Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

 

VRB – O que você mais admira em um ser humano?

 

Goethe – Gosto daquele que sonha o impossível.

 

VRB – A genialidade é uma aptidão inata ou é uma construção do esforço de cada indivíduo?

 

Goethe – Genialidade é esforço.

O gênio, esse poder que deslumbra os olhos humanos, não é outra coisa senão a perseverança bem disfarçada.

 

VRB – Na minha opinião, a genialidade é inata, mas se desenvolve pelo esforço de quem a possui. Por isso, o gênio é invejado.

 

Goethe – O homem não é só o inato, mas também o adquirido.

Não há maior consolação para a mediocridade do que o fato de o gênio não ser imortal.

 

VRB – Qual a relação entre o conhecimento e a dúvida?

 

Goethe – Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida.

 

VRB – Podemos permutar as nossas dúvidas?

 

Goethe – Dê-me o benefício das suas convicções, se as tiver, mas guarde para si as dúvidas. Bastam-me as que tenho.

 

VRB – Caso exista o Além e, nele suplícios, qual deles seria o maior para você?

 

Goethe – Para mim, o maior dos suplícios seria estar sozinho no Paraíso.

 

VRB – Vivemos sempre a procura da verdade. Essa busca é angustiante para quase todas as pessoas. Há aquelas que duvidam da verdade. E outras que não pensam sobre o assunto e apenas se empenham em errar o menos possível.

 

Goethe – É muito mais fácil reconhecer o erro do que encontrar a verdade; aquele está na superfície e por isso é fácil erradicá-lo; esta repousa no fundo, e não é qualquer um que a pode investigar.

 

VRB – A ordem estabelecida nem sempre é justa. Neste caso, ela deve ser mudada.

 

Goethe – Prefiro uma injustiça a uma desordem.

 

VRB – O que nos faz mudar a nossa percepção de Deus?

 

Goethe – Se estamos no alto, Deus é tudo. Se estamos em baixo, Deus é uma compensação para a nossa miséria.

 

VRB – O milagre reforça a fé?

 

Goethe – O milagre é o filho predileto da fé.

 

VRB – Pode também o milagre tornar felizes as pessoas, principalmente as religiosas?

 

Goethe – As pessoas felizes não acreditam em milagres.

 

VRB – A longevidade é uma antiga aspiração do ser humano e que, atualmente, vem aumentando graças ao avanço da ciência. No entanto, tem os seus inconvenientes psicológicos e sociais.

 

Goethe – Viver muito tempo significa sobreviver a muitos entes amados, odiados, indiferentes.

 

VRB – Apesar disso, a velhice tem as suas compensações.

 

Goethe – O que a mocidade deseja, a velhice o tem em abundância.

Quando se é velho, é preciso ser mais ativo do que quando jovem.

Envelhecer significa por si mesmo entrar em uma nova atividade; todas as relações se alteram e precisamos ou bem parar totalmente de agir ou bem assumir com vontade e consciência o novo papel.

 

VRB – O que de mais importante a velhice nos priva?

 

Goethe - O velho perde um dos maiores direitos do homem: ele não é mais julgado por seus iguais.

 

VRB – O que mais se reclama na velhice é a progressiva perda da memória.

 

Goethe – Onde quer que o interesse se perca, perde-se também a memória.

 

VRB – O que há de melhor na juventude?

 

Goethe – A juventude é a embriaguez sem vinho.

 

VRB – Qual a maior tolice que um jovem inteligente pode cometer?

 

Goethe – Quem pensou uma coisa tola ou sensata, que já não tenha pensado o mundo antigo?

O mais tolo dos todos os erros é quando uma boa cabeça jovem crê perder a sua originalidade ao dar-se conta de uma verdade que já fora descoberta por outros.

O erro só é bom enquanto somos jovens. À medida que avançamos na idade, não convém que o arrastemos atrás de nós.

 

VRB – Há pessoas que vivem a vida com severidade. Entendo que ela é um grande obstáculo à criatividade e a alegria da vida.

 

Goethe – Se tomardes a vida com excessiva severidade, que atração tem? Se a manhã não vos convidar a novas alegrias e se à noite não esperardes nenhum prazer, valerá a pena vestir-se e despir-se?

