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Albert Einstein
(1879-1955). Considerado um dos gênios da humanidade. Tornou-se famoso
mundialmente pela formulação da teoria da relatividade. Foi atribuído, em sua homenagem, o nome a uma unidade usada na fotoquímica, o einstein, bem como a um elemento químico, o einstênio. Além de cientista, Einstein era um pensador, sintonizado com as questões cruciais da humanidade. |
Entrevista com Albert Einstein
VRB – O que, na sua opinião, representa o maior perigo para a humanidade?
Einstein – A indústria dos armamentos representa concretamente o mais terrível perigo para a humanidade.
Com efeito, enquanto a possibilidade da guerra não for radicalmente supressa, as nações não consentirão em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo possível para esmagar o inimigo de uma futura guerra. Não se poderá evitar que a juventude seja educada com as tradições guerreiras, nem que o ridículo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a mitologia heróica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos cidadãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca.
VRB – A instituição do Estado reforçou a idéia do nacionalismo e, conseqüentemente, da manutenção das chamadas forças armadas para a defesa do país. Daí, por certo, se originou a indústria do armamentismo, estimulando a prepotência dos países militarmente mais poderosos.
Einstein – O Estado deve ser nosso servidor e não temos obrigação de ser seus escravos. Esta lei fundamental é vilipendiada pelo Estado, quando nos constrange à força ao serviço militar e à guerra. Nossa função de escravos se exerce então para aniquilar os homens de outros países ou para prejudicar a liberdade de seu progresso. Consentir em certos sacrifícios ao Estado só é um dever quando contribuem para o progresso humano dos indivíduos.
O que há de realmente valioso nesta epopéia da vida humana, não me parece ser o Estado, mas sim o indivíduo humano, criador e sensível, a humana personalidade; só ela cria coisas sublimes e nobres, ao passo que o rebanho como tal, permanece obtuso em seu pensar e obtuso em seu agir.
VRB – Enquanto o nacionalismo for um sentimento separativista, o militarismo permanecerá.
Einstein – Quem quer desenvolver o sentimento internacional e combater o chauvinismo nacional, tem de combater o serviço militar obrigatório. As violentas perseguições que se abatem sobre aqueles que, por motivos morais, recusam cumprir o serviço militar, serão menos ignominiosas para a humanidade do que as perseguições a que se expunham nos tempos passados os mártires da religião? Ousar-se-á hipocritamente proclamar a guerra fora da lei, como o faz o pacto Kellog, enquanto se entregam indivíduos sem defesa à máquina assassina da guerra em qualquer país?
A dignidade da pessoa humana está irremediavelmente aviltada pela obrigação do serviço militar.
VRB - E o que fazer para resolver esse problema?
Einstein - Continuo a afirmar que o meio violento da recusa do serviço militar é o melhor.
O nacionalismo, hoje espalhado por toda parte de maneira tão perigosa, se desenvolve perfeitamente partir da criação do serviço militar obrigatório, ou, belo eufemismo, do exército nacional. Exigindo dos cidadãos o serviço militar, o Estado se vê obrigado a neles exaltar o sentimento nacionalista, base psicológica dos condicionamentos militares. Ao lado da religião, o Estado deve glorificar em suas escolas, aos olhos da juventude, seu instrumento de força brutal.
A introducão do serviço militar obrigatório. Eis a principal causa, a meu ver, da decadência moral da raça branca. Assim se coloca a questão da sobrevivência de nossa civilização e até mesmo de nossa vida! Por isto o poderoso influxo da revolução francesa traz inúmeras vantagens sociais, mas também a maldição que, em tão pouco tempo, caiu sobre todos os outros povos.
O serviço militar obrigatório tem de ser combatido porque constitui o principal foco de um nacionalismo mórbido.
VRB – Mas, para isso, é preciso que modifiquemos a nossa mentalidade guerreira. Jeová ou Iavé era o deus dos exércitos. A mitologia tinha os seus deuses da guerra. Nós ainda cultuamos os grandes conquistadores sanguinários como Alexandre, Júlio César e Napoleão Bonaparte, entre outros.
A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia.
VRB – Acredita que, um dia, a guerra será apenas uma lembrança do passado?
Einstein – Creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político.
Há apenas um caminho para a paz e para a segurança: o da organização supranacional. O armamentismo unilateral, em base nacionalista, apenas intensifica a incerteza e a confusão generalizadas, sem constituir-se em proteção eficaz.
VRB – Posso concluir que você tornou-se pessimista em relação à humanidade?
Einstein – Não podemos desesperar dos homens, pois nós mesmos somos homens.
O ser humano vivência a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior.
