Mahatman Gandhi

 

 

VRB – O Ocidente percebe o sistema de castas, ainda existente na Índia, como equivocado, estático e retrógrado, impossibilitando a dinâmica social e prefixando a posição dos indivíduos na sociedade. Você admite que este sistema é ainda válido no mundo moderno?

 

Gandhi – O sistema de castas é, a meu ver, inerente à natureza humana, e o Hinduísmo fez dele apenas uma ciência.

Considero o sistema de quatro castas como uma sã repartição do trabalho antes do nascimento.

Poder passar de uma casta a outra no curso de uma encarnação dará como resultado uma grande fraude.

A concepção atual das castas é uma percepção do original.

 

VRB – O que é mais importante, no seu modo de ver: o amor ou a verdade?

 

Gandhi – O amor pode derivar da Verdade ou ser ligado à Verdade. A Verdade e o Amor são um só e mesma coisa. Tenho, entretanto, uma certa fraqueza pela Verdade. Numa última análise, não se pode ter senão uma só realidade. A Verdade, a mais alta, não precisa ser fundamentada. A Verdade é o fim, o Amor o meio para chegar até lá. Sabemos o que é o Amor ou a não--violência, tanto que temos dificuldade em observar a lei. Mas quanto à Verdade, não conhecemos mais que uma parcela. É difícil ao homem chegar a um conhecimento perfeito da Verdade, assim como lhe é difícil a prática perfeita da não-violência.

 

VRB – Pode o ser humano conhecer a verdade?

 

Gandhi – Não é dado ao homem conhecer a Verdade total; o seu dever está em viver de acordo com a Verdade na medida que ele a percebeu; e, em procedendo assim, deve recorrer aos meios mais puros, isto é, à não-violência.

 

VRB – Cada religião se arroga de possuir a verdade. E, por isso, litigam entre si. Qual delas é detentora da verdade ou nenhuma delas a tem?

 

Gandhi – As verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes e estão na mesma árvore.

A Verdade habita no coração de todo homem, e é ali que devemos procurá-la e viver de acordo com ela, na medida da nossa compreensão. Mas ninguém tem o direito de obrigar outros a viverem segundo a verdade assim como ele mesmo a enxerga.

 

VRB – O que caracteriza uma pessoa que dedica a sua vida à verdade?

 

Gandhi – Aquele que consagra toda a atividade à Verdade, que exige um desinteresse absoluto, não tem tempo disponível para a ocupação egoísta de engendrar filhos e dirigir uma casa.

Se um homem dá o seu amor a uma mulher ou a mulher a um homem, que lhes resta dar ao mundo?

 

VRB – Qual seria, então, a situação de uma pessoa que busca a verdade, embora seja casada? Seria isso um impeditivo para sua busca?

 

Gandhi – Qual é, então, a situação das pessoas já casadas? Nunca poderão realizar a Verdade? Não poderão jamais ofertar-se no altar da humanidade? Existe para esses uma solução. Podem conduzir-se como se não fossem casados. Aqueles que já sentiram a alegria deste estado podem confirmar minhas palavras. De meu conhecimento muitos são os que tentaram esta experiência com sucesso. Se os esposos podem considerar-se como irmão e irmã, estarão disponíveis para servir à humanidade. A idéia que todas as mulheres da terra são irmãs, mães, filhas, enobrece imediatamente um homem e corta seus grilhões. O marido e a esposa não perdem nada com isso, não fazem senão ampliar o melhor de si, para dar aos que os rodeiam, a eles mesmos e a sua família. Seu amor se liberta de toda a impureza do desejo e se torna mais forte. Com o desaparecimento dessa impureza eles poderão servir-se melhor mutuamente, e as querelas tornam-se mais raras, pois o amor, sendo egoísta e estreito, sempre dá grandes oportunidades para as disputas.

Se pudermos reconhecer o valor das considerações acima, a questão do proveito físico que se obtém na castidade não tem senão importância secundária. Como é cego aquele que gasta, deliberadamente, sua energia nos prazeres sensuais! Ê um grave abuso dissipar na procura de prazeres físicos aquilo que foi dado para que o homem e a mulher pudessem desenvolver plenamente seus poderes corporais e mentais. Tal abuso é a causa profunda da maior parte dos males.

