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A FENOMENOLOGIA DA CONSCIÊNCIA

 Valter da Rosa Borges

O que é a consciência

            Somos uma organização biológica que percebe, pensa, raciocina, lembra, quer, faz, emociona-se e está consciente de seus estados físicos e psíquicos. Para compreendermo-nos e compreender o nosso estar no mundo, substantivamos o nosso agir integral em percepção, pensamento, raciocínio, memória, vontade, emoção e consciência.

Há muitas definições para o termo consciência.

Platão a definiu como o conjunto das atividades cognitivas em geral e Aristóteles, como o conhecimento das percepções sensíveis.

Para Edmund Husserl, a consciência é sempre consciência de alguma coisa: ela é intencionalidade.

Karl Marx entendia que a consciência é resultado da existência social do homem.

David Chalmers é um dos que afirmam que a consciência não é uma propriedade física. Por isso, admite que ela é um mistério insolúvel. Outros, porém, como Jamel Trefil, acreditam que a ciência, um dia, explicará o que é a consciência. Preferimos adotar uma atitude cautelosa: ainda não temos condições para afirmar que a consciência é um mistério insondável ou que a ciência, algum dia, poderá solucioná-lo.

Daniel Dennetti sustenta que a consciência é a resultante do trabalho dos neurônios.

James Trefil, com fundamento na moderna ciência da complexidade, entende que "a consciência humana, a inteligência e outras funções intelectuais superiores são propriedades emergentes de um sistema complexo cujos "grãos de areia" são os neurônios".

Francis Crick reduz a consciência a descargas neuronais.

David Chalmers entende que a consciência é, essencialmente, uma propriedade nova dos sistemas complexos e, por isso, requer um novo tipo de ciência para explicá-la.

            E Steven Rose define a consciência como a expressão da totalidade da atividade mental/cerebral em interação com o meio ambiente.

Há, porém, filósofos e cientistas que negam a existência da consciência.

Descartes e Galileu foram os responsáveis pela exclusão da consciência como objeto da ciência. O Behaviorismo também adotou a mesma posição. Ora, se não há consciência, então o que é esse algo consciente que nega a consciência?

Hoje, o chamado "efeito do experimentador" demonstrou o equívoco dessa atitude.

            Podemos definir ontologicamente a consciência como um dos aspectos do Ser, ou teorizar que ela é a própria essência do Ser.          

A consciência é o Ser em ação cognitiva: é o Ser conhecendo. Ela é a percepção que o Ser tem do nível da realidade com o qual interage. A consciência não está presente nos processos de percepção, mas em seus resultados. Por isso, Gregory Bateson afirmava que as regras do universo, que acreditamos conhecer, estão profundamente enterradas em nossos processos de percepção.

            A consciência é o modo como o Ser percebe o mundo, o qual se fundamenta nas peculiaridades de cada organismo e dos condicionamentos de cada cultura. A autoconsciência é como o Ser se percebe a si mesmo como um produto orgânico-cultural.

O conceito de autoconsciência confunde-se com a noção do eu. A personalidade é uma forma organizada de autoconsciência.

A autoconsciência é um dado empírico imediato: temos consciência de que temos consciência. Porém, a consciência dos outros é uma inferência. Dizemos que um ser é ou está consciente, quando ele reage aos estímulos do ambiente. Mas nem sempre é assim. Há casos em que uma pessoa está consciente do que ocorre ao seu redor, mas não reage aos estímulos do mundo exterior. Se inferimos que um ser é ou está consciente, não temos como inferir se um ser consciente é também autoconsciente.

O Ser é simultaneamente consciência em potência (ou inconsciente) e consciência em manifestação (ou consciente). A consciência manifestada é uma fração irrisória da consciência potencial.

Conhecemos, cada vez mais, o cérebro neurologicamente e, no entanto, não conhecemos as suas atividades psíquicas, reduzindo-as a interações neurônicas e localizações anatômicas. As experiências de estimulação elétrica do córtex cerebral, realizadas por Wilde Penfield, comprovam essa suposição.

As pesquisas modernas, orientadas no sentido de que a mente é um epifenômeno do cérebro, procuram relacionar sentimentos e pensamentos com os neurônios e as células  cerebrais. Assim, a consciência seria o fenômeno emergente de uma atividade neurônica coerente, resultante das relações do cérebro com o organismo e o mundo exterior. Isso, porém, não explica como ocorre essa formação coerente das atividades neurônicas, resultando na consciência. Mas se, ao contrário, for a consciência a causa dessa coerência das atividades neuroniais, o que é ou quem é essa causa?

Antônio R. Damásio reconheceu que ainda não existem hipóteses provadas sobre as bases neurais do eu.

O funcionalismo sustenta que estados mentais são estados funcionais e estados funcionais são estados mentais e, arrimados nessa concepção, os teóricos da cognição afirmam que um estado funcional do cérebro corresponde a um estado computacional de uma máquina digital.

Mas, o que atualmente se define como consciência? Ela é sinônimo de mente? Ou um aspecto da mente? É a consciência um fluxo informacional ininterrupto ou ela apresenta intermitências, oscilando entre períodos de consciência e de inconsciência? Se a consciência for um conceito apenas ligado à vida vigílica, ela não é um fluxo informacional ininterrupto, pois sofre a intermitência diária dos períodos do sono. Parece-nos claramente evidente que, mesmo no estado de vigília, alternamos brevíssimos momentos de consciência e de inconsciência, o que nos dá a ilusão da continuidade da consciência. O sono sem sonho e os desmaios são comprovações empíricas de que a consciência apresenta fases de inconsciência.

No nosso entender, a consciência não tem apenas por conteúdo informações, mas é um campo de informações coerentes e significativas.

A subjetividade é a essência da consciência. Não se pode conhecer a consciência de outrem, mas somente a própria consciência. Não há como objetivá-la, porque ela é que dá objetividade a tudo o que não é ela. O mundo objetivo é um construto da consciência, um acordo de subjetividades. Entendemo-nos por analogia e pensamos conhecermo-nos por inferência.

Gregory Bateson já havia advertido que "toda experiência é subjetiva" e que "nossos cérebros fabricam as imagens que pensamos "perceber"".