Sem a convicção de uma harmonia íntima do Universo, não poderia haver ciência. Esta convicção é, e continuará a ser, a base de toda a criação científica. Em toda a extensão de nossos esforços, nas lutas dramáticas entre as velhas e as novas concepções, entrevemos a ânsia eterna de compreensão, a intuição inabalável da harmonia universal, que se robustece na própria multiplicidade dos obstáculos que se oferecem ao nosso entendimento.
VRB – Você tem alguma religião?
Einstein - Minha religião consiste numa admiração humilde ao Espírito Superior e Ilimitado que se revela a si mesmo nos mínimos pormenores, que estamos aptos a captar com nossas fracas e irrelevantes mentes. A profunda certeza de um Poder Superior que se revela no Universo, difícil de ser compreendido, forma a minha idéia de Deus.
VRB – Como seria um religioso, mesmo sem religião?
Einstein - Os gênios religiosos de todas as épocas têm-se distinguidos do comum dos mortais por uma espécie de sentimento religioso cósmico, que não conhece dogmas nem concebe um Deus à imagem do homem. Por isso não pode haver igrejas cujos ensinamentos centrais se apóiem nesse sentir. Será, portanto, entre os heréticos de todas as épocas que vamos encontrar homens impregnados do mais elevado sentimento religioso, considerados por seus contemporâneos, ora como ateus, ora como santos. Através desse prisma, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza estão muito próximos uns dos outros.
Saber que existe algo insondável, sentir a presença de algo profundamente racional, radiantemente belo, algo que compreendemos apenas em forma rudimentar — esta é a experiência que constitui a atitude genuinamente religiosa. Neste sentido, e neste sentido somente, eu pertenço aos homens profundamente religiosos.
O característico do homem religioso consiste no fato de se ter libertado das algemas do seu egoísmo, construindo, por seu modo de pensar, sentir e agir, um mundo de valores suprapersonais, aprofundando e ampliando cada vez mais o seu impacto sobre a vida.
É claro que era mentira o que você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Não acredito num Deus pessoal e nunca neguei isso, e sim o manifestei claramente. Se há algo em mim que possa ser chamado de religioso, é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo, do modo como nossa ciência é capaz de revelar.
Sou um descrente profundamente religioso. Isso é, de certa forma, um novo tipo de religião.
Jamais imputei à natureza um propósito ou um objetivo, nem nada que possa ser entendido como antropomórfico. O que vejo na natureza é uma estrutura magnífica que só compreendemos de modo muito imperfeito, e que não tem como não encher uma pessoa racional de um sentimento de humildade. É um sentimento genuinamente religioso, que não tem nada a ver com misticismo.
A idéia de um Deus pessoal me é bastante estranha, e me parece até ingênua.
VRB – Conseqüentemente...
Einstein – Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação.
Aceito o mesmo Deus que Spinoza chama de Alma do Universo. Não aceito um Deus que se preocupe com as nossas necessidades pessoais.
Basta de dizer a Deus o que ele deve fazer.
Durante o período juvenil da evolução espiritual da humanidade, a fantasia humana criou a sua própria imagem “deuses” que, por seus atos de vontade, supostamente determinariam ou, pelo menos, influenciariam o mundo fenomênico. O homem procurava alterar a disposição desses deuses a seu próprio favor, por meio da magia e da prece. A idéia de Deus, nas religiões ensinadas atualmente, é uma sublimação dessa antiga concepção dos deuses. Seu caráter antropomórfico se revela, por exemplo, no fato de os homens recorrerem ao Ser Divino em preces, a suplicarem a realização de seus desejos.
Certamente, ninguém negará que a idéia da existência de um Deus pessoal, onipotente, justo e todo-misericordioso é capaz de dar ao homem consolo, ajuda e orientação; e também, em virtude de sua simplicidade, acessível às mentes menos desenvolvidas. Por outro lado, porém, esta idéia traz em si aspectos vulneráveis e decisivos, que se fizeram sentir penosamente desde o início da história. Ou seja, se esse ser é onipotente, então tudo o que acontece, aí incluídos cada ação, cada pensamento, cada sentimento e aspiração do homem, é também obra Sua; nesse caso, como é possível pensar em responsabilizar o homem por seus atos e pensamentos perante esse Ser 'todo-poderoso'? Ao distribuir punições e recompensas, Ele estaria, até certo ponto, julgando a Si mesmo. Como conciliar isso com a bondade e a justiça a Ele atribuídas?