 

VRB – Quem busca a verdade deve optar pelo celibato voluntário? Há algo que facilite a vida do celibatário?

 

Gandhi – Constatei, por experiência própria, que o celibato torna-se mais fácil quando conseguimos dominar nosso paladar.

 

VRB – Além disso, o domínio do paladar exerce alguma influência em nossa saúde?

 

Gandhi – Como conseqüência de um amor mal compreendido, os pais dão a seus filhos uma alimentação variada, estragando sua saúde e criando neles gostos artificiais. Quando as crianças se tornam adultas, seus corpos já estão doentes e o paladar pervertido. As conseqüências nefastas desta fraqueza durante os primeiros anos nos atormentam a cada passo; gastamos muito dinheiro e somos presa fácil da medicina.

A maior parte de nós, ao invés de dominar os órgãos dos sentidos, torna-se seu escravo. Um médico de longa experiência dizia, um dia, que jamais vira um homem são. O corpo é prejudicado cada vez que se come muito, e tal prejuízo só pode ser reparado — em parte — pelo jovem.

O ideal seria que o sol fosse nosso único cozinheiro.

 

VRB – Há pessoas que adotam a alimentação vegetariana principalmente por motivo espiritual. Que influência tem esse tipo de dieta em relação à saúde orgânica e/ou psíquica?

 

Gandhi – A experiência mostra que o alimento de origem animal não convém àqueles que querem dominar suas paixões. Mas será errôneo atribuir um grande papel à alimentação na formação do caráter ou no domínio da carne. O regime alimentar é um fator importante que não podemos negligenciar, mas resumir toda a religião em termos de alimentação, como se costuma fazer na Índia, é tão falso quanto deixar-se levar livremente pelo seu apetite.

 

VRB – Qual a importância da vida sexual no relacionamento entre o ser humano e Deus? Há uma modalidade do Tantra que vê na atividade sexual um caminho para esse relacionamento.

 

Gandhi – Realizar Deus é impossível sem uma renúncia absoluta do desejo sexual.

As verdadeiras leis da santidade exigem que o homem que perde a mulher — assim como a mulher que perde o homem — não se casem nunca mais.

É melhor gozar através do corpo que do pensamento. É bom procurar rejeitar os desejos sexuais desde que aparecem no espírito, experimentar dominá-los; mas se, à falta de gozos físicos, o espírito voltar-se para pensamentos de gozos físicos, será legítimo satisfazer os apetites do corpo. Não tenho dúvida sobre isto.

 

VRB – Há um conflito milenar entre as religiões, porque cada uma se acha dona exclusiva da verdade. Muitas guerras resultaram da intolerância religiosa. É possível que, um dia, as religiões se respeitam reciprocamente ou, ao menos, tolerem as suas diferenças?

 

Gandhi – Não gosto do termo tolerância, mas não en­contro outro melhor. A tolerância pode pressupor, gratuitamente, que a  fé da  pessoa é  inferior à nossa, enquanto que o ahimsâ nos ensina a ter, com a fé do próximo, o mesmo respeito que temos com a nossa — na qual reconhecemos também imperfeições. Tal admissão seria fácil àquele que procura a Verdade, àquele que obedece à lei do Amor. Se chegássemos à plena visão da Verdade não seríamos mais procuradores, mas estaríamos diante de Deus, pois a Verdade é Deus. Mas como estamos ainda procurando, perseguimos nosso ideal conscientes de nossa imperfeição. Ora, se somos imperfeitos, a religião, tal como a concebemos, também é imperfeita. Não realizamos a religião na sua perfeição, assim como não realizamos Deus. Pois a religião tal como a concebemos é imperfeita, é sempre susceptível de evolução e reinterpretação. O progresso para a Verdade, para Deus, não é possível senão em razão desta evolução. E se todas as concepções religiosas que representam os homens são imperfeitas, não podemos levantar problemas de inferioridade ou superioridade de uma com rela­ção a outra. Todas as fés constituem revelações da Verdade, mas todas são imperfeitas e falíveis. O respeito que experimentamos por outras fés não deve impedir-nos de ver os defeitos. Devemos sempre estar conscientes dos defeitos de nossa própria fé e, entretanto, não abandoná-la por isso, mas tentar triunfar sobre os defeitos. Se considerarmos sem parcialidade todas as outras religiões, não hesitaremos em misturá-las a nossa, nas suas caracte­rísticas desejáveis e mais nos estimaremos por ter cumprido um dever.