A autoconsciência é a consciência cônscia de si mesma, gerando a ilusão de uma individualidade separada - o eu. O eu é a autoconsciência centrada em si mesma. Essa ilusão da separatividade é conhecida, na filosofia oriental, pelo nome de maya. Maya é a percepção da realidade como constituída de coisas e seres separados, do vazio entre eles, do espaço e do tempo. O eu é, portanto, a consciência referenciada a um complexo mnemônico que, por dar historicidade ao ser, proporciona a ilusão de que é seu núcleo.

Para alguns pensadores, o núcleo do ser é o vazio, uma potencialidade em contínua manifestação fenomenológica. Por isso, o medo de morrer está no eu, cujo desejo de permanência induz à busca de perpetuar o que é transitório. Pode haver consciência sem eu. Mas não existe eu sem consciência, pois o eu a consciência ligada a um referencial, um complexo sociocultural individualizado. Quando estamos absortos numa atividade qualquer, temos consciência do que fazemos, mas não de um eu que faz. Quando não temos eu, não há distinção entre sujeito e objeto, consciência e experiência, percepção e percebedor.

            Em 1970, Evan Walker postulou que a consciência pode ser associada a todos os fenômenos quânticos e que o universo é habitado por um número quase ilimitado de entidades conscientes, geralmente não pensantes, e que têm a responsabilidade de fazê-lo funcionar.

            Lawrence LeShan questiona que, se a ciência não indaga o que é o volume, o que é a energia, o que é a matéria, por que vivemos a perguntar o que é a consciência?! A consciência não está no espaço, embora a experimentemos comumente como se ela estivesse no cérebro. Por isso, LeShan assevera que, no domínio da consciência, os fatores observáveis não possuem  comprimento, largura ou altura e não se pode descrever uma idéia ou uma emoção como algo que se situa a cinco metros ao norte de uma pessoa.

            Em um dos nossos livros afirmamos:

"Se a consciência não tem forma, se não é possível medi-la, se não podemos localizá-la, concluímos, de logo, que ela não é local, não se encontra no espaço, nem está confinada no cérebro. Portanto a pergunta "onde está a consciência?" não tem sentido, pois a consciência não está onde. Ela não é um epifenômeno do cérebro, porque o cérebro é uma entidade espacial. Se não é um entidade física, a consciência, por conseqüência, não existe?

O espaço e o tempo são hoje concebidos como uma unidade. Ora, se a consciência não se encontra no espaço, ela também não se encontra no tempo. Ela não é onde, nem quando. Logo, não é afetada pelas ocorrências tempo-espaciais.

Um dos maiores mistérios reside nesta conexão que se estabelece entre a consciência e o universo tempo-espacial e o que acontece à consciência humana na sua desconexão definitiva com a organização biológica.

Quem nega a consciência assume o seguinte paradoxo: eu estou consciente de que não sou (ou estou) consciente. Ou ainda: eu sou inconsciente, mas consciente da minha inconsciência.

Também é interessante querer-se provar de que é feita a consciência. E afirma-se que ela é efeito ou resultado de complexas atividades metabólicas. A consciência é um resultado que procura saber como chegou a este resultado.”

            A consciência não é uma experiência psíquica isolada: ela interage com outras consciências em vários níveis.

            Há casos em que duas consciências passam pela mesma experiência, como nos sonhos compartilhados e na telepatia.

            A consciência parece assemelhada à realidade quântica. Ela está em toda parte e não está em parte alguma. Se centrada em seu referencial corpóreo, ela assume a individualidade de partícula. Mas, se se despoja de qualquer referencial, passa a agir como se fosse onda. Assim, a consciência se comporta como partículas ou como onda: tudo depende do ponto de vista selecionado.

            Observa LeShan que não há distância entre as consciências. E argumenta que o fato dos corpos de dois sujeitos se localizarem a uma distância de 600 quilômetros um do outro, não indica que as suas consciências também se situem na mesma distância. A interação consciencial não acontece, portanto, no espaço, ou seja, no domínio físico, mas em outro domínio da realidade - a realidade psíquica.

            A interação consciencial também não ocorre no tempo, embora possa ser experimentada como se acontecesse a cada minuto.

            Quando a filosofia oriental ensina que temos sete corpos, ela quer dizer que temos sete estados de consciência, pois corpos são referenciais da consciência.

            A Escola Ioga afirma que os estados de consciência são inúmeros e Alexandra David-Neel informa que os tibetanos distinguem cerca de onze estados de consciência.

            Há os que admitem que a consciência é a realidade. Ou seja: não há consciência da realidade e nem a consciência é parte da realidade. A realidade é a própria consciência. E cada aspecto da realidade constitui manifestações diferentes da consciência. Então, perguntar o que é a realidade é o mesmo que indagar o que é a consciência. Assim, a consciência se auto-observa, porque nada existe além da consciência. E é ela que gera a observação e os observadores que são aspectos individualizados de si mesma. Afinal, quem observa o observador? É ele simples reflexo da observação? Isto é: é a observação a causa do observador? Em outros termos: há consciência porque há realidade exterior? E, nesse caso, a realidade exterior é a causa da consciência?

Será que o mundo exterior e sua aparente materialidade não passam de uma conexão de consciências semelhantes? Para as consciências de natureza diferente da nossa, o mundo como o percebemos é irreal. A materialidade do mundo resulta da interconexão de consciências da mesma natureza. A realidade não é constituída de coisas, mas de consciências. Por isso, ainda não se encontrou o fundamento da materialidade ao nível das subpartículas. E nunca se encontrará, pois o fundamento da realidade é a teia de interconexões de consciências similares.

Se vemos segundo somos, o mundo que percebemos é constituído dos indivíduos semelhantes que o percebem.

Amit Goswama postula que a conexão instantânea entre os objetos quânticos ocorre, não no domínio da realidade física, mas no domínio da realidade transcendental. E afirma que a consciência "é o meio que produz o colapso da onda de um objeto quântico, que existe em potentia, tornando-a uma partícula imanente no mundo da manifestação." Ele adverte que, na década de 30, o matemático John von Neumann já havia apresentado a idéia de que a consciência provoca o colapso da onda quântica.

Afirma-se que o cérebro é um holograma num universo holográfico. A realidade é um holograma da consciência. E a consciência não é um produto de neuro-sinapses. David Bohm, no entanto, prefere usar o termo "holomovimento" por entender que a expressão holograma se refere a uma imagem estática da realidade.

A consciência é mais que percepção da percepção: é também percepção significativa. Essa percepção, da qual a consciência é percepção da percepção, é percepção não apenas de objetos do mundo físico, como também de sensações corporais, sentimentos, pensamentos e vontade. Até mesmo de fatos distantes (clarividência) e de acontecimentos futuros (precognição).

