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HOMEM

 

No princípio, era o Homem.
E ele fez o mundo
à sua imagem e semelhança
com números e palavras.
E este foi o primeiro
e último dia da Criação,
porque os números e as palavras
fizeram tudo o mais.

 

O homem inventou a igualdade.
Na natureza tudo é desigual.
A perfeição é invenção geométrica.
A ordem do mundo é o caos mutante.
A criação é sempre nova:
só acontece uma vez.
Se você aprender a ver
nunca mais dirá que o mundo
é o mesmo o tempo todo.

 

Ser humano que sou, não sei que humano
possa exceder à sua condição
e revelar mistérios que não passam
de criações da carne atormentada.

 

Há ocasiões em que o ser humano é o seu pior algoz.

 

O homem possui, em potencial, os atributos de todos os seres vivos. Em condições normais, ele desenvolve os atributos específicos de sua natureza. Porém, em situações especiais, pode acessar a programação de outra espécie, que se encontra, em latência, no seu organismo. 

Não somos apenas um aspecto da realidade, mas criadores de realidades. Não apenas realidade criada, mas também realidade criante.

Certas experiências inusitadas do ser humano são uma inequívoca demonstração de que somos maior do que aquilo que revelamos em nossa rotina biológica e social. E, quando fortuitamente, acessamos outros comandos da nossa programação e manifestamos conhecimentos e aptidões que não conhecíamos, somos levados a pensar que se trata de uma ação transcendental interferindo em nosso organismo.

Queremos conhecer e conhecermo-nos, transformar a realidade e transformarmo-nos. Estamos sempre tentando expandir-nos para além da Terra e até mesmo para além da morte.

Somos um ser que não apenas reage aos fatos, mas que também age sobre fatos e cria fatos. Hoje, grande parte do que existe em nosso planeta é criação humana. Criamos uma nova realidade dentro da natureza.

Em algumas ocasiões, opomo-nos à natureza, aumentando a nossa própria longevidade, melhorando a vida dos seres fracos e até salvando-a. Misto de criatividade e adaptabilidade, criamos novas opções para viver mais  produtivamente e saber adaptar-nos às situações emergentes a fim de sobrevivermos.

Voluntariamente, assumimos riscos de qualquer natureza. Ou, impulsivamente, expomos a nossa vida a perigo de morte na tentativa de salvar a vida de outrem, mesmo que seja a de um desconhecido. Assim, somos capazes de, em certas circunstâncias, contrariar o nosso mecanismo de autoconservação.                                                                                                                                                                                              

Somos um aspecto da realidade com a aptidão de pensar sobre ela e de compreendê-la cada vez mais. Em todos os tempos, sempre procuramos os fundamentos da realidade na busca de algo irredutível do qual se originam todas as coisas. Somos a realidade refletindo sobre si mesma.

É uma arrematada tolice pretender que o comportamento humano possa ser sempre previsível, se isso nem sequer ocorre com as partículas subatômicas. Não se pode investigar o fenômeno humano como se investigam fenômenos físicos, utilizando o mesmo método para ambos os casos.

Cada homem tem aspectos múltiplos e pode ser definido por cada um deles. Por isso, o mesmo indivíduo é diferente quando visto por diversos percebedores, que o percebem sob aspectos diferentes.

 

Na peça teatral Antígona, do teatrólogo grego Sófocles, o coro proclama: “Há muitas maravilhas neste mundo, mas a maior de todas é o homem”. Pico de la Mirandola também tem o mesmo ufanismo: “Nada há mais de grandioso sobre a terra do que o homem, nada mais grandioso no homem do que seu espírito e sua alma”.

 

O homem é um universo de probabilidades. Podemos conhecer seu passado, reconhecer as conseqüências do passado no seu presente e, com base neste, fazer conjeturas sobre as possibilidades que poderão constituir seu futuro.

 

Os dois maiores inimigos do homem: o fascínio do poder e a paralisia do medo.

 

O poeta grego Píndaro dizia que a finalidade do homem era a sua auto-realização como indivíduo. E Tomás de Aquino doutrinou que o fim do homem é o aperfeiçoamento da própria natureza e, portanto, transcende a ele próprio.

