O TRANSPLANTE

20 de setembro de 1968

 

 

            Conquanto a cirurgia seja um dos ramos mais antigos da medicina, o seu início, como técnica científica, data do século XVI, quando, então, o mundo emergia do obscurantismo medieval e se engolfava na expansão renascentista. Este sécu­lo, que assinalou o começo de notáveis progressos no campo das ciências e das artes, profundamente marcado por um espírito de otimismo e de aventura, também ficou conhecido, no campo da Medicina, como o século dos cirurgiões barbeiros e dos boticários, onde se destacaram os nomes de Girolano Fracastoro, Realdus Colombus, Miguel Servet, Andrea Vesalius e Ambroise Paré. Este último se tornou fa­moso, principalmente pe­las técnicas operatórias, que desenvolveu, e pelas invenções de membros artificiais, que introduziu na cirurgia, mediante os quais se podiam realizar, mecanicamente, inúmeras operações.

Na verdade, a técnica ope­ratória de superfície já era conhecida entre muitos povos da antiguidade, revestindo-se, no entanto, de conteúdo mágico, quando se fazia a simulação do procedimento cirúrgico, que poderia terminar com a operação real do paciente. Apesar de, no século XIII, Rogério Bacon ter inaugurado uma consciência científica, com o método experimental, a ciência de sua época ainda estava impregnada de preocupações místicas, influenciada pela alquimia, e aceitava, quase sem discussões, os princípios da filosofia hermética, notadamente no campo da chamada medicina simpática ou analógica. A ciência e a magia esta­vam, então, fortemente associadas, coexistindo juntas, mesmo nas pessoas mais esclarecidas.

Não obstante, no século V a.C., Herófilo e Erasístrato tivessem criado a anatomia descritiva humana e praticado as primeiras disseca­ções, o estudo da medicina permaneceu estacionário até o século XVI em virtude de proibições religiosas, que interditavam dissecação do corpo humano e limitava todo o conhecimento, neste setor, a simples especulações de anatomia analógica. Desta forma, a cirurgia era superficial, excetuados os casos extremos de amputação de membros ou pequenas extrações de corpos estranhos, quando falhavam os tradi­cionais métodos de cauterização nas partes lesio­nadas.

Graças, todavia, à obstinação e à coragem de  Andrea Vesalius que, ludibriando a fiscalização eclesiástica, promoveu dissecações em cadáveres, a anatomia se desenvolveu como ciência autônoma. Por este motivo, Andrea Vesalius é considerado o precursor da anatomia moderna, sendo o seu livro “De Humani Corporis Fabrica” ainda consultado em nossos dias.  

O século XIX marcou um desenvolvimento notável na técnica operatória, com o emprego do éter (1842), e o do clorofórmio (1847), nas intervenções cirúrgicas. Já nesta época, Rodolf Virchow, que se notabilizou por seus estudos de patologia celular, comparava o corpo humano a um Estado e a moléstia a uma guerra civil, traindo, nessa comparação, a influência organicista de seu tempo.

O progresso vertigi­noso da tecnologia de século XX, notadamente nas últimas décadas, proporcionou à cirurgia os meios necessá­rios à sua total emancipa­ção no campo da Medicina.

A confiança no êxito operatório e a convicção de que, nos casos específicos, a cirurgia é o recurso mais indicado para o restabelecimento do equi­líbrio orgânico tornaram-se, assim, os fatores psicológicos do seu desen­volvimento espetacular no quadro geral da Medicina. Até o ano passado, a restauração, mediante substitui­ção de certas partes do corpo, era realizada pelo processo de enxertia. Geralmente, a operação se coroava de êxito, visto que, em se tratando de células do próprio organismo, inexistia o fenômeno da rejeição.

Em 3 de dezembro de 1967, na cidade do Cabo, África do Sul, o cirurgião, Dr. Christian Barnard realizou, para o assombro do mundo, a primeira operação de transplante cardíaco, tendo, como doadora, uma jovem de 25 anos de idade, falecida em desastre automobilístico e, como paciente, um homem de 53 anos, Louis Washkansky. Durante 18 dias de intensa expectativa, quando os prognósticos pareciam favo­ráveis, o primeiro homem que, nos anais da ciência, vivia com um coração alheio foi, afinal, vitimado pelo fenômeno da rejeição. Este fracasso inicial não desa­nimou o Dr. Barnard que, semanas após, realizou nova tentativa, tendo, desta feita , como paciente, o dentista Philip Blaiberg e, como doador, Clive Haupt, de 23 anos  de idade e falecido de um derrame  cerebral.

Hoje, Philip Blaíberg constitui a prova viva da vitória da cirurgia moderna, o símbolo de esperança da humanidade no seu desejo de prolongar a existência física.

A audácia do Dr. Christian Barnard contagiou os seus co­legas de outros continentes, promovendo maior aproximação entre os cirurgiões de todas as partes do mundo, no afã de discutirem e aprimorarem as suas técnicas. Prova disto, foi a recente reunião na cidade do Cabo, África do Sul, a convite do Dr. Barnard,  de onze dos dezesseis cirurgiões que executaram esta modalida­de cirúrgica, entre eles o brasileiro Dr. Zerbini. Este, como se sabe, realizou um transplante cardíaco no boiadeiro João Ferreira da Cunha, que, todavia, sucumbiu em virtude da rejeição. O ca­so cirúrgico assumiu aspectos jurídicos, quando a esposa do doador, conforme fartamente noticiou a imprensa brasileira, ameaçou de processar o Dr. Zerbini, exigindo uma quantia fabulosa em dinheiro, a título de indenização, sob fundamen­to de que o transplante fora feito, quando o coração do seu esposo ainda batia. Isto levantou controvérsias a respeito do que, clinicamente, se entendia por morte.

O fenômeno da rejeição é decorrente da atividade dos linfócitos na produção de anticorpos e no desligamento dos va­sos, que irrigam o órgão ou te­cidos transplantados, provocando isquemia e conseqüente necrose. Isto fez com que se procurasse produzir um soro antilinfocitário, com a finalidade de anular o mecanismo da rejeição.

Aliás, diga-se de passagem, o soro antilinfocitário já fora descrito em 1899 por Metchnikoff. Atualmente, se verificou que a globulina antilinfocitária é que mais protege os pacientes contra a rejeição. Este medicamento é obtido mediante a injeção de linfócitos em cavalos, cujo organismo, então, produz o soro antilinfocitário. Também se verificou que uma das condições básicas no êxito do transplante reside na identidade ou semelhança na tipagem de linfócitos entre o doador e o receptor.

Finalmente, a técnica fundamental desta operação é ainda a apresentada por Shumway, há anos, divergindo o seu emprego em algumas particularidades do transplante mediante hipotermia, ou sem ela.

Quanto ao conceito de morte, está quase definitivamente estabelecido que ela se verifi­ca com a falência cerebral, constatada através de uma linha isolítica, apontada no encefalocardiograma. A legislação brasileira sobre o assunto estava anteriormente disciplinada pela lei 4.280, de 6.11,63, a qual, todavia, foi revogada, recentemente, pela lei 5.479, de 10.08.68.