A consciência é percepção do que se faz, como se faz, por que se faz e para que se faz. Mas, há atos que, por se terem tornado condicionados, não necessitam mais da consciência para a sua execução. Ele ajudam a consciência a praticar outros atos com o seu auxílio, como, por exemplo, digitar  textos (atos inconscientes), cujo conteúdo é objeto da consciência.

A consciência de existir é um testemunhar do ser sobre si mesmo. Não é o simples "penso, logo existo", de Descartes, pois não é só o pensamento que testemunha o ser, mas a percepção global do ser em relação a si mesmo e em sua relação com o mundo.

Kenneth Ring propôs um mapeamento da consciência, construído a partir dos trabalhos de outros psicólogos transpessoais. Essa sua cartografia do espaço interior está assim definida: a) consciência de vigília; b) pré-consciente; c) inconsciente psicodinâmico, representado pelo inconsciente freudiano; d) inconsciente ontogenético, constituído pelas experiências de morte-renascimento, embrionárias e fetais ; e) inconsciente transindividual, onde ocorrem experiências coletivas, raciais e arquetípicas; f) inconsciente filogenético, onde a consciência se identifica com órgãos, tecidos, células, vegetais, animais e a matéria inorgânica; g) inconsciente extraterreno, onde ocorrem os fenômenos paranormais e mediúnicos; h) supraconsciente, onde a consciência se sente fundir com a mente universal; i) vácuo, onde ocorre a cessação da consciência.

Há consciência durante o sono profundo? Alguns iogues, como Swami Rama, em estado de vigília, produziram ondas delta, que são indicadoras do sono profundo.. O próprio Swami Rama admite existir um estado de consciência mais elevado em que as ondas cerebrais sejam ainda mais lentas e dificilmente detectáveis pelo eletroencefalógrafo.

Foi Fred Alan Wolf quem primeiro concebeu a idéia de não-localidade da consciência. Segundo a física quântica, podem existir comunicações instantâneas entre objetos através do espaço tempo em velocidades superiores a da luz. A "não-localidade", portanto, é uma noção que contraria o princípio da localidade, mediante o qual todas as interações entre objetos se propagam no espaço-tempo à velocidade igual ou inferior a da luz.

Wolf é um dos que admitem que a consciência é a origem do espaço-tempo.

Jacobo Grinberg-Zylberbaum afirma ter realizado no Instituto Nacional para el Estudio de la Consciencia, no México, um experimento no qual demonstrou que a noção da não-localidade quântica pode ser aplicável à consciência.

É a consciência uma só, embora se manifeste sob diversos estados, conhecidos como estados alterados de consciência, ou há vários tipos de consciência, embora o ser seja uno?

Para William James, a nossa consciência normal do estado de vigília constitui apenas um tipo especial de consciência e que, ao seu redor, encontram-se formas potenciais de consciência inteiramente diversas, apenas afastada por uma película extremamente tênue.

Não há, portanto, um único tipo de consciência. E para uma abordagem mais ampla e genérica possível do tema, resolvemos postular a divisão da consciência em seis modalidades: a) a consciência intracorpórea ou pré-natal; b) a consciência corpórea ou padrão; c) a consciência onírica; d) a consciência extracorpórea; e) a consciência substituta; f) a consciência unitária.

A consciência intracorpórea ou pré-natal

            A consciência intracorpórea ou pré-natal é ainda uma questão polêmica, embora existam indícios de que o ser, na vida intra-uterina, reage às emoções experimentadas por sua genitora. O que se questiona é se essas reações ocorrem apenas em nível fisiológico ou se também afetam psiquicamente o feto. Nesse caso, teríamos de convir que a consciência intracorpórea não consiste apenas em reações fisiológicas às alterações bioquímicas do organismo da mulher, quando afetado por emoções, mas em reações psíquicas como se o ser em formação fosse capaz de interpretar significados. Os conflitos familiares parecem ser percebidos pela consciência intracorpórea e influir na natureza do feto e no seu futuro de pessoa humana.

            A consciência intracorpórea, que se inicia no momento da fecundação e termina após o parto, é constituída de memórias filogenéticas e de possíveis vidas pretéritas, conforme sugerem os resultados obtidos em terapias de vidas passadas. Por isso, a consciência intracorpórea tem experiência da vida e da morte. Essas memórias de vidas anteriores parecem influir na existência presente do ser e constituem o que as religiões orientais e o Espiritismo denominam de carma. Por isso, Stanislav Groff concluiu que o universo inteiro é, de alguma maneira, codificado no esperma e no óvulo.

            A consciência intracorpórea ou pré-natal forma o pano de fundo da consciência corpórea ou padrão.

A consciência corpórea ou padrão

A consciência corpórea ou padrão ocorre no estado de vigília e está funcionalmente ligada ao organismo. Por isso, ela percebe o mundo exterior a partir do seu referencial somático. Consciência e corpo formam uma unidade, mesmo nos momentos de introspecção.

A consciência corpórea nos dá a impressão de tempo e de espaço. E o tempo não apenas enseja a formação da memória, como também é produzido permanentemente por ela. E essa memória, por sua historicidade, cria a ilusão de uma individualidade separada - o eu.

Como a maioria das pessoas permanece em estado de vigília durante um período médio de 16 a 18 horas, pensamos que a nossa verdadeira consciência é aquela referenciada ao nosso organismo, e ela nos parece o núcleo do nosso ser.

A percepção é um processo ativo e não mera recepção passiva de dados do mundo exterior. É uma decodificação interpretativa e significativa desses dados, o que nos torna conscientes deles. A consciência, portanto, é a percepção dos dados depois de sua decodificação. Os dados que não são decodificados não se transformam em percepção e constituem lixo sensorial.

Só percebemos o que fomos condicionados a perceber, segundo nossa estrutura sensorial e os nossos padrões culturais. Lesões cerebrais produzem distorções perceptivas e podem alterar o conteúdo da consciência corpórea. As drogas também podem produzir os mesmos efeitos.

A. R. Luria assinalou que esse caráter ativo do processo perceptual é dependente do papel dos lobos frontais na percepção. São as lesões nesses lobos que ocasionam os distúrbios perceptuais.

