VALTER DA ROSA BORGES. MEDITAÇÕES DO ENTARDECER. 2003.
Despertar (?)
Um dia, morreremos
(ou acordaremos?).
E se acordarmos,
o que seremos?
Cirurgia
A nossa razão cirúrgica
divide o indivisível,
separa o inseparável,
busca o vivo repartido,
mas só encontra o cadáver.
Agora e depois
No agora não há palavras:
o que se fala, passou.
A palavra é sempre eco
do que não existe mais.
A percepção é agora.
O pensamento é depois.
Pó
O corpo nada mais é
do que pó organizado.
O homem é pó pensante.
Sai do pó e volta ao pó.
Aonde vai o pensamento
se a alma não for o pó?
Libertação
É necessária sempre uma abertura,
um alçapão aberto para o céu
para que o sonho escape da vigília
e a vida não definhe entre paredes.
É preciso que os olhos vejam luz,
não se acostumem nunca à escuridão.
A razão pode ser o carcereiro,
impondo à vida as regras da prisão.
Os Outros
Nem sempre vemos os outros,
nem também o que eles fazem.
E, no entanto, eles convivem
conosco todos os dias.
Rotinas são invisíveis.
Pessoas e coisas somem,
ainda que estejam presentes.
Não ouvimos o que falam.
Passam por nós como sombras,
fantasmas antecipados.
Só quando morrem lembramos
que conviveram conosco:
a ausência os faz presentes.
E sentimos sua falta,
a sua presença ausente
na ausência irreversível.
Visão
A visão é maior que os olhos:
o real é mais do que o visto.
Os olhos nos prendem à vida,
que é nosso modo de ver.
Na morte, a visão são olhos
de ver em outro lugar.
Ausência
Ninguém vai chorar por você,
mas pela falta que você fará,
a companhia e a presença,
o tempo compartilhado,
os espaços preenchidos,
seu ouvido disponível,
sua voz consoladora.
A morte destrói o corpo,
não o amor que ficou,
embora em dor e saudade.
Lembrança é quase pessoa,
vagando por toda a casa,
perfume das coisas órfãs,
gemendo em cada lugar.
Perfil - I
Não me deixo levar aos empurrões.
A vida, para mim, é desafio.
Estou sempre passando como o rio.
Eu sou a paz instável dos vulcões.
Às vezes, sou inverno em pleno estio
e, brisa, me converto em furacões,
galopando por mares e sertões,
vivendo em lucidez e desvario.
Singular e plural, contraditório
e coerente, agito-me e descanso
entre as fímbrias do real e do ilusório.
A minha crueldade me faz manso.
A minha mansidão me faz feroz.
Descubro, no silêncio, a minha voz.
Perfil - II
A tantas coisas já não me permito
e a outras tantas já não me oponho.
Às vezes, sou real como o granito
e em outras inconsútil como o sonho.
Ora sou explosivo como o grito,
mas logo de silêncios me componho.
Ora me sinto alegre, embora aflito,
e mesmo na tristeza estou risonho.
Convivo na incerteza em meio à fé
e tudo espero do que desconheço.
Porque duvido, me mantenho em pé.
Em dúvida e fé pago meu preço.
Agnóstico e crente concilio
a minha plenitude e o vazio.
Eu mesmo
Por mais que me transforme, sou eu mesmo.
O passado que trago em cada célula
se extingue em cada célula que morre,
renasce em cada célula que nasce.
Eu sou a minha hereditariedade.
Nasci no orgânico e além do orgânico.
Sou corpo e informação, carne e idéia.
A minha identidade é como o vento,
que muda a cada instante e é sempre vento.
Perdão
Só em autoconfissão
é dado o perdão perdido.
Perdão pelo dito e o não dito,
perdão pelo feito e o não feito.
perdão pelo perdido e o não buscado,
perdão pela vida mal gastada.
E também perdão pelo perdão
esquecido ou não pedido
no tempo apropriado.
Somente quando
Somente quando te fizeres vazio,
experimentarás o Vazio.
Somente quando não tiveres vontade,
conhecerás a Vontade.
Somente quando deixares de ser,
encontrarás o Ser.
Somente quando te despojares
do que julgas ser teu,
possuirás o que é teu.
Somente quando te sentires vazio de tudo,
reconquistarás a Plenitude.