Aí a questão se coloca: porque tantas fés diferentes? A Alma é uma, mas os corpos que ela anima são numerosos. Não podemos reduzir o número dos corpos e entretanto reconhecemos a unidade da Alma. É o mesmo que uma árvore que só tem um tronco mas muitos ramos e folhas, assim também há uma só Religião verdadeira e perfeita, mas ela se torna múltipla na passagem do humano. A religião única está além do domínio da linguagem. Os homens imperfeitos não podem exprimi-la senão com a linguagem que dispõem, e suas pala­vras são interpretadas por outros homens igualmente imperfeitos. Qual a interpretação que devemos aceitar como verdadeira? Cada razão tem seu próprio ponto de vista, mas não é impossível que todo mundo esteja errado. Daí a necessidade da tolerância, que não é indiferença com sua própria fé, mas um amor mais puro e mais inteligente para com essa fé. A tolerância nos dá o poder da penetração espiritual que é tão afastado do fanatismo quanto o pólo sul do pólo norte. O verdadeiro conhecimento da religião faz cair as barreiras entre as fés. Cultivando em nós mesmo a tolerância para outras concepções, adquiriremos da nossa uma compreensão verdadeira.

Na realidade há tantas religiões quanto os indivíduos.

 

VRB – Podemos viver sem religião?

 

Gandhi – A vida sem religião é uma vida sem princípio, e uma vida sem princípio é como um barco sem direção.

 

VRB – Qual é mais importante: a razão ou a fé?

 

Gandhi – A fé transcende a razão; o único conselho que posso dar é o de não tentar o impossível. Não posso explicar a existência do mal com nenhum argumento racional. Tentar isto seria igualar-se a Deus.

 

VRB – Qual a sua atitude em relação à Divindade?

 

Gandhi – Anseio por ver Deus face a face. O Deus que eu conheço se chama Verdade. Para mim, o único caminho certo para conhecer a Deus é a não-violência (ahimsa) o amor.

Eu não vi Deus, nem O conheço. Fiz da fé que o mundo tem em Deus a minha fé;  e, sendo a minha fé inextinguível, faço da minha fé a minha experiência pessoal.

Deus é o universo.

 

VRB – Dizem os espiritualistas que a oração é uma forma de relação com Deus. Para isso, recorrem à orações padronizadas, mantras e preces coletivas.

 

Gandhi – A oração não necessita de palavras.

A oração é a chave da manhã e o ferrolho da noite.

É melhor colocar o coração na oração e nada dizer do que dizer palavras que não estão no coração.

 

VRB – Há pensadores que se insurgem contra a posse e a propriedade, taxando-as de furto. Qual sua opinião a respeito?

 

Gandhi – É um furto tomar alguma coisa que pertence ao próximo, mesmo com a permissão do proprietário, quando, verdadeiramente, não precisamos dela. Não devemos receber um único objeto de que não precisemos. Tal tipo de furto recai, principalmente, nos alimentos. Se eu como uma fruta que não me é necessária, ou se tomo mais do que necessito, cometo um furto. Não se conhece sempre as necessidades, e a maior partes de nós multiplica suas precisões sem justificação; assim nos tornamos, inconscientemente, ladrões. Se quisermos refletir mais sobre isso, veremos que nos é possível eliminar uma quantidade de necessidades que temos atualmente. Aquele que observa a regra da abstenção do furto reduzirá, progressivamente, as suas. Uma grande parte da miséria que vemos no mundo é resultado de infrações a este princípio de abstenção do furto.