É a consciência resultante da decodificação perceptual? Não há dúvida de que percebemos segundo a nossa estrutura sensorial e, por isso, cada espécie tem o seu mundo particular, vivendo sua realidade específica. Mas o homem construiu em cima de sua percepção meramente orgânica a sua estrutura cultural, passando a viver em dois universos paralelos, mas interagentes. A consciência corpórea é assim resultante da percepção sensorial e dos condicionamentos socioculturais.

Pitirim Sorokin teorizou a existência de egos biológicos e egos sociais nos indivíduos. Os egos biológicos se sucedem em cada indivíduo, atravessando as fases de lactência, infância, adolescência, idade madura e velhice, o que resulta em modificações nas necessidades biológicas dos indivíduos. Os egos sociais são aqueles resultantes dos diversos grupos sociais aos quais os indivíduos pertencem. Sorokin admite que a maioria das psiconeuroses não se deve a fantástica repressão freudiana da libido e do instinto de morte, mas ao conflito entre os egos sociais, entre os egos biológicos e entre alguns egos sociais e egos biológicos. Os egos sociais e biológicos conjuntamente correspondem ao que nós denominamos de consciência corpórea. 

Observou Sorokin que quando a estrutura sociocultural e os sistemas de valores se desorganizam temporariamente, como nos períodos de revolução, guerras e outras catástrofes, a vida mental e moral dos indivíduos entra em desintegração.

A consciência onírica

A consciência onírica surge na chamada fase REM (rapid eyes movement) do sono e é explicada como resultado das nossas experiências do mundo exterior, funcionando como atividade compensatória dos nossos desejos insatisfeitos, das nossas expectativas,  medos e tendências reprimidas. Também ela é assemelhada a um estado de loucura transitória, onde as informações se tornam assistemáticas e aleatórias. Ou, ainda, a um processo criativo e, até certo ponto, independente dos subsídios do estado de vigília.

Na verdade, o sonho não é uma cópia, uma reprodução das nossas experiências diurnas. Nem sempre lugares, situações e pessoas que vivenciamos nos sonhos podem ser referenciadas a similares vigílicos. Isso sem falar nos sonhos de conteúdo paranormal, onde o sonhador percebe fatos futuros (precognição) ou que acontecem em outro local (clarividência).

O que é chamado de  sonho lúcido é uma modalidade de consciência onírica onde o sonhador tem uma certa interferência no enredo de suas experiências. Assim, ele não é levado indefeso pelas tramas do sonho, mas participa da história da qual é personagem.

Se há sonhos de conteúdos explícitos, há outros cujo conteúdo está protegido por uma linguagem simbólica.

Sonhos são percepções, porém percepções não-físicas. E também experiências sensoriais, sem objeto físico, mas que produzem alterações fisiológicas. Algumas delas são de tão grande intensidade sensorial que parecem resultante de um acontecimento físico, como no caso das poluções noturnas, as quais, no passado, eram atribuídas às influências de íncubos e súcubos.

            Em sonho, Edgar Cayce visitava psiquicamente pessoas enfermas que ele não conhecia, diagnosticava suas doenças e lhes prescrevia a terapêutica adequada. Há mais de 15.000 casos registrados dessa sua atividade parapsicológica.

            Vários casos de descobertas e invenções ocorreram durante o sonho.

Jacobo, filho do poeta Dante, disse que seu falecido pai lhe apareceu em sonho e lhe indicou o local onde escondeu os manuscritos perdidos dos últimos treze cantos da Divina Comédia.

Kekule, em sonho, descobriu a fórmula hexagonal do benzeno.

Elias Howe, após um pesadelo angustiante, interpretou o seu significado simbólico e, em virtude disso, inventou a máquina de costura.

Wagner sonhou sendo arrastado pela correnteza de um rio impetuoso e o som das águas lhe forneceu a melodia que ele procurava para o prelúdio de “O Ouro do Reno”.

Em um dos nossos livros havíamos comentado:

“Enquanto sonhamos, o mundo de vigília não existe. E, quando em vigília, o universo onírico nos parece uma experiência ilusória.

Quando sonhamos, não nos lembramos da nossa vida no estado de vigília. Por que então nos espantarmos de, em nosso estado de vigília, não nos lembrarmos da quase totalidade dos nossos sonhos?”

A consciência extracorpórea

A consciência extracorpórea é a experiência psíquica onde o indivíduo se vê como se estivesse "fora de seu corpo" ou, em algumas ocasiões, em outro corpo não-físico, observando o que se passa a seu redor. Isto é: ele observa o mundo físico a partir de outra região do espaço e não de seu corpo.

Perceber-nos e perceber formam uma unidade. Mas, qual a ratio essendi da percepção? A interação organismo e ambiente? Então a percepção tem, como causa de si mesma, essa interação.

Se podemos, no entanto, perceber em outro local do espaço e não a partir do corpo físico, essa percepção não é a mais a resultante da interação organismo e ambiente. Logo, a consciência, que é a percepção da percepção, não resulta apenas dessa interação, mas também de algo não-orgânico interagindo com o ambiente físico.

O ser da consciência extracorpórea é o mesmo ser da consciência corpórea. O que muda é a perspectiva da percepção do mundo: a primeira a partir do seu referencial somático e a última a partir de outro local do espaço que não o corpo físico. Mesmo que a consciência extracorpórea se perceba em mundos não-físicos, ela não perde sua identidade original e mantém a lembrança integral da experiência, o que raramente acontece com a consciência onírica.

Há dois tipos de consciência extracorpórea:

a)      as experiências fora do corpo ou EFCs;

b)      as experiências de quase morte ou EQMs.

A experiência fora do corpo - EFC - é também conhecida por bilocação, bicorporeidade, desdobramento, viagem astral e projeção da consciência. Inúmeros são os testemunhos dessa forma de consciência extracorpórea entre os santos católicos, os médiuns espíritas e as pessoas comuns. Geralmente a EFC ocorre de maneira espontânea, mas também pode ser induzida, passando a ser um acontecimento comum entre pessoas que desenvolveram técnicas empíricas para obter esse resultado, como Oliver Fox, Silvan Muldoon, Robert Monroe e Waldo Vieira. As coincidências observadas nos relatos desses viajantes psíquicos é impressionante, sugerindo uma passagem de nível da consciência, tornando-a aparentemente autônoma em relação ao corpo físico. Segundo os viajantes psíquicos, a consciência extracorpórea, embora se assemelhe à consciência onírica, dela se diferencia por diversas características, que foram minuciosamente relacionadas por Waldo Vieira.

