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Os Brinquedos. Comentários.

Mário Melo.

Coluna "Ontem, Hoje e Amanhã", da Folha da Manhã, edição vespertina, de 29 de setembro de 1954

 

Se tivesse nascido há cinquenta anos e alcançasse um restinho do romantismo, Válter da Rosa Borges, que agora se estréia com um opúsculo de poesias ­"Brinquedos"- entraria logo para a galeria dos poetas.

Tem para isso todas as qualidades, mas a época e o meio o estragaram, de modo que se no seu livro há poesias verdadeiras, com os requintes da Arte, o autor sentiu necessidade de cortejar os que julgam poesia as linhas em que os cânones são escoiceados.

E é pena. Resta a esperança de que, com a maturidade, tenha forças para reagir e trilhe somente o bom caminho, deixando as veredas escusas.

Vejamo-lo num soneto estraído da parte boa do livro:

Notivagando pela vida inteira

Tentas fugir da luz como vampiro,

Buscando a negra noite em teu retiro,

Na mais completa e lúgubre cegueira.

 

Buscas achar no teu noturno giro

Restos de amor no corpo da rameira,

 Tentando dar ao teu triste suspiro

Toda a expressão de uma ânsia verdadeira.

 

E nestas rondas, pelas horas mortas,

Vives da Noite, pelas negras portas,

Na tua vida tão vazia e triste.

 

Inútil vagarás triste e sozinho

E morrerás um dia no caminho

Sem contemplar a luz que nunca viste.

      Quem sabe moldar um soneto de tal quilate não precisa de cortejar a escola dos incapazes, que justamente por lhe faltarem requisitos essenciais, baseados na inspiração e na Arte, é que fingem desprêzo pelo que a Poesia tem de mais precioso.

 

Um Poeta da Atualidade

 

Evangelina Maia Cavalcanti. Diário de Pernambuco de 26 de setembro de 1954.

 

Valter da Rosa Borges é um jovem de valor incontestável: seus versos entram em nossa alma como os sentimentos bons, como a inspiração poética, como o amor, como a felicidade... Os seus versos são fluentes e encantadores e tomam conta de nós sem sabermos bem o porque de tal invasão.

É a verdadeira poesia, esta poesia que toma conta do nosso coração. Esta é a sua poesia, Valter.

Tenho a impressão de que você leu muito os grandes mestres e se impregnou a. tal ponto dos seus ensinamentos que agora transbordante de boa seiva nos faz presente de "Os Brinquedos", onde encontramos poesias lindas como: "Menino Pobre", "A Bilac", "Ela e a Canção", "Calvário", os três sonetos sobre o sono e este com que abre o livro:

 

"... E me fiz fabricante de brinquedos...

Então usei as tintas coloridas

Das emoções talvez desconhecidas,

 Dando aparência e cor aos meus segredos.

 

"Depois eu fabriquei bonecos raros,

 Vestidos das mais ricas fantasias,

Bordados de ilusões, bonecos caros,

feitos na forma dos felizes dias.

 

"Também fiz uns brinquedos esquisitos,

Outros feios até, sem forma e côr,

Feitos dos mais íntimos conflitos.

 

"E embebido que fui nestes folguedos,

Convenci-me, por fim, que era inventor

E me fiz fabricante de brinquedos. "

 

"Os Brinquedos" é o pequenino livro de um poeta de vinte anos! Cheio dos sonhos os mais belos, cheio das ilusões todas que povoam os cérebros juvenís! Eis mais uma amostra para o julgamento dos leitores:

 

"Tá quente ou frio?

E Maria

Respondia:

"Tá quente!"

E eu achava o que ela escondia, de repente.

 

Era boa a brincadeira

do meu tempo de menino. Mas o Destino

quiz brincar de outra maneira. E escondeu a Felicidade, bem escondida,

num lugar ignorado

da minha vida.

 

- Tá quente ou frio?

No entanto,

por mais que assim a procure, por tantos anos a fio,

 

escuto sempre o Destino a responder implacável:

 

- Tá frio!

 

Embora a sua inspiração seja de fonte moderna, os seus versos têm boa forma, cadência, inspiração sadia.

 

Valter, o seu livro de estréia é uma confirmação do que você nos poderá dar em futuro bem próximo obras de grande valor.

Não posso furtar-me ao desejo de transcrever para os queridos leitores mais êste sonêto originalíssimo:

 

SONETO DO SONO

 

"Fecha as portas dos olhos para o mundo

E transpõe o palácio das Quimeras.

Aqui reside o Sonho: o que antes eras

Esquecerás de tudo num segundo.

 

"Aqui não rugem traiçoeiras feras,

Aqui não mora o vício, o charco imundo

Não pesteia o seu hálito iracundo,

 Nem polúi o frescor das primaveras.

