Página inicial

Voltar

O QUE FOI O GRÊMIO CULTURAL JOAQUIM NABUCO

O Grêmio Cultural Joaquim Nabuco foi fundado em 2 de dezembro de 1950 por Valter da Rosa Borges, Tibério da Silva Rocha e Walter José Dantas, e encerrou suas atividades em 1958. Constituído por adolescentes, O Grêmio Cultural Joaquim Nabuco foi az mais importante e produtiva de de todas as associações lítero-artísticas juvenis do Recife na década de 1950.  Publicava um jornal, intitulado "Evolução", cuja existência foi registrada no livro "História da Imprensa de Pernambuco", do destacado jornalista Luiz do Nascimento. Os sócios do Grêmio Cultural Joaquim Nabuco se reuniam na casa de Valter da Rosa Borges, à rua Imperial, 415, e foi homenageado pelos escritores Andrade Lima Filho e Flávio Guerra em artigos publicados na "Folha da Manhã" e no "Diário da Noite", respectivamente. A história da instituição está retratada no livro "Grêmio Cultural Joaquim Nabuco (Memória de um Bairro), de Valter da Rosa Borges.

Rua Imperial, 415 (*)

Andrade Lima  

"Quando você, leitor, passar por essa rua, descubra-se diante desse número. Por mais preocupado que esteja com os atropelos desta nossa vida cotidiana, não siga indiferente: tire o chapéu, como faz diante de um templo. Porque lá dentro algo se passa que merece o nosso respeito. E mais do que isso, o nosso estímulo.

O 415 da Rua Imperial não é famoso, decerto, como o Dowing Street, 10, onde os fantasmas de Malborough e de Pitt vêm conversar com o velho Churchill sôbre os destinos de um império. Mas, amanhã, quando houver, em relação ao que hoje ali ocorre, aquilo que se chama perspectiva histórica, poderá vir a sê-lo. E então se saberá que por ali passou, em diálogos com os jovens, não fantasmas como aqueles, mas a sombra fascinadora de um grande espírito. Porque ali funciona, modesto, quase ignorado, mas atuante, o "Grêmio Cultural Joaquim Nabuco", onde êsses jovens, mal saídos das calças curtas, colegiais ainda, adolescentes e imberbes, sonham um lindo sonho de arte e cultura, num assédio juvenil à Parságada da inteligência.

Ali compõem ensaios, fazem poemas, desenham, pintam e discutem, em comum, os seus trabalhos, muito sérios e muito compenetrados da decisão que tomaram de conquistar o mundo, às vezes inhóspito, das letras e das artes. E o fazem certos de que possuem, mais felizes do que o ansioso e desesperado poeta, a "estrêla da manhã", capaz de iIuminar-lhes o caminho e conduzi-los à posse do desejado e merecido futuro. Desejado e merecido, repito, porque eles não o desejam apenas: merecem-no também. E o merecem pela seriedade, pela sobriedade, pela profunda convicção com que se entregam às sedutoras tarefas do espírito, de costas voltadas para as solicitações materiais de uma vida cada vez mais árida e mais vulgar, como esta nossa.

Êsses jovens colegiais, entre os quais podem ser pressentidas vocações de poetas, de escritores e de artistas, estiveram comigo em busca de uma palavra de encorajamento e de estímulo. Mas êles não precisam dessa palavra. Porque já trazem consigo, na tenacidade com que atuam, a vigorosa emulação da própria força criadora, silenciosa, mas fecunda. Pois deles será, se perseverarem, o mundo que está nascendo de suas mãos.

O que é preciso é que Mauro Mota, Esmaragdo Marroquim e Cesário de MeIo, suaves ditadores da literatura provinciana, Ihes abram as portas dos seus suplementos. Os hóspedes desse juvenil Hotel Ramboillet, que é o 415 da Rua Imperial, estão sófregos por esta oportunidade. E êles fazem jús a ela, por que não?" 

(*) Folha da Manhã, 8 de setembro de 1954

 

Coluna “A Ronda dos Sete Dias (*)

Flávio Guerra

"- Um confrade já escreveu, certa vez, que quando alguém passasse pela praça Sérgio Loreto, por defronte do número 415, tirasse o chapéu respeitosamente, porque ali se reúne um grupo de moços, muitos ainda até imberbes, que sabe respeitar e amar as coisas da inteligência e do Brasil.

E nós diremos mais ainda. Recomendamos que o transeunte tire o chapéu, se concentre e medite, porque estes moços, na modéstia de suas reuniões em ambientes simples de móveis singelos, sinceridade dos atuantes respectivos e elegância de discernimentos, êstes moços representam a alma pura de uma pátria que ainda pode e deve ser salva.