Charles Tart realizou experimentos com uma pessoa a que denominou de Srta. Z e constatou que ela não se encontrava na fase REM na ocasião em que passava por um EFC. O mesmo se observou em experiência com S. Keith Harrary (ou "Blue"). Tais experiências sugerem que a EFC não é uma experiência onírica.

A consciência extracorpórea pode estar centrada no universo físico como também em outro nível não-físico da realidade, por ocasião de uma EFC ou de uma EQM. E essas experiências independem da concepção filosófica ou científica das pessoas nelas envolvidas. As pessoas que já se perceberam fora de seu corpo, observando o que acontecia nas proximidades ou em lugares distantes, reconheceram ter passado por uma experiência muito forte, principalmente porque os acontecimentos percebidos foram, posteriormente, confirmados. Há vários casos de consciência extracorpórea registrados no hagiológio católico, na literatura espírita e na investigação parapsicológica.

Aqui, não vamos discutir se a consciência se situa ou não "fora" do corpo, mas, sim, que a pessoa se vê em outro local do espaço, próximo ou distante, e o que ela percebe é verídico. Não se trata, portanto, de sonho ou alucinação, porque a consciência extracorpórea percebe o que realmente ocorre no mundo físico.

A Dra. Elisabeth Kübler-Ross recolheu cerca de 20.000 depoimentos de pessoas que haviam passado por uma EQM. E, em 1982, o Instituto Gallup realizou uma pesquisa, onde constatou que 8.000.000 de norte-americanos tiveram esse tipo de experiência após a morte clínica aparente ou coma profundo.

O Dr. Raymond A. Moody Jr. foi quem primeiro investigou sistematicamente a EQM e elaborou um modelo geral desse extraordinário estado de consciência.

Na EQM, a consciência extracorpórea não percebe apenas o mundo físico, mas parece relacionar-se com outro tipo de realidade não-física, experimentando, na quase totalidade dos casos, um sentimento profundo de amor e de paz, assim como de unidade com todo o universo. O que os pesquisadores observaram é que a consciência extracorpórea, numa EQM, produz uma mudança radical e definitiva na consciência corpórea ou originária, tornando as pessoas convictas da sobrevivência post-mortem, da unidade de todas as coisas e de um sentimento de intensa religiosidade.

A consciência substituta

            A consciência substituta resulta da fragmentação da consciência corpórea em um ou mais de um tipo de consciência com aparente autonomia. Esse fenômeno é conhecido na Psicologia pelo nome de personalidades secundárias ou múltiplas, onde a sucessão de consciências substitutas rompem a unidade do eu. A magna questão consiste em saber se a consciência substituta faz parte do ser que a manifesta como expressão diversificada de si mesmo, ou se se trata de um transitório parasitismo de uma outra consciência.

A consciência substituta se manifesta nas experiências mediúnicas e de memória extracerebral, representando uma personalidade fictícia ou real. Se a dominação da consciência substituta é parasitária e recorrente, diz-se que a pessoa está obsidiada, possessa, endemoninhada. Medicamentos, exorcismos e as mais diversas técnicas de desobsessão são utilizados, simultânea ou sucessivamente, para restaurar o domínio da consciência corpórea e o seu sucesso nem sempre é garantido. Por conseguinte, nas possessões e incorporações não há perda de consciência, mas substituição da consciência corpórea por outro tipo de consciência

A manifestação de consciências substitutas pode ser espontânea ou induzida. Neste caso, ela resulta de fatores ambientais, tal como acontece nas sessões mediúnicas do Espiritismo e da Umbanda. Essas técnicas indutivas são variadas e produzem um processo dissociativo, que consiste no apagamento da consciência corpórea e o surgimento de uma consciência substituta. Por essa razão, a consciência corpórea raramente se lembra do que a consciência substituta falou ou fez durante o período de possessão ou incorporação. Se, no entanto, há lembrança do que aconteceu, não se trata de um acontecimento dissociativo, mas de uma simples teatralização da consciência corpórea.

As consciências substitutas podem apresentar um nível intelectual inferior ou superior ao da consciência corpórea, possuir uma história, apresentar características psicológicas próprias e reações fisiológicas diferentes, ter idéias e grafia diferenciadas, identificar-se como a personalidade de pessoa fictícia ou falecida, demonstrar aptidões literárias ou artísticas e conhecimentos que a consciência corpórea não possui. A consciência substituta é fisiológica e psicologicamente diferente da consciência corpórea. Assim, se a consciência corpórea for uma personalidade alérgica, essa enfermidade não se manifestará enquanto o organismo estiver sob o domínio da consciência substituta. O mesmo se diga em relação à ingestão de drogas ou de substância alcoólica onde o organismo reage de maneira diferente, de conformidade com a consciência que o esteja regendo. A consciência substituta não é afetada pelas mesmas. Observou-se que é difícil anestesiar algumas consciências substitutas e Michael Talbot faz referências a casos de pessoas que, sob o domínio de uma consciência substituta, acordaram  na mesa de operação. A acuidade visual pode diferir entre a consciência corpórea e as consciências substitutas até mesmo na percepção de cores ou mesmo na cegueira em relação a elas. Existem casos de mulheres que têm dois ou três períodos menstruais a cada mês, porque cada uma de suas consciências tem seu próprio ciclo. O fonoaudiólogo Christy Ludlow descobriu que o padrão de voz é diferente segundo a influência da consciência dominante e assegurou que nenhum ator seria capaz de realizar essa façanha. Sintomas de doenças desaparecem, quando o organismo de uma pessoa enferma, está sob a regência de uma consciência substituta e até consegue sarar mais depressa do que quando está sob o controle da consciência corpórea.

Segundo Michael Talbot, em um recente simpósio sobre a síndrome de múltipla personalidade, uma pessoa chamada Cassandra explicou que, mesmo quando suas consciências substitutas não estão no controle de seu corpo, ainda estão atuantes. Assim, ela é capaz de "pensar" numa infinidade de canais diferentes ao mesmo tempo, fazer coisas como trabalhar em várias palavras no papel simultaneamente, e até "dormir" enquanto as outras personalidades preparam seu jantar e limpam a casa.

Em casos de psicografia ambidestra, enquanto a consciência corpórea parece permanecer no controle, consciências substitutas produzem escritos diferentes, utilizando, simultaneamente, as duas mãos e, geralmente, o conteúdo dessas mensagens excede em muito as aptidões da consciência corpórea.

