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O caso Edson Queiroz (*)

 

            Em 1982, o médium espírita Edson Queiroz, acompanhado do então Presidente da Federação Espírita de Pernambuco, Holmes Vicenzi, compareceu a minha residência para solicitar que o I.P.P.P. investigasse as curas do “Dr. Fritz”.

            Inicialmente lhe sugeri que fizesse um Curso Básico de Parapsicologia no Instituto, como de fato aconteceu.

            Nos dias 19 e 21 de junho desse mesmo ano, reuniram-se, na sede da Federação Espírita de Pernambuco, na Avenida João de Barros, bairro do Espinheiro, os diretores do I.P.P.P. e daquela instituição espírita, contando ainda com a participação do parapsicólogo Pedro McGregor, radicado nos Estados Unidos, e na ocasião foi concluído um acordo para a investigação do médium Edson Queiroz, quando estivesse agindo sob a influência do Espírito “Dr. Fritz”. Dias depois, uma nova reunião sobre o mesmo assunto se realizou na sede do I.P.P.P.

            Finalmente, na condição de Diretor Científico do I.P.P.P., designei Geraldo Fonseca Lima, médico-cirurgião, para dirigir e coordenar as pesquisas das curas do “Dr. Fritz”, na conformidade do roteiro metodológico científico proposto pelo I.P.P.P. A Federação Espírita Pernambucana, porém, não concordou com o projeto de investigação científica, alegando que ao “Dr. Fritz” caberia a orientação da pesquisa. O I.P.P.P. não acatou a posição da Federação Espírita de Pernambuco e, no dia 27 de setembro, Ivo Cyro Caruso, então Secretário do I.P.P.P., comunicou, por ofício, ao Presidente da Federação, Holmes Vicenzi, o cancelamento da investigação da paranormalidade de Edson Queiroz, por determinação do Diretor do Departamento Científico.

            No ano seguinte, iniciou-se uma polêmica pública entre o I.P.P.P. e a Federação Espírita de Pernambuco sobre o médium Edson Queiroz. O Diário de Pernambuco, nas suas edições de 13, 14, 17, 24, 26 e 28 de abril e de 12 de maio deu ampla divulgação ao debate, envolvendo o Presidente da FEP e o Diretor do Departamento Científico do I.P.P.P.

            A polêmica jornalística desenvolveu-se na seguinte ordem cronológica.

            No dia 13 de abril de 1983, o Diário de Pernambuco me entrevistou sobre "as cirurgias mediúnicas realizadas pelo médico e médium Edson Queiroz, que diz incorporar o espírito de um médico alemão, o famoso “Dr. Fritz”.

            Declarei que o I.P.P.P. não tinha condições de atestar a validade das “curas mediúnicas” de Edson Queiroz, porque a Federação Espírita Pernambucana não aceitou que se fizesse uma investigação científica dos fenômenos apresentados pelo referido médium. Esclareci que fora a própria Federação que solicitara do Instituto a prestação de assistência científica na investigação das potencialidades do médium Edson Queiroz. E informei:

            “Após vários contatos realizados na sede do I.P.P.P. e da FEP, onde se discutiram amplamente os detalhes dessa assistência científica, apresentamos o nosso modelo de pesquisa a ser adotado por ocasião da investigação dos fenômenos. Infelizmente, a FEP não concordou com o modelo apresentado, o que nos levou a cancelar o referido acordo.”

            Disse ainda:

            “Havíamos criado uma comissão médica para, sob orientação do nosso  companheiro, médico-cirurgião Geraldo Machado Fonseca Lima, investigar e acompanhar os casos de cura realizados pelo Dr. Edson Queiroz. Com esse procedimento poderíamos averiguar, em cada caso concreto, a realidade ou não da cura paranormal.”

            A comissão médica criada pelo Instituto estaria encarregada de acompanhar os casos novos, exigindo, inicialmente, o diagnóstico de cada paciente, para constatar se se tratava de enfermidade orgânica ou, simplesmente, de mera manifestação psicossomática.

