Epicuro (321-270 a.C.)

 

 

 

VRB – Qual a importância da Filosofia?

 

Epicuro – Assim como a medicina em nada beneficia se não liberta dos males do corpo, o mesmo sucede com a filosofia se não liberta das paixões da alma.

Deves servir à filosofia para que possas alcançar a verdadeira liberdade.

 

VRB – A impressão popular é que a Filosofia só deve ser praticada pelos idosos, porque, em geral, são mais experientes e maduros para tratar de problemas concernentes ao mundo e às pessoas.

 

Epicuro – Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco ma­duro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou, assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz.

 

VRB – A sua filosofia preconiza o prazer como a finalidade da vida. Em que consiste este prazer?

 

Epicuro – Quando dizemos que o prazer é a realização suprema da felicidade, não pretendemos relacioná-lo com a voluptuosidade dos dissolutos e com os gozos sensuais, como querem algumas pessoas por ignorância, preconceito ou má compreensão. Por prazer entendemos a ausência de sofrimento no corpo e a ausência de perturbação na alma.

Por instinto legítimo, fugimos da dor.

 

VRB – O que é um sábio?

 

Epicuro – O sábio é um ser livre. Não casará, nem terá filhos. Não se ocupará de política. Basta-se a si mesmo, porque essa é a maior das riquezas. E não tem mestre.

O sábio só é compreendido pelo sábio. Por isso, deverá viver longe da multidão. Mas essa solidão não é misantropia, porque é partilhada com amigos. Aliás, a amizade é a maior felicidade de nossa vida.

Não é possível uma vida agradável se não se vive com sabedoria, moderação e justiça. Nem é possível uma vida sábia, moderada e justa, se não se vive agradavelmente. Se falta uma dessas condições (quando, por exemplo, o homem não é capaz de viver sabiamente), embora ele viva moderada e justamente, é-lhe impossível viver agradavelmente.

Raramente a sorte prejudica um homem sábio, pois as coisas principais e fundamentais sempre foram governadas pela razão. E, por todo o curso da vida, a razão as governa e as governará.

 

VRB – A quase totalidade dos seres humanos sempre procurou a riqueza material.

 

Epicuro – A riqueza que é conforme à Natureza tem limites e é fácil de encontrar, mas a imaginada pelas opiniões vãs não têm limites e é difícil de adquirir. A pobreza medida de acordo com as necessidades da nossa natureza é uma grande riqueza. A riqueza, pelo contrário, para quem não conhece limites, é uma grande pobreza. Os insensatos nunca estão satisfeitos com o que têm, mas afligem-se com o que não têm. Eles ficam inchados de orgulho na prosperidade, mas abatidos na adversidade.

A quem não basta pouco, nada basta.

E consideramos um grande bem o bastar-se a si próprio, não com o fim de possuir sempre pouco, mas para nos contentarmos com pouco no caso em que não possuamos muito, legitimamente persuadidos de que desfrutam da abundância do modo mais agradável aqueles que menos necessidades têm, e que é fácil tudo o que a natureza quer e difícil o que é vaidade.

 

VRB – E o que fazer para não sermos influenciados por nossos desejos?

 

Epicuro - Formule a seguinte interrogação a respeito de cada desejo: que me sucederá se se cumprir o que quer o meu desejo? O que me acontecerá se não se cumprir? Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros são naturais e não necessários; outros nem naturais nem necessários, mas nascidos apenas de uma vã opinião. Aqueles desejos que não trazem dor se não são satisfeitos não são necessários; o seu impulso pode ser facilmente posto de parte, quando é difícil obter a sua satisfação ou parecem trazer consigo algum prejuízo.

 

VRB – Há filósofos que proclamam que tudo o que acontece ou nos acontece foi predeterminado.

 

Epicuro – É vã a crença no destino. Algumas coisas acontecem necessariamente, outras por acaso e outras dependem de nós.

 

VRB – Na sua opinião, o universo é finito ou infinito?

