Vivekananda (1863-1902)

 

VRB – Em todas as épocas, os seres humanos vivem a procura de mestres para direcionar suas vidas. E também em busca de uma explicação para tudo.

 

Vivekananda – A explicação de tudo está em você mesmo. Ninguém foi realmente educado por outro; cada qual tem de se educar a si mesmo. O mestre externo só oferece as sugestões que despertam o mestre interno e o põe em situação de compreender as coisas.

 

VRB – Mas, há certos mestres externos que se dizem salvadores do mundo ou são considerados como tais. É possível que alguns estejam enganados ou, deliberadamente enganando os outros. O mundo precisa de salvação? Ou apenas da solidariedade entre as pessoas para que ele se torne melhor para a humanidade?

 

Vivekananda – Vamos parar com essa conversa fútil de fazer bem ao mundo, que não necessita de seu auxílio nem do meu. Precisamos agir e praticar o bem incessantemente porque é uma bênção para nós. Nisso consiste a única maneira de alcançarmos a perfeição. Nenhum mendigo a quem ajudamos nos deve um centavo sequer. Ao contrário, somos nós que lhe devemos tudo por permitir que fôssemos caridosos com ele. É um erro pensar que fizemos ou podemos fazer o bem, ou que ajudamos alguém. É um pensamento descabido, e todo pensamento descabido produz infelicidade. Quando pensamos ter ajudado uma pessoa, esperamos receber sua gratidão. Se isso não acontece, ficamos decepcionados. Por que esperar retribuição pelo que fazemos? Agradeça ao homem a quem você ajuda, considere-o Deus. Não é um grande privilégio poder adorar a Deus enquanto servimos a nossos semelhantes? Se realmente fôssemos desapegados, estaríamos livres da dor causada por essa expectativa inútil e poderíamos fazer alegremente um bom trabalho no mundo. Nunca uma ação realizada com desapego resultará em infelicidade ou sofrimento. O mundo vai continuar a existir com sua felicidade e infelicidade por toda a eternidade.

 

VRB – Concordo, porque o bem que nos beneficia é aquele que é feito espontaneamente, sem visar ao reconhecimento de outras pessoas ou a um prêmio no Além. Por outro lado, a necessidade de ser necessário ou pensar que é necessário tem causado sofrimento às pessoas.

 

Vivekananda – É um erro pensar que alguém depende de mim ou que posso fazer bem a outrem. Esta crença é a causa do nosso apego e do apego surge a dor. Alimentemos a convicção de que nada depende de nós. Todos somos ajudados pela natureza, e mesmo que faltassem milhões de nós, tudo correria da mesma forma. O curso da natureza não será alterado por vós nem por mim.

Nunca deveríamos pensar que podemos ajudar nem sequer a menor partícula do universo.

Só nos ajudamos a nós mesmos.

 

VRB – Todo bem é sempre um bem e todo mal é sempre um mal? Bem e mal são conceitos culturais e, além disso, depende das circunstâncias existenciais de cada pessoa.

 

Vivekananda – O dever e a moralidade variam segundo as circunstâncias.

 

VRB - Então, em cada caso, qual seria a ação correta?

 

Vivekananda – Aquele que na boa ação descobre algum mal e em meio do mal algum bem, conheceu o segredo da ação.

 

VRB – E qual, objetivamente falando, é esse segredo? O que faz a diferença entre o bem e o mal?

 

Vivekananda – Só o egoísmo produz a diferença entre o bem e o mal.

Não existe ação que não produza bons e maus frutos ao mesmo tempo.

Para voltar a um de nossos temas principais, repetimos que não se pode fazer o bem sem fazer algum mal, nem fazer o mal sem fazer algum bem. Cientes disso, como haveremos de agir? Existem algumas seitas que têm, de modo supreendente e absurdo, pregado o suicídio lento como única saída deste mundo, porque se um homem vive, vê-se obrigado a matar pobres animaizinhos e plantas e a causar sofrimento a algo ou alguém. De acordo com eles, a única saída é morrer. O jainismo prega essa doutrina como seu mais elevado ideal. Esse ensinamento parece ser muito lógico.

A verdadeira solução, porém, encontra-se no Gita. É a teoria do desapego — não se prender a nada do que fazemos na vida. Saiba que você está inteiramente separado do mundo, que você está no mundo, mas não importa o que faça, não é em proveito próprio. A conseqüência de qualquer ação que você faça para si mesmo recairá sobre você. Se for uma boa ação, você colherá os bons efeitos, se for má, você colherá os maus efeitos. Porém qualquer ação praticada sem interesse pessoal, seja qual for, não o afetará. Em nossas escrituras há uma máxima que transmite muito bem essa idéia: “Ainda que ele mate todo o universo ou seja morto, não é ele o assassino nem o que foi morto, quando sabe que não está agindo de modo algum em seu próprio interesse.”