O furto, tal qual vimos, pode ser chamado furto material ou exterior. Há, ainda, uma espécie mais sutil e muito mais aviltante para o espírito humano. Desejar mentalmente qualquer coisa que pertença a outro, ou olhar tal coisa com cobiça, é também um furto. Considera-se, geralmente, que aquele que não se alimenta, materialmente falando, jejua, mas ele será culpado de furto e de uma ruptura de seu jejum, se contemplar uma imagem mental de prazer gustativo, quando ver outras pessoas comendo. Ele é culpado da mesma maneira se, durante o seu jejum, pensar, continuadamente, em pratos os mais variados, que ele poderá saborear após sua abstinência.

Aquele que observa a regra da abstenção do furto recusará qualquer preocupação que possa adquirir no futuro. A inquietude nefasta do futuro é a origem de muitos furtos. Hoje, não faremos mais que desejar uma coisa, mas amanhã começaremos a tomar certas medidas, as mais honestas possíveis, desonestas até se necessário, para possuir esta coisa.

É possível furtar-se idéias assim como objetos materiais. Aquele que pretende, egoisticamente, ser o instigador ou o autor de uma boa idéia que na realidade não é sua, será culpado de furto de idéias. Muitos sábios, na História do mundo, foram culpa­dos deste tipo de furto, e o plagiador não é coisa rara, mesmo em nossos dias. Se, por exemplo, vejo em Andhra um novo modelo de roca e fabrico uma semelhante em Ashram, fazendo-a passar como minha invenção, estarei mentindo, e está claro que estarei furtando uma invenção que pertence a alguém.

 

VRB – Se a alma é imaterial, ela  não está localizada espacialmente, embora muitas pessoas tenham passado pelo que se chama experiência fora do corpo.

 

Gandhi – A alma é onipresente; porque ficaria fechada num corpo semelhante a uma gaiola?

 

VRB – O medo é um comportamento inerente a todos os seres vivos como um mecanismo de sobrevivência. No entanto, os seres humanos desenvolveram novas forma de medo que não dizem respeito à defesa de sua vida. Como conseqüência, valorizou-se a coragem como forma de neutralizar o medo. Você, por exemplo, sempre revelou ser um homem corajoso a ponto de, por meio da não-violência, libertar a Índia do domínio inglês.

 

Gandhi – A intrepidez revela que o indivíduo está liberto de todo temor externo, que é o das doenças, das feridas físicas, da morte ou de perder seus bens, de perder os familiares, os que lhe são caros, perder sua reputação, ofender o próximo, etc. Aquele que venceu o temor da morte não venceu ainda todos os outros temores, como se supõe geralmente. Alguns entre nós já não temem a morte, mas não podem suportar a perda de seus entes queridos. Certos avaros suportam tudo, mas não a perda de seus bens. Outros farão qualquer coisa para manter seu pretenso prestígio; outros se desviarão do caminho certo e difícil que vêem claramente diante de si, simplesmente porque têm medo da censura da sociedade. Aquele que procura a Verdade deve superar todos os temores.

 

VRB – E o que fazer para conseguir essa coragem que você chama de intrepidez?

 

Gandhi – A intrepidez perfeita não pode ser alcançada senão por aquele que realizou o Supremo, pois ela implica uma total libertação de ilusões. Podemos nos aproximar disto se fizermos um esforço real e perseverante, e se confiarmos em nós mesmos.

Como já disse antes, é preciso desembaraçar-nos de todo o temor externo. Mas é preciso, também, não descuidar dos inimigos internos. Temos razão quando receamos a paixão bestial, a cólera, etc. Os temores externos cessarão por si quando triunfarmos sobre os perigos dentro de nós. O corpo é o centro de todos os temores e onde eles evoluem. Conseqüentemente, eles desaparecem desde que se libertem de toda ligação com o corpo. Vemos, assim, que todo o temor externo é tecido sem nenhuma base por nossa maneira de ver as coisas. O temor não tem lugar no coração se nos desligarmos de toda riqueza, da família e do corpo.

 

VRB – Além de líder espiritual, você foi também um líder político. Por isso, faço-lhe uma pergunta: qual seria a solução para o conflito entre o capital e o trabalho?

