O VESTUÁRIO E A MORAL

18 de outubro de 1968

 

 

Conforme J. C. Flugel, “as roupas servem a três finalidades principais: enfeite, pudor e proteção”. Tudo indica que o enfeite foi o motivo principal da adoção das vestimentas, pois os dados antropológicos demonstram a existência de povos sem roupas, mas não sem enfeites. En­tre os primitivos, os chefes se des­tacavam pela quantidade de vestes, que acumulavam sobre o corpo. Margaret Mead relata que os homens da tribo Tchambuli costumam adornar-se com flores nos cabelos.

O fator proteção parece, de todos, ser o mais irrelevante. Certos povos primiti­vos, notadamente os habitantes da Terra do Fogo e os monges de alguns mosteiros tibetanos, conseguem sobreviver, sumariamente vestidos, sob baixíssimas temperaturas.

Estudos psicanalíticos evidenciam a correlação entre as roupas e o elemento sexual. Elas constituem uma espécie de segundo corpo, reve­lando, sob determinados aspectos, um indisfarçável simbolismo fálico. O enfeite faz ressal­tar o seu conteúdo narcisista, corrigindo cer­tas deficiências corporais e conferindo prestígio, ao determinar a posição social do seu portador. O guerreiro primitivo conduzia consigo as lembranças anatômicas dos seus adversários abatidos, como colares feitos de dentes e braceletes, de maxilares, ressaltando-se, ainda, o escalpelo muito apreciado pelos índios norte-americanos.

Entre as técnicas de ornamentação, empregadas pelos primitivos, podemos salientar a cicatrização, como embelezamento por meio de cicatrizes, a tatuagem, a pintura, a mutilação e a deformação, como plástica corpo­ral. A cicatrização é uma prática muito difundida entre certos povos selvagens, notadamente as tribos da Austrália. Os povos guerreiros consideravam as cicatrizes como sím­bolos de honraria. A tatua­gem é ainda praticada em nossos dias, principalmente em certos grupos sociais. A pintura completa é encontrada em algumas tribos selvagens, por ocasião de festividades ou acontecimentos especiais. As mulheres ocidentais empregam, também, a pintura no in­tuito de destacar ou corri­gir certas regiões anatômicas. A mutilação, praticamente desaparecida, existe, residual­mente, no hábito das mulheres de furarem as suas orelhas. O caso mais notório de deformação, no mundo oriental, é a diminuição, por processos artifi­ciais, dos pés das mulhe­res chinesas. Sabe-se, todavia, que, em Creta, há mais de 2.000 anos a.C., os homens e as mulheres estreitavam a sua cintura, utilizando-se de apertados cin­tos de metal. O ideal da cintura delgada ressurgiu nos últimos 100 anos na Europa.

Além desses processos decorativos na própria carne, os homens fizeram do vestuário um motivo de satisfação narcisista, ampliando as suas formas e distinção pessoal, graças ao emprego de perucas, sapatos de salto alto, enchimentos internos, plumas, fitas, cintas, etc.

As roupas não possuem apenas a finalidade de proteção física, mas também de proteção psicológica e espiritual. Certas vestimentas, segundo algumas crenças, neutralizam a ação dos espíritos e os atentados de natureza mágica, facilitando, inclusive, o intercâmbio com o mundo sobrenatural. Esoteristas e ocultistas, como Prentice Mulford, asseguram que as roupas possuem a misteriosa propriedade de absorver certos princípios de natureza mental, resultando, daí, o inconveniente, de se usar vestimentas, que pertenceram a outras pessoas. Admitem alguns psicanalistas que, em certas situações, elas representam o principio materno, fornecendo calor e proteção contra a frieza e a agressividade do mundo exterior. Os movimentos de abotoar e desabotoar as roupas são representações inconscientes do nosso modo de reagir em certos ambientes e em determinadas situações.

