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No Recife, um grupo de cientistas estuda os fenômenos paranormais

 

A entrevista foi realizada na sede do IPPP

Entrevista concedida ao Diário de Pernambuco, na sua edição de 16 de fevereiro de 1979.

 

Texto: Graça Gouveia. Fotos: Benedito Soares

 

 

No Recife, uma tentativa séria de se fazer pesquisas numa área do conhecimento humano, das mais desacreditadas nos meios oficialmente científicos: a parapsicologia. Há cinco anos uma equipe que reúne engenheiros, médicos, sociólogos, um físico nuclear, sob a direção do promotor público Walter Rosa Borges, vem persistindo em desfazer as mistificações, enganos e preconceitos relacionados com o tema, através de palestras e seminários e, principalmente, desenvolvendo pesquisas no Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas.

Admitindo que existe muito descrédito e muito mal-entendido sobre parapsicologia, Rosa Borges explica que isto se deve à ânsia que católicos e espíritas têm de provar suas afirmativas. Assim, ambas as correntes querem usar as afirmações da parapsicologia para defenderem seus enunciados. O resultado é que poucos se dedicam a saber o que realmente é a parapsicologia, o que ela estuda e que métodos utiliza.

 

OS FENÔMENOS

 

Pesquisa em parapsicologia talvez sugira apenas uma sessão espírita, onde fenômenos pitorescos acontecem, embora desprovidos de sentido religioso. Entretanto, no IPPP, as coisas acontecem de uma forma bem mais séria, sem as características folclóricas tão comuns aos nossos terreiros e centros espíritas. No Edifício Concórdia, Rosa Borges e os demais componentes do IPPP — quando alguém se diz portador de poderes paranormais — iniciam uma série de testes — qualitativos e quantitativos — para determinar a veracidade do fenômeno. Antes, porém, acham imprescindível que se realize uma boa entrevista com o médium, em parapsicologia, "todo aquele que, habitualmente, manifesta fenômenos paranormais. Também conhecido por sensitivo, metagnomo, metérgico e dotado".

Conceitos, como este, são compilados por Rosa Borges no seu livro "Introdução ao Paranormal", onde pode-se encontrar, inclusive, uma breve história do desenvolvimento da parapsicologia como ciência "que tem por objeto o estudo e a pesquisa de fenômenos paranormais".

Explica ele: "Fenômenos paranormais são eventos de natureza física, biológica ou psicológica ainda não explicáveis pelas demais ciências particulares".

 

EXPERIÊNCIA

 

Voltemos ao processo de pesquisa desenvolvido pelo IPPP. Após a entrevista inicial, que pode ser repetida uma ou mais vezes, quando os pesquisadores procuram entrever que tipo de personalidade, problemas psicossociais tem o médium, o que pode, de certa forma, interromper a pesquisa, o pesquisado pode ser submetido ao teste quantitativo, executado com baralho Zener. Daí, se ele obtiver um número superior à quantidade de pontos alcançados normalmente por qualquer pessoa, repete-se tal teste por inúmeras vezes, para seguir-se com os testes qualitativos. Nesta fase, o agente paranormal poderá demonstrar suas potencialidades e como elas se manifestam. São quatro os fenômenos, em parapsicologia, que estão comprovados em laboratório e submetidos a experiência controlada; telepatia, clarividência, precognição e telecinesia (movimentação de objetos,). Outros, muitos outros, fenômenos paranormais são conhecidos por esta ciência, embora não tenham sido testados e comprovados em laboratório, como curas paranormais, desmaterialização, estigmatização, levitação.

 

UMA BRINCADEIRA?

 

Os fenômenos de telepatia e clarividência, os mais encontrados e pesquisados até agora por Rosa Borges e sua equipe, geralmente, são detectáveis através do teste com o baralho Zener.

Iniciamos esta matéria, na residência do professor Walter Rosa Borges e precisamos marcar outra hora para que o fotógrafo trabalhasse no próprio IPPP, onde está uma das modalidades mais simples da máquina Kirlian, descoberta pelos russos para fotografar a aura humana. Já tínhamos ouvido o professor discorrer sobre o tal teste "Zener". Conversando com a equipe (talvez por me sentir por demais incrédula com relação ao que eles fazem e dizem), terminei por aceitar o desafio deles (Rosa Borges, Ivo Caruso, Avelino Fernandes e Fídeas Teles) para que eu fizesse o teste, e comprovasse se teria mediunidade.

