DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS E ARTES DE PERNAMBUCO
Panegírico Acadêmico: um Ritual de Passagem (*)
Valter da Rosa Borges
O homem é o único ser biológico capaz de descobrir e de inventar realidades. Talvez porque acredite que foi feito à imagem e semelhança de Deus. Talvez porque, mais ousadamente, se declare sócio minoritário do monopólio empresarial divino. Talvez porque Deus simplesmente o fez assim.
Cientistas, filósofos, artistas e escritores constituem uma especialização biológica do gênero humano e se caracterizam, quase a totalidade, pela sua capacidade visionária e idealismo quase patológico. Deslocados psiquicamente do seu tempo, são apenas inquilinos do presente e, na verdade, trânsfugas do futuro. Daí, porque excêntricos e nada práticos, incompetentes no trato das rotinas, desatentos dos ritos sociais, olham sempre através ou mesmo além do mundo onde se encravam.
Ser um ser desta espécie é duro fardo. É quase masoquismo consentido pela própria condição de ente mutante, aclimatado à força, pelo império das coerções sociais. Estes seres obstinados jamais desistem de expor ao mundo o próprio sonho, como proposta alternativa à realidade. E atraídos por vínculos invisíveis, se congregam em associações e confrarias como única opção de sobrevivência contra a homogeneizante geléia cultural. Claro que existem os solitários, zelosos de sua própria solidão e do seu destino singular. Mas há também e, em maior número, os que se buscam no convívio societário e mantêm relações nem sempre fáceis, porque são seres plenos de si mesmos.
Somos assim e paradoxalmente seres ímpares entre pares, num convívio polêmico de desafins, porque de afins somente a semelhança da nossa indiferença ao trivial. Afinal, neste final de século, marcado pela globalização e pela clonagem, onde a velocidade das mudanças tecnológicas não é acompanhada de uma madura reflexão filosófica, a dolorosa conquista da individualidade deve ser preservada a qualquer custo. Se, hoje, fabricamos robôs que parecem homens, estamos, em contrapartida, modelando homens à semelhança de robôs na oficina perversa da mídia irresponsável.
A Academia não é apenas o depositário fiel das tradições culturais e das conquistas científicas, mas o ambiente propício ao exercício do diálogo e da reflexão, visando o desenvolvimento sempre crescente do potencial humano. O homem, como dizia Sartre, é o que ele faz de si mesmo e, portando, destinatário final de suas próprias ações. O seu destino e missão se modelam na oficina do seu cotidiano, onde o passado se faz matéria prima na confecção do presente com vista aos desafios do futuro.
Chego até vós, senhores acadêmicos, por vossa vontade e pleito meu, principalmente pela indicação de um de vós que, por emérito, me cedeu seu lugar em condomínio. Daí, o meu dever, não apenas estatutário, mas fraterno, de saudá-lo em meu ingresso neste sodalício.
Nicolino Limonji, hoje na década dos oitenta, conserva o mesmo vigor intelectual dos anos da juventude. Acostumamo-nos, ele e eu, aos passeios matutinos e peripatéticos no parque da Jaqueira, em busca de uma permanente oxigenação dos nossos corpos e dos nossos espíritos. Afinal, toda a existência não passa de um caminhar por estradas nem sempre físicas e por veredas invisíveis ao prosaico caminheiro.
Médico formado em 1940, Nicolino se fascinou não apenas pelos mistérios do organismo humano, mas, notadamente, pelas peculiaridades de seu processo de crescimento, o que o levou a dedicar-se à Puericultura e à Pediatria. Talvez, porque, no íntimo, Nicolino preservou intacta a singeleza da criança, como uma espécie de anjo da guarda ou guia espiritual, nas suas relações com o mundo atribulado e competitivo dos adultos. Daí, por certo, a explicação de sua higidez física e intelectual, do seu paladar aguçado pelos sabores da vida.