Por isso a karma yoga ensina: “Não renuncie ao mundo. Viva nele, absorva suas influências o quanto puder. Mas se for para seu próprio prazer, não faça nada.” O prazer não deve ser a meta. Primeiro extinga o self e depois assuma o mundo inteiro como se ele fosse você mesmo. Os antigos cristãos costumavam dizer: "O velho homem deve morrer." Esse velho homem é a idéia egoísta de que o mundo inteiro existe para o seu desfrute. Pais insensatos ensinam seus filhos a rezar: "Ó Senhor, Tu criaste este sol e esta lua para mim" — como se o Senhor não tivesse nada mais a fazer do que criar tudo para esses bebés. Não ensine esses absurdos a seus filhos. O mundo não existe por nossa causa. Milhões de pessoas morrem todos os anos. O mundo não se ressente da ausência deles; milhões de outras pessoas preenchem o lugar deixado. O mundo é para nós o que somos para o mundo.

 

VRB – O egoísmo é, biologicamente falando, o instinto de preservação da sobrevivência de todos os seres vivos. Mas, no ser humano, ele é também cultural, visando, em muitos casos, a melhoria social e a busca do poder.

 

Vivekananda – Cada ato, cada pensamento egoísta nos liga a alguma coisa, e imediatamente nos converte em seus escravos.

 

VRB – O egoísmo social nos torna escravos por seus efeitos. É o maior mal que podemos fazer a nós mesmos. Ninguém ou nada, fundamentalmente, nos prejudica.

 

Vivekananda – Nada no universo tem poder sobre nós, a menos que o permitamos.

 

VRB – Na vida social, muitas coisas são feitas por dever. E, no entanto, sem direitos e obrigações não haveria sociedade

 

Vivekananda – Quão fácil é interpretar a escravidão como um dever!

Tudo quanto fizermos a título de obrigação, servirá para atar-nos. Por que devemos ter deveres?

Karma yoga nos ensina que a idéia corriqueira que se tem de dever situa-se num plano inferior. Não obstante, cada um de nós tem seu dever a cumprir. Essa noção específica de dever é, com freqüência, uma grande causa de sofrimento. O dever torna-se uma doença e toma conta de nós, amargurando nossa vida, envenenando nossa existência. Essa concepção de dever é o tórrido sol de meio dia a causticar as profundezas da alma humana. Vejam esses pobres escravos do dever! O dever não lhes deixa tempo para fazer suas orações, nem para banhar-se. O dever faz parte deles. Saem para trabalhar, o dever está com eles! Levam uma vida de escravos, caindo por fim na rua e morrem trabalhando, tal qual um cavalo. Isso é o que se entende por dever.

Afinal de contas, o que é o dever? Na verdade, é a compulsão da carne, ou o apego. Quando um apego consolidou-se, chama-se dever. Por exemplo, em países onde não há casamento, não há deveres entre marido e mulher. Quando há casamento, marido e mulher vivem juntos por conta do apego e esse tipo de ligação a dois firma-se após algumas gerações; ao consolidar-se, torna-se um dever. É, como dizem, um tipo de doença crônica. Quando o apego se torna crônico, nós o batizamos com o pomposo nome de dever. Ao som de trombetas lançamos flores sobre ele, textos sagrados são recitados e então o mundo inteiro entra em combate e os homens pilham com violência uns aos outros, em nome do dever.

 

VRB – Há algo de bom no dever? 

 

Vivekananda – O dever é bom na medida em que refreia a brutalidade. Para tipos humanos inferiores, que não possuem nenhum ideal mais elevado, o dever tem algum valor; mas os que pretendem vir a ser karma iogues precisam livrar-se desse conceito de dever. Não há dever para você e para mim. O que tiver para oferecer ao mundo, não deixe de oferecê-lo, mas não como se fosse um dever. Não pense nesses termos, não se deixe coagir. Por que você deveria sentir-se compelido a fazer alguma coisa? O que se faz por compulsão produz apego. Por que você deveria ser obrigado a cumprir com algum dever? Renunciem, entreguem tudo a Deus. Nessa tremenda fornalha escaldante onde o fogo do dever a todos queima, beba essa taça de néctar e seja feliz.

 

VRB – E os deveres variam de cultura a cultura. Por isso, alguns deles nos parecem esdrúxulos e até abomináveis.

