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UM MODELO PARA A PARAPSICOLOGIA (*)

 

Valter da Rosa Borges & Ivo Cyro Caruso

 

 

l – INTRODUÇÃO

 

A Parapsicologia é uma ciência invejavelmente rica de fenômenos, como também de hipóteses para a explicação dos mesmos. Porém, inexiste uma teoria geral da paranormalidade ou, ao menos, um modelo abrangente capaz de proporcionar unidade e coerência à multiplicidade de suas hipóteses.

 

Já advertira Abraham Moles que o "papel da ciência se acha modificado, não é mais o de prever a marcha do universo em sua minúcia, mas o de construir um modelo inteligível que sirva à apreensão da Natureza pelo homem".

 

Os modelos são sistemas lógicos de conceitos.

 

O conceito é a representação intelectual de um objeto.

 

O conjunto de conceitos forma uma estrutura que se define por um sistema. Esse envolve subsistemas e, por seu turno, é, em si, subsistema de um sistema maior.

 

Devemos, na acepção de Karl Popper, estabelecer a demarcação da ciência daquilo que não e ciência. Mas, por outro lado, é necessário que façamos a demarcação de cada ciência, definindo, com a precisão desejável, o seu território fenomenológico.

 

A Parapsicologia necessita, urgentemente, demarcar a sua área objetal, assim como estabelecer um modelo abrangente que, explicando eventos e processos de seu universo fenomenológico, proporcione a integração de seus sistemas classificatórios - psi-gama e psi-kapa – em um sistema conceitual coerente, harmonizando hipóteses até agora isoladas.

 

Assim, dada a dificuldade atual de se elaborar uma teoria geral da paranormalidade, resolvemos, na oportunidade da realização do I Congresso Nordestino de Parapsicologia e do III Simpósio Pernambucano de Parapsicologia, apresentar, embora de maneira ainda esquemática e sob forma de simples comunicado, um Modelo Geral da Parapsicologia (MGP) à comunidade científica do país.

 

2. PRINCIPAIS CRÍTICAS À POSIÇÃO OFICIAL DA PARAPSICOLOGIA

 

Preliminarmente, se faz mister arrolar, ainda que resumidamente, as principais críticas ao atual modelo da Parapsicologia (se este modelo existe) nos seguintes itens:

 

a) Os fatos, chamados paranormais, são examinados separadamente, em compartimentos conceituais  isolados psi-gama e psi-kapa -, dificultando, assim, o estabelecimento de uma hipótese ou teoria geral da fenomenologia parapsicológica.

 

b) À luz do conceito moderno da metodologia científica, a Parapsicologia ainda não procedeu  a  demarcação precisa do seu objeto, de sua área fenomenológica, da natureza de seus problemas e de suas relações interdisciplinares com as demais ciências.

 

c) A Parapsicologia utiliza, prioritariamente, o método quantitativo-estatístico-matemático em detrimento de outros procedimentos metodológicos o que poderia proporcionar um substancioso enriquecimento de seu campo de pesquisa.

 

d) A Parapsicologia não adotou uma terminologia própria e descompromissada com a carga semântica de certos vocábulos originários de outras áreas do conhecimento científico, filosófico e até mesmo religioso, ressentindo-se, portanto, da necessária autonomia terminológica no trato dos fenômenos que investiga

 

Em nosso Modelo Geral da Parapsicologia (MGP), procuramos enfrentar esses problemas na tentativa de traçar o perfil epistemológico adequado da fenomenologia paranormal.

 

3. CARACTERÍSTICAS DO MGP

 

A Parapsicologia é uma ciência de extensa interdisciplinaridade e, assim, é compreensível que as bases do Modelo Geral da Parapsicologia (MGP) possam ser encontradas, a título de empréstimo, em teorias e hipóteses de outros domínios científicos. As ciências se enriquecem nas suas relações recíprocas, na experimentação de modelos alternativos, nos procedimentos análogos de pesquisas e na permanente elaboração de estratégias metodológicas para a compreensão, cada vez mais aprofundada, do que se postula como realidade.

 

As características do MGP podem, assim, ser resumidas:

 

a) Não se propõe a resolver problemas  insolúveis, tais como a  relação mente-corpo, a essência  do  conhecimento ou da realidade, etc.