Embora servidor federal, não se deixou burocratizar, mesmo assumindo cargos de direção, pois via no serviço público a oportunidade de aproximar-se não do homem metafísico, mas do homem concretamente biológico, sensorialmente social e tão densamente real. Do homem gemente e sofredor à míngua de um gesto de compreensão para o alívio de seus males, além da prescrição de convencionais analgésicos.
O seu arraigado espírito associativo o levou ao convívio acadêmico de instituições literárias, artísticas e científicas, como a Sociedade de Pediatria de Pernambuco, a Sociedade Brasileira de Pediatria, a Sociedade de Higiene de Pernambuco, a Sociedade de Medicina de Pernambuco, a Academia Pernambucana de Ciências, a Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro e a Academia de Artes e Letras de Pernambuco.
Escritor e poeta, Nicolino é ainda um profundo conhecedor da música clássica e, embora casado, conserva um ar monástico e um espaço físico pessoal para se dedicar diariamente ao seu ofício de esteta.
Ávido pelo saber, Nicolino sempre procurou conciliar a rigidez do conhecimento científico com a sabedoria dos ensinamentos espirituais, numa simetria perfeita que caracteriza a sua personalidade.
Rejubilo-me, por isso, em sentar-me à cadeira sodalícia que, de fato e de direito, a ele pertence e principalmente de saudá-lo na presença dos companheiros da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, a que passo, nesta solenidade, formalmente a pertencer, assumindo, o compromisso de batalhar, até o limite da minha força e competência, pelo engrandecimento cultural de Pernambuco.
Finalmente, resta-me saudar o patrono da cadeira, o poeta Antônio Carlos de Medeiros, autor de dois livros inéditos, intitulados “Plenilúnio” e “Enigmas do Tempo e da Distância”, onde revela a sua preferência e sua força criativa maior na composição do soneto. Alguns de seus trabalhos foram publicados esparsamente no “Jornal do Commercio”, “Folha da Manhã” e “Correio do Povo”.
Antônio Carlos, especializado em Contabilidade Mercantil, trabalhou na firma Leon Cherpack e, mais tarde, tornou-se proprietário da Movelaria Nobre, então situada à rua do Aragão, no bairro da Boa Vista. Conciliava, assim, a pragmática do comércio das coisas materiais com o exercício penoso e gratuito das construções estéticas. Devoto de Hermes ou Mercúrio, o deus do comércio, também era adepto das Musas e zeloso guardião do seu culto, de onde recolhia a inspiração necessária para o desempenho de atividades tão contraditórias. Foi diretor de “A Flâmula”, um periódico literário que, em 1921, circulou no bairro da Encruzilhada.
Nicolino Limonji, que lhe traçou o perfil psicológico, o descreve como um homem tímido, simples, intuitivo e de decisões rápidas, gentil no trato, mas de uma franqueza, às vezes, contundente.
Antônio Carlos era também um adepto da música erudita, tendo em Schumann, Bach e Mozart os seus compositores prediletos e, ainda, leitor assíduo de livros de Mitologia, de História Antiga, de Sociologia e de Filosofia.
Falecido precocemente de edema pulmonar aos 51 anos de idade, Antônio Carlos de Medeiros imortalizou-se como patrono da cadeira no 7 da Academia de Artes de Letras de Pernambuco como prêmio póstumo de reconhecimento pela sua dedicação à cultura em geral e à literatura, notadamente a poesia, em especial.
Este duplo panegírico não constitui apenas uma exigência protocolar e estatutária, mas um reconhecimento explícito do valor pessoal dos homenageados. Se Deus reservou a imortalidade a cada ser humano em particular, as Academias se reservaram ao direito de conceder uma segunda imortalidade, agora de natureza formal, a cada um de seus membros, transubstanciando-lhe a carne em símbolo para preservá-los incorruptíveis na memória das gerações vindouras.
(*) Discurso de posse, proferido na Academia de Artes e Letras de Pernambuco, no dia 18/03/98.


Solenidade de posse