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O Grande Júri. Uma Experiência Cultural e Científica em TV Educativa.

 

O Grande Júri, programa que criei, produzi e apresentei na TV Universitária Canal 11, representou, para mim, uma inesquecível e empolgante experiência intelectual, compartilhada com as pessoas mais expressivas da inteligência pernambucana. Semanalmente, durante quase quatorze anos, com algumas breves interrupções, O Grande Júri constituiu uma opção real na televisão do nosso Estado e um território livre para a discussão de temas polêmicos, nas mais diversas áreas do conhecimento, até daqueles considerados como tabus. Mesmo em pleno regime militar, em nenhuma ocasião, o programa sofreu qualquer tipo de censura, quando discutiu criticamente temas ligados à política brasileira da época.

            Fruto do reitorado do Prof. Murilo Guimarães e diligentemente dirigida pelo Prof. Manoel Caetano Queiroz de Andrade, a TV Universitária começou a prestar um inestimável serviço à comunidade no campo da educação formal e informal, obtendo prestígio e respeitabilidade, principalmente por se tratar de uma emissora sem os recursos técnicos necessários para se tornar uma televisão competitiva. E O Grande Júri passou a ser uma opção real por se diferenciar, qualitativamente, dos programas apresentados pelas televisões comerciais. Assim, durante mais de uma década de existência, a TV Universitária Canal 11 teve em O Grande Júri o seu maior referencial cultural e científico, revelando ao público as personalidades mais destacadas da vida intelectual de Pernambuco.

            Procurei, de maneira objetiva e sintética, registrar essa pioneira experiência televisiva, que proporcionou um encontro semanal entre intelectuais e telespectadores na discussão de temas da mais alta significação filosófica, científica, religiosa e cultural. Apesar de seu alto nível, o programa alcançou todas as classes sociais pela seriedade e profundidade dos temas abordados. Pude constatar esse fato pelo conteúdo da farta correspondência, que me era enviada pelos telespectadores, fazendo comentários sobre os temas abordados e sugerindo assuntos para debates. Ainda hoje, passados vinte e quatro anos do término de O Grande Júri, sou abordado, vez por outra, por pessoas que assistiam ao programa para, saudosamente, me falarem sobre ele.

            Como a quase totalidade dos programas de O Grande Júri era ao vivo, e os gravados, posteriormente, apagados, tive de me valer dos meus apontamentos e de minha memória, assim como dos jornais da época, para a reconstituição, infelizmente incompleta, dos temas debatidos e a relação dos nomes de seus participantes.

            O meu propósito, portanto, ao escrever este livro, foi o de preservar a memória de um programa que, talvez um dia, mereça ser considerado um patrimônio imaterial da TV Universitária Canal 11, da Universidade Federal de Pernambuco e do Estado de Pernambuco.

Valter da Rosa Borges

APRESENTAÇÃO

O ser humano é o único na face da terra que possui as condições de efetuar a leitura de todas as coisas do mundo, no entorno do seu “Habitat”. Assim, na interpretação desta leitura, a sua capacidade de criar se amplia, dia a dia, no exercício desta vivência, com o animado e o inanimado, o racional e o irracional.

O Prof. Valter da Rosa Borges, além dos seus predicados naturais, carrega, no seu caminhar entre nós, uma capacidade criativa, desenvolvida e alimentada pela formatação do associativismo, que lhe é peculiar. No seu dia a dia, ele se dedica a estudos multidisciplinares e pesquisas de fenômenos psíquicos, envolvendo-se, também, com atividades que contribuam para o desenvolvimento da cultura e da ciência em Pernambuco.

Na sua caminhada e na leitura e interpretação das coisas do mundo ao seu redor, o Prof. Valter da Rosa Borges criou, organizou e dirigiu o programa O Grande Júri na TV Universitária Canal 11, da Universidade Federal de Pernambuco, no período de 1967 a 1984.

Fui, naquele tempo, um dos assíduos telespectadores de O Grande Júri, vibrando ao assistir, em cada programa, os debates sobre os temas mais variados da cultura e da ciência e que vieram contribuir para o enriquecimento dos conhecimentos não só de quem o assistia como de quem, nele, tomava parte.