É costume, em nossos dias, afirmar-se que a mulher se preocupa, obsessivamente, com a sua apresentação pessoal. Todavia, entre os selvagens, o macho é mais ornamental do que a fêmea, o mesmo acon­tecendo com a maioria dos animais. Mesmo na nossa civilização masculina ocidental, as vestes femininas não se igualam em suntuosidade a certos uniformes militares.

A partir da queda do Império Romano até o fim do século XVIII, não existia grande diferença de indumentária entre os dois sexos. Da Renascença em diante, os homens abastados começaram a se ocupar, ativamente, com o vestuário, que, no dizer de Burckhardt, constitui um meio de expressão individual. Com a introdução do chamado “decolleté”, ou seja, uma combinação inteligente de roupa e de nudez, a mulher, quase ao final da Idade Média, diferençou seu vestuário do vestuário masculino, que permaneceu fazendo de sua suntuosidade o único recurso de destaque pessoal. Os psicanalistas procuram explicar esse fato, afirmando que, na mulher, a libido sexual se difunde por todo o seu corpo, enquanto que, no homem, ela se encontra totalmente concentrada na zona genital. Daí, a razão pela qual a exposição do corpo feminino produz maior impressão erótica do que o corpo masculino.

No final do século XVIII, o imponente vestuário masculino sofreu uma profunda e radical transformação. A Revolução Francesa, com suas transformações políticas e sociais, foi a cau­sa principal desse acontecimento. Os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade eram, substancialmente, incompatíveis com o uso de roupas, que criavam diferenças sociais entre os homens, resultando, disto tudo, a sua uniformização e simplificação. Esse processo de democratização das roupas ainda prossegue em nossos dias, notadamente nos países socialistas. O século XVIII, na verdade, foi o período de maior artificialidade na indumen- tária, relegando o corpo a um plano secundário. A Revolução Francesa, todavia, fez reviver o ideal helênico, que descobrira no corpo humano uma “beleza inexcedível”, enquanto as roupas apenas de­sempenhavam um papel accessório. Pleno, também, de artificialismo foi o período Vitoriano, onde toda a atenção estética se concentrava na quantidade e na beleza das indumentárias.

O ascetismo da Idade Média obrigou a mulher a reduzir, quase ao desaparecimento, o volume dos seios, mediante o uso de espartilhos. Na Renascença, porém, estes mesmos espartilhos foram empregados para fazer ressaltá-los. Em compensação, a Renascença produziu um desusado interesse pela região abdominal, artificialmente destacada, para dar a impressão de permanente gravidez. No século XVIII, a acentuação abdominal foi abandonada, para dar lugar a uma valorização dos seios e dos quadris. Os trajes masculinos da Renascença, enfatizando a exube­rância física, eram de uma justeza quase anatômica e cheios de ornamentos multicores.    

Na me­tade do século XIX, os trajes desnudavam os seios femininos e acentuavam, artificialmente, as suas nádegas.

Até a Idade Media, o uso das calças por parte do homem foi considerado, no Ocidente, como “efemenização” e “barbarismo”.

Historicamente, tudo indica que o uso de cal­ças foi introduzido em nossa civilização pelos invasores do Norte, que destruíram o Império Romano, como também pelos povos do Orien­te, principalmente os Persas.

O ascetismo cristão, que não via com bons olhos a exposição do corpo, facilitada pelo costume das vestes soltas, incentivou, sobremaneira, a adoção dessa indumentária.

Hoje, a saia é somente usada pelo homem por motivos de tradição e em determinadas circunstâncias, ou em certos ritos de iniciação ou atividades sacerdotais. O Cristi­anismo anatematizava a nudez, e via o corpo como a oportunidade do pecado e da perdição. Também o banho era considerado uma ocasião favorável à tentação satânica. Não é, portanto, de estranhar que São Francisco de As­sis e Santa Catarina de Siena considerassem a sujeira corporal uma das “flores da santidade”. Contrariamente ao que prega o Cristianis­mo, certas filosofias existencialistas apregoam que o nudismo constitui a única solução para o problema da moral sexual.