Flor
Sentimos a flor conforme a vemos
não pelos átomos que a compõem.
Quem disseca a flor, não vê a flor.
É procurar o homem no cadáver.
Universo
A Terra vai em direção a Vega.
Mas, para onde Vega vai?
Tudo gira e nada cai
e, se cair, onde cai?
E, em girando, tudo anda,
para onde tudo vai?
Se o universo é infinito,
onde o chão e onde o teto,
onde as paredes do mundo?
Desapego
Quando não há apego,
toda pessoa é pessoa,
todo lugar é lugar.
Observação
Da janela do presente
observa-se o presente
com os olhos do passado.
Da janela do presente
observa-se o futuro
como extensão do passado.
Quando somos o presente,
não há futuro e passado,
porque só há o presente
observando o presente.
Ilusão
Um dia, todos seremos
um dos bilhões de esquecidos
que tinham a ilusão
de continuarem lembrados.
Mundo Novo (Admirável?)
Como será o amor
forjado em duro metal?
E as emoções de silício?
Nosso corpo indestrutível,
suas peças descartáveis.
As células dominadas,
pela engenharia genética.
Os filhos encomendados
e produzidos segundo
uma receita eugênica.
A carne absolescente
substituída por próteses.
A dor que não faz gemer,
pois é sinal luminoso.
O saber não aprendido,
porque, agora, implantado.
O conúbio cerebral
entre neurônios e chips.
O homem gerando máquinas
para sua posteridade:
os filhos são ele mesmo.
Agora a imortalidade
é permanente “upgrade”.
É a mente transferida
para um corpo de metal.
Onisciência e Internet:
o mundo virando teia.
Quem será a Grande Aranha,
tecendo fios e povos?
Saudade
Qual o peso e o tamanho
da saudade que sentimos?
Que distância é a saudade
entre as pessoas ausentes?
Qual o tempo da saudade
para doer na perda
das afeições mais queridas?
Qual o peso da saudade
no coração solitário?
Folha
Liberdade de uma folha
girando solta no ar,
nas circunstâncias do vento,
o vento que é sem caminho
embora seja caminho
onde vaga o seu voar.
Se o vento é que nos dirige
por que, folha, nós queremos
dirigir nosso voar?!
Espera
Todo sonho é um fato
que ainda falta acontecer.
Espírito
O espírito é um sonho
que, um dia, se fez carne
e pensou que era carne,
até voltar a ser sonho.
Dúvida
A quem devo invocar se já não creio
em tudo o que foi dito e revelado.
A dúvida é forte como a fé
e se sustenta no seu próprio vácuo.
E nem creio sequer em minha dúvida,
porque tudo o que é crido é construído
dos nossos medos e fragilidades.
Deus não é a dor justificada,
o prêmio e o castigo além do túmulo,
mas tudo o que não pode ser descrito
e nem humanamente compreendido.
Ser humano que sou, não sei que humano
possa exceder à sua condição
e revelar mistérios que não passam
de criações da carne atormentada.
Aflição
Se estamos onde pensamos,
o que fazemos no corpo
tão lerdo e tão pesado?!
Que gravidade nos prende,
se somos feitos de vácuo?!
Se, pensando, somos corpo
aéreo e ilimitado,
por que este corpo de carne
segurando as nossas asas?!
O Pó e a Carne
O pó sonha ser carne.
A carne teme voltar ao pó.
Incoincidências
Pensamos que estamos juntos,
mas nunca nos coincidimos
em cada tempo e lugar.
Apenas estamos próximos,
mesmo em morna vizinhança.
O amor que tanto aproxima,
aproxima mas não funde
os amantes mais próximos.
São solidões que colidem.
Fé
A crença é a ilusão
que nos sustenta no mundo
e sustenta o próprio mundo.
Tudo é um ato de fé.
E a fé que tudo sustenta
é também insustentável
alicerce assentado,
sobre o solo do vazio.
Onde está o chão do mundo?
Nós
O mundo é feito por nós.
Nós somos os nós do mundo
e em tudo estamos atados.
O eu sem nós não existe.
A morte é o eu desatado.
Crepúsculo
O sol de fim de tarde pouco aquece.
Em tudo sopra uma saudade fria.
Recolho os sonhos e recolho os fatos:
todos serão iguais no anoitecer.
