Bhagavan Sri Rama Maharishi (1897-1950)

 

 

VRB – A felicidade é a maior aspiração do ser humano. Quais os maiores obstáculos para obtê-la?

 

Maharishi – O medo e o desejo são obstáculos à felicidade.

 

VRB – E como se pode eliminar o medo?

 

Maharishi – Todo medo não é senão pensamentos. Pensamentos vêm por causa da identificação do Ser com o não-ser.

 

VRB – Há religiosos que procuram a solidão como estratégia contra o apego às pessoas e às coisas. A solidão apenas física concorre para destruir esse apego?

 

Maharishi – Quem está apegado a qualquer objeto não vive em solidão, esteja onde estiver.

 

VRB – Dizem os místicos que o ego é o maior inimigo do homem e fator impeditivo de sua libertação. Assim, consomem grande parte de seu tempo, buscando livrar-se do ego.

 

Maharishi – O estado sem ego não depende do tempo. Não há uma certa duração para chegar a ele, nem ele dura certo período.

É o ego que cria o tempo. Desaparecendo o ego, desaparece o tempo. Surgindo o ego, surge também o tempo.

Tempo e espaço são postos pelo ego: eles são mentais.

 

VRB – Podemos controlar os pensamentos, utilizando técnicas que suspendem o nosso pensar?  E também o nosso ego?

 

Maharishi – O pensamento do eu é o pai de todos os demais pensamentos: é o primeiro a aparecer e o último a desaparecer.

A mente é uma série de pensamentos e, por isso, não pode ser controlado por qualquer deles. Não se pode acabar com a mente, usando a própria mente.

 

VRB – Dizem que, enquanto houver o eu e o não-eu, o sujeito e o objeto, não haverá conhecimento verdadeiro da realidade ou Deus.

 

Maharishi – Enquanto houver dualidade, haverá também um Deus e um devoto.

 

VRB – Então, a nossa percepção do mundo, baseada em sujeito e objeto, não passa de uma ilusão.

 

Maharishi – O mundo, tal como o vemos, é aparência. O Ser Real é que sustenta a aparência do mundo.

 

VRB – Por conseguinte, enquanto existir o eu, não haverá verdadeira liberdade.

 

Maharishi – A liberdade verdadeira é a morte do eu. O eu é o verdadeiro inimigo do homem. Ele é a sombra do Ser.

 

VRB – Afirma-se que a família e as obrigações dela decorrentes podem ser obstáculos para a libertação.

 

Maharishi – Não é família que nos prende: nós é que nos prendemos à família.

 

VRB – Acredita-se que a vigília é o estado verdadeiro da mente e, não,  a experiência onírica. Não serão a vigília e o sonho reais para a mente, quando ela se encontra em um deles. Ou seja: a vigília, enquanto vigília, é real, o sonho, enquanto sonho, também é real?

 

Maharishi – O mundo na vigília é uma criação da mente tanto quanto o mundo onírico. Existe alguém que observa o mundo, seja no estado de vigília, seja no sonho. Ele é o elo existente entre esses dois estados da consciência.

 

VRB – Segundo o ensinamento dos místicos, o ego jamais revelará, mas sempre velará o Ser.

 

Maharishi – O Ser não é o ego: ele está além do ego. E o Ser só se manifesta, quando o ego deixa de existir. O ego oculta o Ser e, como pensamos que somos o ego, tememos perdê-lo e, com isso, impedimos a experiência do Ser.

 

VRB – Já lhe perguntaram, certa ocasião, se não lhe caberia pregar a verdade às pessoas para libertá-las. Qual foi a sua resposta?

 

Maharishi – Se um homem desperta de um sonho não pergunta: As pessoas que eu vi já acordaram? Da mesma forma o Sábio não tem vínculo com as pessoas do mundo.

 

VRB – Outros lhe indagaram se não seria egoísmo alcançar a própria libertação, deixando as pessoas no cativeiro? Assim procedem os que renunciam ao Nirvana com o propósito de salvar todas os seres humanos da ilusão do mundo físico.

 

Maharishi – É como se o sonhador dissesse: “Não acordarei até que todas essas pessoas do meu sonho acordem.”

 

VRB – O que é o “pecado original”?

 

Maharishi – O “pecado original” é a crença na realidade do ego.

 

VRB – Parmênides afirmou que o Ser é imóvel. Contrariamente, para Heráclito, tudo é devir, pois o ser é vir-a-ser.

 

Maharishi – O Ser não se move, mas o mundo nele se move.

 

VRB – Muitas pessoas têm medo da morte. O que lhes causa esse medo?

