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VALTER DA ROSA BORGES. MEDITAÇÕES DO ENTARDECER. 2003.

 

Despertar (?)

 

Um dia, morreremos

(ou acordaremos?).

 

E se acordarmos,

o que seremos?

 

 

Cirurgia

 

A nossa razão cirúrgica

divide o indivisível,

separa o inseparável,

busca o vivo repartido,

mas só encontra o cadáver.

 

 

Agora e depois

 

No agora não há palavras:

o que se fala, passou.

A palavra é sempre eco

do que não existe mais.

 

A percepção é agora.

O pensamento é depois.

 

 

 

O corpo nada mais é

do que pó organizado.

 

O homem é pó pensante.

Sai do pó e volta ao pó.

 

Aonde vai o pensamento

se a alma não for o pó?

  

 

Libertação

 

É necessária sempre uma abertura,

um alçapão aberto para o céu

para que o sonho escape da vigília

e a vida não definhe entre paredes.

 

É preciso que os olhos vejam luz,

não se acostumem nunca à escuridão.

 

A razão pode ser o carcereiro,

impondo à vida as regras da prisão.

 

 

Os Outros

 

Nem sempre vemos os outros,

nem também o que eles fazem.

E, no entanto, eles convivem

conosco todos os dias.

 

Rotinas são invisíveis.

 

Pessoas e coisas somem,

ainda que estejam presentes.

Não ouvimos o que falam.

Passam por nós como sombras,

fantasmas antecipados.

 

Só quando morrem lembramos

que conviveram conosco:

a ausência os faz presentes.

E sentimos sua falta,

a sua presença ausente

na ausência irreversível.

  

 

Visão

 

A visão é maior que os olhos:

o real é mais do que o visto.

 

Os olhos nos prendem à vida,

que é nosso modo de ver.

 

Na morte, a visão são olhos

de ver em outro lugar.

 

 

Ausência

 

Ninguém vai chorar por você,

mas pela falta que você fará,

a companhia e a presença,

o tempo compartilhado,

os espaços preenchidos,

seu ouvido disponível,

sua voz consoladora.

 

A morte destrói o corpo,

não o amor que ficou,

embora em dor e saudade.

 

Lembrança é quase pessoa,

vagando por toda a casa,

perfume das coisas órfãs,

gemendo em cada lugar.

 

 

Perfil - I

 

Não me deixo levar aos empurrões.

A vida, para mim, é desafio.

Estou sempre passando como o rio.

Eu sou a paz instável dos vulcões.

 

Às vezes, sou inverno em pleno estio

e, brisa, me converto em furacões,

galopando por mares e sertões,

vivendo em lucidez e desvario.

 

Singular e plural, contraditório

e coerente, agito-me e descanso

entre as fímbrias do real e do ilusório.

 

A minha crueldade me faz manso.

A minha mansidão me faz feroz.

Descubro, no silêncio, a minha voz.

 

 

Perfil - II

 

A tantas coisas já não me permito

e a outras tantas já não me oponho.

Às vezes, sou real como o granito

e em outras inconsútil como o sonho.

 

Ora sou explosivo como o grito,

mas logo de silêncios me componho.

Ora me sinto alegre, embora aflito,

e mesmo na tristeza estou risonho.

 

Convivo na incerteza em meio à fé

e tudo espero do que desconheço.

Porque duvido, me mantenho em pé.

 

Em dúvida e fé pago meu preço.

Agnóstico e crente concilio

a minha plenitude e o vazio.

 

 

Eu mesmo

 

Por mais que me transforme, sou eu mesmo.

 

O passado que trago em cada célula

se extingue em cada célula que morre,

renasce em cada célula que nasce.

 

Eu sou a minha hereditariedade.

Nasci no orgânico e além do orgânico.

Sou corpo e informação, carne e idéia.

 

A minha identidade é como o vento,

que muda a cada instante e é sempre vento.

 

 

Perdão

 

Só em autoconfissão

é dado o perdão perdido.

 

Perdão pelo dito e o não dito,

perdão pelo feito e o não feito.

perdão pelo perdido e o não buscado,

perdão pela vida mal gastada.

 

E também perdão pelo perdão

esquecido ou não pedido

no tempo apropriado.

 

 

Somente quando

 

Somente quando te fizeres vazio,

experimentarás o Vazio.

 

Somente quando não tiveres vontade,

conhecerás a Vontade.

 

Somente quando deixares de ser,

encontrarás o Ser.

 

Somente quando te despojares

do que julgas ser teu,

possuirás o que é teu.

 

Somente quando te sentires vazio de tudo,

reconquistarás a Plenitude.

 

 

Flor

 

Sentimos a flor conforme a vemos

não pelos átomos que a compõem.