Do real
Não me dói o que perdi,
pois tive o prazer de ter.
Dói-me tudo o que não tive
e o quanto não pude ser.
Nostalgia
Ai de quem, na vida farta,
sofre de anorexia.
E sente que o tempo corre
muito mais do que devia.
Os velhos amigos mortos,
doendo na nostalgia.
A vida virando cais
à espera de algum navio.
A esperança minguando
em pertinaz anemia.
A morte ficando íntima
para a final companhia.
Os possíveis
Há muitos mundos possíveis.
Há muitos de nós possíveis:
só esperam acontecer.
Túmulo
De que adianta escrever no túmulo
frases vãs de saudades imortais?
O esquecimento é o túmulo definitivo.
Pior
Pior que o amor perdido
é o amor que não foi dado
e tudo o que não foi gasto
no tempo que era devido.
Imortal
Falamos do que não sabemos,
porque a morte nos espanta
e dói a mortalidade.
O que é ser imortal?
QUEM?
Se um dia nada medirmos,
se um dia nada julgarmos,
se um dia nada esperarmos,
que dia será esse dia?
Quem nada mede,
quem nada julga,
quem nada espera –
quem é?
Repressão
A alma é feita de surpresa.
Sua virtude é o inédito.
A sociedade a tornou
previsível e monótona.
O Metro
O homem é medida de todas as coisas.
Protágoras
Com qual medida medimos
o homem que tudo mede?
Que metro que não o homem
pode medir o além do humano?
Que metro pode medir
o infinito e a eternidade?
Emoção
O que os amantes vêem
não são células nem átomos,
mas a efêmera beleza
e a ilusória solidez
de seus corpos transitórios.
Não é a adrenalina
que explica a nossa raiva,
a aceleração cardíaca
dos amores repentinos.
Não é a melatonina
que explica a paz que sentimos
brotando dos nossos êxtases.
Nem a química da lágrima
explica a dor da saudade
que não seca (é sempre líquida)
vertida no rosto amargo.
Envelhecer
Envelhecer é cultivar adeuses
e empobrecer em cada despedida.
Os afetos morrendo com os mortos.
Lembrar é praticar necromancia.
O que fazer de tudo o que já foi,
mas fica latejando em nossa vida?
É o incurável câncer da saudade:
o que passou matando o ainda vivo.
Incógnita
Aonde vai quem morreu,
quando o seu onde perdeu?
Onde está quem não está
seja aqui ou seja lá?
Se o quem se fez invisível,
agora é carne impossível,
sem onde e quando, desfeito
no nada de que foi feito.
Nada mais
Nada mais para dizer,
nada mais a perguntar,
nada mais o que pensar.
Nada mais além do dito,
do perguntado e pensado.
Somente o fundo abismar-se
no nada da insapiência,
o conhecimento desfeito
como um sonho no acordar.
Paz
Não é paz a paz insulsa
da vida já sem sabor,
a paz de uma luta avulsa
sem vencido ou vencedor.
A paz da acomodação
pendente sobre o vazio,
privada do sim, do não,
inerme no seu fastio.
Não a paz, carne do tédio,
adiposidade do ócio,
mais veneno que remédio,
mais inimigo que sócio.
Mas a paz sempre intervalo
à espera de nova luta,
entre a firmeza e o abalo
no embate da guerra astuta.
A paz é guerra cansada,
a guerra é a paz ativa.
A vida é morte do nada
e o nada é a morte viva.
Tecelagem
O mundo é o que tecemos
juntos todos os dias.
Tecelões e tessitura,
somos mãos e somos linhas.
O mundo é carne e tecido,
seres, fatos e coisas
vestindo o nu existir.
Parceria
Não somos mais aqueles cujo amor
imaginou a juventude eterna.
Hoje, idosos, os corpos sem calor...
O fogo da paixão agora hiberna.
Somente o amor, essa visão interna
consegue ainda ver todo o esplendor
da convivência cada vez mais terna
em saudades diárias a compor
e recompor, história por história,
as imagens dos dias consumidos
a fim de preservar mútua memória.
Mesmo que restem fatos esquecidos,
no turbilhão da vida transitória,
jamais se perderão, porque vividos.
Fases
Na infância, os olhos límpidos
vêem o mundo claramente
sem a catarata do tempo.
A fé no visto e no sonho.