            Em seguida, o paciente seria submetido a tratamento espiritual, findo o qual seria reexaminado pela comissão médica do I.P.P.P. para se averiguar se houve regressão da enfermidade ou mesmo a sua cura completa.

            Finalmente, conclui:

            “Infelizmente, ficamos impossibilitados de pesquisar o médium Edson Queiroz com os padrões de pesquisa científica, o que nos leva a não opinar sobre o mérito das curas que vem realizando, conforme o amplo noticiário da imprensa local e nacional.”

            Em 14 de abril de 1983, o Diário de Pernambuco promoveu a polêmica, publicando a seguinte matéria

            “O Sr. Holmes Vicenzi, presidente da Federação Espírita Pernambucana, não concorda com as declarações do sr. Valter da Rosa Borges, presidente do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, publicadas ontem no Diário de Pernambuco.

            Eis sua opinião, na íntegra:

            "Como diretor da Federação Espírita Pernambucana e tendo tomado conhecimento de certos pronunciamentos partidos do IPPP com referência a um impedimento de verificações sobre o fenômeno espírita que vem ocorrendo em nossa entidade, desejamos esclarecer que:

1o) As portas da Federação Espírita Pernambucana estão e estarão sempre abertas para verificações, fotografias, filmagens e outros meios de comprovação e pesquisa.

2o) Todavia, os fenômenos espíritas de cirurgias não podem ficar à mercê do modelo científico convencional no que diz respeito a pesquisa paranormal dos efeitos fluídicos espirituais oriundos e manipulados pelos espíritos pois a ciência cética e materialista não dispõe de recursos para atestar os processos usados pelos desencarnados, por enquanto.

3o) A apresentação de enfermos portadores de males incuráveis e em avançado estado de enfermidade não podem servir de teste de curas por parte dos espíritos.

Exemplo: 20 casos de câncer escolhidos a dedo em grau elevado como propôs o IPPP, somente um número bem reduzido poderia apresentar resultados positivos o que não serviria de base em face da grande disparidade de índice de cura.

4o) A pesquisa que o IPPP iniciou não foi concluída porque os pesquisadores não se submeteram às normas recomendadas pelo trabalho religioso, científico-espírita. Mesmo entendendo as naturais dúvidas cartesianas de algumas pessoas. À luz das pessoas leigas as informações auferidas confundiriam a opinião pública, sem nenhum resultado para o esclarecimento concreto.

5o) Há bem poucos dias o Dr. Hernani Guimarães Andrade (presidente do Instituto de Pesquisas Psicobiofísicas de São Paulo) respeitado em todo o  mundo, na sede da Federação Espírita de São  Paulo, participou, pesquisou e testificou confirmando as atividades extra-psíquicas desenvolvidas pela Federação Espírita Pernambucana e foi de tal forma a repercussão desse trabalho que ele, com todo respeito que desfruta internacionalmente, se propôs a fazer o prefácio de um livro científico que dentro de algumas semanas será distribuído aos quatro cantos deste país.

            Há inclusive solicitação de equipe de cientistas norte-americanos para converter o livro à língua inglesa. (Documentação que irá reforçar o trabalho cinematográfico que esta equipe fez em dezembro último com a equipe do Dr. Fritz em Pernambuco).”

            Estabelecido o debate, o Diário de Pernambuco, na sua edição de 15 de abril de 1983, publicou a minha contestação à Federação Espírita Pernambucana.

            “O presidente do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, professor Valter Rosa Borges, contestou ontem, as declarações do presidente da Federação Espírita de Pernambuco, Sr. Holmes Vicenzi, discordando do teor de uma entrevista sua concedida ao DIÁRIO DE PERNAMBUCO e publicada anteontem, a respeito do fenômeno espírita do médico e médium Edson Queiroz. Na íntegra a contestação de Rosa Borges:

            "Infelizmente, o Sr. Holmes Vicenzi não leu, com a devida atenção, o que declaramos no Diário de Pernambuco, em sua edição do dia 13 deste mês.