Hoje, não mais como telespectador, porém no desempenho, com muita honra, das funções de Presidente da APC – Academia Pernambucana de Ciências, quero prestar o meu testemunho da brilhante trajetória de O Grande Júri, que inspirou a fundação, em 1978, daquela instituição, pelo Prof. Valter da Rosa Borges e por algumas das destacadas personalidades que participaram, ativamente, do referido programa.

Os méritos do Prof. Valter da Rosa Borges, não ficaram só neste fato. Em 1973, ele fundou o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas - IPPP -, uma instituição que tem por objetivo o estudo multidisciplinar da mente humana, principalmente no campo da parapsicologia, e que vem prestando inestimáveis serviços à comunidade pernambucana, nordestina, com extensão para o Brasil e o exterior.

Este livro, que relata a história de O Grande Júri, revela, em seus textos e fotos, o valor e a objetividade de um homem dotado de capacidade criativa e associativa, que sabe transformar em realidade os seus sonhos e os seus ideais, e colocá-los a serviço da comunidade.

Prof. Waldecy Fernandes Pinto

Arquiteto e Urbanista. Presidente da Academia Pernambucana de Ciências. 

 

NA ÉPOCA DO PROGRAMA

JORNAL UNIVERSITÁRIO, da Universidade Federal de Pernambuco

Julho de 1977

O GRANDE JÚRI

Vem a Televisão Universitária Canal-11, de há muito, oferecendo uma opção aos telespectadores mais exigentes, notadamente em matéria de nível cultural: o Programa o Grande Júri, sob a coordenação do Dr. Walter Rosa Borges, igualmente o seu idealizador. Inicialmente levado ao ar às sextas­-feiras, agora é aos sábados, a partir das 21 e 30 horas, mudança que veio, certamente, atender à expectativa da maioria dos seus telespectadores.

Trata-se, indubitavelmente, de uma boa opção, posto que a Coordenação do Programa tem sabido escolher com acerto os temas e respectivos debatedores. Impõe­-se o Grande Júri como grande contribuição no que concerne ser uma tribuna de debate e análise de temas relevantes, de interesse da comunidade pernambucana, mormente a universitária - a par do seu elevado nível, encaixando­-se por isso mesmo dentro das perspectivas - de uma televisão verdadeiramente educativa.

Dizer-se, aliás televisão educativa, parece redundância, pois, a rigor, todo canal de televisão deve ser concebido como tal, sob pena de desviar-se dos seus reais objetivos. Infelizmente, no Brasil ocorre exatamente o contrário. A maioria das televisões - para não dizer quase todas - pouco ou quase nada contribui para melhorar o nível educacional do povo. Muito pelo contrário, deseducam, disseminam a violência, mantém programas de baixo nível, proliferam as tentadoras novelas, etc.

Fazer jogadas mirabolantes, de forma a bater o concorrente, caminho pelo qual se atraem os grandes patrocinadores - consiste no faturamento o grande sonho e conquista desses canais de comunicação social -, eis o que importa, mesmo que tal procedimento implique, como de fato implica, no baixo nível e mau gosto da maioria dos programas. O que afasta dos vídeos considerável parcela da população - os que conseguiram atingir certo nível cultural. Entre estes, estão os assíduos telespectadores do Canal­-11, principalmente os do Grande Júri. Ficam, mesmo assim, restritos a essa única opção.

Assim é que programas como o Grande Júri merecem apoio e aplausos de todos. Não tem o Dr. Walter Rosa Borges medido esforços no sentido de focalizar temas relevantes e reunir, em torno deles, nomes de destaque, em todos os setores do conhecimento e atividades, quer de Pernambuco, quer de outros Estados da Federação. Embora relacione também assuntos de caráter técnico, científico, religioso e até mesmo filosófico, grande parte dos temas discutidos pelo Grande Júri pode ser assimilado pelo público em geral - e para isto os debates e informações são conduzidos em linguagem acessível, dentro mesmo dos padrões que caracterizam um canal de comunicação social.

Mesmo assim, mantém-se o princípio de fazer com que o telespectador menos esclarecido, ou menos preparado nesse ou naquele assunto, ascenda ao nível do Programa, e não ao contrário, o que conflitaria com os objetivos que devem nortear os programas e metas dos veículos de comunicação social, principalmente os chamados, segundo Marshall Mcluhan, “canais frios”. E a televisão está incluída nessa relação, na concepção mcluhana.