 

Quem disseca a flor, não vê a flor.

 

É procurar o homem no cadáver.

 

 

Universo

 

A Terra vai em direção a Vega.

Mas, para onde Vega vai?

 

Tudo gira e nada cai

e, se cair, onde cai?

 

E, em girando, tudo anda,

para onde tudo vai?

 

Se o universo é infinito,

onde o chão e onde o teto,

onde as paredes do mundo?

 

 

Desapego

 

Quando não há apego,

toda pessoa é pessoa,

todo lugar é lugar.

 

 

Observação

 

Da janela do presente

observa-se o presente

com os olhos do passado.

 

Da janela do presente

observa-se o futuro

como extensão do passado.

 

Quando somos o presente,

não há futuro e passado,

porque só há o presente

observando o presente.

 

 

Ilusão

 

Um dia, todos seremos

um dos bilhões de esquecidos

que tinham a ilusão

de continuarem lembrados.

 

 

Mundo Novo (Admirável?)

 

Como será o amor

forjado em duro metal?

E as emoções de silício?

 

Nosso corpo indestrutível,

suas peças descartáveis.

As células dominadas,

pela engenharia genética.

 

Os filhos encomendados

e produzidos segundo

uma receita eugênica.

 

A carne absolescente

substituída por próteses.

 

A dor que não faz gemer,

pois é sinal luminoso.

 

O saber não aprendido,

porque, agora, implantado.

 

O conúbio cerebral

entre neurônios e chips.

 

O homem gerando máquinas

para sua posteridade:

os filhos são ele mesmo.

 

Agora a imortalidade

é permanente “upgrade”.

 

É a mente transferida

para um corpo de metal.

 

Onisciência e Internet:

o mundo virando teia.

 

Quem será a Grande Aranha,

tecendo fios e povos?

 

 

Saudade

 

Qual o peso e o tamanho

da saudade que sentimos?

 

Que distância é a saudade

entre as pessoas ausentes?

 

Qual o tempo da saudade

para doer na perda

das afeições mais queridas?

 

Qual o peso da saudade

no coração solitário?

 

 

Folha

 

Liberdade de uma folha

girando solta no ar,

nas circunstâncias do vento,

o vento que é sem caminho

embora seja caminho

onde vaga o seu voar.

 

Se o vento é que nos dirige

por que, folha, nós queremos

dirigir nosso voar?!

 

 

Espera

 

Todo sonho é um fato

que ainda falta acontecer.

 

 

Espírito

 

O espírito é um sonho

que, um dia, se fez carne

e pensou que era carne,

até voltar a ser sonho.

 

 

Dúvida

 

A quem devo invocar se já não creio

em tudo o que foi dito e revelado.

 

A dúvida é forte como a fé

e se sustenta no seu próprio vácuo.

 

E nem creio sequer em minha dúvida,

porque tudo o que é crido é construído

dos nossos medos e fragilidades.

 

Deus não é a dor justificada,

o prêmio e o castigo além do túmulo,

mas tudo o que não pode ser descrito

e nem humanamente compreendido.

 

Ser humano que sou, não sei que humano

possa exceder à sua condição

e revelar mistérios que não passam

de criações da carne atormentada.

 

 

Aflição

 

Se estamos onde pensamos,

o que fazemos no corpo

tão lerdo e tão pesado?!

 

Que gravidade nos prende,

se somos feitos de vácuo?!

 

Se, pensando, somos corpo

aéreo e ilimitado,

por que este corpo de carne

segurando as nossas asas?!

 

 

O Pó e a Carne

 

O pó sonha ser carne.

A carne teme voltar ao pó.

 

 

Incoincidências

 

Pensamos que estamos juntos,

mas nunca nos coincidimos

em cada tempo e lugar.

 

Apenas estamos próximos,

mesmo em morna vizinhança.

 

O amor que tanto aproxima,

aproxima mas não funde

os amantes mais próximos.

 

São solidões que colidem.

 

 

 

A crença é a ilusão

que nos sustenta no mundo

e sustenta o próprio mundo.

 

Tudo é um ato de fé.

 

E a fé que tudo sustenta

é também insustentável

alicerce assentado,

sobre o solo do vazio.

 

Onde está o chão do mundo?

 

 

Nós

 

O mundo é feito por nós.

 

Nós somos os nós do mundo

e em tudo estamos atados.

 

O eu sem nós não existe.

 

A morte é o eu desatado.

 

 

Crepúsculo

 

O sol de fim de tarde pouco aquece.

Em tudo sopra uma saudade fria.

 

Recolho os sonhos e recolho os fatos:

todos serão iguais no anoitecer.