 

VRB – Durante toda a nossa vida buscamos explicações e significados para ela. Mas, principalmente, vivemos a procura de nós mesmos.

 

Goethe – De um modo geral, o homem tem de andar às apalpadelas; não sabe de onde veio nem para onde vai, conhece pouco do mundo e menos ainda de si mesmo.

Quando um homem não se encontra a si mesmo, não encontra nada.

 

VRB – Raramente, o ser humano sabe distinguir seus desejos de suas verdadeiras necessidades.

 

Goethe – O ser humano tem muito mais desejos do que necessidades.

O homem deseja tantas coisas, e, no entanto, precisa de tão pouco.

 

VRB – A vida é imortal?

 

Goethe – A vida é a infância da imortalidade.

 

VRB – O que mais provoca a alegria em um pensador?

 

Goethe – A mais nobre alegria dos homens que pensam é haverem explorado o concebível e reverenciarem em paz o incognoscível.

Quem faz as coisas com alegria e se alegra com o que foi feito, é feliz.

 

VRB – Que sentimentos sobre o transcendental resultam da nossa relação com a natureza?

 

Goethe – Pesquisando a natureza somos panteístas, poeticamente somos politeístas e eticamente somos monoteístas.

 

VRB – Somos aquilo que cremos e não apenas o que pensamos e sentimos.

 

Goethe – Crença é amor em relação ao invisível, confiança no impossível.

 

VRB – O que causa empecilho ao desenvolvimento mais rápido da ciência?

 

Goethe – O que retarda na maioria das vezes as ciências é o fato de aqueles que se ocupam delas serem espíritos desiguais.

 

VRB – A matemática alcançou tal prestígio que muitos cientistas acreditam que ela possa ser aplicada em todos os ramos do conhecimento. Há até aqueles que acreditam que a realidade pode ser explicada pela matemática. É uma espécie de versão moderna do pitagorismo.

 

Goethe – Não segue de maneira alguma por si mesmo o fato de o caçador que abateu a caça também precisar ser ao mesmo tempo o homem que a prepara. Casualmente, um cozinheiro pode tomar parte numa caçada e atirar bem; mas este tiraria uma conclusão falsa e perniciosa se afirmasse que para atirar bem seria preciso ser cozinheiro. Assim me parecem os matemáticos que afirmam não ser possível ver nada e encontrar nada nas coisas físicas sem ser matemático, visto que eles sempre poderiam estar de qualquer modo satisfeitos se os colocássemos na cozinha, para que eles pudessem rechear tudo com fórmulas e preparar os pratos a seu bel-prazer.

 

VRB – A arte conflita com o mundo ou retrata o conflito do artista com os problemas do mundo? É possível haver uma conciliação?

 

Goethe – Não há nenhum meio mais seguro de nos esquivarmos do mundo do que a arte, assim como não há nenhum meio mais seguro de se ligar a ele do que a arte.

Só a arte permite a realização de tudo o que na realidade a vida recusa ao homem.

 

VRB – A música, de todas as artes, é aquela que melhor revela o sentimento humano.

 

Goethe – A dignidade da arte talvez apareça junto à música da forma mais eminente porque ela não possui nenhuma matéria que precise ser calculada. Ela é totalmente forma e conteúdo, além de elevar e enobrecer tudo o que expressa.

A música é divina ou profana. O divino está totalmente de acordo com sua dignidade e ela tem neste caso o maior efeito possível sobre a vida. Este efeito permanece idêntico a si através de todos os tempos e épocas. O profano deveria ser completamente sereno.

Uma música que mistura o caráter divino e profano é atéia, assim como uma música semi-instigante que encontra prazer em ex­pressar sensações fracas, cheias de lamentos e mesquinhas é de péssimo gosto. Pois ela não é séria o bastante para ser divina e lhe falta o caráter central do oposto: a serenidade.

O caráter divino da música religiosa, assim como o caráter sereno e trocista das melodias populares, são os dois anjos que giram em torno da verdadeira música. Essa apresenta o tempo todo um efeito inexorável sobre estes dois pontos: sobre a devoção e a dança. A mistura leva ao erro, o enfraquecimento a torna insípida e se a música quiser se voltar para coisas como poemas pedagógicos ou descritivos, ela se torna fria.