 

Vivekananda – Ninguém deve ser julgado pela natureza de seus deveres, e sim pela maneira e espírito com que os executa.

 

VRB – Somos um reflexo da sociedade a qual pertencemos e esta é o resultado de suas adaptações ao meio onde vive. Mas, existe algo que possa ser considerado verdadeiramente um dever?

 

Vivekananda – O único dever é estar-se desligado e agir como ser livre, abandonando as obras a Deus.

 

VRB – O trabalho é considerado de diversos modos: como obrigação social, como dignidade, como punição, como purificação, segundo as concepções religiosas e filosóficas.

 

Vivekananda – Trabalho egoísta é trabalho de escravo.

 

VRB – Na sua opinião, qual seria o ser humano ideal?

 

Vivekananda – O homem ideal é aquele que em meio ao maior silêncio e solidão encontra atividade intensa, e em meio da maior atividade sente o silêncio e a tranqüilidade do deserto.

 

VRB – Então, o que nós somos?

 

Vivekananda – Nós não somos nada mais que o testemunho.

 

VRB – A lei do Talião consagrou o princípio do olho por olho, dente por dente. Era uma versão jurídica da lei física da ação e da reação. No entanto, esta lei foi contestada pela idéia de que a violência gera violência, e que somente o amor é capaz de acabar com a violência. Na prática, no entanto, a não-violência não vem produzindo resultado e, ao contrário, é um estimulante para o crescimento da violência.

 

Vivekananda – Os grandes mestres ensinaram: “Não resista ao mal” — sendo a não-resistência o mais elevado ideal  moral. Todos sabemos, porém, que se tentássemos de fato colocar em prática a não-resistência, a estrutura social ruiria. Os maus invadiriam nossas propriedades, dominariam nossas vidas e fariam de nós o que quisessem. Ainda que a não-resistência fosse praticada apenas por um dia, o resultado seria desastroso. Todavia, no fundo de nossos corações, sentimos intuitivamente a verdade do ensinamento: “Não resista ao mal.” Nós o consideramos o ideal supremo. Pregar somente essa doutrina, entretanto, seria equivalente a expor ao perigo uma vasta porção da humanidade. Não só isso; levaria os homens a sentir que estão agindo sempre da maneira errada, provocando neles escrúpulos de consciência relativos a cada uma de suas ações. Isso os debilitaria e essa constante auto-censura produziria mais vício do que qualquer outra fraqueza.

O homem que resiste ao mal nem sempre está cometendo um erro; dependendo das circunstâncias, resistir ao mal pode vir a ser um dever.

 

VRB – Podemos lutar contra o sentimento do ódio, mas o dever de amar aos nossos inimigos, é utópico. Como podemos amá-los, se os consideramos inimigos? E mesmo que fizemos a paz com eles, como poderíamos amá-los, se o amor é um sentimento espontâneo? Quem procura amar por obrigação, na verdade não ama, embora se iluda, pensando amar.

 

Vivekananda – É muito fácil dizer, “Não odeie ninguém, não resista ao mal.” Sabemos, porém, o que esse tipo de conselho significa na prática. Quando estamos sendo observados pela sociedade, podemos fazer uma exibição de não-resistência, mas em nossos corações alimentamos um câncer. Sentimos a absoluta necessidade da serenidade de ânimo proveniente da não-resistência, mas compreendemos que, para nós, seria melhor resistir. Se você ambiciona a riqueza, mas sabe que o mundo considera imoral o homem que quer ficar rico, talvez não se atreva a empreender o esforço necessário para tornar-se rico. Sua mente porém estará perseguindo o dinheiro dia e noite. Isso é hipocrisia, e não serve para nada. Mergulhe no mundo e, depois de um certo tempo, quando tiver sofrido e se deliciado com tudo que ele proporciona, a renúncia virá e, com ela, a quietude. Satisfaça seu desejo de poder e todos os demais. Posteriormente você perceberá como são insignificantes. Porém, até que tudo isso se passe, será impossível que você atinja o estado de calma, serenidade e entrega. Essas idéias de serenidade: renúncia foram pregadas ao longo de milênios; todos as ouviram desde a infância. Contudo, encontramos poucos que alcançaram realmente esse estado. Não sei se deparei com vinte pessoas em minha vida que fossem realmente calmas e praticassem a não-resistência, e já percorri a metade do mundo.