 

"Cerra bem forte o trinco das pestanas

Para que as hordas das paixões humanas

Que gritam lá de fora, exasperadas,

 

"Não penetrem jamais em seus salões

 Para que assim as tuas ilusões

Não sejam brutalmente assassinadas. "

 

E mais esta, tão profunda quanto humana, moderna poesia "Balada do Homem Triste":

 

"Havia sangue na voz do homem triste, que morava nas horas do Dia,

numa ponte,

numa escada,

ou nos degráus de uma igreja,

com as mãos cheias de fome

aberta à chuva parca de dinheiro.

Do homem que morava principalmente nas horas do Dia

e dormia incertamente

nalgum lugar da Noite.

Havia sangue na voz do homem triste do homem que um dia morrerá

sem saber de que.

Do seu viver, talvez, nem reste o nome, pois nem nome talvez tenha este homem que sabe que vive porque sofre, pois que a dor é a sua única identidade."

 

Gostei sinceramente d' "Os Brinquedos", pois com a sua leitura leve e agradável tive momentos de grande prazer espiritual.

Felicito ao Poeta, agradecendo a sua generosa oferta e aguardando com ansiedade novas mostras do seu espírito privilegiado".

 

Os Brinquedos

 

Augusto Bordoux.Coluna "A Crônica dos livros" da Folha da Manhã, edição vespertina, de 27 de abril de 1955.

 

O livro de estréia do jovem Valter da Rosa Borges, lançado no ano passado pelo "Grêmio Cultural Joaquim Nabuco" foi bastante aceito em nossos meios literários. É um livro composto de poesias formadas d'alma do poeta. Um livro possuidor de raros exemplos das poesias pernambucanas. Apresenta o poeta, em sua infância, na

idade da puberdade e na adolescência. As poesias do Valter da Rosa Borges têm um colorido diferente, humano como os sonetos do inesquecível Augusto dos Anjos. As três diferentes classificações que citei há pouco são inconfundíveis - na infância vemos o poema: "Tá quente ou frio?"

 

"- Tá quente ou frio? E Maria respondia - Tá quente"

 

E eu achava o que ela escondia de repente.

 

Era boa a brincadeira

do meu tempo de menino. Mas o destino quiz brincar de outra maneira. E escondeu a felicidade, bem escondida,

num lugar ignorado

da minha vida.

 

- Tá quente ou frio?

No entanto,

por mais que assim procure por tantos anos a fio escuto sempre o Destino a responder-me implacável: T á frio!

 

Sonetos, sonetos bem lembrados de um passado. O jovem Valter procurou conquistar a arte expandindo seus pensamentos, procurando apresentar o que sentiu de sua vida, desde pequenino até nesses dias de adolescência. No soneto "Os brinquedos", o poeta traduz perfeitamente o livro que compôs. É uma poesia clara e modesta:

 

"- E me fiz fabricante de brinquedos...

Então usei as tintas coloridas

Das emoções talvez desconhecidas,

 Dando aparência e cor aos meus segredos.

 

Depois eu fabriquei bonecos raros,

Vestidos das mais lindas fantasias,

Bordados de ilusões, bonecos caros,

Feitos na fôrma dos felizes dias.

 

Também fiz uns brinquedos esquisitos,

Outros feios até, sem fórma e côr,

Feitos dos meus mais íntimos conflitos.

 

E embebido que fui nestes folguedos,

Convenci-me, por fim, que era inventor

E me fiz fabricante de brinquedos.

 

Nestes dois sonetos que apresento nestas colunas podemos apreciar o valor literário deste jovem poeta. O livro "Os Brinquedos" é o início da carreira de um dos futuros grandes poetas de nossa metrópole."

 

Jornalista Edmundo Morais, em depoimento prestado ao Correio do Povo, no dia 17 de outubro de 1954, sobre o movimento literário de Pernambuco.

Nêsse deserto de inteligências, poucos se salvam. Na poesia, sem demérito para os demais, quero destacar o Carlos Pena Filho, sem dúvida a nossa mais bela vocação poética. C. Moreira e Cezário de Mélo, em outro estilo, e ainda Mauro Mota completam o quarteto. E só. Entre os novíssimos, apareceu Valter da Rosa Borges, cujo "Os Brinquedos", recentemente lançado, se constitui numa esperança.

"Nilton Combre, no ensaio, dêle muito se pode

esperar. Pena que a modéstia tolha os seus passos. E, naturalmente, o pequeno grande Evaldo Cabral de MeIo, que nem o amor pelas Vanjas conseguiu embotar sua sensibilidade e seus conhecimentos. Abdias Cabral de Moura Filho, que do ginásio se revelára, é outro que faço questão de destacar.

 

Ilustrações de Wilton de Souza no livro Os Brinquedos