 

 

Do real

 

Não me dói o que perdi,

pois tive o prazer de ter.

 

Dói-me tudo o que não tive

e o quanto não pude ser.

 

 

Nostalgia

 

Ai de quem, na vida farta,

sofre de anorexia.

 

E sente que o tempo corre

muito mais do que devia.

 

Os velhos amigos mortos,

doendo na nostalgia.

 

A vida virando cais

à espera de algum navio.

 

A esperança minguando

em pertinaz anemia.

 

A morte ficando íntima

para a final companhia.

 

 

Os possíveis

 

Há muitos mundos possíveis.

 

Há muitos de nós possíveis:

só esperam acontecer.

 

 

Túmulo

 

De que adianta escrever no túmulo

frases vãs de saudades imortais?

 

O esquecimento é o túmulo definitivo.

 

 

Pior

 

Pior que o amor perdido

é o amor que não foi dado

e tudo o que não foi gasto

no tempo que era devido.

 

 

Imortal

 

Falamos do que não sabemos,

porque a morte nos espanta

e dói a mortalidade.

 

O que é ser imortal?

 

 

QUEM?

 

Se um dia nada medirmos,

se um dia nada julgarmos,

se um dia nada esperarmos,

que dia será esse dia?

 

Quem nada mede,

quem nada julga,

quem nada espera –

quem é?

 

  

Repressão

 

A alma é feita de surpresa.

Sua virtude é o inédito.

 

A sociedade a tornou

previsível e monótona.

 

 

O Metro

 

O homem é medida de todas as coisas.

Protágoras

 

Com qual medida medimos

o homem que tudo mede?

 

Que metro que não o homem

pode medir o além do humano?

 

Que metro pode medir

o infinito e a eternidade?

 

 

Emoção

 

O que os amantes vêem

não são células nem átomos,

mas a efêmera beleza

e a ilusória solidez

de seus corpos transitórios.

 

Não é a adrenalina

que explica a nossa raiva,

a aceleração cardíaca

dos amores repentinos.

 

Não é a melatonina

que explica a paz que sentimos

brotando dos nossos êxtases.

 

Nem a química da lágrima

explica a dor da saudade

que não seca (é sempre líquida)

vertida no rosto amargo.

 

 

Envelhecer

 

Envelhecer é cultivar adeuses

e empobrecer em cada despedida.

 

Os afetos morrendo com os mortos.

 

Lembrar é praticar necromancia.

 

O que fazer de tudo o que já foi,

mas fica latejando em nossa vida?

 

É o incurável câncer da saudade:

o que passou matando o ainda vivo.

 

 

Incógnita

 

Aonde vai quem morreu,

quando o seu onde perdeu?

 

Onde está quem não está

seja aqui ou seja lá?

 

Se o quem se fez invisível,

agora é carne impossível,

sem onde e quando, desfeito

no nada de que foi feito.

 

 

Nada mais

 

Nada mais para dizer,

nada mais a perguntar,

nada mais o que pensar.

 

Nada mais além do dito,

do perguntado e pensado.

 

Somente o fundo abismar-se

no nada da insapiência,

o conhecimento desfeito

como um sonho no acordar.

 

 

Paz

 

Não é paz a paz insulsa

da vida já sem sabor,

a paz de uma luta avulsa

sem vencido ou vencedor.

 

A paz da acomodação

pendente sobre o vazio,

privada do sim, do não,

inerme no seu fastio.

 

Não a paz, carne do tédio,

adiposidade do ócio,

mais veneno que remédio,

mais inimigo que sócio.

 

Mas a paz sempre intervalo

à espera de nova luta,

entre a firmeza e o abalo

no embate da guerra astuta.

 

A paz é guerra cansada,

a guerra é a paz ativa.

A vida é morte do nada

e o nada é a morte viva.

 

 

Tecelagem

 

O mundo é o que tecemos

juntos todos os dias.

 

Tecelões e tessitura,

somos mãos e somos linhas.

 

O mundo é carne e tecido,

seres, fatos e coisas

vestindo o nu existir.

 

 

Parceria

 

Não somos mais aqueles cujo amor

imaginou a juventude eterna.

Hoje, idosos, os corpos sem calor...

O fogo da paixão agora hiberna.

 

Somente o amor, essa visão interna

consegue ainda ver todo o esplendor

da convivência cada vez mais terna

em saudades diárias a compor

 

e recompor, história por história,

as imagens dos dias consumidos

a fim de preservar mútua memória.

 

Mesmo que restem fatos esquecidos,

no turbilhão da vida transitória,

jamais se perderão, porque vividos.

 

 

Fases

 

Na infância, os olhos límpidos

vêem o mundo claramente

sem a catarata do tempo.