O baralho Zener, usado mundialmente por parapsicólogos para testes quantitativos das capacidades paranormais, é composto de vinte e cinco cartas, com cinco figuras que se repetem cinco vezes: ondas, círculo, quadrado, estrela e cruz. O pesquisador vai passando as cartas viradas e o pesquisado vai tentando acertar a figura. Isto para saber se ele é clarividente. Para testar a sua capacidade telepática, o pesquisador olha a carta e tenta transmitir mentalmente a figura para o pesquisado.

Normalmente, e quando muito, as pessoas acertam cinco figuras numa série de vinte e cinco. Aceitei a brincadeira e, em telepatia, acertei sete cartas além do que eles chamam "desvios": a pessoa acerta não a figura levantada mas a posterior. Por clarividência, acertei também sete na mesma sequência de vinte e cinco, fora os desvios. Foram mais além, tentando dois pesquisadores transmitir as figuras simultaneamente para confundir a minha possibilidade de descobrir a figura. Nesta, "deu zebra". Ou melhor, eu achei a experiência por demais estranha. Como não entendi que ambos iam pensar numa figura para que eu selecionasse, comecei a falar primeiro para um pesquisador e depois para outro, embora, tenha de admitir, ocorressem em meu pensamento duas figuras de uma só vez. Não dá para explicar.

Prosseguimos a experiência e, numa seqüência de sete cartas, acertei cinco figuras. Paramos, pois o pesquisador sentiu-se cansado e mesmo admirado com tudo isso.

Uma brincadeira, simplesmente. Para mim pelo menos. E para os pesquisadores, nada de indicativo. A não ser que o pesquisado, neste caso, eu, fosse submetido a uma série enorme de testes como esse, a entrevista e aos testes qualitativos.

 

STATUS

 

Talvez por um método de pesquisa que exaure todo o clímax emocional de fatos como os paranormais, o IPPP tem grande dificuldade para encontrar pessoas que se disponham a pesquisar suas faculdades paranormais. "Geralmente, as pessoas vêm aqui procurando ver ou assistir a coisas fantásticas. E isto não acontece, daí o desinteresse. Também o "médium", este que trabalha em centros espíritas ou terreiros, pouco se interessa para ser pesquisado pois, além do trabalho ser de certa forma exaustivo, eles temem que comprovemos a não existência de tais fenômenos". O que é um risco comprometedor de toda sua atuação de fundo religioso.

E é sobre este medo de perder o "status" de médium que Rosa Borges analisa muito bem ao discorrer sobre as entidades que se manifestam nas sessões espíritas, excluída a hipótese do agente teta (os espíritos) e que podem ser, psicologicamente, assim classificadas:

"O guia. Personifica o desejo e/ou o poder de dominação do sensitivo. Ele firma o status do médium que se torna o líder de uma pequena ou grande comunidade. O "guia" fala e todos obedecem, cercando de atenções, gentilezas e até reverencial respeito o seu privilegiado porta-voz. Ninguém ousa contestar-lhe a autoridade e a ela se curvam os homens mais proeminentes da sociedade, sob o peso da credulidade, do temor e do fanatismo".

E vai mais além: "O médium que, via de regra, ocupa, na sociedade, uma posição modesta, se vê guindado, através do "guia", a uma posição de mando. Por isto, no seu inconsciente, o médium não quer abrir mão desta situação privilegiada, que satisfaz seu narcisismo, submetendo-se à aventura de uma pesquisa. O carisma missionário do seu mediunato é um eficaz disfarce, com o qual se exime à censura do seu consciente. Daí porque, sob as mais diversas evasivas, ele se esquiva de qualquer controle científico, com receio, consciente ou não, de cair do seu pedestal".

E caso você se acredite portador de faculdades paranormais, que tal um teste no IPPP? Não paga nada, apenas estará colaborando com os cientistas do impossível (que me perdoem a expressão) e tirando suas dúvidas sobre o assunto.