 

Gandhi – Como um homem que não trabalha pode ter o direito de comer? "Tu terás teu pão com o suor de teu rosto", nos diz a Bíblia. Um milionário não viverá muito tempo e se cansará logo da vida se permanecer em seu leito todo o dia, alimentando-se. O apetite vem do exercício. Se cada um, rico ou pobre, fizesse qualquer tipo de exercício, por que tal exercício não ser produtivo, por que não consistir, por exemplo, na maneira de ganhar seu pão? Ninguém pergunta ao agricultor sobre seus movimentos respiratórios e musculares. E grande parte da humanidade vive da agricultura! Como o mundo seria mais feliz, mais são e pacífico se todos seguissem o exemplo dessa maioria, que se faz auto-suficiente para poder alimentar-se, através de seu trabalho. Muitas privações associadas à vida agrícola desapareceriam facilmente se todos se unissem. As odiosas distinções de classe terminariam se cada um, sem exceção, reconhecesse a obrigação de ganhar seu pão através de seu próprio trabalho.

Existe um conflito mundial entre o capital e o trabalho, e os pobres invejam os ricos. Se cada um trabalhasse para ganhar seu pão, as distinções de classe seriam abolidas; os ricos continuariam ricos mas se considerariam apenas gerentes de sua fortuna, que empregariam para o interesse geral.

 

VRB – O que podemos fazer para melhorar a humanidade? Como podemos prestar serviços que melhorem a qualidade de vida dos outros? E em que isso também nos poderá melhorar como seres humanos?

 

Gandhi – Uma vida consagrada a servir, deve ser uma vida de humildade. Aquele que sacrifica sua vida pelo próximo, não tem tempo para assegurar seu lugar ao sol. É preciso não confundir inércia e humildade, como se tem feito no hinduísmo. A verdadeira humildade exige uma consagração inteira a serviço da humanidade, o mais árduo esforço, a maior constância. Deus está sempre em ação, sem um instante de repouso. Se queremos servi-lo ou chegar até Ele, nossa atividade deve ser infatigável, tanto quanto a Sua. A gota d'água que se separa do oceano pode encontrar momentaneamente repouso, mas a que está no oceano não conhece descanso. O mesmo acontece conosco. Desde que nos juntamos ao oceano (Deus) não mais teremos repouso, e não mais teremos desejos. Nosso próprio sono é ação, pois quando dormimos estamos com o pensamento de Deus em nosso coração. É esta atividade contínua que constitui o verdadeiro descanso. Esta agitação incessante contém o segredo da paz inefável. Tal estado supremo de total abandono é difícil de descrever, mas não está fora do alcance do homem.

 

VRB – Há pessoas que afirmam que a violência só se combate com a violência, e que não reagir a violência é contribuir para fortalecer os atos praticados pelos indivíduos violentos. Acha que a não-violência (ahimsâ) é o antídoto da violência?

 

Gandhi – Oponho-me à violência pois quando ela parece produzir o bem, tal bem não tem senão resultado transitório, enquanto que o mal produzido é permanente.

A violência é sempre violência e é sempre um pecado. Mas o que é inevitável não pode ser considerado como pecado.

Quando formos escolher entre a covardia e a violência, creio que eu aconselharia a violência...

Mas estou persuadido que a não-violência é infinitamente superior à violência. Creio que o perdão é mais nobre que o castigo.

Não posso conceber um estado de hostilidade permanente entre um homem e outro. Pois, crendo na reencarnação, vivo na esperança que, se não nesta vida humana mas numa outra, poderei cingir toda a humanidade num fraternal abraço.

 

VRB – Há pessoas cuja nocividade é uma permanente ameaça à sociedade. E tudo leva a crer que são irrecuperáveis em virtude de uma patologia considerada incurável. Qual sua opinião a respeito?

 

Gandhi – Nenhum ser humano é tão nocivo para não ser salvo. Nenhum ser humano é bastante perfeito para ter o direito de matar aquele que considera como inteiramente nocivo.

 

VRB – A ahimsâ, neste caso, é um perdão para todas as pessoas violentas, mesmo para aquelas que não se arrependem dos seus crimes?

 

Gandhi – A ahimsâ é o extremo limite do perdão. E o perdão é próprio do homem corajoso. A ahimsâ não é compatível com o temor.