 

A fé no visto e no sonho.

 

A vida maior que a morte.

 

O corpo livre do peso

do vivido e não vivido,

do perdido e do não gasto.

 

Na velhice, os olhos turvos,

a opacidade do mundo,

a fé no que não se vê,

a morte maior que a vida,

recordações (e não sonhos),

algumas já desbotadas

ou outras reinventadas,

e as sensações prazerosas,

que o corpo já esqueceu.

 

 

 

Há algo imóvel

que move tudo.

 

Há o vazio

em todas as coisas.

 

Há o silêncio por trás

de todos os ruídos.

 

Há uma essência

comum a todos os seres.

 

Há o imortal escondido

em todas as mortes.

 

Há o eterno disfarçado

em todas as aparências

do transitório.

 

 

Alma

 

Qual a medida da alma?

 

Em que espaço e em que tempo

a alma é encontrada?

 

Como morre o que não é

capaz de ser mensurado?

 

Como nasce o que não é

feito de matéria e tempo?

 

Mas, o que faz esse corpo

pensar que é alma imortal?

 

 

As flores

 

Não chore as flores que murcharam:

elas já cumpriram seu papel.

Reverencie as flores que florescem,

porque, na sua essência,

elas são as mesmas flores

que murcharam.

  

 

Solidão

 

O homem e a solidão,

inseparáveis xifópagos.

 

A solidão é o eco

do silêncio que se esconde

entre as dobras dos diálogos.

 

A solidão não tem rosto

e é vista em todas as faces.

 

É o abismo que separa

as pessoas entre si,

o impreenchível vazio

intercalado entre os corpos

mesmo nos atos de amor.

 

Só o amor anestesia

a incurável solidão.

 

 

Introspecção

 

Há mais mistérios na mente

do que em toda a extensão do universo.

 

 

Olfato

 

O cheiro das lembranças esquecidas.

 

O nariz aspira o ar, aspira o tempo,

preservado nas úmidas mucosas.

 

Não existem fatos inodoros.

 

 

Maia

 

O rio divide em margens

a terra que era uma só.

 

Quem vai ao fundo do rio

vê, de novo, a terra unida.

 

Somos rios que separam

a unidade do mundo,

que permanece indiviso

no mais íntimo de nós.

  

 

Dualismo

 

Quando sou eu,

vejo tudo separado.

Quando não sou,

vejo apenas a unidade.

 

 

Contraste

 

O feérico também cansa.

 

O luminoso entedia.

 

Então, a treva é descanso

para os olhos saciados

e nauseados de luz.

 

 

Asas

 

Não há maior liberdade

do que ter asas.

 

Voar

é conhecer todos os caminhos.

 

 

Esquecer

 

Para quem sabe esquecer

tudo é novo a cada olhar.

 

Lembranças demais são bagagens

inúteis que carregamos:

pesam nas costas e no andar.

 

 

Saudade

 

Saudade do que fiz.

Saudade do que não fiz.

Não sei qual delas dói mais.

 

 

Vida

 

Vivemos, mas não sabemos

o que é viver

e para que viver.

 

O que fazer do viver,

senão viver sem saber?

 

A vida é essa ânsia de respostas.

A morte cessa todas as perguntas,

porque ela é a última resposta

dada a quem agora já não é.

  

 

Solidão

 

A solidão procurada.

A solidão consentida.

A solidão imposta

e aberta como ferida.

A solidão com tantos.

A solidão sem ninguém .

A solidão, companhia

para o mal e para o bem.

A solidão que estimula.

A solidão que amofina.

A solidão construção.

A solidão só ruína.

 

 

Fronteira

 

A vida é pouca para quem não sonha.

O sonho é a vida estendida.

 

O sonho começa atrás (ou além?) dos olhos.

É a vida em outra vida invertida.

É resto de vigília reciclado.

 

Mas a vigília se compõe de sonhos

que se confundem com os próprios fatos.

 

Qual a fronteira entre o sonho e o fato

na dúbia geografia do existir?

  

 

Cônjuges

 

Não os une mais o amor,

nem a tórrida paixão,

mas tão só a gratidão

do tempo vivido juntos.

O medo da solidão,

cansaço compartilhado,

o incômodo de aventurar-se

além da morna rotina.

A paz é conformação.

Já não são mais os mesmos:

somente um passado comum,

composto de esquecimentos.

O tempo tão prolongado

lhes deu raízes comuns.

Simbiose ou parasitismo,

ficaram indivisíveis,

cada qual perdeu o par.

O que primeiro morrer

leva a metade dos dois.

 

 

Os deuses

 

Os deuses não trabalham.

Eles brincam com o acaso

e evitam o tédio da ordem.