            Não afirmamos e nem negamos a autenticidade das curas paranormais atribuídas ao médico-médium Edson Queiroz. Apenas esclarecemos que ficamos impossibilitados de pesquisar esses fenômenos porque a Federação Espírita Pernambucana não permitiu a utilização da metodologia científica nas investigações das curas paranormais.

            Na condição de crente fervoroso, o Sr. Holmes Vicenzi fez algumas afirmativas que estão a merecer reparo.

            Em primeiro lugar, queremos informar ao presidente da Federação Espírita Pernambucana que o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas jamais se pronunciou sobre a frustrada pesquisa com o médium Edson Queiroz.

            Em segundo lugar, desejaríamos que o Sr. Holmes Vicenzi apontasse, na proposta de pesquisa do nosso Instituto, a exigência de investigar "enfermos portadores de males incuráveis e em avançado estado de enfermidade", por exemplo "20 casos de câncer escolhidos a dedo em grau elevado".

            Em terceiro lugar, era de uma evidência meridiana que a equipe do I.P.P.P. não se submeteria, em hipótese alguma "às normas recomendadas pelo trabalho religioso científico-espírita". Aliás, ficaríamos imensamente gratos, se o Sr. Holmes Vicenzi nos indicasse, na codificação kardecista, o procedimento metodológico dessa pesquisa.

            Em quarto lugar, também estimaríamos que o presidente da F.E.P. nos demonstrasse a existência de um modelo científico não convencional. Se o Espiritismo é uma ciência, tem de utilizar a metodologia científica. E, se o Espiritismo não emprega o método científico, então ele não é uma ciência. Ora se Allan Kardec, como cientista, diz ter provado a ação dos espíritos nos fenômenos paranormais, é porque, ao contrário do que pensa o Sr. Holmes Vicenzi, os eventos dessa natureza podem ser investigados pela "ciência cética e materialista".

            Não nos adianta a Federação Espírita Pernambucana abrir as suas portas, se continuar no firme propósito de cercear a investigação científica, submetendo-a a tutela de "orientações espirituais". O melhor, até o momento, é preservar a distância que nos separa, num clima de respeito e franca cordialidade".

            No dia 17 de abril de 1983, fui entrevistado pelo jornalista Jones Melo, do Diário de Pernambuco, sobre o problema da mediunidade e, após tecer esclarecimentos sobre aquele fenômeno, asseverei:

            “Por isso, é sempre recomendável que o médium fique sob a orientação e o controle de pesquisadores experimentados, a salvo de leigos e de místicos, os quais, por seu despreparo científico - e também fanatismo religioso - poderão ocasionar-lhe sérios prejuízos físicos e psicológicos.

            É de suma importância, ainda, esclarecer o médium a respeito da natureza de sua faculdade paranormal, evitando ou combatendo as naturais manifestações do seu narcisismo, decorrente da falsa idéia de que ele é um ser privilegiado. A partir do momento em que o médium é afetado pela doença do “estrelismo”, torna-se refratário a qualquer tipo de investigação científica dos seus poderes, com o receio, consciente ou inconsciente, de comprometer o seu status mediúnico.”

            No dia 24 de abril, o Diário de Pernambuco, no visível propósito de acirrar a polêmica, voltou a entrevistar-me, na condição de parapsicólogo e de promotor de justiça, sobre a natureza das curas mediúnicas e as conseqüências jurídicas das cirurgias praticadas por Edson Queiroz.

            Em dado momento da entrevista, o jornalista me fez a seguinte pergunta;

            “Responda-me, não como parapsicólogo, mas como promotor público: pelo nosso Código Penal, o médium cirurgião que causar lesões físicas em seus pacientes é passível de punição?”

            E respondi:

            “É evidente. Mesmo que o médium seja médico, ele age, ainda que em estado alterado de consciência, na condição de médico. Ou, em outras palavras: ele não deixa de ser médico, quando pratica uma ação médica, mesmo que não esteja consciente do que faz. A medicina não está obrigada a aceitar a ação de um espírito “incorporado” num médico, agindo no seu lugar e com o seu consentimento. O Código Penal não cogita da responsabilidade penal do espírito. E a própria parapsicologia ainda encara o problema da sobrevivência pessoal como respeitável hipótese de trabalho.