 

Maharishi – O desejo de dormir ou o medo da morte existem quando a mente está ativa e não nos respectivos estados. A mente sabe que a entidade-corpo subsiste e reaparece depois de haver dormido. Por conseguinte, o sono não é esperado com medo, mas com prazer pela inexistência temporária do corpo — a não existência dos pensamentos. Por outro lado, a mente não tem certeza de aparecer depois da chamada morte e, conseqüentemente, tem pavor dela.

 

VRB – Há alguma relação entre a morte e a evolução?

 

Maharishi – A morte consciente é a finalidade da evolução e a imortalidade consciente deve ser vivida enquanto ainda se está na carne.

 

VRB – Fundamentalmente, o que é a escravidão?

 

Maharishi – A escravidão está tão-somente na falsa noção de que "eu" estou agindo. Livre-se de tais pensamentos, mas deixe o corpo e os sentidos desempenharem seu papel livremente, sem sua intromissão.

 

VRB – O guru, ao menos inicialmente, é necessário para a realização espiritual?

 

Maharishi – Sim, mas o guru dentro de você. Para um ser realizado não há nem guru nem discípulo.

 

VRB – Se assim é, qual o papel da meditação?

 

Maharishi – O Mestre está dentro. A meditação é para afastar a ignorância de que Ele está fora.

 

VRB – Em que consiste a auto-realização?

 

Maharishi – A auto-realização consiste em fazer cessar todos os pensamentos, inclusive toda atividade mental.

 

VRB – Há mestres que insistem que se deve buscar o Ser para a realização do ser humano.

 

Maharishi – Não se há de buscar o Ser. Se o Ser devesse ser buscado, significaria que Ele não está aqui e agora, mas teria que ser adquirido de novo. O que é adquirido outra vez, também poderá estar perdido. Assim, desse modo, será impermanente. O que é impermanente, não merece esforço para ser conquistado. Assim, eu digo, o Ser não é para ser procurado. Você é o Ser! Você já é Isso. O fato é que você ignora seu estado de beatitude. A ignorância sobrevêm e põe um véu em cima do puro gozo. Os esforços estão sendo dirigidos exclusivamente à remoção da ignorância. Esta ignorância é apenas o conhecimento errôneo. O errado reside na falsa identificação do Ser com o corpo, a mente etc. A falsa identidade deve desaparecer pela indagação sobre o Ser, para que Este apareça.

 

VRB – Podemos, então, concluir que não há superconsciência.

 

Maharishi – A consciência do Ser é estado normal, enquanto que a nossa dificuldade presente é o estado anormal. Imaginamos que temos de desenvolver-nos ao estado perfeito, quando já nele estamos agora; apenas temo-lo encoberto com acréscimos de coisas externas e pensamentos. A gente fala para atingir a superconsciência. É errado. Ser é a nossa consciência normal. Imaginamos que devemos nos desenvolver a fim de alcançá-la, mas estamos nela o tempo todo, somente a nossa atenção está afastada disso, voltar , da ao intelecto e aos objetos.

Nada que tenha de ser alcançado é Verdade, não é a realidade. Já somos a Realidade, a Verdade.

Essa idéia de que você deve encontrar a si próprio é uma idéia absurda. O que há aí para encontrar? De acordo com isto, deduzimos que haja duas pessoas — uma procurando a outra. Embora você seja o verdadeiro Ser, identifica-se erradamente com o ego (Ahan-kara) e o corpo.

Falamos em alcançar o Ser, em buscar Deus com o tempo. Não há nada aí para se encontrar, pois, já somos auto-existentes. Nem haverá tempo algum em que possamos estar mais perto de Deus que agora. Agora e sempre somos o Bem-Aventurado, o Auto-Existente, o Infinito Ser. Nossa consciência continua sendo inquebrantável e eterna. Tudo o mais é Maya, a auto-hipnose que faz com que imaginemos que agora somos diferentes. Desipnotize-se! É o ego (Ahankara) que engana a si mesmo de que haja dois seres: um de que estamos cônscios agora (a pessoa) e outro, o superior, o Divino do qual um dia tornar-nos-emos cônscios. É falso. Há somente um SER e é plenamente consciente agora e sempre. Para Ele não existe nem passado, nem presente, nem futuro, porque É além do Tempo.

 

VRB – Hoje, mais do que nunca, cientistas, filósofos e religiosos estão empenhados na discussão sobre a realidade.

 

Maharishi – Todas as controvérsias sobre a Criação, a Natureza, o Universo, a Evolução e os Desígnios de Deus são inúteis.