A vida maior que a morte.
O corpo livre do peso
do vivido e não vivido,
do perdido e do não gasto.
Na velhice, os olhos turvos,
a opacidade do mundo,
a fé no que não se vê,
a morte maior que a vida,
recordações (e não sonhos),
algumas já desbotadas
ou outras reinventadas,
e as sensações prazerosas,
que o corpo já esqueceu.
Há
Há algo imóvel
que move tudo.
Há o vazio
em todas as coisas.
Há o silêncio por trás
de todos os ruídos.
Há uma essência
comum a todos os seres.
Há o imortal escondido
em todas as mortes.
Há o eterno disfarçado
em todas as aparências
do transitório.
Alma
Qual a medida da alma?
Em que espaço e em que tempo
a alma é encontrada?
Como morre o que não é
capaz de ser mensurado?
Como nasce o que não é
feito de matéria e tempo?
Mas, o que faz esse corpo
pensar que é alma imortal?
As flores
Não chore as flores que murcharam:
elas já cumpriram seu papel.
Reverencie as flores que florescem,
porque, na sua essência,
elas são as mesmas flores
que murcharam.
Solidão
O homem e a solidão,
inseparáveis xifópagos.
A solidão é o eco
do silêncio que se esconde
entre as dobras dos diálogos.
A solidão não tem rosto
e é vista em todas as faces.
É o abismo que separa
as pessoas entre si,
o impreenchível vazio
intercalado entre os corpos
mesmo nos atos de amor.
Só o amor anestesia
a incurável solidão.
Introspecção
Há mais mistérios na mente
do que em toda a extensão do universo.
Olfato
O cheiro das lembranças esquecidas.
O nariz aspira o ar, aspira o tempo,
preservado nas úmidas mucosas.
Não existem fatos inodoros.
Maia
O rio divide em margens
a terra que era uma só.
Quem vai ao fundo do rio
vê, de novo, a terra unida.
Somos rios que separam
a unidade do mundo,
que permanece indiviso
no mais íntimo de nós.
Dualismo
Quando sou eu,
vejo tudo separado.
Quando não sou,
vejo apenas a unidade.
Contraste
O feérico também cansa.
O luminoso entedia.
Então, a treva é descanso
para os olhos saciados
e nauseados de luz.
Asas
Não há maior liberdade
do que ter asas.
Voar
é conhecer todos os caminhos.
Esquecer
Para quem sabe esquecer
tudo é novo a cada olhar.
Lembranças demais são bagagens
inúteis que carregamos:
pesam nas costas e no andar.
Saudade
Saudade do que fiz.
Saudade do que não fiz.
Não sei qual delas dói mais.
Vida
Vivemos, mas não sabemos
o que é viver
e para que viver.
O que fazer do viver,
senão viver sem saber?
A vida é essa ânsia de respostas.
A morte cessa todas as perguntas,
porque ela é a última resposta
dada a quem agora já não é.
Solidão
A solidão procurada.
A solidão consentida.
A solidão imposta
e aberta como ferida.
A solidão com tantos.
A solidão sem ninguém .
A solidão, companhia
para o mal e para o bem.
A solidão que estimula.
A solidão que amofina.
A solidão construção.
A solidão só ruína.
Fronteira
A vida é pouca para quem não sonha.
O sonho é a vida estendida.
O sonho começa atrás (ou além?) dos olhos.
É a vida em outra vida invertida.
É resto de vigília reciclado.
Mas a vigília se compõe de sonhos
que se confundem com os próprios fatos.
Qual a fronteira entre o sonho e o fato
na dúbia geografia do existir?
Cônjuges
Não os une mais o amor,
nem a tórrida paixão,
mas tão só a gratidão
do tempo vivido juntos.
O medo da solidão,
cansaço compartilhado,
o incômodo de aventurar-se
além da morna rotina.
A paz é conformação.
Já não são mais os mesmos:
somente um passado comum,
composto de esquecimentos.
O tempo tão prolongado
lhes deu raízes comuns.
Simbiose ou parasitismo,
ficaram indivisíveis,
cada qual perdeu o par.
O que primeiro morrer
leva a metade dos dois.
Os deuses
Os deuses não trabalham.
Eles brincam com o acaso
e evitam o tédio da ordem.
