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MORTE

 

Por que esperar a morte? A morte é uma visita inesperada.

 

 

Nascer é uma aquisição
em meio à luta feroz
de milhões de seres possíveis.

Morrer é uma perda solitária

 

 

Um dia, todos seremos

um dos bilhões de esquecidos

que tinham a ilusão

de continuarem lembrados.

 

 

A morte nada significa: ela é a extinção de todos os significados.

 

 

Não há quem morra de todo, no dia de sua morte.

O que era corpo agora é sonho dos que permanecem vivos.

 

 

O mundo é feito por nós.

Nós somos os nós do mundo

e em tudo estamos atados.

 

O eu sem nós não existe.

 

A morte é o eu desatado.

 

 

 

Falamos do que não sabemos,

porque a morte nos espanta

e dói a mortalidade.

 

O que é ser imortal?

 

 

 

A morte cessa todas as perguntas,

porque ela é a última resposta

dada a quem agora já não é.

 

 

Esqueça de que serás sempre lembrado,

porque os que te lembram são mortais

e tudo se desfaz na Eternidade.

 

 

O esquecimento é maior que a morte,

porque termina o que a morte começou.

 

 

As pessoas morrem duas vezes: morrem no corpo e na memória dos vivos.

 

 

De tudo somos possuídos:

coisas, pessoas e idéias.

Mas só a morte nos possui de vez.

 

 

Aprendemos a morrer
quando o dormir é profundo
e não há sonhos lembrados.
Na insônia, a vida resiste.

 

 

 

Quem morre não sonha mais:

agora é sonho dos outros.

 

 

 

Eu sou serei definitivo

quando morrer.

 

 

 

Na morte, a visão são olhos
de ver em outro lugar.

 

 

Aonde vai quem morreu,
quando o seu onde perdeu?

Onde está quem não está
seja aqui ou seja lá?

Se o quem se fez invisível,
agora é carne impossível,
sem onde e quando, desfeito
no nada de que foi feito.

 

 

 

Só os mortos não mudam.
deserdados do futuro,
exilados do presente,
são imagens estéreis,
que não mais se reproduzem.
Só os vivos são férteis,
gerando suas imagens
constantemente no mundo.

 

 

Ninguém vai chorar por você,
mas pela falta que você fará,
a companhia e a presença,
o tempo compartilhado,
os espaços preenchidos,
seu ouvido disponível,
sua voz consoladora.

A morte destrói o corpo,
não o amor que ficou,
embora em dor e saudade.

 

 

Um dia, morreremos
(ou acordaremos?).
E, se acordarmos,
o que seremos?

 

 

O vento sopra impetuoso,
vergando a copa das árvores.

As folhas caem no chão:
folhas secas, folhas verdes.

Por que não somente as secas?

 

 

Quem morre não é, está onde

não existe qualquer lugar.

 

Deixou de ser quando e como

e do seu ser não se sabe

além do que antes foi.

 

Quem morreu, saiu do tempo:

não foi, não é, nem será.

 

 

 

Se sabes o que é a vida,

sabes o que é a morte

 

Se sabes o que é a morte,

sabes o que é a Vida.

 

Qual das duas tu sabes?!

 

 

 

O moribundo é o maior

de todos os seres vivos.

 

Iniciou-se na morte.

 

Pontífice de dois mundos,

todo seu ser é discurso,

de intraduzíveis segredos

de coisas que nunca soube.

 

Seus olhos agora enxergam

Como jamais enxergaram.

 

Mais que homem, é pausa

Entre o  ser e o não-ser.

Um deus nascendo da morte

Da crisálida humana.

 

E, de repente, o mistério

do não-ser invade o quarto

 

Só existe agora o corpo

Como estação solitária.

 

 

Fascina-me a morte. O que será não-ser?

 

 

Para quem se desligou de tudo, a morte de nada o privará.

 

 

  Morremos duas vezes: no corpo e na memória dos vivos.

 

 

Não há lugar para os mortos em qualquer lugar do mundo. O morto é um ser virtual.

 

 

Onde estão aqueles que viveram antes de mim?

Onde estão aquele que conviveram comigo e já morreram?

Todos estão onde não há onde.

 

A morte é o ser pelo avesso.

 

Tudo o que sabemos sobre a morte é o que testemunhamos da morte dos outros. E a morte dos outros não nos ensina sobre a nossa futura morte: é mera constatação da nossa mortalidade biológica.

 

            A nossa morte será a única perda que não sentiremos.