Tem reunido o Grande Júri professores, estudantes, dirigentes universitários, técnicos, cientistas, autoridades governamentais. Cada um oferecendo sua contribuição pessoal, quer no esclarecimento, quer manifestando pontos de vista acerca de assuntos de interesse geral. Para se ter uma idéia, ultimamente, temas como divórcio, enchentes do Capibaribe, segurança do trabalho, entre outros, foram levados à tribuna do Grande Júri, suscitando debates empolgantes. Sob a coordenação segura e inteligente - e por que não dizer versátil - do Dr. Walter Rosa Borges.

Serve, portanto, de exemplo, para que os responsáveis pelos canais de televisão procurem, na medida do possível - e isto é possível - melhorar o nível dos programas. Enganam-se os que pensam ser o povo brasileiro um povo de mau gosto em matéria de televisão. É como dizem: macaco só gosta de banana porque só lhe dão banana...

 

DÉCADAS DEPOIS

REINALDO DE OLIVEIRA (*)

         A Televisão tem sua magia. Seu poder. Tanto promove um artista como o enquadra no reino da mediocridade. A força dos diretores das emissoras e a influência do público telespectador podem ditar o destino de um produtor, apresentador ou programa. Os que atingem o gosto dos amantes da TV, perduram. Os que não conseguem prender a atenção desaparecem mais cedo do que se imaginava.

         Se recuarmos no tempo para 20 anos atrás, vamos encontrar o telespectador que gostava de Cultura, ligado ao Canal 11, da TV Universitária, às sextas-feiras, para assistir a O GRANDE JÚRI. O programa tinha como criador e apresentador, Valter da Rosa Borges, ligado às coisas do Direito e, principalmente, aos poderes da mente e da inteligência. Escolhido o assunto, passava a convidar expoentes intelectuais de nossa cidade para compor a Mesa do Júri na qual o assunto era esmiuçado, debatido e, finalmente, exposto nos seus resultados, tal e qual uma sentença de jurados. A habilidade com que era conduzido, exigindo dos debatedores o máximo de suas argumentações, prendia o público cativo que já esperava pela outra semana no sentido de se enriquecer mais. O GRANDE JÚRI assumia um papel de seminário, onde cada um dos seus componentes abordava a questão escolhida, sob sua óptica, formando, ao final, um mosaico explícito, facilmente captável pelo telespectador.

         Advogados, médicos, psicólogos, engenheiros, teatrólogos, escritores, folcloristas, pensadores, filósofos, botânicos, técnicos, professores, políticos, sentiam-se honrados em poder participar de um programa cultural daquela categoria. Quantas vezes vimos depoimentos de um Orlando Parahym, de um Valdemar de Oliveira, de um Valdemar Valente, de um Mário Souto Maior, de um Lourival Vilanova, de um Vasconcelos Sobrinho, de um Potyguar Matos, de um Alfredo de Oliveira, de um Hermilo Borba Filho, de um Bezerra Coutinho, de um Pessoa de Morais, de um Berguedoff Elliot, de um Roberto Mota, de um    Othon Bastos, de um Nelson Saldanha, de um José Lourenço de Lima, de um José Rafael de Menezes, de um Antônio Brito Alves, de um Salustiano Lins, de um Fernando Pio dos Santos de um Vanildo Cavalcanti, de uma Maria do Carmo Tavares de Miranda, de um Paulo Maciel e, até mesmo, de mim, quando solicitado, para valorização de meu currículo. Eram duas horas inteiras, quando não se estendia, a pedido do público, por mais tempo, de exibição de conhecimentos e de sagacidade dos jurados. Ali foram julgados assuntos antigos e da atualidade de então, com julgamento de pessoas ou personagens da História, de peças ou filmes. Foram analisados crimes, decisões governamentais, atitudes pessoais de autoridades nacionais ou estrangeiras, com a participação telefônica do povo que se sentia importante ao intervir. O entusiasmo dos debatedores exigia o pulso firme do condutor para serenar os mais exaltados, em benefício do telespectador.

