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OS BRINQUEDOS  

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OS BRINQUEDOS

 

E me fiz fabricante de brinquedos...

Então usei as tintas coloridas

Das emoções talvez desconhecidas,

Dando aparência e cor aos meus segredos.

 

Depois eu fabriquei bonecos raros,

Vestidos das mais ricas fantasias,

Bordados de ilusões, bonecos caros,

Feitos na fôrma dos felizes dias.

 

Também fiz uns brinquedos esquisitos,

Outros feios até, sem forma e cor,

Feitos dos meus mais íntimos conflitos

 

E embebido que fui nestes folguedos,

Convenci-me, por fim, que era inventor

E me fiz fabricante de brinquedos.

TÁ QUENTE OU FRIO ?

 

- Tá quente ou frio?

E Maria

respondia:

«Tá quente!»

E eu achava o que ela escondia

de repente.

 

Era boa a brincadeira

do meu tempo de menino.

Mas o Destino

quis brincar de outra maneira.

E escondeu a felicidade,

bem escondida,

num lugar ignorado

da minha vida.

 

- Tá quente ou frio?

no entanto,

por mais que assim a procure

por tantos anos a fio,

escuto sempre o Destino

a responder-me, implacável:

- Tá frio!

 

 

A DANÇA DA CARRANQUINHA

 

«A dança da Carranquinha

é uma dança deliciosa

que pondo o joelho em terra

a moça fica formosa.»

 

Ah! como Antônia gostava

da dança da Carranquinha

que brincava com as amigas

dês de manhã à tardinha !

«A dança da Carranquinha»..,

E lá se ia a pobre Antônia,

cantando o doce refrão

para ficar bonitinha.

Mas triste dela, coitada!

nem os anos, nem o encanto

«da dança deliciosa»

deixaram que a pobre Antônia

pudesse ficar formosa.

 

MENINO POBRE

 

Tu és um sonho de menino pobre

Na vitrine do Mundo; este brinquedo

Que a minha vista de volúpia cobre,

Sem que o possa alcançar do meu degredo

 

O vidro deste mundo nos separa

E eu te contemplo no infantil receio.

E tu não vês, bem sei, és coisa cara,

O rosto triste do menino feio.

 

Não ter o teu amor não me doe tanto,

Pois ver-te, não há nada mais divino

Ao meu olhar escravo ao teu encanto.

 

Mas o que doe é conhecer que um dia

Alguém te levará do meu Destino

E esta Vitrine ficará vazia.

 

 

PAPAGAIO DE PAPEL

 

Fiquei solto no Tempo

como um papagaio de papel que fugiu da linha

Depois. . . fui voando,

voando,

colorido e brilhante pelo espaço vazio,

indiferente à Molecada que corria lá embaixo.

- O papagaio! Pega o papagaio!

Senti-me livre das mãos imundas

dos Moleques do Mangue.

Fugia dos homens,

do mundo.

Senti-me longe,

tão longe,

que me julguei ausente da matéria. .

E fui voando,

voando,

sendo matéria e longe do mundo,

até que caí bem distante,

num lugar que eu mesmo não sei,

mas longe,

bem longe,

do terrível Moleque de mãos sujas.

POEMA TRISTE

 

A tragédia anônima das folhas

amarelas e secas na calçada...

Lágrimas velhas

desta árvore velha. . . '

 

E o meu olhar está verde,

carregado de lágrimas verdes,

até que o sol as queime,

até que o vento as carregue.

 

Enfim...

Só restarão depois somente folhas,

folhas somente secas e amarelas

no calçamento do meu rosto triste.

 

  

A BILAC

 

Bilac amigo, só agora entendo

O que as estrelas dizem lá no espaço.

E muitas vezes, diminuindo o passo,

Fico a escutar o que estarão dizendo.

 

Falam de amor. E se o olhar volvendo,

Contemplo-as todas lá no azul regaço,

Vejo-as sorrirem no seu brilho, vendo

A minha inquietação, meu embaraço.