É nosso dever ajudar o próximo e fazer o bem. Por que deveríamos fazer o bem? Ao que parece, para ajudar o mundo. Essa deveria ser nossa mais elevada aspiração. Porém, se pensarmos melhor, veremos que o mundo não precisa de nosso auxílio. Esse mundo não foi feito para que você ou eu o ajudássemos. Li, certa vez, um sermão que dizia: “Esse formoso mundo é muito bom, porque nos oferece a ocasião e a oportunidade de ajudar os demais.” Trata-se, aparentemente, de um sentimento muito bonito. Não seria, porém, uma blasfêmia dizermos que o mundo precisa de nosso socorro? Não podemos negar que ele é cheio de infortúnios. Ajudar os outros, portanto, é o melhor que temos a fazer, ainda que venhamos a descobrir que, no fim das contas, quando auxiliamos os outros estamos apenas prestando auxílio a nós mesmos.

 

VRB – Muitas são as pessoas que pautam suas ações para obter recompensas e evitar punições.

 

Vivekananda – Se você quer recompensa, também terá punição. O único jeito de livrar-se da punição é renunciar à recompensa. O único jeito de escapar do sofrimento é desistir da idéia de ser feliz, porque esses dois estados estão conectados entre si. De um lado há felicidade, do outro, infelicidade. De um lado, há vida, do outro, morte. O único jeito de transcender esses contrários é renunciar ao amor que sentimos pela vida. Viver e morrer são a mesma coisa, vista de perspectiva diferente. A idéia de felicidade sem sofrimento, de vida sem infortúnio, de existência sem morte, é ótima para colegiais e crianças mas aquele que pensa, vê que tudo é uma contradição em termos, e desiste das duas idéias. Não busque recompensa ou elogio em nada do que venha a fazer. Logo que realizamos uma boa ação começamos a esperar pelo reconhecimento. Quando contribuímos para uma obra de caridade queremos ver nossos nomes publicados nos jornais. A infelicidade necessariamente virá como conseqüência desses desejos.

 

VRB – O mito da igualdade vem fascinando a humanidade há milênios, e as pessoas anseiam que, um dia, elas sejam iguais. Os seres humanos não são coisas produzidas por máquinas dentro de um mesmo padrão industrial. Eles são semelhantes e diferentes entre si em habilidade física e aptidão intelectual. 

 

Vivekananda – Aqueles que pregam essa doutrina são meros fanáticos e os fanáticos são, realmente, os seres mais sinceros da hu­manidade. O cristianismo foi pregado, exatamente, com base no fascínio exercido pelo fanatismo. Por isso tor­nou-se tão atraente para os escravos gregos e romanos. Eles acreditavam que graças a essa religião do milênio a escravidão acabaria. Haveria comida e bebida em profu­são e por isso eles se congregaram em torno do modelo cristão. Os que primeiro pregaram tal idéia foram, sem dúvida, fanáticos ignorantes que eram, porém, muito sinceros. Nos tempos modernos, essa aspiração pelo milênio expressa-se em termos de equidade — liberdade, igualdade e fraternidade. Isso também é fanatismo.

A verdadeira igualdade jamais existiu e jamais existirá. Como poderíamos ser todos iguais nesta terra? Essa igualdade impossível implica em morte. O que faz o mundo ser o que é? O equilíbrio perdido. No estado primordial, denominado caos, há equilíbrio perfeito. De que forma então surgiram as forças do universo? Pela luta, competição e conflito. Supondo que todas as partículas da matéria fossem mantidas em equilíbrio, poderia haver algum processo de criação? A ciência nos responde que seria impossível. Agite a superfície da água e você descobrirá que cada partícula de água procura voltar à placidez, uma precipitando-se contra a outra. De igual modo todos os fenômenos que chamamos de universo — todas as coisas incluídas — estão lutando para voltar ao estado de perfeito equilíbrio. Novamente uma perturbação ocorre e novamente temos fusão e criação. A desigualdade é a base da criação. As forças que estão lutando para alcançar a igualdade na criação são tão necessárias quanto as que a destroem.

A igualdade absoluta significa o equilíbrio perfeito das forças que estão se debatendo em todos os planos, e não pode jamais existir nesse mundo. Antes que atinja esse estado, o mundo estará inabitável para qualquer forma de vida e ninguém mais existirá. Não só todas essas idéias de milênio e de absoluta equanimidade são impossíveis como também, se tentarmos pô-las em prática, irão conduzir-nos com toda a certeza ao dia da destruição. O que faz a diferença entre os homens? A diferença no cérebro, principalmente. Nos dias atuais, só um lunático afirmaria que nascemos todos com o mesmo poder cerebral. Chegamos a esse mundo com dons desiguais, como homens de maior ou menor importância, e não há como escaparmos dessas condições pré-natais definidas.

