se um homem está louco de amor a Deus, então, para ele, quem é pai, quem é mãe e quem é esposa?  Ama a Deus tão  intensamente, que enlouquece. Devoto assim não tem mais deveres, e fica livre de qualquer dívida. Quando um homem chega a esse estado, esquece o mundo inteiro e até se torna inconsciente do corpo, que para todos é objeto de tanto cuidado.

 

VRB – As circunstâncias sociais nem sempre são favoráveis para que as pessoas falem ou ajam segundo o que pensam.

 

Ramakrishna – Não sejas traidor dos teus próprios pensamentos. Sê sincero; atua de acordo com o que pensas e seguramente terás êxito. Ora de coração simples e sincero, e tua oração será ouvida.

Do que pensas é do que deves falar. Que haja harmonia entre o teu pensamento e a tua palavra. De outro modo, não te beneficiará o dizer meramente, da boca para fora, que Deus é teu tudo, enquanto tua mente considera que teu tudo em tudo é o mundo.

Toda falsidade é má. Mesmo o uso de veste que não nos corresponde é má. Se tua mente não está em harmonia com tua roupa, é certo que terás a visita de alguma grande calamidade. Deste modo, tornar-te-ás hipócrita e perderás o temor de falar e atuar com falsidade.

A menos que se diga sempre a verdade, é impossível achar a Deus, o qual é a alma da verdade.

 

VRB – É a mente o nosso próprio ser?

 

Ramakrishna – A mente é tudo. Se tua mente perde a liberdade, tu também deixas de ser livre. Se tua mente é livre, tu também o és. Pode tingir-se a mente com qualquer cor, como tela branca recém-lavada. Estuda inglês, e em tuas palestras introduzirás palavras inglesas, mesmo a pezar teu. Pandit que estuda  sânscrito  citará versos nesse  idioma. Se se deixa a mente em más companhias, as más influências hão de colorir os pensamentos.  Mas, se está na companhia dos devotos, é seguro que a mente meditará em Deus, somente em Deus. A mente muda a sua natureza de acordo com o ambiente em que cada um vive e atua.

É a mente que se liga e é a mente que se libera. Se tu dizes: “Sou alma livre, sou filho de Deus! Quem me pode escravizar?” — livre serás. Se, ao ser mordido por víbora, alguém pode dizer com a força de toda a sua vontade e fé: “Não há veneno, não há veneno”, seguramente livrar-se-á do efeito do veneno.

 

VRB – Quando é que alguém pode se sentir livre?

 

Ramakrishna – Quando desaparecer o “eu”. “Eu” e “meu” é produto da ignorância.

 

VRB – A “iluminação” é gradual ou instantânea?

 

Ramakrishna – Embora um lugar haja permanecido às escuras durante séculos, a escuridão desaparece de imediato se aí acendemos uma luz. Os pecados acumulados durante inumeráveis vidas desvanecem antes simples mirada de Deus.

 

VRB – O que pode ser feito para se conhecer Deus?

 

Ramakrishna – Tudo depende da vontade de Deus. Necessário é trabalhar para lograr a Sua visão. Com apenas sentar à beira de um lago e dizer — “Há peixes neste lago” — conseguirás algum pescado? Busca primeiro as coisas necessárias para pescar: vara, sedalha e anzol; põe neste a isca e atira-o na água. Verás como os peixes do fundo da água sobem à superfície e poderás pescá-los.

 

VRB – Há um ensinamento bíblico que afirma que ninguém é profeta em sua terra. Ele não é honrado sequer por seus parentes. Qual a sua opinião?

 

Ramakrishna – Os parentes do jogral não se  amontoam ao seu redor para ver suas representações; em troca, os estranhos ficam de boca aberta, ao verem seus maravilhosos jogos de prestidigitação.

Há sempre sombra debaixo da lâmpada, embora a sua luz clareie os objetos colocados ao seu redor. As pessoas que vivem muito próximas do profeta não no compreendem. Mas as que estão longe caem embevecidas com o seu esplendor espiritual e extraordinário poder.

 

VRB – Há espiritualistas que afirmam que Deus, o Infinito ou Brahman estão acima do bem e do mal.

 

Ramakrishna – Brahman não se liga ao bem nem ao mal. É como a chama da lâmpada. Com ajuda da sua luz tanto se pode ler o Bhagavata, como falsificar documento. É possível também comparar Brahman à serpente. A serpente traz veneno nos seus caninos, mas que importa isso? O veneno não afeta a serpente. Causa, porém, a morte das criaturas mordidas. Do mesmo modo, a miséria, o pecado e qualquer outro mal visto no mundo, só existem com relação a nós. Brahman está acima e além dessas coisas. Não o são para Brahman o bem e o mal apontados na criação. Não é admissível julgá-Lo de acordo com a regra humana do bem e do mal.

Brahman está acima e além do conhecimento e da ignorância, do bem e do mal, da religiosidade e irreligiosidade; está para lá de toda dualidade.

Brahman situa-se além da mente e da palavra; além da concentração e da meditação além do conhecedor,  do  objeto conhecido e  do  conhecimento; além ainda da concepção do real e do irreal. Em suma, está além de toda relatividade.

 

VRB – Se Deus é tudo, por que existem, então, o pecado e a virtude?

 

Ramakrishna – Existem e não existem ao mesmo tempo. Enquanto Deus preserva o ego em nós, também retém a percepção da dualidade, e a consciência do pecado e da virtude. Às vezes, porém, Ele apaga completamente o ego em alguns; então, eles vão além do bem e do mal. Enquanto não se realiza Deus, a percepção da dualidade e a noção do bem e do mal certamente perduram. Podes dizer com palavras serem o bem e o mal iguais para ti e que fazes aquilo que Deus te inculca a fazer. Mas, no fundo do coração, sabes que são meras palavras; pois, no momento em que cometes ação má, começa a remorder-te a consciência.