Mário Quintana (1906-1994)

 

VRB – Mário, você é um dos grandes poetas brasileiros. Pergunto-lhe então: o que a poesia?

 

Quintana – A Poesia é a invenção da Verdade.

A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder encantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica.

A poesia é um sintoma do sobrenatural.

Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.

 

VRB – Há leitores que, ao lerem um poema, querem saber a sua interpretação.

 

Quintana – Mas para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação.

 

VRB – Qual a sua opinião sobre a influência de um escritor sobre outro?

 

Mário Quintana – O que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional e que no entanto me deixaram indiferente. De quem é a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

 

VRB – A imaginação é uma característica dos romancistas e dos poetas. O que é a imaginação?

 

Quintana – A imaginação é a memória que enlouqueceu.

 

VRB – Qual é sua filosofia de vida?

 

Quintana – A gente deve atravessar a vida como quem está gazeando a escola e não como quem vai para a escola.

Uma vida não basta apenas ser  vivida: também precisa ser sonhada.

 

VRB – Autores, como Domenico de Masi , fazem apologia do ócio, inclusive como fonte de criatividade.

 

Quintana – A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

O que prejudica a minha preguiça prejudica o meu trabalho.

 

VRB – Temos respostas confiáveis para a Vida? Ou só podemos perguntar?

 

Quintana – Quase tudo neste mundo são perguntas e as respostas são quase sempre reticências...

 

VRB – A idéia do destino sempre esteve presente na filosofia, na religião, na literatura. Na sua concepção,  o que é o destino?

 

Quintana – O Destino é o acaso atacado de mania de grandeza.

 

VRB – A morte é certa, mas o instante da morte é sempre incerto. E essa incerteza do instante do morrer, você o retrata belamente em uma de suas poesias.

 

Quintana – Esta vida é uma estranha hospedaria,

                   De onde se parte quase sempre às tontas,

                   Pois nunca as nossas malas estão prontas,

                   E a nossa conta nunca está em dia...

 

VRB – A sobrevivência da alma após a morte do corpo é uma esperança da grande maioria das pessoas, porque acreditam no que dizem todas as religiões. O que é a alma para você?

 

Quitana – A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

Meu Deus! Como será uma alma deste mundo?!

 

VRB – Você tem medo de fantasmas?

 

Quintana – O fantasma é um exibicionista  póstumo.

Os fantasmas também sofrem de visões: somos nós...

 

VRB – Karl Marx afirmou que a religião é o ópio do povo. Você concorda?

 

Quintana – O ópio do povo é o trabalho.

 

VRB – Há pessoas que se preocupam tanto com o espírito a ponto de desprezar o corpo. Pensam que sabem muito sobre a alma, mas, na sua  maioria, nada sabem sobre o seu organismo.

 

Quintana – Conhecer o mistério de um corpo é talvez mais importante do que conhecer o mistério de uma alma.

 

VRB – Você acha que a teologia aproxima o homem de Deus?

 

Quintana – A teologia é o caminho mais longo para  chegar a Deus.

Mas como livrar Deus dos teogogos?

Deus é impróprio para adultos.

 

VRB – Você acredita em oração?

 

Quintana – Rezar é uma falta de fé: Nosso Senhor bem sabe o que está fazendo....

 

VRB – Há pessoas que mudam de religião porque perderam a fé no que acreditavam. Essa dúvida poderá ser neutralizada pela fé que encontraram noutra religião?

 

Quintana – Uma das coisas que não consigo absolutamente compreender são os que se convertem a outras religiões. Para que mudar de dúvidas?

 

VRB – Você se preocupa com o Além e seus mistérios?

 

Quintana – Por favor, deixa o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui.

 

VRB – Acredita em milagres?

 

Quintana – O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

                   Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...

                    Nem mudar água pura em vinho tinto.

                    Milagre é acreditarem nisso tudo.

 

VRB – O que o amedronta em relação à morte?

 

Quintana – Falam muito no Sono Eterno. Sempre falaram, aliás... E daí?