A consciência substituta pode assumir ou não uma identidade. Quando assume uma identidade se transforma em "guia espiritual" do médium, assumindo o poder criativo do seu psiquismo inconsciente. Em alguns casos, uma mesma consciência substituta exerce seu domínio sobre outras consciências, dando a impressão de que se trata de um ser com autonomia própria.

Em 1860, a consciência substituta do camponês Hudson Tuttle, então com dezoito anos de idade, psicografou o primeiro volume de "Arcanos da Natureza", do qual Büchner fez citações, ficando surpreso e decepcionado, quando conheceu pessoalmente o seu autor. Seis anos após, Tuttle psicografou novo livro, intitulado "Origem e Antigüidade do Homem Físico", o qual foi citado por Charles Darwin na sua obra "Descendência do Homem".

Em 1913, a consciência substituta de Pearl Lanore Curran, e que se dizia chamar Patience Worth, ditou, num período de 35 horas, um poema intitulado "Telka", constituído aproximadamente de 70.000 palavras, em inglês do século XVII.

A consciência substituta também pode exprimir-se em idioma que a consciência corpórea não conhece.

O que se questiona é como, num mesmo organismo, floresçam, em paralelo, consciências distintas, seja de maneira parasitária, seja de maneira simbiótica, como se tratasse de dois ou mais seres psiquicamente distintos, produzindo alterações fisiológicas também distintas. Dizer que se trata de um processo dissociativo da personalidade não explica satisfatoriamente a questão, pois não se sabe se ele ensejou a emersão das consciências substitutas ou se o surgimento destas é que produziu o processo dissociativo.

A consciência substituta é também encontrada, em sua forma espontânea, nas experiências denominadas de memória extracerebral ou nas chamadas terapias de vidas passadas. A primeira modalidade ocorre em crianças, entre dois a sete anos de idade, e a segunda em adultos. Em ambos os casos, eles dizem lembrar vidas passadas e descrevem como foram suas vidas e mortes, assim como os lugares onde dizem ter vivido. As evidências em favor da procedência dessas informações são impressionantes, colocando em discussão o velho tema da reencarnação num contexto que extrapola a abordagem religiosa.

Há várias hipóteses para as consciências substitutas: os espíritas afirmam que são manifestações de pessoas falecidas; padres e pastores garantem que são possessões demoníacas; e os psiquiatras interpretam o fenômeno como casos de esquizofrenia. Acontece que o conceito de normal está cada vez mais complexo e diversificado e, por isso, menos dependente de padrões culturais. Na verdade, a normatização do homem, é uma forma que cada sociedade criou para dar homogeneização e coerência compulsória às relações sociais de seus indivíduos.

A consciência unitária

É uma complexa experiência psíquica onde o indivíduo se sente integrado ao Todo, perdendo o sentido de sua individualidade, de seu eu. Este tipo de consciência é conhecido como consciência cósmica, satori, samadi, unidade oceânica, entre outros.

Existirá uma consciência universal, da qual as consciências individuais não passam de função de colapso de onda? Ou, em linguagem filosófica: não são as consciências individuais manifestações transitórias ou permanentes da consciência universal?

Nessa experiência consciencial, o indivíduo pode identificar-se com grupos de pessoas, animais e vegetais. Ele se experimenta como o Vazio essencial de todas as coisas, o Vazio que é a potencialidade de tudo, de onde tudo se origina e para onde tudo retorna em sístole e diástole infinitas. Então, ele compreende que há infinitas singularidades e big-bangs, que, na filosofia oriental, equivalem ao Dia e à Noite de Brahman.

É na consciência unitária que se conciliam todos os paradoxos e se revela a inteligibilidade dos contrários, assim como a simplicidade do complexo e o mistério da simplicidade.

A consciência unitária é o Ser que a si mesmo se revela na unidade essencial de todos os seus seres. Por isso, nesse nível, se entende, porque Deus criou o mundo do nada, pois o Nada é o Deus imanifesto, o Vácuo criador de tudo o que existe. O Budismo também ensina que forma é vazio e vazio é forma, o que vem sendo corroborado pela ciência moderna ao postular a vacuidade da matéria.

Assim, compreende-se o que disse Mestre Eckhart:

"O Nada de Deus percorre o mundo inteiro; seu algo não está em parte alguma."

Há várias técnicas para se atingir a consciência unitária: a meditação, as diversas iogas, a ingestão de drogas alucinógenas.

Mudanças fisiológicas ocorrem durante alguns dos diversos tipos de meditação, como por exemplo: a) uma redução do ritmo metabólico em até 25 a 30%; b) uma redução do consumo total de oxigênio em até 20%; c) uma redução do ritmo respiratório de 12-14 respirações a 4-6 respirações por minuto; d) um aumento da quantidade de ondas alfa do cérebro e o aparecimento de ondas teta; e) uma redução da pressão sangüínea em  aproximadamente, 20 por cento nos indivíduos hipersensíveis; f) um aumento significativo da resistência da pele em quase cinco vezes; g) mudanças no pH e no bicarbonato de sódio do sangue; h) redução da produção de uropepsina; i) uma diminuição do rendimento cardíaco do fluxo sangüíneo do coração em cerca de 25%; j) uma diminuição de até 50% do ion do lactato no sangue.

Os pacientes de Stanislav Grof eram capazes de penetrar na memória de seus pais e fornecer descrições minuciosas eles. Outros pacientes fizeram descrições exatas de eventos acontecidos aos seus antepassados que viveram décadas e mesmo séculos antes.

Outras experiências relatadas por Grof se referem  ao acesso a memórias coletivas e raciais. Indivíduos reviviam fatos acontecidos em culturas diferentes das suas, entrando em minúcias só conhecidas por especialistas.

Os pacientes de Grof diziam identificar-se com animais e plantas, com uma célula, com um átomo, com a consciência do planeta e, vez por outra, pareciam viajar para outros níveis da realidade.

Na experiência da consciência unitária, a pessoa se vivencia como o Todo, a realidade total. E compreende que o que chama de Deus é a realidade total e não a imagem infantil de um ser antropomórfico, distribuindo punições e recompensas.

Observa Abraham Maslow que qualquer pessoa, cuja estrutura do caráter ou estilo de vida força-a a tentar comportar-se de um modo radicalmente racional, materialista ou mecanicista tende a considerar suas experiências transcendentais como uma espécie de insanidade, uma perda total de controle, uma sensação de domínio por emoções irracionais. A pessoa que tem medo de enlouquecer e se agarra desesperadamente à estabilidade, ao controle, à realidade, fica com medo de tais experiências e procura rechaçá-las.

