Daisetz Teitaro Suzuki (1870-1966)

 

 

 

VRB - O que é o Zen?

 

Suzuki – O Zen não é uma filosofia, na acepção comum do termo. Não  é um sistema fundado na lógica e na análise. É algo antípoda da lógica e do modo dualístico de pensar. Pode haver um elemento intelectual no Zen, pois ele é a mente total.

 

VRB – O que ensina o Zen?

 

Suzuki – O Zen nada tem a ensinar, no que diz respeito à análise intelectual, nem impõe qualquer conjunto de doutrinas aos seus seguidores. A esse respeito, o Zen é caótico, se assim o quiserem chamar. Seus adeptos podem formular conjuntos de doutrinas, formulando-os porém por sua conta e para benefício próprio, e não do Zen. Portanto, não há, no Zen, livros sagrados ou assertivas dogmáticas, nem qualquer fórmula simbólica através da qual se obtenha um acesso à sua significação. Se me perguntassem o que ensina o Zen, responderia que ele nada ensina. Qualquer ensinamento que exista no Zen vem mediante nossa própria mente. Ensinamo-nos a nós mesmos. O Zen meramente aponta o caminho. A menos que consideremos este apontar como um ensinamento, nada há no Zen propositadamente estabelecido como doutrinas cardeais ou filosofia fundamental.

 

VRB – É o Zen um ramo do Budismo? Se não, o que os distingue?

 

Suzuki – O Zen sustenta ser budista, mas todos os ensinamentos budistas, do modo por que são propostos nos sutras e sastras, são tratados pelo Zen como mero papel, cuja utilidade consiste em limpar o lixo do intelecto, e nada mais. O Zen, entretanto, não é niilista. Todo niilismo é autodestrutivo, não termina em lugar nenhum. O negativismo é puro como um método, mas a verdade mais alta é uma afirmação. Quando se diz que o Zen não tem filosofia, que nega toda autoridade doutrinária, que põe de lado toda a literatura sagrada como inútil, não se pode esquecer que o Zen está sustentando, com essa negativa, algo completamente positivo e eternamente afirmativo.

 

VRB – Se o Zen não é propriamente uma filosofia, é ele uma religião, embora diferente do Budismo?

 

Suzuiki – Não. Não é uma religião, no sentido em que popularmente é compreendido o termo. Não tem Deus para cultuar, nenhum rito cerimonial para observar, nenhum lugar futuro para onde os mortos se destinem e, acima de tudo, não vê na alma algo cujo bem-estar deva ser procurado e cuja imortalidade é assunto de intensa preocupação para certas pessoas. O Zen está livre de todos esses entraves dogmáticos, religiosos e filosóficos.

 

VRB – Então, o Zen é ateísta?

 

Suzuki – Quando digo que não há Deus no Zen, o leitor devoto pode sentir-se chocado, mas isso não significa que o Zen negue a existência de Deus. Nem a afirmativa nem a negativa importam ao Zen. Quando uma coisa é negada, a própria negativa envolve algo que não é negado. O mesmo pode ser dito em relação à afirmativa. Isto é inevitável na lógica. O Zen quer ultrapassar a lógica, quer encontrar uma mais alta afirmação onde não haja antítese. Portanto, no Zen, Deus não é negado nem afirmado. Somente nele não existe o Deus concebido pelas mentes judaicas e cristãs. Pela mesma razão que o Zen não é uma religião, não é também uma filosofia.

 

VRB – E por que encontramos imagens dos vários Budas e Bodisatvas, Devas e outros seres na entrada de um templo Zen?

 

Suzuki – Essas imagens são apenas peças de madeira, metal ou pedra. Assemelham-se às camélias, azáleas, ou lanternas de pedra do meu jardim. O Zen nos diz: Reverencia uma camélia em plena floração e cultua-a, se quiseres. Há tanta religião nesse ato como quando nos prosternamos diante dos vários deuses budistas, ou espargimos água benta, ou participamos da ceia do Senhor.