 

Epicuro – Existe um número infinito de mundos e nós habitamos apenas um dele. E o todo é infinito, pois o finito tem um limite extremo e o limite extremo se considera com referência a outro, visto que não tendo extremo não tem limite e não tendo limite é infinito e não limitado. Além disso, o universo também é infinito pela multidão dos corpos e pela extensão do vazio. Se o vazio fosse infinito e os corpos limitados, estes não permaneceriam em nenhum lugar, mas seriam levados a dispersar-se no vazio infinito, visto que não teriam nenhum apoio nem seriam contidos por choques. E, se o vazio fosse limitado, os corpos infinitos não teriam lugar onde es­tar.

 

VRB – Há um telefinalismo na Natureza?

 

Epicuro – Os seres vivos não são obra de uma razão providencial. Com efeito, os olhos não são feitos para ver, nem os ouvidos para ouvir, em a língua para falar, nem os pés para andar; todos esses órgãos nasceram antes que a linguagem, a audição, a visão, o andar existissem. Portanto, não foi para preencher essas funções que nasceram estes órgãos, já que elas provêm destes. Todas as coisas são produtos do acaso.

 

VRB – A consciência resulta do orgânico?

 

Epicuro – A consciência nasce da combinação de átomos sem consciência. Mas não sabemos nem estamos preocupados em saber como isso acontece.

 

VRB – O que é a morte para você?

 

Epicuro – A morte é apenas um acontecimento fisiológico.  Por isso, uma questão sem interesse, porque não há experiência da morte. Habitua-te, assim, a pensar que a morte nada é para nós, visto que todo o mal e todo o bem se encontram na sensibilidade, e a morte é a privação da sensibilidade.

 

VRB  - Os deuses gregos existem ou são invenções da imaginação?

 

Epicuro - Os deuses existem, deles temos um conhecimento evidente; mas não são como os imagina a multidão. O ímpio não é o que rejeita os deuses da multidão, mas o que lhes atribui as características que esta lhes dá. Pois, as opiniões desta não se baseiam em noções evidentes, mas em fantasias enganadoras. Daí vem a crença que os deuses punem os maus com os piores malefícios e recompensam os bons com os maiores bens. A multidão, favorecendo-lhe a idéia que faz de virtude, só aceita os deuses que se lhe assemelham e considera falso aquilo que se diferencia.

É inútil pedir aos deuses aquilo que podemos encontrar por nós mesmos.

 

VRB – Por conseguinte, a oração é inútil?

 

Epicuro – Se Deus quisesse escutar os votos dos homens, há muito tempo que teriam perecido todos, dado que pedem incessantemente muitas coisas nocivas aos seus semelhantes.

 

VRB – Por conseguinte, Deus não se envolve com as coisas do mundo, não se importando com os males que afligem a humanidade.

 

Epicuro – Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que os não impede?

 

VRB – Uma das maiores aspirações do ser humano é ser feliz. O que se deve fazer para se ser feliz?

 

Epicuro – O essencial para nossa felicidade é a nossa condição íntima e desta nós somos os senhores.

Nem a posse das riquezas, nem a abundância das coisas, nem a obtenção de cargos ou o poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a moderação nos afetos e a disposição de espírito de se manter nos limites impostos pela natureza.

De todos os bens que a sabedoria proporciona para produzir a felicidade por toda a vida, o maior, sem comparação, é a conquista da amizade.

 

VRB – Muitas pessoas temem os castigos Deus e usam dos mais diversos recursos para agradá-lo.

 

Epicuro – O ser bem-aventurado e imortal não tem incômodos nem os produz nos outros, nem é possuído de iras e de benevolências. É no fraco que se encontra qualquer coisa de natureza semelhante.

 

VRB – Quais os pontos mais importantes de sua filosofia?

 

Epicuro – Deus não é de recear, a morte não é nada para nós, o bem é fácil  de obter, o sofrimento é fácil de suportar.