 

b) Não trata de questões transcendentais ou metafísicas por não dizerem respeito ao objeto  da  Parapsicologia.

 

c) Estuda, de maneira pragmática, as relações concretas entre o homem e o mundo exterior à luz de processos específicos, ditos paranormais, da mente humana.

 

d) Estabelece conceitos próprios e mais adequados à fenomenologia paranormal.

 

e) Investiga o homem, na situação de sistema aber­to, como provável epicentro de relações fenomenológicas de alta complexidade, envolvendo fatores pertinentes às mais diversas áreas do conhecimento.

 

4. ESTRUTURA DO MGP

 

Passaremos, agora, ao estudo detalhado, embora conciso, do MGP, onde procuraremos demarcar o território epistemológico da Parapsicologia e estabelecer uma nova estrutura terminológica e conceitual da fenomenologia psi.

 

Antes, porém, firmaremos os conceitos  de  fenômeno paranormal ou psi, de Parapsicologia e de função psi

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4.1. FENÔMENO PARANORMAL

 

De maneira sintética, podemos denominar de paranormal ou psi a todo fenômeno que, tendo o homem como seu provável epicentro, apresenta as seguintes características:

 

a) Uma modalidade de conhecimento que uma pessoa demonstra de fatos físicos e/ou psíquicos, relativos ao passado, presente ou futuro, sem a utilização (aparente) dos sentidos  e  da  razão, assim como de habilidades que não resultem de pré­vio aprendizado.

 

b) Uma ação física que uma pessoa exerce sobre  seres vivos e a matéria em geral,  sem  a utilização de qualquer extensão ou instrumento de natureza material.

 

4.2. PARAPSICOLOGIA

 

É a ciência que tem por objeto o estudo e a pesquisa do fenômeno paranormal.

 

Demarcado, portanto, o domínio fenomenológico da Parapsicologia e clarificadas as suas fronteiras, torna-se possível definir as suas relações interdisciplinares com as demais ciências, a filosofia e a religião.

 

4.3. FUNÇÃO PSI

 

É o conjunto de todos os elementos circunstanciais que pode produzir o fenômeno paranormal. Segundo esse novo conceito de função psi, os principais conjuntos de elementos circunstanciais se encontram:

 

a) No Agente Psi (AP)

 

b) No Meio Psi (MP)

 

c) No Fluxo Psi (FP)

 

O modelo da função psi pode ser expresso por

 

f (Psi) = f  { (AP), (MP), (FP) }

sendo a função psi, ou f(psi), uma função, f, re­sultado da interação entre os conjuntos de elementos circunstanciais do agente psi (AP), do meio psi (MP) e do fluxo psi (FP). Qualquer elemento ou fator circunstancial, que se encontre envolvido ativamente no fenômeno psi, poderá ser situado em um dos conjuntos acima.

 

Examinaremos, em separado, cada um deles.

 

4.4. AGENTE PSI (AP)

 

É qualquer pessoa envolvida no fenômeno paranormal, constituindo um dos conjuntos de elementos, ou subsistema, que participa da função psi. O agente psi (AP) conceitua uma agência, enquanto o fenômeno paranormal se manifesta.

 

A expressão agente psi substitui, no MGP, vocábulos como médium, sensitivo, paranormal e evita, desse modo, estabelecer qualquer questionamento sobre a possível existência de um padrão novo de personalidade - o homem paranormal.

 

Raríssimas pessoas apresentam alta probabilidade de atuar como agente psi (AP). Por isso, as designaremos de agente psi confiável (APC). As demais, apenas eventualmente, poderão funcionar como agente psi.

 

Com fundamento nessa nova estrutura conceitual, poderemos, desde logo, estabelecer os seguintes postulados:

 

a) A presença do agente  psi,  é  condição necessária, mas não suficiente, para a manifestação da função psi.

 

b) Quanto mais alta for a confiabilidade do agente psi, maior será a  probabilidade de manifestação da função psi.

 

O agente psi é simples, quando, para a manifestação da função psi, concorre uma só pessoa.