O sentimento belo de respeito às artes e amor à cultura. O simbolismo da decência e virilidade intelectual de uma nação. E isto partindo em grande maioria de quase meninos, de jovens mal saídos dos bancos ginasiais, de moços professores, de modestos comerciários, radiatores, operários, estudantes todos, porém puros, sem mácula, de linhas florescentes no campo cultural da pátria, embora desconhecidos, ansiando por salvação de costumes e desesperando contra a inteligência ofendida, subvertida e humilhada.

São estes moços que compõem o "GRÊMIO CULTURAL JOAQUIM NABUCO", que ainda nos dão uma esperança no Brasil de amanhã.

Quando estiverdes, amigo leitor, desesperado e sombrio com a nossa degradação de costumes e com o desprêzo pelas cousas da inteligência e da cultura, que se nota nêste Brasil, quando estiverdes assim descrente e desiludido ide, amigo, à praça Sérgio Loreto, assisti alí uma reunião aos sábados do "GRÊMIO CULTURAL JOAQUIM NABUCO". Assistí com emoção e depois nos diz eis se não temos razão em afirmar que alí simbólicamente não se reflete um futuro necessário ao Brasil. Se aquêles moços que alí se reunem desprezando as futilidades da vida, o mundanismo e o vazio das perdições hodiernas, entregando-se platônica mente, às coisas da arte e do espírito, da verdade e da inteligência, sem nenhum objetivo mercenário, ou intúito grosseiro de mercantilismo político, se êles, de fato, não são admiráveis e dignos de referência e registo?

Na vida dos homens modernos as coisas materiais continuadamente massacram e extinguem as emoções e os direitos da sensibilidade. E para antepôr-se a esta materialização grosseira que corrompe e asfixia as sociedades modernas somente levantando-se o anteparo da cultura e da fraternidade, em amor a Deus e às coisas da inteligência.

E isto moldando dentro da sociedade, ao desabrochar das capacidades e plasmações dos sentidos. Assim como se faz no "GRÊMIO CULTURAL JOAQUIM NABUCQ", onde a mocidade que alí se reune não sorve a cicuta da perdição, porém bebe o néctar das variações sentimentais das letras, da poesia, das artes para o bem e para o aprimoramento da inteligência.

Vale a pena conhecer-se como "avis rara", ou corpo estranho de uma sociedade em dias de perdição êstes denodados cavaleiros de uma luta sem fim, de uma personalidade desconhecida."

 

Amílcar Dória Matos, no seu discurso de posse na Cadeira no 16 da Academia Pernambucana de Letras, em 17 de setembro de 1992, assim lembrou a sua vivência no GCJN:

"Por essa quadra já um tanto recuada nos longes do tempo, olhares suspicazes e invejosos eram por mim arremetidos, de esguelha, à casa 415 da Rua Imperial, que o progresso viria, evidentemente, a destruir. Ali, um grupo de jovens e brilhantes discípulos dos Paulinos e dos Vilanovas manipulavam diabólicas retortas de alquimia. Aos meus deslumbrados olhos de empinador de papagaios e morcegador de bondes, o ritual levado a curso naquele sodalício de arrabalde transportava-me a inquietantes lucubrações. Como nele penetrar, eu mesmo, egresso das dunas do areal, o corpo recendendo a água salgada da bacia do Pina? O que faziam aqueles compenetrados e bem-comportados membros da esotérica confraria? Como chegar até eles, tocar-lhes as limpas camisas e dirigir-lhes a palavra?

      Sucede que o oficiante-mor, o grão-mestre da cabalística ordem, não era outro senão o inquilino da casa, o poeta e hoje nacionalmente respeitado parapsicólogo Válter da Rosa Borges. Deu-se que o autor dos versos quase adolescentes de "Os Brinquedos" e das maduras obras filosóficas "Só a Busca é Definitiva" e "Introdução ao Paranormal", concedia-me a honra de sua benevolente camaradagem. Tendo circulado pelos corredores do Colégio a notícia do meu "plágio", Rosa Borges desceu do seu grão-mestrado, onde se altanava com basta cabeleira à Castro Alves, para condescender em efetivar dinâmica leitura do meu texto.

E assim se me abriram, de par em par, as inefáveis portas do Grêmio Cultural Joaquim Nabuco.

Estava iniciada a minha carreira literária, que agora, tantos anos volvidos, me abre as portas de um outro sodalício, bem mais ilustre, o maior de todos os templos da cultura pernambucana."

Uma das Diretorias do Grêmio Cultural Joaquim Nabuco. Da esquerda para a direita: em pé - Amílcar Dória Matos, João Antônio de Vasconcelos e Dércio Pessoa; sentados - Valter da Rosa Borges, Nilson Lins, Abílio Gomes Guerra e Djalma Freire Borges.

O filósofo Huberto Rohden em visita ao Grêmio Cultural Joaquim Nabuco