 

Pois certa noite, do meu quarto, atento,

Escutei vozes vindas da amplidão,

Qual se trazidas fossem pelo vento.

 

Maravilhado, corro e abro a janela.

E a noite toda ouvi a multidão

De estrelas a dizer o nome dela.

 

SONETO DAS MÃOS AUSENTES

 

Ausência de tuas mãos nos meus sentidos

Presença de outras horas já passadas,

Onde estas mãos plasmaram madrugadas,

Constelando-as de sonhos esquecidos.

 

Presença dos momentos mais queridos

Na ausência destas mãos, refugiadas

No silêncio das horas relembradas

E nos beijos de amor acontecidos.

 

Ausência de tuas mãos em meus momentos.

Agitação de mãos pelos espaços,

Como invisíveis sinos sonolentos.

 

Presença destas mãos no instante exato

Em que meu ser te acorda os leves traços,

Nos sonhos de carícias do meu tato.

 

 

 

SOMBRA NO RIO

 

Não sei por que,

mas tenho a impressão

de que ficarás na minha vida

como uma sombra

à tona de um rio

cujas águas,

no seu passar contínuo,

jamais arrastam.

 

 

SONETO DA TARDE

 

A tarde era um desejo cor de rosa

E as horas transcorriam nos teus braços.

Tinhas no corpo os indecisos traços

Da tarde que murchava langorosa.

 

Vinhas, por certo, errante, dos espaços,

Sem presença na tarde luminosa,

Somente luz de ocaso, vaporosa,

Sem o calor de febre dos mormaços.

 

Vazia estava a sala e então teus dedos

Tocaram no piano uma saudade,

A mais doce canção dos teus segredos.

 

Foi quando te entendi. A noite vinha.

Tu ficaste nas luzes da cidade,

Já que morreste em sombras na tardinha.

 

 

 

VAMPIRO

 

Notivagando pela vida inteira

Tentas fugir da luz como o vampiro,

Buscando a negra noite em teu retiro,

Na mais completa e lúgubre cegueira.

 

Buscas achar no teu noturno giro

Restos de amor no corpo da rameira,

Tentando dar ao teu triste suspiro

Toda a expressão de uma ânsia verdadeira

 

E nestas rondas, pelas horas mortas,

Vives da Noite, pelas negras portas,

Na tua vida tão vazia e triste.

 

Inútil vagarás triste e sozinho

E morrerás, um dia, no caminho,

Sem contemplar a luz que nunca viste.

 

 

SONETO DO SONO

 

 I

 

Fecha as portas dos olhos para o mundo

E transpõe o palácio das Quimeras.

Aqui reside o Sonho; o que antes eras

Esquecerás de tudo num segundo.

 

Aqui não rugem traiçoeiras feras,

Aqui não mora o vício, o charco imundo

Não pestila o seu hálito iracundo,

Nem polui o frescor das primaveras.

 

Cerra bem forte o trinco das pestanas

Para que as hordas das paixões humanas

Que gritam lá de fora, exasperadas,

 

Não penetrem jamais em seus salões

Para que assim as tuas Ilusões

Não sejam brutalmente assassinadas.

 

 

SONETO DO SONO

 

   II

 

E quando o olhar se fecha, surdamente,

Reboa em festa o gongo da pupila.

E a sala da Ilusão, antes tranqüila,

Se agita num rumor. E lentamente

 

Da sala de Retina vai chegando

A corte dos Desejos, convidados

Para a festa dos sonhos malogrados

Que vivem nos olhares se ocultando.

 

E no esplendor fantástico da orgia

Uma onda de prazer o olhar invade,

Enquanto dura o Sono e em vindo o dia,

 

Ante o clarão das pálpebras abertas,

Os Sonhos fogem pela claridade

E as salas, sem rumor, ficam desertas.

 

 

SONETO DO SONO

 

             III - Última festa

 

E pela última vez fechou-se a porta.