O reducionismo das experiências da consciência unitária às necessidades instintivas do ser humano não tem qualquer fundamento aceitável. O êxtase não pode ser simploriamente interpretado como um sucedâneo do orgasmo. O sentimento de inefabilidade não é a réplica da segurança da vida intra-uterina. O sentimento de unicidade com o Todo não é o símile da unidade biológica entre o feto e a gestante.

É o velho e rançoso equívoco de se querer entender o maior pelo menor, o complexo pelo simples, como se pudéssemos compreender a riqueza do ser humano e das relações sociais pelo movimento aleatório das partículas atômicas.

A consciência no tempo

            Há ocasiões em que o ser humano é capaz de tomar consciência de fatos que ocorrerão no futuro. Em alguns casos, por um forte pressentimento, em outros, como se estivesse assistindo ao desenrolar dos acontecimentos. Os fatos previstos nesse estado de consciência são normalmente imprevisíveis e, na maioria das vezes, percebidos em sonho. Essa experiência, em Parapsicologia, é conhecida pelo nome de precognição e muitas são as hipóteses - todas insatisfatórias - para explicá-la. Uma coisa, porém, é evidente: se a mente é um produto da bioquímica do cérebro e da complexidade de sua atividade sináptica, como pode tomar consciência de algo que ainda não existe?

Dean Radin realizou um experimento no qual 40 fotografias eram mostradas às pessoas participantes da experiência. As imagens eram calmas e prazerosas, ou repulsivas e desagradáveis. A amostragem de cada fotografia era feita através da escolha aleatória de um computador. Assim, nem Radin, nem os participantes sabiam qual seria a próxima imagem. Eram registradas as respostas corporais de cada participante em quatro períodos de cinco segundo cada um: antes, durante e depois da apresentação das imagens, e nos períodos restantes a tela permanecia em branco.

Radin constatou que, nos primeiros quinze segundos, houve respostas corporais às imagens apresentadas, enquanto que esta excitação decrescia nos cinco segundos em que a tela do computador ficava em branco. Observou que, no período anterior à apresentação de cada imagem, os participantes mostravam maior excitação quando a próxima imagem ia ser repulsiva ou desagradável. Concluiu, assim, que os participantes reagiram fisiologicamente a um evento que estava por ocorrer, mostrando um prévio conhecimento do mesmo.

Radin sugere que a excitação premonitória eqüivale a uma "resposta de orientação" que os animais, inclusive o homem, mostram a um estímulo inesperado. Há, portanto, uma espécie de predisposição parapsicológica, mediante uma mudança corporal, que prepara o indivíduo para em evento futuro desagradável.

A consciência no espaço

            Há ocasiões em que uma pessoa percebe fatos que ocorrem à distância, como se a consciência ali estivesse presente. Esses casos são os que denominamos de consciência extracorpórea.

            No entanto, certas pessoas dotadas de aptidão parapsicológica, podem localizar o paradeiro de pessoas desaparecidas ou perceber cenas ligadas a determinados objetos. É como se a sua consciência estivesse recebendo essas cenas, sem se deslocar no espaço. Gerard Croiset, pesquisado pelo parapsicólogo Willem Tenhaeff, foi o expoente máximo desse tipo de experiência, tendo, inclusive, colaborado com a polícia de vários países europeus para a elucidação de casos intrincados, desde o desaparecimento de pessoas ao esclarecimento de crimes misteriosos.

            Stephen Ossowieck, era capaz de "ler" o conteúdo de envelopes lacrados e, segundo René Sudre, jamais se equivocou nessas suas "leituras". Era como se a consciência de Ossowieck não fosse afetada por obstáculo material, percebendo diretamente o interior dos objetos.

Consciências não-humanas

A consciência não é privativa do ser humano. Se ela é reação adequada às modificações do meio ambiente, então todos os seres vivos são dotados de consciência. Consciência não é apenas percepção visual: é orientação perceptual em consonância com o acontecimentos do mundo exterior.  E esses meios perceptuais variam segundo as espécies.

Há indícios muito sugestivos de que a consciência humana pode estabelecer relações telepáticas com a de outros animais, como cães, gatos e cavalos. E também com seres vegetais. Há vários casos de cães que pressentiram a morte de seus donos ou dela tomaram conhecimento no instante de sua ocorrência, embora eles estivessem ausentes.

Algumas espécies de animais podem pressentir catástrofes, como terremotos e erupções vulcânicas, comportando-se estranhamente antes do acontecimento.

Bechterev foi quem primeiro realizou experimentos de telepatia entre homem e animal e chegou à conclusão de que os cães respondiam aos pensamentos humanos.

Karlis Osis fez experiências telepáticas com gatos e os resultados foram estatisticamente significativos.

Robert Morris demonstrou, experimentalmente, a existência de precognição nos ratos e nos peixes dourados. E Rémy Chauvin, em 1968, também realizou, com êxito, experiências de precognição com ratos.

            Rupert Sheldrake fez um amplo estudo sobre animais domésticos e concluiu que principalmente cães e gatos são capazes de saber, por telepatia, quando os seus donos estão chegando em casa, mesmo que em horários aleatórios. Essa percepção ocorre geralmente meia hora antes da chegada, podendo variar de dez minutos a algumas horas de antecedência. Também esses animais são capazes de identificar telefonemas de seus donos antes que os telefones toquem ou logo nas primeiras chamadas, e de tomar conhecimento de doenças e mortes deles onde quer que estejam. Sheldrake realizou essa pesquisa na Alemanha, Bélgica, Brasil, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Holanda, Irlanda, Noruega, Portugal e Suíça, obtendo resultados semelhantes.

            Há cachorros que avisam os seus donos epilépticos da iminência de um ataque, parecendo perceber, por antecipação, os sintomas deflagradores do processo.

Sheldrade relatou casos de animais que encontraram seus donos em locais desconhecidos e de pessoas que, intuitivamente, localizaram seus animais de estimação desaparecidos. Cães e gatos parecem influenciar telepaticamente seus donos.

            Sheldrake concluiu que "a telepatia não é especificamente humana", mas sim "uma faculdade natural, parte da nossa natureza animal". Ele assevera que os campos mórficos permitem que uma enorme quantidade de influências telepáticas se produza entre animais de uma mesma espécie, de pessoa para pessoa, de pessoas para seus animais de estimação.