Os deuses não se obrigam,
nem brigam,
a não ser quando brincam.
Eles não são confiáveis,
porque mudam como o vento.
E gostam de confundir
os que neles confiam.
Os homens criaram a ordem
como armadilha aos deuses.
Mas os deuses não se deixam
prender nos laços da lógica.
Os deuses amam aqueles
que nada pedem a eles,
aqueles sem fé, que vivem
na circunstância do dia.
Equívoco
Vejam só: a vida toda
temperamos nossa vida
para o paladar dos outros.
Nós somos as oferendas
para o consumo do mundo.
Nada temos ofertar-nos,
senão o amor estéril,
que morre na solidão,
emparedado em si mesmo.
Necromancia
A memória necromante
invoca mortos esquecidos.
Fantasmas brotam dos álbuns,
quando abertos pelos vivos.
(Mediunidade em família.)
Os mortos que incorporam,
em pleno transe afetivo,
recuperam a memória
pela memória dos vivos.
A família restaurada,
gerações de novo unidas
instauram um novo tempo
além do tempo da vida.
Rotina
A rotina nos torna míope.
Ver é nunca ter visto antes.
Ou ter esquecido de que viu.
O mundo é sempre novo:
são os olhos que envelhecem.
Inutilidade
Para que serve o saber
se à vida não dá sabor?
De que serve respirar,
se o olfato esqueceu o odor?
Se o corpo perdeu o tato,
tudo agora é abstrato.
Liberdade
Odeia-se aquele que é livre,
porque perturba o descanso
das pessoas rotineiras.
O louco é insuportável,
porque vive perdido
na liberdade total.
O parto
Entendo a dor que me melhora,
a dor que me faz crescer,
a dor que rompe limites
e faz maior o meu ser.
A dor do parto de mim.
Miopia
A miopia nos salva:
só podemos ver apenas
o que os olhos suportam.
Se tudo fosse apenas luz,
viveríamos ofuscados.
Tudo nasce das trevas
do útero, do inconsciente,
e do caos primordial.
Ver é um ato de luz.
Perguntas
Por que é que nos foi dada
essa angústia de saber?
Saber o como, o porquê,
o para quê.
Para que?
O que ou quem não responde.
Um dia, responderá?
Cidade
A cidade que não dorme não tem sonhos.
Não há ruas desertas onde escoa
a multidão inquieta de fantasmas.
Na cidade insone não há noite.
A luz urbana ofusca a luz do céu.
A lua e as estrelas, invisíveis,
não passam de lembranças do passado.
Os sedativos não produzem sonhos.
De noite, as ruas cheias de insones.
De dia, as ruas cheias de sonâmbulos.
Mudanças
Tudo nos modifica.
O livro que se lê.
Um quadro que se vê.
A música que se escuta.
Uma palavra ao léu.
Também uma confidência.
O que dói em nós e nos outros.
O que acontece no mundo.
Quem pode manter-se o mesmo?
Afinal, quem somos mesmo?
Herança
O que queres herdar, herda de ti.
Tudo que foste é teu patrimônio.
Tudo o que serás, a tua herança.
Nosso inventário é todos os dias.
O homem nasce morre e morre e nasce
a cada instante.
De cujus, inventariante e herdeiro:
a vida está sempre em sucessão.
Autor
O escritor é um médium:
vive vidas não vividas,
personagens que não foi,
memórias alienígenas,
lugares que nunca andou,
dores e amores vários,
o que nunca sofreu ou amou,
tudo escorrendo do braço
para a mão que psicografa
o que jamais escreveu
ou que sentiu ou pensou.
Criação ou adoção
o que escreveu como seu,
filho que nunca gerou?
Dúvida
Nascidos do orgasmo
de um só ou de dois,
não sabemos o antes
e nem o depois.
No tempo intermédio
vivemos sonâmbulos
(ou somos funâmbulos?).
No mundo sem rumo,
na vida sem prumo,
vagando sem bússola,
destino é viagem
sem fim nem começo.
O tempo se esgota,
o corpo se acaba
e se algo prossegue
por onde ele vaga?
Quarto de hotel
Quarto de hotel é promíscuo.
Por mais que seja limpo
por zelosas faxineiras,
permanece sempre o cisco
de emoções e pensamentos
de seus hóspedes fugazes,
nos lençóis, nos travesseiros,
nas fronhas, mesmo lavados,
diligentemente trocados,
no chão e no guarda-roupa,
na cama e nas cadeiras.