 

VRB – O mundo, impulsionado pelo crescente e acelerado progresso tecnológico, está cada vez mais complexo e tornando as pessoas atônitas e cronicamente estressadas. E não há como reverter esse processo. Os problemas humanos e sociais se tornam cada vez mais agudos e de difícil ou impossível solução. O que fazer para se minorar essa situação?

 

Vivekananda – Todos nós estamos sendo arrastados por essa enorme e complexa máquina chamada mundo. Só existem dois caminhos de saída. O primeiro é desinteressar-nos pela máquina e deixá-la funcionar, enquanto ficamos à parte — renunciar aos desejos. E fácil falar, porém quase impossível fazer. Não sei se entre vinte milhões de homens exista um único que seja capaz de fazê-lo. O outro caminho é mergulhar no mundo e aprender o segredo da ação: o caminho da karma yoga. Não fuja das rodas da máquina do mundo, fique dentro dela e aprenda o segredo da ação. Pela ação correta realizada no mundo, também podemos dele escapar. Dentro do próprio mecanismo encontra-se a saída.

 

VRB – E o que diz o karma yoga?

 

Vivekananda – O que diz a karma yoga? Aja sem parar, mas abando­ne o apego pela ação exercida. Não se identifique com coisa alguma. Mantenha a mente livre. Tudo o que você vê — as dores e o pesar — são os requisitos indispensáveis desse mundo. Pobreza, riqueza e felicidade são passageiras. Não pertencem à nossa natureza verdadeira, que está muito além do sofrimento e da felicidade, além dos objetos dos sentidos, além da imaginação. Contudo, temos de continuar a agir o tempo todo. A infelicidade provém do apego, não da ação. Assim que nos identificamos com o que estamos fazendo ficamos infelizes. Um homem não sofre quando um belo quadro de outra pessoa pega fogo; no entanto, quando um de seus quadros pega fogo, como ele sente a sua perda! Por que? As duas pinturas eram lindas, talvez fossem até cópias da mesma pintura original, porém a perda de um dos quadros foi muito mais sentida. Isto acontece porque o homem estava identificado com um dos quadros e não com o outro.

“Eu e meu” são a causa de todo o padecimento. Com o sentimento de posse, surge o egoísmo, e o egoísmo causa sofrimento. Todo ato ou pensamento egoísta prende-nos a alguma coisa ou a alguém e imediatamente somos escravizados. Por isso, karma yoga nos ensina a desfrutar de todas as belas pinturas e paisagens do mundo, sem identificar-nos com nenhuma delas. Nunca diga “meu, minha”, pois o sofrimento virá imediatamente. Nem mesmo diga “meu filho” em sua mente pois se disser, a dor virá. Não diga “minha casa”, não diga “meu corpo.” Nisso reside toda a dificuldade. O corpo não é seu, nem meu, nem de ninguém. Esses corpos vêm e partem, de acordo com as leis da natureza, porém nós somos livres, somos as testemunhas. Este corpo não é mais livre do que uma pintura ou uma parede. Por que deveríamos apegar-nos tanto a um corpo? Se alguém pinta um quadro, acaba de pintá-lo e passa-o adiante. Não arremesse o tentáculo do egoísmo: “Tenho de possuir isso.” Tão logo o faça, a dor começará.

 

VRB – Há muitos religiosos que procuram amar a Deus, como se esse sentimento dependesse de sua vontade. Uns dizem que o amam, temendo ser castigado, e outros, para conseguirem favores e recompensas.                   

 

Vivekananda – Enquanto houver em nós a idéia de obter qualquer favor de Deus em troca de nosso respeito e lealdade, o amor verdadeiro não crescerá em nossos corações. Quem venera Deus porque deseja ser agraciado com favores, certamente não continuará a venerá-lo se esses favores não forem concedidos. O bhakta adora Deus porque Deus é adorável; não há nenhum outro motivo que dê origem ou oriente essa divina emoção do autêntico devoto.

O amor não conhece medo. Aqueles que amam Deus por medo são os seres humanos mais inferiores, os que menos se desenvolveram como homens. Prestam culto a Deus por medo da punição. Para eles, Deus é um grande ser com um chicote numa das mãos e um cetro na outra. Se não o obedecem, eles têm medo de ser açoitados. Adorar Deus por temor ao castigo é uma degradação; tal adoração, se é que podemos chamá-la assim, é a mais primitiva das formas de adoração. Como pode haver amor no coração, enquanto nele subsiste o temor?