            Logo, se o médium médico age inconscientemente, porque acredita estar sob o controle de um espírito, a sua fé particular não modifica a perspectiva médica e jurídica da questão. A sua ação inconsciente permitida se configura como negligência e imprudência. Portanto, se ocasionar lesão corporal ou mesmo a morte de um paciente, responderá por crime culposo.”

            Nova pergunta do jornalista:

            “- Então, esse é um óbice irremovível da cura paranormal?”

            Resposta: Sob a modalidade de cirurgia - e também de prescrição medicamentosa -, sim. Com isso, não me estou opondo à atividade dos médiuns cirurgiões, mas alertando-os sobre os possíveis erros que possam cometer e das conseqüências que deles resultarão à luz do Código Penal. Assim, para preservar-se da possibilidade de erro, deve o médium ser supervisionado por um médico que, em última instância, decidirá acerca do tratamento espiritual recomendado pelo espírito “incorporado”, por mais respeitável que seja o nome do médico do Além. Se o médico da Terra, por qualquer motivo de ordem pessoal, concordar com o seu colega do Além, estará, sozinho, assumindo a responsabilidade do tratamento indicado.

            Há modalidades, porém, de ação paranormal curativa que não contrariam as normas penais e nem as regras terapêuticas, sem a mínima possibilidade de risco para as pessoas enfermas. E os resultados são, não raro, mais surpreendentes do que os da cirurgia paranormal.

            Trata-se, contudo, de uma questão que, afinal, depende da consciência e da conveniência de cada médium em particular.” 

            No Diário de Pernambuco, edição de 26 de abril de 1983, o presidente da Federação Espírita de Pernambuco voltou de novo ao ataque:

            “O promotor Walter Rosa Borges, que, em nome da ciência materialista, vem sistematicamente fazendo oposição e reprimindo o trabalho dos paranormais no Recife, inclusive formulando entrevistas que ele mesmo elabora, prestando um aberto desserviço ao estudo e pesquisa dos fenômenos, foi convidado, tanto pelo Templo da Meditação como pela Federação Espírita Pernambucana, para conhecer como se faz uma pesquisa e ver de perto os fenômenos da “telergia” e das “operações mediúnicas”.

            O Instituto de Pesquisas Psicobiofísicas, um ilustre desconhecido que está se beneficiando da paranormalidade para sobreviver, terá, daqui por diante, todo acesso, para que possa aprender um pouco do que seja fenomenologia paranormal.

            Já é tempo não apenas de respeitar a mediunidade, mas de enxergar o benefício que a população carente recebe das pessoas portadoras de recursos extra-sensoriais. Toda vez que um fenômeno ocorre no Recife, o sr. Walter Rosa Borges põe seu nariz como se fosse a única autoridade científica para definir o que é e o que não é paranormalidade.

            Vamos ver, agora, se publicamente convidado ele tem coragem de avaliar os fenômenos e encontre um caminho, um roteiro certo, e não apenas tentar esvaziar aquilo que pessoas de renome como Hernani Guimarães Andrade, da Associação Brasileira de Parapsicologia, atestam como de real sentido científico e de comprovada veracidade.”

O repto não poderia ficar sem resposta e, assim, enviei minha contestação ao Diário de Pernambuco, que a publicou na sua edição de 28 de abril.

"Lemos, com surpresa, as declarações prestadas ao Diário de Pernambuco, em sua edição de 26 de abril, pelo presidente da Federação Espírita Pernambucana, a respeito da nossa pessoa e do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas. Custa-nos acreditar que certas afirmativas levianas e indelicadas sejam atribuídas ao Sr. Holmes Vicenzi, cuja integridade e espiritualismo sempre admiramos.

            Diz o presidente da FEP que vimos "sistematicamente fazendo oposição e reprimindo o trabalho dos paranormais do Recife" e, assim, "prestando um aberto desserviço ao estudo e pesquisa dos fenômenos". A gratuidade dessa assertiva dispensa provas, pois é público e notório, ao menos no Recife, o trabalho que durante muitos anos estamos desenvolvendo pela divulgação da Parapsicologia em nosso Estado, principalmente através de cursos e conferências, alguns dos quais na Universidade Católica de Pernambuco.