Nos cabides pendurados
problemas ali deixados
e também mágoas dormidas
fedendo nos cobertores.
Corpos
O corpo brota de outro corpo como
as flores e frutos brotam da árvore.
Folhas caem das árvores.
Pensamentos também caem
no úmido solo do tempo.
Quantos corpos nós fomos
para lembrar no atual?
U.T.I.
Tortura tecnológica
para manter quase vivo
o que quase morto está.
Carne e Sonho
Misto de sonho e carne,
somos carne que sonha
ou sonho que se fez carne?
O sono é que nos divide
em dois seres paralelos.
Qual deles é o ser real?
Liberdade
A folha livre da árvore
segue os rumos do vento.
A folhagem toda se agita
com a inveja das folhas presas.
Utilidade
O que não serve para nós
apenas não nos serve.
Quem percebe
a totalidade
sabe que nada é inútil,
e que as coisas existem
sem explicação.
Se tudo tem um sentido,
qual o sentido do homem,
da flor, da pulga, da estrela?
Cosmogonia
Cansado de eternidade,
Deus fez-se tempo e espaço,
e explodiu em átomos e galáxias
no infinito de si mesmo.
Megalópoles
A ruidosa solidão
dessa floresta de gente.
Uma ramagem caótica
de faces desconhecidas.
Pessoas são coisas que andam.
A Arte e o Vivo
Uma estátua, por mais bela,
não se equipara
à pessoa mais humilde.
Uma simples planta no jardim
é mais formosa
do que qualquer natureza morta.
Paraíso
A brincadeira nos devolve
a pureza original.
O Paraíso é o lúdico.
A inocência perdida
nos condenou ao trabalho.
Só o ócio primordial
é a redenção do homem
que não soube ficar criança.
O silêncio
O silêncio também é voz.
É aquilo que não foi dito,
porque, se dito, era pouco.
O silêncio não se mede
pela medida da frase.
Excede qualquer semântica.
Não é dicionarizável.
No princípio era o verbo,
mas antes dele o silêncio,
anterior ao princípio.
O pensamento
Se o pensamento
pensar sobre o pensamento
o que é esse pensamento
que pensa sobre si mesmo?
Amor
Quando amamos não perguntamos
por que e para que amamos.
O amor sempre morre
quando se faz essa pergunta.
Propósito
Será que foi de propósito
que Deus fez a vida
sem propósito?
Foi o homem que inventou
o propósito da vida.
Por isso, não pode entender
que a vida é sem propósito.
E sofre assim sem propósito.
CONSCIÊNCIA
Consciência é aquilo
que não sabemos o que é
e, no entanto,
explica tudo mais.
Caos e Ordem
Inventamos a linha reta
e queremos que nossa vida
seja uma linha reta.
A Vida não é geometria,
mas uma farra de formas.
Há coisa mais monótona do que o corredor?
Ele é ótimo para as correntes de ar e os fantasmas.
A vida é um labirinto cheio de passos e de impasses.
A vida é o caos que o homem tenta
inutilmente disciplinar.
Só o caos é criativo.
A ordem produz rotinas
e é repressora do inédito.
Quando o caos se cansa, vira ordem.
Reflexões de um ateu
Um ateu diria que Deus
fez esse mundo tão mal feito,
tão cheio de sofrimentos
que ficou envergonhado
e até hoje vive escondido.
Borrões
O que é um borrão
senão uma forma sem nome.
Não tem certidão geométrica.
É uma forma sem forma.
Um transgressor chamado amorfo.
Mas, acontece que a vida
é cheia de borrões
e não dos entes geométricos
que o homem inventou.
Paradoxo
A ciência da ignorância
nos liberta do saber.
Não a ignorância ingênua
que não sabe que não sabe,
mas a ignorância madura
que sabe que o saber
é um jogo levado a sério.
Sabemos tudo do que precisamos
sem nunca ter aprendido.
O saber que ignoramos
é o verdadeiro saber.
Milagre
O milagre acontece
quando o homem,
cansado de rotinas,
percebe as mesmas coisas,
de modo diferente.
Sofrimento
Quando sofremos
ou vemos alguém sofrer,
queremos explicação.
que é também analgésico
e satisfaz, enquanto seda.