Todos esses atos devocionais considerados meritórios ou santificadores pelas pessoas de mente religiosa são artificialidades aos olhos do Zen. Audaciosamente declara que: "os iogues imaculados não entram no Nirvana. Os monges violadores de preceitos não vão para o Inferno". Esta afirmativa é, para as mentes comuns, uma contradição à lei da vida moral, mas aqui jaz a verdade e a vida do Zen. O Zen é o espírito do homem. O Zen crê na sua pureza interna e na sua bondade. Tudo que for superadicionado ou violentamente arrancado injuria a tota­lidade do espírito. O Zen é, portanto, enfaticamente, contra todo o convencionalismo religioso.

Sua irreligião é meramente aparente. Aqueles que são verdadeiramente religiosos ficarão surpresos ao verificar que, apesar de tudo, há muito de religião na bárbara declaração do Zen. Mas dizer-se que o Zen é uma religião, nos moldes do cristianismo ou maometanismo, seria um erro.

 

VRB – Alguns afirmam que o Zen é uma forma de meditação.

 

Suzuki – O Zen não deve ser confundido com a forma de meditação praticada pelos adeptos do "Novo Pensamento", ou Cientistas Cristãos ou Saniazins Hindus, ou por alguns budistas. A Dhyana, consoante é compreendida pelo Zen, não corresponde à prática mantida no Zen. Um homem pode meditar sobre um assunto religioso ou filosófico enquanto se instrui no Zen. Mas isso é somente incidental. A essência do Zen não está aí em absoluto. O Zen se propõe a disciplinar a mente por si mesma, fazê-la seu próprio mestre através de uma visão introspectiva na sua própria natureza. Este aprofundar-se na natureza real da sua própria mente ou na alma é o objetivo fundamental do Zen-Budismo. O Zen, portanto, é mais do que meditação e Dhyana, no seu sentido comum. A disciplina do Zen consiste em abrir o olho mental, a fim de olhar a própria razão da existência.

Para meditar, o homem tem de fixar seu pensamento emalgo. Por exemplo, na unidade de Deus, ou no seu amor infinito, ou na impermanência das coisas. Mas isto é o que o Zen deseja evitar. Se há alguma coisa que o Zen fortemente frise é a conquista da liberdade, isto é, liberdade de todos impedimentos não naturais. A meditação é algo artificial que se utiliza, não pertence à atividade nativa da alma. A respeito de que medita o pássaro no espaço? A respeito de que medita o peixe nas águas? Eles voam, eles nadam. Não é o bastante? Quem deseja fixar sua mente na unidade de Deus e do homem, ou na niilidade desta vida? Quem deseja ser preso, nas manifestações diárias da atividade de sua vida, por meditações sobre a bondade de um ser divino, ou sobre o fogo eterno do Inferno?

Podemos dizer que o cristianismo é monoteísta e a Vedanta panteísta, mas o Zen desafia todas as designações. Daí não existir objeto no Zen sobre o qual possa fixar-se o pensamento. O Zen é uma nuvem que passa no céu. Nenhum parafuso o sustém. Nenhuma corda o amarra. Move-se quando quer. Não há meditação capaz de retê-lo num lugar. A meditação não é Zen. Nem o monoteísmo, nem o panteísmo asseguram objetos de meditação ao Zen. Se o Zen é monoteísta, poderá dizer a seus seguidores que meditem sobre a unidade das coisas nas quais todas as diferenças e desigualdades, envoltas no brilho da luz divina, são obliteradas. Se o Zen fosse panteísta, dir-nos-ia que mesmo a mais humilde das flores nos campos reflete a glória de Deus. Mas o que o Zen nos diz é: "Após todas as coisas serem reduzidas à unidade, a que essa unidade se reduzirá?". O Zen deseja a mente livre, desobstruída. A própria idéia da totalidade ou da unidade é uma pedra no caminho e um laço ameaçador da liberdade original do espírito.

O Zen, portanto, não nos pede que concentremos o pensamento na idéia de que um cão é Deus, ou que três libras de cera são divinas. Quando assim procede, entrega-se a um sistema definido de filosofia e deixa de existir. O Zen só sente o calor do fogo ou o frio do gelo, pois quando a água se congela trememos e bendizemos o fogo. O sentimento é de tudo em tudo como declara Fausto. Toda nossa teorização falha ao tocar a realidade. Mas o sentir deve aqui ser compreendido na acepção mais profunda ou na forma mais pura. Mesmo ao dizer "este é o sentimento" indica-se que o Zen não mais está presente. O Zen desafia à confecção de conceitos. Esta é a razão por que é difícil captar o Zen.