A não-violência tem por condição imprescindível o poder de comover. É uma repressão consciente e deliberada do desejo de vingança que o faz sobressair. A vingança é sempre superior à submissão passiva, fraca, covarde, mas a vingança também é fraqueza. O desejo de vingança nasce do temor de um mal imaginário ou real. Aquele que não teme ninguém na terra achará difícil ter cólera contra alguém que não lhe faça mal.

A não-violência não se realiza mecanicamente. Ela é a mais alta qualidade do coração e se adquire pela prática.

Procuremos, agora, quais são as raízes próprias do ahimsâ. É o esquecimento de si próprio de forma mais absoluta. Esquecimento de si significando que se está completamente livre de toda a preocupação pelo corpo. Se um homem decide conhecer a si mesmo, isto é, realizar a Verdade, só poderá fazê-lo libertando-se completamente de seu corpo, isto é, fazendo com que qualquer outra criatura tenha diante dele um sentimento de segurança. Tal é o caminho do ahimsâ.

 

VRB – Há algum caso em que a pena de morte seja admissível?

 

Gandhi – Matar pode ser um dever. Nós destruímos tudo o que julgamos necessário para o nosso corpo. Assim, matamos para comer... Para salvar a espécie, matamos animais carnívoros. Mesmo o homicídio pode ser necessário em certos casos. Suponhamos que um homem fique louco e agressivo, e com a espada na mão massacre todas as pessoas que encontre. Se ninguém ousar dominar este ser, aquele que executar este louco merecerá o reconhecimento da comunidade e será considerado como benfeitor.

 

VRB – Você, em alguma circunstância especial, é favorável à eutanásia?

 

Gandhi – Tenho um horror instintivo em matar seres viventes em qualquer circunstância. Propõe-se mesmo que deveríamos prender cães raivosos e deixá-los morrer lentamente. A idéia que eu faço de caridade faz-me achar tal solução absolutamente inaceitável. Não posso ver, nem por instantes, um cão, ou qualquer outra criatura, abandonado sem recurso às torturas de uma longa agonia. Se diante das mesmas circunstâncias eu encontrar um ser humano e não lhe der a morte, será porque disponho de remédios mais eficazes. Mas se eu matar um cão que se encontra no mesmo caso, será porque não tenho outra maneira de ajudá-lo. Se meu filho tiver a raiva e se não existir nenhum remédio para aliviar seu sofrimento, considerarei meu dever dar-lhe a morte. O fatalismo tem limites. Devemos nos abandonar à sorte somente quando todos os remédios foram utilizados. Um dos meios, que é definitivo, para ajudar uma criança nas torturas atrozes de seu sofrimento, é dar-lhe a morte.

 

VRB – O que fazer para reduzir efetivamente o índice de pobreza, sem se apelar para medidas apenas paliativas?

 

Gandhi - Cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário não haveria pobreza no mundo e ninguém morreria de inanição.

Se todos os homens compreendessem a eterna lei moral do serviço à humanidade, considerariam como pecado acumular riqueza; então, não haveria mais desigualdade e, conseqüentemente, não haveria falta de víveres e nem pessoas morrendo

de fome.

 

VRB – O que você diz da prática do assistencialismo como uma das formas de ajudar às pessoas necessitadas?

 

Gandhi – Meu ahimsâ não me permitiria dar uma refeição gratuita a um homem são, que não trabalha honestamente para ganhá-la. Se eu tivesse poder, suspenderia todo sadâvrata (casa de caridade) onde se dá refeições por nada. Tal hábito faz degenerar nosso povo e a posse da preguiça, da ociosidade e da hipocrisia é um crime.

 

VRB – Você lutou, como ninguém, pela liberdade de seu país. E o conseguiu. Apesar disso, você sacrificaria seu país para salvar o mundo?

 

Gandhi – Um país deve ser livre para poder morrer, se necessário, para o bem do mundo. Minha concepção do nacionalismo, meu amor ao nacionalismo é que meu país possa morrer para que as raças humanas possam viver.

Não sacrifico a verdade ainda que seja para salvar meu país e minha religião.