Não há dúvida de que a doutrina de um Deus pessoal que interfere nos eventos naturais jamais poderia ser refratada, no sentido verdadeiro, pela ciência, pois essa doutrina pode sempre procurar refúgio nos campos em que o conhecimento científico ainda não foi capaz de se firmar. Estou convencido, porém, de que tal comportamento por parte dos representantes da religião seria não só indigno como desastroso. Pois uma doutrina que não é capaz de se sustentar à "plena luz", mas apenas na escuridão, está fadada a perder sua influência sobre a humanidade, com incalculável prejuízo para o progresso humano. Em sua luta pelo bem ético, os professores de religião precisam ter a envergadura para abrir mão da doutrina de um Deus pessoal, isto é, renunciar a fonte de medo e esperança que, no passado, concentrou um poder tão amplo nas mãos dos sacerdotes. Em seu ofício, terão de se valer daqueles forças que são capazes de cultivar o Bom, o Verdadeiro e o Belo na própria humanidade. Trata-se, sem dúvida, de uma tarefa mais difícil, mas incomparavelmente mais valiosa. Quando tiverem realizado esse processo de depuração, os professores da religião certamente hão dereconhecer com alegria que a verdadeira religião ficou enobrecida e mais profunda graças ao conhecimento científico.
VRB – Você admite a possibilidade da sobrevivência post-mortem do ser humano?
Einstein – Não posso fazer idéia de um ser que sobreviva à morte do corpo.
VRB – É possível um relacionamento proveitoso entre a ciência e a religião? O que a ciência pode fazer em benefício da religião?
Einstein - A Ciência não apenas purifica o espírito religioso do azinhavre de seu antropomorfismo, mas contribui também para uma espiritualização religiosa de nossa compreensão da vida.
Se um dos objetivos da religião é libertar a humanidade, tanto quanto possível, da servidão dos anseios, desejos e temores egocêntricos, o raciocínio científico pode ajudar a religião em mais um sentido.
A meu ver, portanto, a ciência não só purifica o impulso religioso do entulho de seu antropomorfismo, como contribui para uma “espiritualização” religiosa de nossa compreensão da vida.
Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, mais certo me parece que o caminho para a religiosidade genuína não passa pelo medo da vida, nem pelo medo da morte, ou pela fé cega, mas pelo esforço em busca do conhecimento racional.
O homem, como qualquer outro animal, é por natureza indolente. Se nada o estimula, mal se dedica a pensar e se comporta guiado apenas pelo hábito, como um autômato.
VRB – A sociedade tem sido acusada de impedir o desenvolvimento das potencialidades do ser humano, quando em desacordo com as suas normas e valores. O que você pensa a respeito?
Einstein – O que há de melhor no homem somente desabrocha quando se desenvolve em uma comunidade.
O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através de seu devotamento à sociedade.
Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.
VRB – Cientistas e filósofos procuram desvendar os mistérios da vida, principalmente com a utilização da razão. De minha parte, delicio-me com eles, porque tenho a convicção de que nem todos podem ser resolvidos, porque transcendem a nossa capacidade cognitiva.
Einstein – O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram.
VRB – Quais foram os ideais que nortearam a sua vida?
VRB – Acredita que a moralidade pode preservar a vida social apesar de todas as suas transformações?
Einstein – O sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório.
A arte, mais do que a ciência, pode desejar e esforçar-se por atingir o aperfeiçoamento moral e estético. A compreensão de outrem somente progredirá com a partilha de alegrias e sofrimentos. A atividade moral implica a educação destas impulsões profundas, e a religião se vê com isto purificada de suas superstições.
O terrível dilema da situação política explica-se por este pecado de omissão de nossa civilização. Sem cultura moral, nenhuma saída para os homens.
VRB – O especialista é, hoje, uma pessoa que inspira uma grande respeitabilidade científica. Mas, na minha óptica, o homem deve ser muito mais do que um especialista para compreender a complexidade cada vez maior do mundo moderno e das relações humanas dela decorrentes.
Einstein – Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade.
VRB – Cientista é só aquele que possui um diploma universitário e passa toda sua vida dentro de um laboratório, realizando pesquisas?
Einstein – Não considero automaticamente um homem de ciência aquele que sabe manejar instrumentos e métodos julgados científicos. Penso somente naqueles cujo espírito se revela verdadeiramente científico.
VRB – A matemática é um instrumento confiável para a investigação da realidade?
Einstein – As teses da matemática não são certas quando relacionadas com a realidade, e, enquanto certas, não se relacionam com a realidade.
VRB – As pessoas, geralmente, temem a solidão. Mas algumas são voluntariamente solitárias.
Einstein – Talvez algum dia a solidão venha a ser adequadamente reconhecida e apreciada como mestra da personalidade. Há muito que os orientais o sabem. O indivíduo que teve experiência da solidão não se torna vítima fácil da sugestão das massas.
Tomara que exista algures uma ilha para homens sábios e de boa vontade.