A dor sem explicação
é apenas dor, nada mais.
Queda
Planetas, estrelas e galáxias
se sustentam no vazio.
E, se caírem,
onde cairão?
A Testemunha de Deus
Se nenhum ser individual existisse,
quem testemunharia Deus?
Ele seria uma infinita solidão.
Solipsismo
Os solipsistas se reuniram
para decidir
qual deles era real.
E chegaram à conclusão
de que não houve reunião,
porque ninguém estava lá.
Apoio
Quem se apóia no vazio,
não precisa mais de apoio.
Expansão
Queremos sempre crescer
pouco importa para onde.
Crescer para além de nós,
para além da Terra e do cosmos,
e até para além da morte.
Sem importância
Um dia, pensávamos
que fôssemos importantes
e vivíamos como se fôssemos.
E essa importância ilusória
era o sentido da vida
de seres sem importância.
Como é importante saber
que não somos importantes
a não ser para nós mesmos!
A Testemunha
Tem o universo memória
de todos os seres mortos
desde o início da vida?
Quem guardará a memória
daqueles que já morreram
se o recordante é mortal?
Que testemunha imortal
lembrará todos os mortos?
Enigma
Como é ver as coisas
sem normas e sem valores
em seu puro existir?
O que será do observador
se vir o universo nu?
O que é ver a face
original da vida?
E se a virmos
o que seremos?
O que é ver o mundo
sem juízos e prejuízos?
Ver o que nunca foi visto,
porque só vemos
o que nos foi ensinado.
Não há olhos confiáveis.
Édipo
Somos um mistério
que procura decifrar-se.
Um Édipo equivocado,
pois a esfinge era ele.
Esquecimento
Quando sua voz não for mais ouvida,
quando ninguém lhe prestar mais atenção,
quando seu nome não for mais lembrado,
então você não passa de um fantasma
que teimosamente habita um corpo vivo.
O novo
Ser novo é não lembrar o que passou.
(O novo é tudo o que não tem passado.)
É ver a vida com os olhos limpos
sem a catarata do vivido.
Quando temos muito para ver,
não sobra tempo para recordar.
Libertação
A liberdade é pluma e não raízes.
Como podes voar se não tens asas,
e acorrentado estais ao chão das posses?
Se fazes do uso apenas pouso,
jamais serás escravos dos haveres,
nem da compulsão de adquiri-los.
Envelhecimento
Aquele que envelheceu,
não sonha mais impossíveis.
Conformado e conformista,
o mundo é o seu cansaço.
Ele é o que já foi
e o futuro será igual.
O passado que não existe
habita o presente morto.
Envelhecemos quando o que fomos
é maior do que o que somos.
Antiverbo
Tenho tanto o que não dizer!
As palavras não brotam no silêncio.
A compreensão dispensa a fala.
No princípio não era o verbo,
mas o silêncio cósmico inaudível.
Falar foi o pecado original.
Mãos
A sabedoria das mãos
nas labutas do fazer.
O que seria do fazer
se as mãos não existissem?
Era um pensar sem ação,
pois as mãos são pensamentos
e sentimentos de carne
que manipulam o mundo,
na engenharia dos dedos.
Saber inúti
Por que precisamos saber
que, um dia, vamos morrer?
Vegetais e animais não sabem disso.
E morrem com a mesma pureza
com que nasceram.
Solidões
O tempo vazio.
O espaço vazio.
O coração vazio.
Um oco que não tem fim.
A solidão sem fronteiras.
Um silêncio surdo-mudo
é testemunha do nada.
Preguiça
A preguiça de olhar o mundo
sem nada desejar
é a paz que apenas testemunha
o desfilar das coisas e dos seres.
Os bocejos são rápidos nirvanas
e adormecem o tumulto de pensar.
As Múmias
Quando o amor se torna hábito,
mera rotina doméstica,
concessões pelo cansaço,
e paz nascida do tédio,
somos múmias paralelas,
que sonham estarem juntas
num tempo que não mais é.
Veneno
O tempo é o veneno
que ingerimos todos os dias
e contra o qual não há antídoto
e nem imunização.
Doenças nada mais são
que infecções do tempo.
Inquietação
Não sabemos ficar quietos
apenas olhando o mundo
sem qualquer explicação.