            No início do século XX, em Berlim, Herr von Osten, professor de matemática e também treinador, tinha um cavalo chamado Clever Hans, que fazia cálculos matemáticos, lia e soletrava palavras em alemão. Ele fez várias apresentações de seu cavalo prodígio, impressionando os assistentes. O Prof. C. Strumpf, diretor do Instituto de Psicologia da Universidade de Berlim e seu assistente Otto Pfungst investigaram as habilidades de Hans e chegaram à conclusão de que ele era capaz de interpretar a linguagem corporal das pessoas e assim responder, com pancadas dadas com as patas, às questões matemáticas que lhe eram propostas. Se Hans não calculava, sabia, no entanto, interpretar a linguagem corporal humana, habilidade essa que pouquíssimas pessoas possuem. Quando Hans se aposentou, foi substituído por outros dois cavalos calculadores, Muhamed e Zarif. Maurice Maeterlinck examinou o desempenho dos referidos animais e se convenceu da autenticidade do prodígio. Eles sabiam as quatro operações e ainda extraíam raízes quadradas e cúbicas. Um cão chamado Rolf também apresentava habilidades aritméticas.

            Leo Talamonti se diz convicto de que os animais são médiuns, "porque vivem imersos em um estado particular de consciência que tem relação com o sonho". E assevera que os "animais sapientes são, portanto, instrumento de um psiquismo que os transcende".

John Pierrakos diz ter constatado, em suas experiências com plantas, que elas podem ser severamente afetadas por pessoas com problemas mentais.

Contam Peter Tompkins e Christopher Bird que, na década de 1960, Cleve Baster, um especialista norte-americano em detecção de mentiras, observou que uma planta chamada dracena reagia às suas intenções, alterando os gráficos de um galvanômetro, a qual estava ligada por eletrodos. Em suas pesquisas, ele constatou que as plantas reagem não só a ameaças concretas, mas também a ameaças em potencial. Observou que, numa situação de perigo iminente, as plantas desmaiam, numa morte fingida, como o faria um animal e mesmo um ser humano.

            Baxter assegurou ainda que as suas plantas mantinham contato telepático com ele, quando se encontrava ausente. Ele notou alterações no gráfico do galvanômetro coincidentes com as situações emocionais que vivera, quando em viagem, e que estavam devidamente anotadas em um caderno e cronometradas. Também descobriu que as plantas reagem à morte de células e até de animais. Segundo ele, os resultados experimentais demonstraram que as plantas reagiram fortemente à morte de camarões em água fervente.

            O Dr. Howard Miller, citologista em Nova Jersey, face às experiência de Baxter, concluiu que deveria existir uma espécie de "consciência celular" comum a toda vida. Para comprovar essa hipótese, Baxter conseguiu conectar eletrodos a amebas, paramécios, lêvedo, culturas de mofo, sangue, raspas da boca humana e esperma. O polígrafo apresentou gráficos produzidos por aquelas células tão interessantes como os das plantas.

            Obtendo financiamento para suas pesquisas, Baxter utilizou outros equipamentos como eletrocardiógrafos e eletroencefalógrafos que o capacitaram a obter leituras mais sensíveis e fidedignas do que o polígrafo.

As experiências de Baxter foram replicadas por Marcel Vogel, pesquisador químico da International Business Machines em Los Gatos, Califórnia, por Pierre Paul Sauvin, especialista em eletrônica em West Paterson, Nova Jersey, por Eldon Byrd, engenheiro e membro da Sociedade Americana de Cibernética, em Maryland e pelo Dr. Ken Hashimoto, doutor em Filosofia e engenheiro eletrônico de Kamura, no Japão.

A consciência artificial

Há cientistas que asseguram que o cérebro é um computador digital e que a consciência é um programa de computador. John Searle é um dos que se insurgem contra essa posição, argumentando que os programas de computador são totalmente sintáticos, enquanto a mentes são de natureza semântica. E afirma categoricamente que a sintaxe, por si só, não é suficiente para garantir um conteúdo semântico. No entanto, ele admite que, "se os cérebros podem ter consciência como uma propriedade emergente, por que não outros tipos de equipamentos?".

Pierre de Latil acha inconcebível a idéia de que a máquina possa ter a consciência de ser máquina, por se tratar de um problema que escapa totalmente à lógica dos efeitos e continua pertencendo à esfera da metafísica. O homem, diz ele, tem o poder de morrer por uma idéia para simplesmente provar sua vontade, sua liberdade. E indaga: "o homem é quem faz o "quem" da máquina; mas quem faz o "quem" do homem?".

Poderá o homem criar uma nova forma de consciência - a consciência artificial -, fazendo do computador um produto da evolução biológica?  Será o computador uma prótese do cérebro que, como todas as outras próteses podem, não apenas substituir, mas ampliar as funções do órgão ou membro substituído?

Há  aqueles que acreditam que o homem é um estágio biológico transitório entre o animal e o novo ser de silício – a supermáquina.

Certa vez, argumentamos:

"É de uma extrema insensatez a afirmativa de que, mediante as simulações do computador poderemos entender a mente humana. Ora, foi a mente quem inventou o computador, seus programas, suas simulações. Ele não passa de uma extensão da mente, a qual transfere para ele seus atributos. Tudo o que o homem produz é extensões de si mesmo. O computador, por mais complexo que seja, não passa de uma extensão da própria complexidade da mente humana.

Para explicar a mente humana, o computador deverá ser mais complexo do que ela.

Como pode a mente criar algo mais complexo do que ela?"

O que é motivo de permanente questionamento é se a evolução é produto emergente da complexidade cada vez maior da vida ou se é a atualização de um programa preestabelecido, consistindo na passagem do virtual ao atual.

As pesquisas recentes no campo da Parapsicologia têm evidenciado que a mente pode agir sobre a matéria e afetar o desempenho de máquinas, entre elas o computador. Se essa interação geralmente ocorre em nível inconsciente, o que pretendem os pesquisadores é que o homem possa agir conscientemente sobre as máquinas, inaugurando uma nova era na tecnologia. Assim, embora as máquinas não se tornem conscientes, a consciência humana poderá estender a sua ação ao computador, tornando-se a consciência deste, passando a habitar concomitantemente um corpo de carne e um corpo de metal e ampliando a sua capacidade operacional no trato com a realidade.

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