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A Saga do Existir. Fotos do lançamento. Comentário.

 

 

 

Prefácio

 

A SAGA DO PENSAR

 

 

            Valter da Rosa Borges é um ser humano atípico, para não dizer "excrescente". Num mundo de ásperos valores, onde predominam o fanatismo tecnológico, o desvarismo aquisitivo, o hedonismo desesperado e o materialismo que avaliza todos os desrespeitos a primados éticos, num mundo de terrenos tão pantanosos, ei-lo a sulcar a terra com o arado de sua busca transcendental.

 

            Um compulsivo do incógnito, esse pernambucano que se arroja ao mar das aventuras metafísicas, com uma persistência e uma abnegação de marinheiro quase solitário. Daí os traços extremos que vincam sua personalidade, que para alguns parece ingenuamente sonhadora e utópica, para outros, profética, para outros ainda, revolucionária e antecipatória.

 

            Tal sua andança pelo planeta, desde que, há coisa de cinco décadas, resolveu enveredar pelo campo da Parapsicologia, ou da recém-sugerida Transcendentologia, tema de um próximo livro seu. Ao fazê-lo, é provável que tenha sufocado uma vocação poética, tida por promissora pelos críticos de seus poemas de mocidade. Mas as coisas não aconteceriam exatamente assim, a golpe de cortes radicais. Isto porque, no percurso da Poesia à Parapsicologia, ocorreu a fase mística, espiritualista, espiritista.

 

            Essas fases, se é que cabe a catalogação, se encontram nítidas no presente volume, tão pequeno de páginas quanto denso de idéias. Melhor dizendo: este trabalho revela o entrelaçamento entre as fases e as faces rosaborgianas. Basta ver que, do fundo das perquirições e conceituações rigidamente filosóficas e científicas, vez em quando repontam ingredientes místicos e poéticos. Neste último caso, não lhe foi possível sequer eludir a tentação aos versos, mesclados aos registros por vezes audaciosos e um tanto pretensiosos do parapsicólogo.

 

            Daí o dito lá em cima: Rosa Borges é um ser humano atípico, que só não é excrescente no mundo hipertecnológico e cético, porque indispensável.

 

            E como lhe sabe bem, ao paladar reflexivo, o jogo de palavras! Pois se trata - não esqueçamos - de um esteta minimalista... Tudo aqui remete à imagem do relojoeiro, à moda krishnamurtiana ou borgiana (sem trocadilhos...), quase à maneira zen...

 

            Não se está diante de mais um livro de auto-ajuda, ou de "esoterismo", ou de imposição de fórmulas milagrosas de "salvação" e felicidade. O Autor não é um ilusionista ou um aproveitador da alheia inocência e da esqualidez pensante. Não é mais um "iluminado", espécie de que se encontra infestado e empestado o mercado livreiro, o comércio da fé e da indigente psicologia em voga numa ambiência de atordoados e medíocres.

 

            Desavisado andará quem recorrer, nestas páginas, à gurulatria dos magos de plantão. Ao contrário: Rosa Borges sabe ser impiedoso e punitivo, ao desnudar o mundo dos humanos, a partir do seu próprio desnudamento, numa audácia catártica que não exclui, quiçá contraditoriamente, a compreensão das nossas fraquezas e, sobretudo, das nossas ilusões.

 

            Ele transita por essa dualidade num à-vontade que beira (com rima e tudo) a irresponsabilidade, tamanha sua contundência não raro professoral. Para tanto, requer-se uma coragem intelectual somente reservada a quem não teme pensar e descer, até às últimas conseqüências, ao poço trevoso da condição humana.

 

            Veemente e humilde ao  mesmo tempo, cultivando o paradoxo, afirmando e negando (se), distribuindo as peças do seu jogo de xadrez no tabuleiro da ousadia, Rosa Borges nos instiga a reflexões e reformulações de conceitos e preconceitos com que convivemos por vezes despercebidos e desapercebidos.

 

            Ao cabo da leitura desta "Saga", saímos enriquecidos pela impressão de que, com efeito, quando não é pequena a alma, tudo vale a pena.

 

 

                                                                       Amílcar Dória Matos

                                                                       (Da Academia Pernambucana de Letras)