O VELHO NO MUNDO DE HOJE

21 de março de 1969 e 11 de junho de 1971

 

 

A eterna juventude sempre foi um dos mais belos sonhos da humanidade.

Na Idade Média, os alquimistas procuraram, inutilmente, entre retortas e superstições, o maravilhoso “elixir da longa vida”.

Há algumas décadas, o russo Voronoff anunciava ao mundo uma droga rejuvenescedora, que, no entanto, redundou em completo fracasso.

O homem contemporâneo não mais sonha, romanticamente, em preservar, ad infinitum, a juventude, mas em conseguir uma juventude biologicamente feliz. Envelhecer, hoje, é uma arte e não uma fatalidade orgânica que urge esquecer.

Atualmente, certos medicamentos, à base da procaína e da cocaína, têm produzido efeitos promissores em organismos senis. A doutora Anna Aslan, diretora do Instituto Geriátrico de Bucareste, Romênia, se tornou famosa pela descoberta de um medicamento denominado Gerovital ou H3 -, uma mistura de procaína, ácidos e sais que, apesar de resultados considerados positivos, no campo da Geriatria, ainda não obteve a aprovação médica internacional.

Quando começa realmente a velhice? O que é envelhecer?

O declínio da vida humana, via de regra, começa a partir dos 30 anos, com uma serie de alterações orgânicas que, paulatinamente, se vão tornando cada vez mais acentuadas: redução da quantidade de ferro no sangue, crescimento da taxa de colesterol, redução da taxa da albumina e aumento da taxa de globulina, queda do metabolismo basal, variações na quantidade de açúcar no sangue e menor atividade glandular. Com o passar dos anos se acentua o retardamento dos reflexos motores e sensitivos, assim como da agilidade mental, e a memória chega a perder cerca de 40% de sua eficiência. Apesar de tudo isto, notáveis personalidades encontraram, no período dos 34 aos 40 anos, o apogeu de sua capacidade criadora e inventiva.

Só se pode, adequadamente, falar em velhice, quando esse processo irreversível atinge o organismo em todos os seus níveis. Como regra geral, ela começa aos 65 anos de idade, observadas, contudo, as variações individuais.

            Na fase denominada pré-senescência, que vai dos 45 aos 65 anos de idade, começam a surgir os primeiros sintomas de desgaste orgânico: dificuldade de fixação mnemônica, lentidão dos processos mentais, fadiga muscular, deficiências da visão e audição. Psicologicamente, há uma acentuada tendência para o conservantismo e rejeição, quase sistemática, de tudo o que é novidade. É, nessa fase, que aparece o fantasma da arteriosclerose, responsável por 25% dos óbitos na velhice, e que consiste no en-durecimento das artérias, principalmente, dos capilares, estreitando o seu calibre, privando os tecidos de irrigação e oxigenação necessárias e apressando, assim, a degenerescência dos órgãos. Dai, o refrão geriátrico: “O homem tem a idade de suas artérias”.

A aposentadoria também tem contribuído, psicologicamente, para acelerar o processo de envelhecimento. O sentimento de utilidade e de valor é fundamental na pessoa humana. O aposentado vive, intensamen­te, o drama de sua marginalização, com a perda do seu antigo prestígio e conseqüente valor social. Mesmo no ambiente doméstico, nem sempre encontra a mesma integração na dinâmica de um mundo em transformações cada vez mais rápidas.

No setor profissional, o velho se vê em nítida desvantagem na concorrência com os jovens, mais atualizados e agressivos. E, à medida que os anos passam, sente aumentar essa desproporção, que lhe acarreta repercussões traumáticas na esfera afetiva, resultando em sentimento de insegurança e hostilidade defensiva.

Seria o asilo uma das soluções ideais para o aposentado? No Brasil, infelizmente, raro é o abrigo que propor-ciona ao velho a sensação de viver num clube social, integrado no mundo que conheceu, livre, assim, do peso opressivo da solidão.

A ciência, em suas várias disciplinas, tem contribuído para o aumento do número de idosos nas regiões mais desenvolvidas do mundo. O índice de vida, na Europa, atualmente, é de 74 anos para o homem e de 77 para a mulher. No Brasil, conforme recentes estatísticas, a média, para ambos os sexos, é de 50 anos.

Nos Estados Unidos da América do Norte, há cerca de 20 milhões de pessoas com idade superior a 65 anos e, no Brasil, 11% de sua população, ou seja, mais de oito milhões, já ultrapassaram a casa dos 50 anos.

Nenhum país, contudo, pode comparar-se à Suécia em matéria de assistência à velhice, pois uma lei de janeiro de 1963 protege, praticamente, todos os cidadãos desde o nascimento até a senectude.

Homens excepcionais como De Gaulle, Churchill, Mao-Tsé-Tung, Salazar, Einstein, Chaplin, Chevalier e Picasso, entre muitos outros, têm demonstrado, à saciedade, que a velhice não importa, fatalmente, em uma fase de declínio total da personalidade.