Qualquer meditação proposta pelo Zen terá de tornar as coisas como elas são. Considerar a neve branca e o carvão negro. Quando falamos de meditação referimo-nos ao seu cará-ter abstrato. Isto é, a meditação é considerada como uma con­centração da mente em alguma proposição altamente generalizada, a qual na natureza das coisas nem sempre está íntima e diretamente ligada aos fatos concretos da vida. O Zen percebe ou sente, não abstrai nem medita. O Zen penetra e é finalmente perdido na imersão. A meditação, por outro lado, é dualística e inevitavelmente superficial.

 

VRB – Qual é a idéia básica do Zen?

 

Suzuki A idéia básica do Zen é a de entrar em contato com os trabalhos íntimos do nosso ser da maneira mais direta possível, sem necessitar de alguma coisa externa superimposta. Portanto, tudo que aparenta ser uma autoridade externa é rejeitado pelo zen. Uma fé absoluta é colocada no ser interno do homem. Qualquer autoridade que possa ter o Zen provém de dentro. Isto é verdadeiro no sentido estrito da palavra. Até a faculdade do raciocínio não é considerada final ou absoluta. Ao contrário, ela impede a mente de entrar em comunicação direta consigo mesma. O intelecto realiza sua missão quando age como intermediário, e o Zen nada tem a ver com intermediários, exceto quando deseja comunicar-se com os outros. Por essas razões, todas as escrituras são meramente tentativas e provisórias. Não há nelas finalidade. O fato central da vida como é vivida é o que o Zen deseja captar e assim mesmo da maneira mais direta e vital. O Zen diz ser o espírito do budismo, mas de fato é o espírito de todas as religiões e filosofias. Quando o Zen é compreendido completamente, a paz absoluta da mente é alcançada, e o homem vive conforme deve viver. Que mais podemos desejar?

 

VRB – Podemos, então,  que entender que o Zen é misticismo?

 

Suzuki – O Zen é um misticismo a seu próprio modo. É místico no sentido de que o sol brilha, que uma flor desabrocha e que neste momento ouço alguém bater um tambor na rua. Se esses fatos são místicos, o Zen está cheio deles. Certa vez, perguntaram a um mestre o que era o Zen, e ele replicou: “O teu pensamento cotidiano”. Não está claro e suficientemente direto? Nada tem a ver com qualquer espírito sectário. Os cristãos e budistas podem utilizar o Zen da mesma forma que peixes grandes e pequenos podem morar contentes no mesmo oceano. O Zen é o oceano. O Zen é o ar. O Zen é a montanha. O Zen é o trovão. O Zen é o raio, a flor primaveril, o calor do verão, o frio do inverno; mais do que tudo isso, o Zen é o homem. Apesar de todos os formalismos, convenções e superadições que o Zen acumulou na sua longa história, o seu cerne ainda está muito vivo. O mérito especial do Zen repousa nisto: podemos ver ainda este fato último sem sofrer influência de coisa alguma.

O misticismo ordinário tem sido um produto muito variável e dissociado da vida comum do indivíduo. Isto o Zen revolucionou. O que estava até então nos céus, o Zen trouxe à terra. Com o desenvolvimento do Zen, o misticismo deixou de ser místico. Não é mais o produto espasmódico de uma mente anormalmente dotada. O Zen revela-se a si mesmo no meio da mais desinteressante e insípida da vida do homem comum, que reconhece o fato de viver na vida, tal qual é vivida. O Zen treina sistematicamente o pensamento para ver isso. Abre os olhos do homem para o grande mistério que diariamente é repre­sentado. Alarga o coração para que ele abranja a eternidade do tempo e o infinito do espaço em cada palpitação e faz-nos viver no mundo como se estivéssemos andando no Jardim do Éden. Todas essas conquistas espirituais são obtidas sem ne­cessidade de qualquer doutrina, simplesmente afirmando, da maneira mais direta, a verdade que jaz no nosso ser interno.