 

O agente psi (AP) e complexo, quando, para a manifestação da função psi, concorrem duas ou mais pessoas.

 

Quando se colocam os agentes psi em posições relativas nos processos de emissão e de recepção, podemos designá-los de:

 

a) Agente psi emissor (APE), quando se encontra na extremidade emissora, no instante em que se examina o fluxo psi.

 

b) Agente psi receptor  (APR),  quando  se encontra na extremidade receptora, no instante em que se examina o fluxo psi.

 

4.5. MEIO PSI (MP)

 

É o espaço onde ocorre o fenômeno paranormal, constituindo-se de todos os elementos circunstanciais que se interagem com os demais elementos da função psi.

 

No meio psi (MP) se interagem as forças e os campos do domínio de elementos  naturais  e  do agente psi (AP), tanto em níveis microscópicos quanto em níveis macroscópicos.

 

4.5.1. CAMPO PSI (CP)

 

Um dos elementos que se evidencia no meio psi (MP) é o campo psi (CP), ou seja, o domínio de ação das atividades superiores do cérebro e que interage com a estrutura energética do espaço. A nível das células do cérebro, funções elementares bioenergéticas produzem efeitos de campos complexos, microscópicos e localizados, onde é possível a reversibilidade e as permutas entrópicas e anatrópicas das energias postas em jogo.

 

4.6. FLUXO PSI

 

É, no instante operacional  do agente psi, um fator circunstancial da função psi e se constitui  da interação de informação e energia.

 

O fluxo se estabelece entre estados do processo psi.

 

A análise do FP se procede segundo um aspecto de dupla polarização:

 

a) Matéria/energia, quando estudado o aspecto energia.

 

b) Ação/comunicação, quando estudado o aspecto informação.

 

Como resultante da interação energia/in­formação, observa-se a dominância de um aspecto sobre o outro.

 

Do desdobramento de uma análise dessa dominância, distinguiremos:

 

a) o fluxo psi informacional (FPI), quando, nele, a informação é dominante em relação à energia.

 

b) o fluxo psi energético  (FPE),  quando, nele, a energia é dominante em relação à informação.

 

O fluxo psi (FP) apresenta duas formas de manifestação:

 

a) Endopsi, quando a informação ou a energia se transfere do nível inconsciente (NI) para o nível consciente (NC) do agente psi ou vice-versa.

 

b) Exopsi, quando o agente psi, nas suas relações com o meio psi, exterioriza  ou  recolhe conteúdos informacionais ou energéticos.

 

Em certos casos, a saída de informação ou de energia pode originar-se do NC do AP, quando este quer produzir um fenômeno paranormal e o consegue.

 

Impossível, porém, é o AP tomar conhecimento da entrada da informação ou da energia em seu psiquismo, porque essa entrada se processa em nível inconsciente. Ou seja: uma pessoa só sabe que foi afetada por FPI ou FPE, como receptor, se ocorrer a conscientização do FP. Porém, essa situação de latência do FP, em nível inconsciente, poderá resultar em alterações psicológicas e/ou orgânicas na pessoa do receptor.

 

5. CONCLUSÃO

 

Estamos esperançosos de que o Modelo Geral da Parapsicologia (MGP) sirva de ponto de partida a debates provocados pelo estudo crítico de cada um dos seus elementos estruturais - agente psi, meio psi, fluxo psi, etc. A natureza de cada elemento desses conjuntos (ou subsistemas) ainda contém uma, ou mais de uma, caixa preta. Adotando-se a metodologia transcientífica da Cibernética de que as caixas pretas, encontradas nos subsistemas do MGP, não impedem a continuação dos estudos dos processos envolvidos, de logo se descortina a perspectiva às férteis discussões, ensejando novas hipóteses e procedimentos de pesquisas. Assim, o MGP poderá tornar-se, em futuro próximo, o alicerce epistemológico para uma teoria geral da paranormalidade.

 

O êxito, porém, deste Modelo depende, não apenas do trabalho pioneiro e isolado da equipe do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofisicas, mas, principalmente, da colaboração crítica de parapsicólogos e de Institutos de Parapsicologia, na busca permanente de explicações e descrições, cada vez mais adequadas, da complexa fenomenologia paranormal.