 

Os deuses não se obrigam,

nem brigam,

a não ser quando brincam.

 

Eles não são confiáveis,

porque mudam como o vento.

E gostam de confundir

os que neles confiam.

 

Os homens criaram a ordem

como armadilha aos deuses.

Mas os deuses não se deixam

prender nos laços da lógica.

 

Os deuses amam aqueles

que nada pedem a eles,

aqueles sem fé, que vivem

na circunstância do dia.

 

 

Equívoco

 

Vejam só:  a vida toda

temperamos nossa vida

para o paladar dos outros.

 

Nós somos as oferendas

para o consumo do mundo.

 

Nada temos ofertar-nos,

senão o amor estéril,

que morre na solidão,

emparedado em si mesmo.

 

 

Necromancia

 

A memória necromante

invoca mortos esquecidos.

 

Fantasmas brotam dos álbuns,

quando abertos pelos vivos.

(Mediunidade em família.)

 

Os mortos que incorporam,

em pleno transe afetivo,

recuperam a memória

pela memória dos vivos.

 

A família restaurada,

gerações de novo unidas

instauram um novo tempo

além do tempo da vida.

 

 

Rotina

 

A rotina nos torna míope.

Ver é nunca ter visto antes.

Ou ter esquecido de que viu.

 

O mundo é sempre novo:

são os olhos que envelhecem.

 

 

Inutilidade

 

Para que serve o saber

se à vida não dá sabor?

 

De que serve respirar,

se o olfato esqueceu o odor?

 

Se o corpo perdeu o tato,

tudo agora é abstrato.

 

 

Liberdade

 

Odeia-se aquele que é livre,

porque perturba o descanso

das pessoas rotineiras.

 

O louco é insuportável,

porque vive perdido

na liberdade total.

 

 

O parto

 

Entendo a dor que me melhora,

a dor que me faz crescer,

a dor que rompe limites

e faz maior o meu ser.

 

A dor do parto de mim.

 

 

Miopia

 

A miopia nos salva:

só podemos ver apenas

o que os olhos suportam.

 

Se tudo fosse  apenas luz,

viveríamos ofuscados.

 

Tudo nasce das trevas

do útero, do inconsciente,

e do caos primordial.

 

Ver é um ato de luz.

 

 

Perguntas

 

Por que é que nos foi dada

essa angústia de saber?

 

Saber o como, o porquê,

o para quê.

 

Para que?

 

O que ou quem não responde.

Um dia, responderá?

 

 

Cidade

 

A cidade que não dorme não tem sonhos.

Não há ruas desertas onde escoa

a multidão inquieta de fantasmas.

Na cidade insone não há noite.

A luz urbana ofusca a luz do céu.

A lua e as estrelas, invisíveis,

não passam de lembranças do passado.

Os sedativos não produzem sonhos.

De noite, as ruas cheias de insones.

De dia, as ruas cheias de sonâmbulos.

 

 

Mudanças

 

Tudo nos modifica.

O livro que se lê.

Um quadro que se vê.

A música que se escuta.

Uma palavra ao léu.

Também uma confidência.

O que dói em nós e nos outros.

O que acontece no mundo.

Quem pode manter-se o mesmo?

Afinal, quem somos mesmo?

 

 

Herança

 

O que queres herdar, herda de ti.

Tudo que foste é teu patrimônio.

Tudo o que serás, a tua herança.

Nosso inventário é todos os dias.

O homem nasce morre e morre e nasce

a cada instante.

De cujus, inventariante e herdeiro:

a vida está sempre em sucessão.

 

 

Autor

 

O escritor é um médium:

vive vidas não vividas,

personagens que não foi,

memórias alienígenas,

lugares que nunca andou,

dores e amores vários,

o que nunca sofreu ou amou,

tudo escorrendo do braço

para a mão que psicografa

o que jamais escreveu

ou que sentiu ou pensou.

 

Criação ou adoção

o que escreveu como seu,

filho que nunca gerou?

 

 

Dúvida

 

Nascidos do orgasmo

de um só ou de dois,

não sabemos o antes

e nem o depois.

 

No tempo intermédio

vivemos sonâmbulos

(ou somos funâmbulos?).

 

No mundo sem rumo,

na vida sem prumo,

vagando sem bússola,

destino é viagem

sem fim nem começo.

 

O tempo se esgota,

o corpo se acaba

e se algo prossegue

por onde ele vaga?

 

 

Quarto de hotel

 

Quarto de hotel é promíscuo.

Por mais que seja limpo

por zelosas faxineiras,

permanece sempre o cisco

de emoções e pensamentos

de seus hóspedes fugazes,

nos lençóis, nos travesseiros,

nas fronhas, mesmo lavados,

diligentemente trocados,

no chão e no guarda-roupa,

na cama e nas cadeiras.