Daí, só uma coisa me impressiona, e muito: a ameaça de uma Insônia Eterna.

O pior da morte é essa brusca mudança de hábitos...

 

VRB – Costuma-se dizer que a morte iguala todas as pessoas.

 

Quintana – A morte não iguala ninguém: há caveiras que possuem todos os dentes.

 

VRB – O maior perigo para o idoso é a aposentadoria. Se ela não for bem aproveitada poderá, como conseqüência, acelerar o envelhecimento e antecipar a morte. Como você encara o trabalho na velhice?

 

Quitana – O trabalho é a farra dos velhos.

 

VRB – O que é o tempo?

 

Quintana – O tempo é a insônia da eternidade.

 

VRB – O tempo sempre foi uma das grandes preocupações do ser humano. Os saudosistas dão um grande valor ao passado e fazem do presente uma janela de onde contemplam tudo o que foi e tudo o que foram.

 

Quintana – O passado não reconhece o seu lugar: está sempre no presente.

 

VRB – A maioria dos idosos sempre fala dos bons velhos tempos, por inadaptação aos costumes dos tempos atuais.

 

Quintana – Mas os tempos são sempre bons, a gente é que não presta mais.

 

VRB – Cada fase do tempo tem seus próprios sentimentos, e todos eles sempre são vividos no presente.

 

Quintana – Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem ambas na casa do Presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e outra na do Futuro. Quanto ao Presente – ah! – esse nunca está em casa.

 

VRB – Qual o tipo de saudade mais dolorida?

 

Quintana – A saudade que dói mais fundo – e irremediavelmente – é a saudade que temos de nós.

 

VRB – Há filósofos que ensinam que o homem deve superar a si mesmo, exceder os seus limites.

 

Quintana – Ultrapassar-se? Mas como?! A gente só se ultrapassa, mesmo, quando vai para o outro mundo.

 

VRB – Consideramo-nos o ápice da escala evolutiva do nosso planeta. Apesar de os macacos estarem muito próximos a nós quanto à genética, há uma diferença qualitativa entre nós e eles. Graças à ciência e à tecnologia essa diferença é cada vez maior dentro de uma perspectiva estritamente operacional. Em compensação, os perigos do nosso progresso podem culminar na destruição da raça humana. O que você pensa a respeito?

 

Quintana – O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de ele venha a ser o nosso futuro.

 

VRB – Um dos nossos maiores medos é o da  solidão. E ela vem se agravando nas grandes megalópoles. Assim, há pessoas que viajam para fugir da solidão.

 

Quintana – Viajar é mudar o cenário da solidão.

 

VRB – Vivemos a experiência das megalópoles. Como você definiria uma cidade assim?

 

Quintana – Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas.

 

VRB – A ficção científica alerta para a possibilidade de o homem ser, um dia, superado e dominado pela máquina. É terrível essa visão de um mundo dirigido por robôs.

 

Quintana – O que há de terrível nos robôs não é como eles se parecem conosco, mas como nós nos parecemos com eles.

 

VRB – Como você se relaciona com o livro?

 

Quintana – O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.

 

VRB – Você já alguma vez releu seus livros?

 

Quintana – Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo.

 

VRB - Há escritores que procuram ser coerentes em todas as suas obras. Você tem essa preocupação?

 

Quintana - Um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo

 

VRB – O que é o sonho?

 

Quintana – Sonhar é acordar-se para dentro.

 

VRB – Você, alguma vez, já sentiu remorso?

 

Quintana – Há noites em que não posso dormir de remorsos por tudo o que deixei de cometer...

 

VRB – Quais as expressões humanas que demonstram autêntica sinceridade.

 

Quintana – Os sorrisos mais sinceros são os sorrisos dos desdentados.

 

VRB – Qual a palavra que denomina melhor o agrupamento humano.

 

Quintana – Nós – o pronome do rebanho.

 

VRB – Como você entende a criação do mundo?

 

Quintana – Se antes era o Nada, como poderia haver Alguém para tirar dele o mundo?