E a morte - este porteiro - erguendo a chave,

Jogou-a para longe, austera e grave,

E cerrou para sempre o olhar da morta.

 

Não mais o sol da Vida penetrando

Pelas portas das pálpebras fechadas,

O delírio dos Sonhos terminando

Ante o esplendor das salas aclaradas.

 

Não mais... não mais... a morta eternamente

Ficará na Retina, enclausurada,

Sem retornar ao mundo, novamente.

 

E nela ficará prisioneira

Da traição do Sono, deslumbrada,

A sonhar; mesmo morta, a vida inteira.

 

 

BALADA DO HOMEM TRISTE

 

Havia sangue na voz do homem triste

que morava nas horas do Dia,

numa ponte,

numa escada,

ou nos degraus de uma igreja,

com as mãos cheias de fome

abertas à chuva parca do dinheiro.

Do homem que morava principalmente

nas horas do Dia

e dormia incertamente

nalgum lugar da Noite.

Havia sangue na voz do homem triste

do homem que breve morrerá

sem se saber de que.

Do seu viver, talvez, nem reste o nome,

pois nem nome talvez tenha este homem

que só sabe que vive porque sofre,

pois que a dor é sua única identidade.

 

ANTECIPAÇÃO

 

Morreste amanhã

e eu não pude te chorar

porque hoje inda não soube.

Somente ontem ficarás comigo,

porque hoje de mim estais ausente

e amanhã não posso te salvar.

 

  

 

A METAMORFOSE

 

Os lábios virgens se fizeram rosas

e abriram numa tarde de verão

a procura dos beijos transviados

pelo instante jamais acontecido.

 

E o mistério da noite sucedeu...

Ò, rosas, que eram lábios e eram virgens!

Tinham o frescor das coisas desvendadas,

tinham beijos de orvalho nas corolas...

 

A DERRUBADA

 

Na invasão triunfal dos edifícios,

senti o grito secular das ruas,

dos velhos casarões e das esquinas.

A gula do urbanismo devorando

a tristeza das ruas obscuras,

o romantismo arcaico das janelas

dos velhos sobradões coloniais,

e a revolta calada das igrejas

ante a grandeza dos arranha-céus.

Senti o crime do progresso abrindo

a virgindade histórica das ruas

e o seu machado inútil abatendo

os carvalhos senis da tradição.

E. antes de tudo pressenti a angústia

das lembranças que habitam nestas ruas

ante a invasão dos bárbaros de concreto,

e uma impressão de tudo diferente:

de viver entre estranhos noutra pátria,

de viver num presente sem passado.

 

 

 

RUA AUGUSTA

 

Rua Augusta,

velhos sobrados

do meu Recife menino,

batidinha de sol

como uma velhinha a cochilar!

Como eu gosto de ti! .

Aí, passei a melhor parte da minha infância,

correndo por tuas calçadas,

brincando no meio da rua,

quase coberta de um capim verdinho

que a Prefeitura sempre mandava arrancar.

Como eu gosto de ti!

Rua Augusta,

pedaço da minha infância,

onde eu brincava,

onde eu sonhava

meus doces sonhos de criança!

Cadê teu menino, Rua Augusta,

que brincava dentro de ti

e que te amava tanto como eu te amo?!

Ele fugiu de nós,

do tempo,

e se foi esconder bem dentro de mim.

Às vezes eu o ouço soluçar...

É quando chega o Natal;

talvez lembrando de ti. . .

Ah! naqueles tempos,

saudosos tempos,

quando eu cria ainda em Papai Noel!...

Era ali,

juntinho daquele poste,

que conversávamos,

eu e meus amigos,

dos presentes da noite.

Ah! minha boa amiga!

como eram belos aqueles tempos!

Hás de bem recordar.

Eu, por mim, nunca os esquecerei.

Hei de sempre ver,

ao passar por ti,

a figura daquele garoto traquina e arrogante

brincando de artista,

correndo por tuas calçadas,

este garoto que um dia

se escondeu dentro de mim.