Nos cabides pendurados

problemas ali deixados

e também mágoas dormidas

fedendo nos cobertores.

 

 

Corpos

 

O corpo brota de outro corpo como

as flores e frutos brotam da árvore.

 

Folhas caem das árvores.

Pensamentos também caem

no úmido solo do tempo.

 

Quantos corpos nós fomos

para lembrar no atual?

 

 

U.T.I.

 

Tortura tecnológica

para manter quase vivo

o que quase morto está.

 

 

Carne e Sonho

 

Misto de sonho e carne,

somos carne que sonha

ou sonho que se fez carne?

 

O sono é que nos divide

em dois seres paralelos.

 

Qual deles é o ser real?

 

 

Liberdade

 

A folha livre da árvore

segue os rumos do vento.

 

A folhagem toda se agita

com a inveja das folhas presas.

 

  

Utilidade

 

O que não serve para nós

apenas não nos serve.

 

Quem percebe

a totalidade

sabe que nada é inútil,

e que as coisas existem

sem explicação.

 

Se tudo tem um sentido,

qual o sentido do homem,

da flor, da pulga, da estrela?

 

 

Cosmogonia

 

Cansado de eternidade,

Deus fez-se tempo e espaço,

e explodiu em átomos e galáxias

no infinito de si mesmo.

 

 

Megalópoles

 

A ruidosa solidão

dessa floresta de gente.

 

Uma ramagem caótica

de faces desconhecidas.

 

Pessoas são coisas que andam.

 

  

A Arte e o Vivo

 

Uma estátua, por mais bela,

não se equipara

à pessoa mais humilde.

Uma simples planta no jardim

é mais formosa

do que qualquer natureza morta.

 

 

Paraíso

 

A brincadeira nos devolve

a pureza original.

 

O Paraíso é o lúdico.

 

A inocência perdida

nos condenou ao trabalho.

 

Só o ócio primordial

é a redenção do homem

que não soube ficar criança.

 

  

O silêncio

 

O silêncio também é voz.

É aquilo que não foi dito,

porque, se dito, era pouco.

O silêncio não se mede

pela medida da frase.

Excede qualquer semântica.

Não é dicionarizável.

No princípio era o verbo,

mas antes dele o silêncio,

anterior ao princípio.

  

 

O pensamento

 

Se o pensamento

pensar sobre o pensamento

o que é esse pensamento

que pensa sobre si mesmo?

  

 

Amor

 

Quando amamos não perguntamos

por que e para que amamos.

 

O amor sempre morre

quando se faz essa pergunta.

 

 

Propósito

 

Será que foi de propósito

que Deus fez a vida

sem propósito?

 

Foi o homem que inventou

o propósito da vida.

 

Por isso, não pode entender

que a vida é sem propósito.

 

E sofre assim sem propósito.

  

 

CONSCIÊNCIA

 

Consciência é aquilo

que não sabemos o que é

e, no entanto,

explica tudo mais.

 

 

Caos e Ordem

 

Inventamos a linha reta

e queremos que nossa vida

seja uma linha reta.

 

A Vida não é geometria,

mas uma farra de formas.

 

Há coisa mais monótona do que o corredor?

Ele é ótimo para as correntes de ar e os fantasmas.

 

A vida é um labirinto cheio de passos e de impasses.

 

A vida é o caos que o homem tenta

inutilmente disciplinar.

 

Só o caos é criativo.

 

A ordem produz rotinas

e é repressora do inédito.

 

Quando o caos se cansa, vira ordem.

 

 

Reflexões de um ateu

 

Um ateu diria que Deus

fez esse mundo tão mal feito,

tão cheio de sofrimentos

que ficou envergonhado

e até hoje vive escondido.

 

 

Borrões

 

O que é um borrão

senão uma forma sem nome.

 

Não tem certidão geométrica.

 

É uma forma sem forma.

 

Um transgressor chamado amorfo.

 

Mas, acontece que a vida

é cheia de borrões

e não dos entes geométricos

que o homem inventou.

 

 

Paradoxo

 

A ciência da ignorância

nos liberta do saber.

 

Não a ignorância ingênua

que não sabe que não sabe,

mas a ignorância madura

que sabe que o saber

é um jogo levado a sério.

 

Sabemos tudo do que precisamos

sem nunca ter aprendido.

 

O saber que ignoramos

é o verdadeiro saber.

  

   

Milagre

 

O milagre acontece

quando o homem,

cansado de rotinas,

percebe as mesmas coisas,

de modo diferente.