            Por outro lado, se se advertir alguém de um perigo real ou mesmo possível é causar-lhe inibição, parece-nos preferível ocasionar-lhe esse discutível transtorno do que vê-lo, desinibidamente, precipitar-se ao abismo.

            Acontece, porém, que, às vezes, por motivos nebulosos, pessoas e instituições preferem adotar a filosofia de avestruz, ignorando, deliberadamente, os aspectos desfavoráveis de determinado problema.

            Esclarecer não é fazer oposição ou repressão ao "trabalho dos paranormais do Recife" e até gostaríamos de saber quais os médiuns prejudicados por pretensos atos de opressão. Aliás, é a primeira vez que somos informados de que esclarecimento é sinônimo de repressão. Na verdade, esclarecer é fazer oposição ao obscurantismo, seja qual for a sua natureza.

            Afirma o presidente da F.E.P. que o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas é um "ilustre desconhecido que está se beneficiando da paranormalidade para sobreviver". No entanto, foi a FEP - e isso um homem íntegro, como o sr. Holmes Vicenzi, não poderá negar - que procurou o "ilustre desconhecido" I.P.P.P., solicitando-lhe assistência científica para o caso Edson Queiroz-Dr. Fritz. E, como já esclarecemos em declarações anteriores, a pesquisa se frustrou, porque a FEP não permitiu que a equipe do I.P.P.P. investigasse cientificamente o fenômeno, mas, sim, segundo as conveniências de "orientações espirituais".

            O I.P.P.P. é membro fundador da Federação Brasileira de Parapsicologia e seu representante oficial no Estado de Pernambuco. Participou do II e III Congressos Nacionais de Parapsicologia e Psicotrônica realizados, respectivamente, em 1979 e 1982, no Rio de Janeiro, sob o patrocínio da Associação Brasileira de Parapsicologia. E promove, também, cursos de Parapsicologia e matérias afins, em sua sede provisória, à Rua da Concórdia, 372, sala 47, endereço que o Sr. Holmes Vicenzi conhece muito bem, porque ali esteve, por duas vezes, com outros membros da diretoria da FEP com o propósito de discutir as bases de um acordo científico para a pesquisa do seu médium Edson Queiroz. Nós é que desconhecemos porque o Sr. Holmes Vicenzi afirma que o I.P.P.P. é um "ilustre desconhecido", pois seria uma insensatez confiar a uma instituição desconhecida a responsabilidade de uma pesquisa científica de tal envergadura. Diz, ainda, o presidente da FEP que "cada vez que um fenômeno ocorre no Recife, o sr. Walter Rosa Borges põe seu nariz como se fosse a única autoridade científica para definir o que é ou não paranormalidade". Mas, isso é o óbvio. Qual o pesquisador que não põe o seu nariz para investigar um fenômeno na área de sua especialidade? No entanto, toda vez que metemos o nosso nariz em assuntos dessa natureza, assim o fizemos porque fomos previamente consultados para opinar a respeito, ou porque fomos convidados a pesquisar um dado fenômeno à primeira vista paranormal.

            Num ponto, contudo, estamos de pleno acordo com o Sr. Holmes Vicenzi: não somos "a única autoridade científica para definir o que é e o que não é paranormalidade". Assim, se conforme assegurou o Sr. Holmes Vicenzi, Dr. Hernani Guimarães Andrade, um dos mais competentes parapsicólogos do Brasil, atestou a autenticidade dos fenômenos paranormais do Dr. Edson Queiroz, só nos cabe felicitar a FEP pela autoridade desse testemunho.

