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DEUS
Crer
em Deus é afirmar, definitivamente,
a
nossa fundamental incapacidade
de
compreendê-Lo.
A
razão é impotente para provar a existência ou a não existência de Deus.
Aquele a quem couber, numa aposta, fazer essa prova, perdeu a aposta.
Deus não tem face.
Ele é a face
de todas as coisas.
O homem é Deus
a procura de Si mesmo.
Brotamos de Deus
como as flores, folhas e frutos
brotam da árvore.
Todos são e não são a árvore.
Todos somos e não somos Deus.
Somos Deus brotando
de Si mesmo.
O vazio não é
a ausência de Deus,
mas a Sua invisibilidade.
Deus é o encanto
do eterno enquanto,
porque nele nada começa
e nada finda.
Deus é a loucura da razão
e a exaltada mística
da incompreensão.
Deus é a perda da identidade.
É o momento sem memória,
atemporal.
Quem retorna de Deus,
não tem nada a dizer.
Apenas sabe que foi Deus.
E que continua sendo.
A verdadeira oração se dirige
ao Deus que é aquele que ora.
Conversar com Deus é dialogar
com o mais íntimo de nós.
Quando homem,
Deus pergunta o por quê
de todas as coisas,
mas não encontra resposta.
Quando Deus,
Ele sabe a resposta,
mas não tem
a quem comunicá-la.
Deus é luz e sombra.
A Sua sombra protege
os homens.
Somente os iluminados
ousam contemplar
a luz de Deus.
Deus não está
próximo nem longe de nós:
Ele simplesmente está.
Deus é a unidade
nas dualidades.
Quem prefere um de seus pólos,
recebe um Deus mutilado.
É difícil aceitar
a face escura de Deus.
Raríssimos são aqueles
que o conseguem.
E os que se tornam
a face escura de Deus?
Como as pessoas comuns
poderão compreendê-los?
Máscaras de Deus, só existimos,
enquanto Deus em nós se representa.
O Bem e o Mal são
condições do palco
e cessam ao término do espetáculo.
O pecado é pensar que existimos
nos papéis que nos foram destinados.
No pior vilão, no excelso herói,
o mesmo Deus se exalta como ator.
Deus
é a suprema experiência do ser humano.
Deus será sempre
a única pergunta
sem resposta.
Deus se deixa encontrar a cada instante,
sem ser chamado, sem ser procurado,
nos terrenos mais férteis ou mais sáfaros,
em meio à oração ou à heresia,
sem encontro marcado e em qualquer parte.
Deus olha pelos meus olhos
as obras que Ele fez.
Escuta por meus ouvidos
todos os sons que criou.
Saboreia com meu corpo
o prazer de ser a Vida.
Ele me fez Seu sentir,
um Seu modo original
de Seus infinitos modos
em tudo quanto se fez.
Deus
não é para ser achado.
Porque achamos que Deus
é isso ou não é aquilo,
ficamos na ilusão
de O ter achado.
Se nenhum ser individual
existisse,
quem testemunharia Deus?
Ele seria uma infinita
solidão.
Deus
nasce todo dia em cada homem
e aprende conosco o que Ele sabe.
Deus se deixa encontrar a cada instante,
sem ser chamado, sem ser procurado,
nos terrenos mais férteis ou mais sáfaros,
em meio à oração ou à heresia,
sem encontro marcado e em qualquer parte.
Quem
é Esse do qual
apenas sou personagem?
Oculto em todos os vivos
e vivo em todas as mortes.
Hóspede em todos os tempos,
embora more no eterno.
Tudo o que existe é sede
e endereço de Deus.
Deus
é o sono
de quem não mais se acorda.
O impossível retorno
de quem partiu e esqueceu
o endereço do corpo.
Deus é luz tão intensa
que se torna escuridão,
porque os olhos cegaram.
Deus é a morte afinal
que ressuscita no vivo
o que nunca vivo foi,
porque latente no corpo
como se nunca existisse.
Deus
é o caos criador da ordem.
A ordem que retorna ao caos.
O caos que se converte em ordem
na massa pulsante do infinito.
Quando penso que sou eu,
esqueço-me de que sou Deus.
Mas, quando me acordo Deus,
descubro que nunca fui.
Os
teólogos são os
ficcionistas de Deus.
São exímios contadores
de histórias,
que acreditam
serem verdadeiras.
Deus não é a dor
justificada,
o prêmio e o castigo além do túmulo,
mas tudo o que não pode ser descrito
nem humanamente compreendido.
Somos uma das infinitas
versões de Deus.
Embora diferentes,
todos somos um.
Tudo é clone de Deus.
Não vejo as tuas
pegadas
nem escuto os teus passos,
pois és feito de silêncio
e de invisibilidade.
Se Deus fosse afetado por tudo o que
fazemos, por tudo o que pensamos, Ele viveria num inferno.
Um Deus imutável, engessado nas leis que
criou, é um Deus escravo de si mesmo. Deus é um ser dinâmico, criativo e, por
isso, imprevisível. O que o ser humano chama de acaso é produto de sua
ignorância, ou a manifestação da liberdade de Deus, insubmisso às próprias leis
que criou.
Esse Deus bagunceiro me fascina,
embora nem sempre suas proezas sejam benéficas aos seres vivos. Mas, e daí? Ele
não está ao nosso serviço, porque é a liberdade absoluta. Por isso, para Ele,
não há o bem e o mal, que são conceitos meramente humanos. Definimos o bem como
tudo aquilo que nos agrada ou nos beneficia. E, de mal, o contrário.
Deus é insuscetível de agrados e
ofensas. Essas ações humanas não afetam sua liberdade de agir conforme queira.
Amamos as suas ações que nos dão um
sentimento de beleza, e sofremos com aquelas que nos causam perdas e dissabores.
Assim, não adianta litigar com Ele ou tentar entendê-Lo, e, sim, conviver com os
imprevistos de Sua liberdade absoluta. Louvá-Lo, praguejar contra Ele, acreditar
ou não na Sua existência, nada disso O afeta. Não seremos recompensados nem
punidos por Ele. Nós é que nos recompensamos e nos punimos segundo o que
acreditamos .
Então, Deus não se preocupa com os
seres humanos. Por que deveria? Deus não deve nada, porque todo dever é
obrigação, limitação de liberdade, e Ele é a liberdade absoluta.
É inútil a esperança de querer
sujeitar Deus às nossas necessidades. Ele a nada está obrigado e a nada se
obriga. Por ser absolutamente livre, Ele nos permite também ser livres. E nós o
somos na medida de nossas limitações e segundo as condições do nosso existir.
Ele tudo pode e nós lutamos para poder cada vez mais. Ele é a eternidade. Nós
somos o tempo que sonha se transformar em eternidade.
Se Deus fez o mundo perfeito, o mundo não
precisa ser melhorado. Nós é que melhoramos o nosso conhecimento sobre o mundo e
as nossas condições de habitar nele.
Se Deus é tudo e está em tudo, então ninguém está sozinho
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