 

Ignoramos, ainda, todas as potencialidades do ser humano. Por isso, não sabemos quanto atualizamos de todo nosso potencial.

Afirmar que o homem precisa aperfeiçoar a sua natureza é admitir, implicitamente, a sua imperfeição. Atualizar não é aperfeiçoar, mas operacionalizar um potencial.

Por outro lado, nem tudo o que o homem é se ajusta ao modelo cultural onde ele vive e, por conseguinte, certas disposições humanas não se compatibilizam com as normas e valores sociais.

Na verdade, fomos educados a não ultrapassar os nossos limites, sejam eles sociais, biológicos e psíquicos. E porque acreditamos nos limites que nos foram impostos, bloqueamos, com isso, as nossas potencialidades.

 

Somos um organismo que se fez biografia, a qual, em alguns casos, sobreviveu durante anos, séculos e até milênios à morte corporal. O homem, portanto, não é apenas um acontecimento biológico, mas uma construção biográfica. O que ele chama de espírito é a biografia que criou, seu agregado coerente de mitos pessoais e de fatos.

A nossa história pessoal não está isolada. Ela interage e se enriquece com a história de outras pessoas, sejam reais ou de ficção. A nossa vida é a história que construímos sobre nós mesmos e das pessoas reais e imaginárias que permitimos fazer parte dela. Histórias dos outros nos encantam e queremos que elas também façam parte da nossa história. Seres reais ou ficcionais nos seduzem e queremos imitá-los, fazendo-os substitutos ocasionais ou permanentes do nosso modo de ser.

A História é a biografia da humanidade. Só podemos conhecer-nos, se conhecermos a História da qual somos feitos. Ela é tecida com fatos e interpretações de fatos, e entremeada de mitos, segundo as necessidades do homem em cada época e em cada sociedade. A História é, ao mesmo tempo, a crença dos historiadores e a crença nos historiadores.    

O conhecimento histórico tem demonstrado a contínua alternância dos opostos em épocas e culturas diversas e em cada cultura em particular, na roda girante de normas, valores e comportamentos, embora sob novas formas. Assim, tudo começa, progride, atinge o apogeu, declina, morre e recomeça. Até o momento, guerra e paz, paz e guerra se alternam embora em formas diferentes, porque o pacifismo e a violência têm mil faces. O pacifismo exagerado pelo abuso da tolerância, incentiva a violência, e a violência exagerada motiva os mais intensos e exaltados movimentos pacifistas. O que excede em uma parte escasseia na outra.

 

O homem é a realidade que procura explicar-se a si mesma.

Somos um organismo que se fez biografia, a qual, em alguns casos, sobreviveu durante anos, séculos e até milênios à morte corporal. O homem, portanto, não é apenas um acontecimento biológico, mas uma construção biográfica. O que ele chama de espírito é a biografia que criou, seu agregado coerente de mitos pessoais e de fatos.

 

O homem é a realidade que procura explicar-se a si mesma.

Somos um organismo que se fez biografia, a qual, em alguns casos, sobreviveu durante anos, séculos e até milênios à morte corporal. O homem, portanto, não é apenas um acontecimento biológico, mas uma construção biográfica. O que ele chama de espírito é a biografia que criou, seu agregado coerente de mitos pessoais e de fatos.

 

O adulto, em regra geral, perdeu a quase totalidade do seu potencial. Ele se enrijeceu em um determinado potencial que atualizou. Tornou-se, então, um homem normal: rotineiro, medíocre, moderado, de pouca ou nenhuma imaginação, rigidamente organizado, cuja inteligência está ligada a questões práticas e a padrões convencionais.

A criança é o estágio do ser humano de máxima espontaneidade e de mínimo condicionamento. O adulto é o estágio do ser humano de mínima espontaneidade e de máximo condicionamento.

 

Não somos apenas um ser da natureza: a cidade é a natureza que o homem criou para si. As megalópoles modernas promovem essa experiência humana da quantificação e da diversidade, estabelecendo as mais variadas formas de relações interpessoais, que afetam profundamente a nossa personalidade pela versatilidade dos comportamentos individuais.

Somos um universo infinito de probabilidades, procurando, desesperadamente, ser algumas delas, mas conformando-nos em ser apenas umas delas.

 

Extraordinário é o homem que conseguiu ser natural.