            Agora, porém, de maneira impetuosa e extravagante, o presidente da FEP nos convida publicamente a dar uma prova de coragem, avaliando os fenômenos de seu médium Edson Queiroz, o qual, com o seu idealismo e bondade, jamais nos demonstrou a mínima repulsa à investigação de suas aptidões paranormais. Esqueceu-se, no seu arroubo, o sr. Holmes Vicenzi que já tivemos oportunidade ou, no seu dizer, a coragem - de assistir, por duas vezes, no Recife e em Salvador, a tais fenômenos, porém na condição de convidado e não na de pesquisador, o que nos impossibilita de opinar sobre o mérito da questão, como já o dissemos, anteriormente, em declarações prestadas ao DIÁRIO DE PERNAMBUCO.

            Declinamos, por isso, de aceitar esse convite estapafúrdio e simples repto com finalidade publicitária, pois a pesquisa científica não é exibição pública, nem improvisação, nem observação superficial de fenômenos, principalmente em ambientes de intensa emoção religiosa, sob o impacto de filmagens e entrevistas. Se é esse o tipo de pesquisa que a FEP nos pretende ensinar, não estamos nem um pouquinho interessados em aprendê-la".

            Em 18 de setembro de 1983, o Diário de Pernambuco realizou comigo uma nova entrevista sobre a fenomenologia paranormal e o fascínio que exerce sobre as pessoas. No final da entrevista, fiz a seguinte advertência:

            “Infelizmente, o campo da fenomenologia parapsicológica se encontra poluído pela presença de fascinadores e fascinados. A credulidade fácil, o pensamento mágico, o desespero existencial, as enfermidades de difícil terapêutica, a perda de entes queridos, a necessidade emocional da certeza da sobrevivência, a ânsia pelo transcendental têm aprisionado inúmeras pessoas na teia sedutora do maravilhoso, tornando-as em vítimas indefesas nas garras dos trapalhões ou dos espertalhões da paranormalidade. O maravilhoso provoca no homem uma atitude ambivalente de medo e atração. E não é gratuitamente que os prodígios da prestidigitação deslumbram os espectadores, os quais, numa euforia lúdica, acumpliciam-se inconscientemente com o mágico para gozar as delícias de um engodo consentido. De maneira idêntica, certos fenômenos, aparentemente paranormais, podem desencadear, em pessoas sugestionáveis e de reduzido senso crítico, um insopitável desejo de autofascinação, como espécie de sedativo contra as angústias e as agressões da realidade cotidiana. O fantástico, assim, transforma-se em singular psicotrópico, cujo maior perigo consiste em provocar dependência nas pessoas que dele se utilizam como recurso eletivo de sedação dos conflitos emocionais.”

            O jornalista espírita Nazareno Tourinho, no seu livro Edson Queiroz, o Novo Arigó dos Espíritos (Edições Correio Fraterno, São Bernardo do Campo, SP, 1983) noticiou o encontro que teve comigo, na cidade de  Salvador, Bahia, por ocasião do VIII Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas (de 17 a 21 de abril de 1982), quando presenciávamos as cirurgias praticadas por Edson Queiroz, “incorporando” o Dr. Fritz.

            Tourinho afirmou que eu lhe dissera que aquele médium “vinha fazendo uma série de operações dentro da própria Federação Espírita Pernambucana e que isso o estava preocupando.”

            No ano seguinte, Tourinho esteve no Recife e me procurou, na sede do Instituto para colher mais informações sobre a pesquisa com Edson Queiroz. Dessa entrevista também participou Ivo Cyro Caruso, o qual, como é do seu estilo, defendeu, veementemente, a posição do I.P.P.P. Ao que parece, Nazareno Tourinho não ficou satisfeito com o resultado do encontro.

            O emocionalismo com que a direção da Federação Espírita Pernambucana tratou a questão da pesquisa com Edson Queiroz impediu o I.P.P.P. de fazer uma avaliação científica de sua alegada paranormalidade. Na verdade, falávamos linguagens diferentes e nossos propósitos eram distintos. A Federação interessada que o Instituto comprovasse que era o “Dr. Fritz” quem realizava cirurgias através do médium Edson Queiroz e o Instituto apenas interessado em constatar se as curas realizadas pelo Dr. Edson Queiroz eram de natureza paranormal.

(*) Texto extraído do livro A Parapsicologia em Pernambuco