 

VRB – A escultura é o gesto imobilizado no tempo e no espaço.

 

Goethe – A escultura só produz efeito em seu grau mais elevado. Com certeza, tudo o que é intermediário pode nos impressionar por várias razões. No entanto, todas as obras de arte intermediárias deste tipo conduzem muito mais ao erro do que à alegria. Com isto, a arte do escultor ainda precisa buscar para si um interesse temático, e ela o encontra em obras que retratam homens significativos. Também aqui, contudo, ela precisa atingir um grau elevado se quiser ser ao mesmo tempo verdadeira e digna.

 

VRB – A pintura é o resultado estético da forma e da cor. Imitação da natureza, criação pessoal, simbolismo.

 

Goethe - A pintura é a mais distensa e desembaraçada das artes. A mais distensa porque, em virtude do material e do objeto, mesmo aí onde ela não é senão artesanato ou quase nem é arte, não levamos em conta muita coisa nela e nos alegramos; em parte porque uma execução técnica, mesmo que desprovida de espírito, lança tanto o homem inculto quanto o homem culto em admiração, de modo que ela só precisa se alçar em certa medida até a arte, a fim de ser bem-vinda em um grau mais elevado. Verdade em cores, superfícies, em ligações dos objetos visíveis uns com os outros já é por si só agradável. A medida que o olhar já está além disto habituado a ver tudo, uma figura disforme e deformada não lhe é tão repugnante quanto uma nota falsa ao ouvido. Deixa-se vigir a pior representação porque se está acostumado a ver objetos ainda piores. Portanto, o pintor só precisa ser em certa medida artista para que possa encontrar um público maior do que o músico que se acha no mesmo nível. Ao menos, porém, o pintor menor sem­pre pode operar por si mesmo, enquanto o músico menor precisa se associar com outros para alcançar algum efeito por meio de um esforço musical combinado.

 

VRB – Como se revela um grande artista?

 

Goethe – Todo grande artista nos arrebata, nos contamina.

Artistas perfeitos têm mais a agradecer ao ensino do que à natureza.

 

VRB – A técnica é sempre importante para a arte?

 

Goethe – Em sua união com o mau gosto, a técnica é a mais terrível inimiga da arte.

 

VRB – Até o que nos parece belo também satura.

 

Goethe - Não se olha mais o arco-íris quando ele dura 15 minutos.

 

VRB – É uma ilusão pensarmos que as pessoas sempre compreendem o que dizemos.

 

Goethe – Cada um só escuta o que compreende.

 

VRB – As paixões fazem parte da natureza humana. Nem sempre a idade as destrói.

 

Goethe – Nossas paixões são verdadeiras Fênix. Uma vez que a antiga morre, a nova ascende uma vez mais imediatamente das cinzas.

Grandes paixões são doenças sem esperança. O que as poderia curar é que as torna efetivamente perigosas.

 

VRB – O ódio é um dos mais perigosos venenos para a nossa saúde física e mental. Há alguma relação entre o ódio e a inveja?

 

Goethe – O ódio é um desprazer ativo; a inveja, um passivo. Portanto, não é espantoso que a inveja rapidamente se transforme em ódio.

 

VRB – Em regra, a nossa percepção do mundo se transforma com a idade. O tempo é o maior inimigo da nossa coerência.

 

Goethe – A cada idade do homem corresponde uma certa filosofia. A criança se mostra como realista, pois ela se acha tão convencida da existência das peras e das maçãs quanto da sua. O jovem, perturbado por paixões internas, precisa notar a si mesmo, sondar-se: ele se transforma em idealista. Em contrapartida, o homem adulto tem todas as razões para se tornar um cético; ele faz bem em duvidar se os meios que escolheu para alcançar os fins são mesmo os corretos. Antes de agir, em meio à ação, ele tem toda razão em manter o entendimento em movimento, para que não tenha depois de se afligir por uma falsa escolha. O ancião, porém, sempre se entrega ao misticismo. Ele vê que tantas coisas parecem depender do acaso: o irracional tem sucesso, o racional malogra, felicidade e infelicidade se colocam inesperadamente em equilíbrio; assim o é, assim o foi, e a elevada idade se aquieta naquele que está aí, que esteve aí, que estará aí.