 

 

Sofrimento

 

Quando sofremos

ou vemos alguém sofrer,

queremos explicação.

que  é  também analgésico

e satisfaz, enquanto seda.

A dor sem explicação

é apenas dor, nada mais.

 

 

Queda

 

Planetas, estrelas e galáxias

se sustentam no vazio.

 

E, se caírem,

onde cairão?

 

 

A Testemunha de Deus

 

Se nenhum ser individual existisse,

quem testemunharia Deus?

Ele seria uma infinita solidão.

  

 

Solipsismo

 

Os solipsistas se reuniram

para decidir

qual deles era real.

E chegaram à conclusão

de que não houve reunião,

porque ninguém estava lá.

 

 

Apoio

 

Quem se apóia no vazio,

não precisa mais de apoio.

 

 

Expansão

 

Queremos sempre crescer

pouco importa para onde.

Crescer para além de nós,

para além da Terra e do cosmos,

e até para além da morte.

 

 

Sem importância

 

Um dia, pensávamos

que fôssemos importantes

e vivíamos como se fôssemos.

 

E essa importância ilusória

era o sentido da vida

de seres sem importância.

 

Como é importante saber

que não somos importantes

a não ser para nós mesmos!

 

 

A Testemunha

 

Tem o universo memória

de todos os seres mortos

desde o início da vida?

 

Quem guardará a memória

daqueles que já morreram

se o recordante é mortal?

 

Que testemunha imortal

lembrará todos os mortos?

 

 

Enigma

 

Como é ver as coisas

sem normas e sem valores

em seu puro existir?

 

O que será do observador

se vir o universo nu?

 

O que é ver a face

original da vida?

E se a virmos

o que seremos?

 

O que é ver o mundo

sem juízos e prejuízos?

 

Ver o que nunca foi visto,

porque só vemos

o que nos foi ensinado.

 

Não há olhos confiáveis.

 

 

Édipo

 

Somos um mistério

que procura decifrar-se.

Um Édipo equivocado,

pois a esfinge era ele.

 

 

Esquecimento

 

Quando sua voz não for mais ouvida,

quando ninguém lhe prestar mais atenção,

quando seu nome não for mais lembrado,

então você não passa de um fantasma

que teimosamente habita um corpo vivo.

 

 

O novo

 

Ser novo é não lembrar o que passou.

(O novo é tudo o que não tem passado.)

 

É ver a vida com os olhos limpos

sem a catarata do vivido.

 

Quando temos muito para ver,

não sobra  tempo para recordar.

 

 

Libertação

 

A liberdade é pluma e não raízes.

Como podes voar se não tens asas,

e acorrentado estais ao chão das posses?

 

Se fazes do uso apenas pouso,

jamais serás escravos dos haveres,

nem da compulsão de adquiri-los.

 

 

Envelhecimento

 

Aquele que envelheceu,

não sonha mais impossíveis.

Conformado e conformista,

o mundo é o seu cansaço.

Ele é o que já foi

e o futuro será igual.

O passado que não existe

habita o presente morto.

Envelhecemos quando o que fomos

é maior do que o que somos.

 

 

Antiverbo

 

Tenho tanto o que não dizer!

As palavras não brotam no silêncio.

A compreensão dispensa a fala.

No princípio não era o verbo,

mas o silêncio cósmico inaudível.

Falar foi o pecado original.

 

 

Mãos

 

A sabedoria das mãos

nas labutas do fazer.

O que seria do fazer

se as mãos não existissem?

Era um pensar sem ação,

pois as mãos são pensamentos

e sentimentos de carne

que manipulam o mundo,

na engenharia dos dedos.

 

 

Saber inúti

 

Por que precisamos saber

que, um dia, vamos morrer?

Vegetais e animais não sabem disso.

E morrem com a mesma pureza

com que nasceram.

 

 

Solidões

 

O tempo vazio.

O espaço vazio.

O coração vazio.

Um oco que não tem fim.

A solidão sem fronteiras.

Um silêncio surdo-mudo

é testemunha do nada.

  

 

Preguiça

 

A preguiça de olhar o mundo

sem nada desejar

é a paz  que apenas testemunha

o desfilar das coisas e dos seres.

Os bocejos são rápidos nirvanas

e adormecem o tumulto de pensar.

 

 

As Múmias

 

Quando o amor se torna hábito,

mera rotina doméstica,

concessões pelo cansaço,

e paz nascida do tédio,

somos múmias paralelas,

que sonham estarem juntas

num tempo que não mais é.

 

 

Veneno

 

O tempo é o veneno

que ingerimos todos os dias

e contra o qual não há antídoto

e nem imunização.

Doenças nada mais são

que infecções do tempo.