Explicação é sedativo
para os conflitos e os aflitos
de saber o que a vida é
em suas contradições.
A Bengala
Porque ainda somos cegos
tateamos deuses falsos.
A bengala é falso guia.
A fé devolve a visão
e permite ver o mundo
além do mundo trilhado
pela bengala dos cegos.
Cidades
A cidade são cidades sucessivas,
ainda que nelas permaneçam
os mesmos prédios, ruas e jardins.
Cidades de tempos diferentes
povoam a memória dos idosos,
que como pré-fantasmas ainda habitam
na cidade e entre pessoas desconhecidas.
Um vento de saudade varre as ruas
espalhando a poeira das lembranças.
Visões e sonhos defuntos se misturam
com o cotidiano da cidade.
Tempos se cruzam como transeuntes
esbarrando em fantasmas conhecidos
e em pessoas que fomos e morreram.
Noturno
Ontem, a noite era povoada de seres luminosos,
em uma Terra de poucas luzes.
Hoje, as cidades ofuscaram o brilho dos deuses
porque a luz terrena aboliu a noite.
O sono é um pouco da noite que restou em nós.
O que fazermos em cidades que nunca anoitecem?
A luz e a vigília expulsaram a escuridão e o sono,
e espantou os sonhos e os fantasmas.
O Ponto
Somos apenas um ponto
em sucessão no espaço-tempo
na ilusão de que é uma linha
reta, ou curva, ou enovelada,
às vezes sem direção,
linha que, um dia, pára
e se condensa num ponto,
o ponto imóvel e final.
Lembrete
Esqueça de que serás sempre lembrado,
porque os que te lembram são mortais
e tudo se desfaz na Eternidade.
Contraste
Nascer é uma aquisição,
em meio à luta feroz
de milhões de seres possíveis.
Morrer é uma perda solitária.
Despertar
Deus é o sono
de quem não mais se acorda.
O impossível retorno
de quem partiu e esqueceu
o endereço do corpo.
Deus é luz tão intensa
que se torna escuridão,
porque os olhos cegaram.
Deus é a morte afinal
que ressuscita no vivo
o que nunca vivo foi,
porque latente no corpo
como se nunca existisse.
Museu
Coleção de tempo morto,
e fatos fragmentados.
Memórias das coisas afetam
os incautos visitantes
parasitados por mortas
sensações indefiníveis.
Museu é mais que lugar:
é reconstituição do ido
para entender o vivido.
Enfado
O tempo
é devaneio da eternidade,
quando cansa de si mesma.
Meditação
Às vezes, quando imergimos
em abismal meditação,
estamos (se é que estamos)
em lugar algum,
em tempo algum,
e nem sequer somos nós,
mas algo semelhante ao infinito,
do qual nada sabemos.
Metamorfose
Os futuros possíveis
fazem o presente antiquado.
Sentimo-nos em extinção
na chegada de outra raça
para substituir a humana,
gerada do próprio humano.
Embora seres passando,
já nos sentimos passados,
defendendo o que nos resta
contra aquilo que seremos
e que começamos a ser.
O vento
O vento sopra impetuoso,
vergando a copa das árvores.
As folhas caem no chão:
folhas secas, folhas verdes.
Por que não somente as secas?
Poesia
A poesia é ocasião
de sermos contraditórios.
Descompromisso com o lógico
e também com o absurdo.
A espontaneidade sem rumo,
bússola do imprevisível.
Cansaço
O cansaço vence tudo:
cansaço do que fazemos,
cansaço do que sentimos,
cansaço do que pensamos,
cansaço até do que somos.
Tudo pára se paramos.
Um cansaço invade o mundo
enquanto estamos cansados.
Mas quando o cansaço passa,
volta tudo ao que era antes.
O ALém
Os que morreram
não estão dormindo,
nem esquecidos,
apenas desinteressados
ou entediados
da insossa vida terrena.
Talvez o Além seja o ócio
reparador do que foi
à espera do que será.
A Dança
O que fazemos no mundo?
O que o mundo nos faz?
O que nós fazemos juntos
(nós e o mundo), um mesmo nó
numa ciranda sem fim?
Como saber a ação
que iniciou o universo
e seu cósmico bailado?
Se o movimento é eterno,
quem pode parar os átomos
e imobilizar as galáxias?