         Foram quase 12 anos de sucesso. Já dizia Oscar Wilde que “é fácil simpatizar com os sofrimentos de um amigo. Simpatizar com os seus triunfos, exige um coração muito nobre”. Foi essa nobreza que faltou aos dirigentes da TV Universitária. O sucesso do programa começava a incomodar e, sendo de cultura, maioria de razões para que fosse, aos poucos, desativado. O público da cidade foi surpreendido, sem entender como se podia tirar de audiência certa, a aula semanal que O GRANDE JÚRI se constituía.

         Fui um mero participante e telespectador privilegiado. Porém fui, também, uma vítima da inaceitável atitude de encerrar o programa, tirando-o do ar. Do ar e da terra, onde os acostumados ao vício do bom, se viram privados do belo hábito.

         Sei que Valter da Rosa Borges está organizando um livro sobre a memória de O GRANDE JÚRI. Quem sabe, com a prova em mãos, ou nos olhos, os atuais dirigentes da TVU não se reanimam a promover a reentrada de O GRANDE JÚRI na sua grade de programação? Seria muito bom para os que são obrigados a padecer diante das programações de baixo nível impostas, compulsoriamente, ao público, em novelas ou apresentações medíocres.

         O GRANDE JÚRI fixou o seu nome na história da TV pernambucana, colocando seu criador e apresentador, Valter da Rosa Borges, no patamar invejável de sua inteligência.

(*) Médico e membro da Academia Pernambucana de Letras

 

 

NIVALDO MULATINHO (*)

Frank Sinatra é um crápula! Foi o que disse o professor universitário, bem conhecido na TV Universitária, quase agarrando o meu pescoço, depois de ver as imagens coloridas da gravação. Ele não tinha aprovado O Grande Júri sobre o cantor norte-americano, programa do qual participei ao lado de Aírton Cavalcanti, Geraldo Casado e outros sinatrófilos. Era o final da década 70, uma época em que o programa de Valter da Rosa Borges, com uma forma mais livre, consolidava o seu prestígio, sua audiência, sua singularidade. O professor, que gostava de falar alemão e de participar dos debates na emissora da Universidade Federal de Pernambuco, tinha muitos ciúmes e inveja do programa. Outros também tinham.

Certos livros valem toda uma Literatura. Certos programas de TV são o registro ímpar de uma luta por renovações culturais - que são, por sua natureza, sempre lentas - renovações processadas em uma área onde ainda imperam, sem dúvida, infelizmente, a mediocridade, a imitação, os apelos comerciais espúrios. Poderemos ter uma televisão melhor, mais digna e mais criativa (aberta ou paga, pública ou comercial), acompanhando a história, registrando as fases e os contratempos de um programa como O Grande Júri, embora, a meu ver, este programa só tenha existido, principalmente na época em que existiu, em razão da personalidade do seu criador e apresentador.

Valter da Rosa Borges – poeta, filósofo, jurista – era capaz de reunir os talentos mais diversos (especialistas, professores, artistas) e estimular os debates e as reflexões, sem fazer direcionamentos ideológicos. E tudo no programa começava (e terminava) na principal virtude do seu produtor e apresentador: a honestidade intelectual.

Sem imitar ninguém, com o seu estilo e a sua liberdade de pensador, Valter exercia o comando ao mesmo tempo erudito e democrático do programa, como bem registrou Roberto Mota, um dos seus melhores debatedores.

Com ele, e em razão dele, todos os temas relevantes podiam ser debatidos. Seriamente, exaustivamente, com o sabor do saber.

Frederico Pernambuco de Mello trouxe iluminações para todos em O Grande Júri sobre o já fascinante e com-plexo tema dos cangaceiros e do banditismo no Nordeste. E o professor José Rafael de Menezes estava em um dos seus melhores momentos de reflexão política quando fez audaciosas colocações, em um dos programas de mais intenso e empolgante debate, sobre as pequenas vitórias e os bem largos fracassos da emblemática Revolução Francesa.

Todos têm os seus programas preferidos, na bela e singular trajetória de O Grande Júri. Seu criador, que tinha uma paixão viva no comando de todos eles, merece a nossa justa homenagem, a nossa gratidão.

(*) Nivaldo Mulatinho é Juiz de Direito.