Albert Camus (1913-1960)

 

 

VRB – Buscamos a nossa essência, a nossa realidade fundamental, o chão e os alicerces do nosso ser. O que você encontrou nessa introspecção?

 

Albert Camus – Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro.

 

VRB – Nem sempre as pessoas conseguem ser felizes. Há várias causas para isso: as circunstâncias da vida, o seu temperamento, a sua inabilidade no trato com os fatos e as pessoas...

 

Albert CamusToda a infelicidade dos homens provém da esperança.

 

VRB – A felicidade terrena é vergonhosa para alguns místicos. Por isso, procuram voluntariamente o sofrimento para merecer a felicidade celestial.

 

Albert CamusNão é nenhuma vergonha ser-se feliz; vergonhoso é ser feliz sozinho.

 

VRB – Em que momento o homem não se esconde, não representa, não se mascara nas relações interpessoais?

 

Albert Camus – Nenhum homem é hipócrita nos seus prazeres.

 

VRB – Costuma-se dizer que todos nós temos uma parcela de responsabilidade, por menor que seja, pelo que acontece no mundo.

 

Albert Camus – Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de fazer.

 

VRB – Busca-se a experiência para a melhoria do desempenho na vida social e profissional. Recorre-se, também, à experiência alheia. Podemos, de certo modo, criar a nossa própria experiência e não esperar que ela aconteça para melhor lidar com ela?

 

Albert Camus – Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.

 

VRB – A filosofia trata de questões ontológicas e existenciais. Qual, na sua opinião, o problema filosófico mais importante?

 

Albert Camus – Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder uma questão fundamental da filosofia.

 

VRB – O que define o ser humano?

 

Albert Camus – O Homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.

O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade.

Um homem é mais homem pelas coisas que silencia do que pelas que diz. Vou silenciar muitas. Sabendo que não há causas vitoriosas, gosto das causas perdidas: elas exigem uma alma inteira, tanto na derrota quanto nas vitórias passageiras. Criar é viver duas vezes... Todos tentam imitar, repetir e recriar sua própria realidade. Sempre acabamos adquirindo o rosto das nossas verdades.

 

VRB – Deus existe? Ou ele não passa de uma fantasia criada pelo ser humano para as suas necessidades existenciais?

 

Albert Camus – É-nos impossível saber com segurança se Deus existe ou não existe. Por isso, só nos resta apostar. Se apostarmos que Deus não existe e ele existir, adeus vida eterna, Alô, danação! Se apostarmos que Deus existe e ele não existir, não faz a menor diferença, ficamos num zero a zero metafísico.

 

VRB – Por falar, em religião, o Juízo Final não passa, para mim, de terrorismo teológico. Apesar de sempre adiado, ainda assusta os religiosos.

 

Albert Camus – Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.

 

VRB – A imaginação é mais forte do que a razão. Ela fortalece a vontade, facilitando a realização de seus objetivos. E a imaginação pode ser fonte alegria, como também de sofrimento. Não somos, assim, apenas o que pensamos, mas o que imaginamos.

 

Albert CamusA imaginação oferece às pessoas consolação por aquilo que não podem ser e humor por aquilo que efetivamente são.

 

VRB – Qual a importância do amor em nossa vida? Há pessoas que parecem não possuir esse sentimento.

 

Albert CamusO homem tem duas faces: não pode amar ninguém, se não se amar a si próprio.

Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade.

 

VRB – O que significa amar uma pessoa?

 

Albert CamusAmar uma pessoa significa querer envelhecer com ela.

 

VRB – O amor é bastante para todas as coisas?

 

Albert Camus – Se amar bastasse, as coisas seriam simples.

Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo.

 

VRB – Se o amor é um sentimento raro, como afirmam alguns pensadores, aqueles que amam raramente amam muito.

 

Albert Camus – Por que seria preciso amar raramente para amar muito?

 

VRB – Há algo de racional no absurdo?

 

Albert CamusO absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites.

 

VRB – A vida tem algum significado? Temos alguma missão a cumprir? Ou somos nós que damos significado à nossa vida

 

Albert  Camus – Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.

 

VRB – O que faz a grandeza de um homem? A sua genialidade, a sua bondade, o seu sacrifício pelo bem da humanidade?

 

Albert  Camus – A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

A grandeza consiste em tentar ser grande. Não há outro meio.

 

VRB – Há pessoas que aspiram ser um gênio. Ou, ao menos, reconhecidas como tal.

 

Albert  Camus – Não quero ser um gênio... Já tenho problemas suficientes ao tentar ser um homem.

 

VRB – A felicidade é uma construção diária. Ela não é estática, mas dinâmica. São os fracassos dessas contínuas adaptações que nos torna infelizes.

 

Albert Camus – Já é vender a alma não saber contentá-la.

 

VRB – O que podemos fazer em prol do futuro, visando a melhoria da humanidade e dos nossos descendentes, sem, no entanto, comprometer o nosso presente, que deve ser vivido em plenitude?

 

Albert CamusA verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente.

 

VRB – O sofrimento, como prega o Budismo, é universal. Todos os seres vivos sofrem. Filósofos e teólogos procuram um significado para o sofrimento. Há alguma justificativa convincente para os seres que sofrem? Se, por exemplo, a criança é inocente, por que ela sofre? Por que seria ela uma exceção?

 

Albert CamusNão é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento.

 

VRB – Descartes disse: “Penso, logo existo”. E você?

 

Albert CamusRevolto-me, logo existo.