 

 

Inquietação

 

Não sabemos ficar quietos

apenas olhando o mundo

sem qualquer explicação.

Explicação é sedativo

para os conflitos e os aflitos

de saber o que a vida é

em suas contradições.

 

 

A Bengala

 

Porque ainda somos cegos

tateamos deuses falsos.

 

A bengala é falso guia.

 

A fé devolve a visão

e permite ver o mundo

além do mundo trilhado

pela bengala dos cegos.

 

 

Cidades

 

A cidade são cidades sucessivas,

ainda que nelas permaneçam

os mesmos prédios, ruas e jardins.

 

Cidades de tempos diferentes

povoam a memória dos idosos,

que como pré-fantasmas ainda habitam

na cidade e entre pessoas desconhecidas.

 

Um vento de saudade varre as ruas

espalhando a poeira das lembranças.

 

Visões e sonhos defuntos se misturam

com o cotidiano da cidade.

 

Tempos se cruzam como transeuntes

esbarrando em fantasmas conhecidos

e em pessoas que fomos e morreram.

 

 

Noturno

 

Ontem, a noite era povoada de seres luminosos,

em uma Terra de poucas luzes.

 

Hoje, as cidades ofuscaram o brilho dos deuses

porque a luz terrena aboliu a noite.

 

O sono é um pouco da noite que restou em nós.

 

O que fazermos em cidades que nunca anoitecem?

 

A luz e a vigília expulsaram a escuridão e o sono,

e espantou os sonhos e os fantasmas.

 

 

O Ponto

 

Somos apenas um ponto

em sucessão no espaço-tempo

na ilusão de que é uma linha

reta, ou curva, ou enovelada,

às vezes sem direção,

linha que, um dia, pára

e se condensa num ponto,

o ponto imóvel e final.

 

 

Lembrete

 

Esqueça de que serás sempre lembrado,

porque os que te lembram são mortais

e tudo se desfaz na Eternidade.

 

 

Contraste

 

Nascer é uma aquisição,

em meio à luta feroz

de milhões de seres possíveis.

 

Morrer é uma perda solitária.

  

 

Despertar

 

Deus é o sono

de quem não mais se acorda.

O impossível retorno

de quem partiu e esqueceu

o endereço do corpo.

Deus é luz tão intensa

que se torna escuridão,

porque os olhos cegaram.

Deus é a morte afinal

que ressuscita no vivo

o que nunca vivo foi,

porque latente no corpo

como se nunca existisse.

 

 

Museu

 

Coleção de tempo morto,

e fatos fragmentados.

Memórias das coisas afetam

os incautos visitantes

parasitados por mortas

sensações indefiníveis.

Museu é mais que lugar:

é reconstituição do ido

para entender o vivido.

 

  

Enfado

 

O tempo

é devaneio da eternidade,

quando cansa de si mesma.

 

 

Meditação

 

Às vezes, quando imergimos

em abismal meditação,

estamos (se é que estamos)

em lugar algum,

em tempo algum,

e nem sequer somos nós,

mas algo semelhante ao infinito,

do qual nada sabemos.

 

 

Metamorfose

 

Os futuros possíveis

fazem o presente antiquado.

Sentimo-nos em extinção

na chegada de outra raça

para substituir a humana,

gerada do próprio humano.

Embora seres passando,

já nos sentimos passados,

defendendo o que nos resta

contra aquilo que seremos

e que começamos a ser.

 

 

O vento

 

O vento sopra impetuoso,

vergando a copa das árvores.

 

As folhas caem no chão:

folhas secas, folhas verdes.

 

Por que não somente as secas?

 

 

Poesia

 

A poesia é ocasião

de sermos contraditórios.

Descompromisso com o lógico

e também com o absurdo.

A espontaneidade sem rumo,

bússola do imprevisível.

  

 

Cansaço

 

O cansaço vence tudo:

cansaço do que fazemos,

cansaço do que sentimos,

cansaço do que pensamos,

cansaço até do que somos.

Tudo pára se paramos.

Um cansaço invade o mundo

enquanto estamos cansados.

Mas quando o cansaço passa,

volta tudo ao que era antes.

 

 

O ALém

 

Os que morreram

não estão dormindo,

nem esquecidos,

apenas desinteressados

ou entediados

da insossa vida terrena.

Talvez o Além seja o ócio

reparador do que foi

à espera do que será.

 

 

A Dança

 

O que fazemos no mundo?

O que o mundo nos faz?

O que nós fazemos juntos

(nós e o mundo), um mesmo nó

numa ciranda sem fim?

Como saber a ação

que iniciou o universo

e seu cósmico bailado?

Se o movimento é eterno,

quem pode parar os átomos

e imobilizar as galáxias?