 

VRB – Pelo que compreendi, o Zen se propõe a ensinar o homem a procurar ver diretamente as coisas como elas são.

 

Suzuki – O Zen lida com os fatos e não com as suas representações lógicas, verbais, preconcebidas ou deformadas.

No Zen isto significa não estar escravizado às sutilezas intelectuais, nem ser levado por raciocínios filosóficos, que são inúmeras vezes ingênuos e cheios de sofismas. Equivale a reconhecer os fatos como fatos e saber que palavras são palavras e nada mais. O Zen pensa que somos demasiado escravos das palavras e da lógica.

 

VRB – E por que essa postura em relação à lógica?

 

Suzuki - Há na lógica um laço fundamental de esforço e dor. A lógica é autoconsciente. Da mesma forma a ética, que é uma aplicação da lógica aos fatos da vida. Um homem ético executa ações de serviço que são elogiáveis, e está sempre cônscio delas, e em muitos casos esperando uma recompensa futura. Daí dizemos que sua mente é manchada e impura, apesar do que de bom e subjetiva e socialmente, os seus atos produzem. O Zen abomina isso. A vida é uma arte, e como uma arte perfeita tem de esquecer a si própria, não pode haver qualquer traço de esforço ou sensação dolorosa. A vida para o Zen deve ser vivida mesma forma que o pássaro voa pelo ar, ou o peixe nada no seio das águas. Logo que houver sinais de elaboração, um homem se escraviza, não é mais um ser livre. Não estás vivendo como deves viver, estás sofrendo a tirania das circunstâncias, sentindo uma espécie de restrição e perdendo a tua independência. O Zen trata de preservar tua vitalidade, a liberdade nativa, e acima de tudo a integridade do teu ser. Em outras palavras, o Zen quer viver de dentro. Não ser preso a regras e sim criar as próprias regras. Esta é a espécie de vida que o Zen está tentando nos fazer viver. Daí suas afirmativas ilógicas ou melhor superlógicas.

Não é objetivo do Zen parecer ilógico por seu próprio interesse, e sim fazer que as pessoas saibam que a consciência lógica não é final e que há uma certa afirmação transcendental que não pode ser obtida através da luz intelectual.

 

VRB – Em que consiste o trabalho dos monges em um mosteiro Zen?

 

Suzuki – Em todos os recintos de meditação, o trabalho, em especial o trabalho considerado mais servil, é um elemento vital da vida monástica, que inclui boa dose de trabalhos manuais, tais como varrer, limpar, cozinhar, juntar lenha, arar a terra, esmolar nas vilas próximas e longínquas. Não se considera nenhum trabalho abaixo da dignidade, e um perfeito sentimento de fraternidade prevalece entre eles. Crêem na santidade do trabalho manual, não importando a dureza ou o caráter desprezível do mesmo. Nada reclamam e se mantêm de todos os modos possíveis. Não são vagabundos como certos monges peregrinos da índia.

Psicologicamente isto é esplêndido, pois a atividade muscular é o melhor remédio para a preguiça mental que nasce do hábito da meditação e o Zen, muitas vezes, pode produzir este efeito indesejável. A dificuldade de muitos reclusos religiosos é de que sua mente e corpo não atuam unissonamente. O corpo está sempre separado da mente, e esta última do primeiro. Eles concebem a existência do corpo e da mente, e se esquecem de que esta separação é meramente ideativa e portanto artificial. O objetivo da disciplina Zen é anular essa discriminação fundamental, e ela busca sempre evitar práticas que possam, de algum modo, reforçar a idéia de parcialidade.

O satori, na verdade, consiste em atingir o ponto em que todas as nossas noções discriminatórias são abandonadas, embora isto não constitua, em absoluto, um estado de vacuidade. A preguiça mental, que é freqüentemente um produto da meditação, não conduz ao amadurecimento do satori. Os que quiserem avançar no estudo do Zen têm naturalmente de precaver-se a esse respeito, senão terminariam por paralisar a fluidez da atividade mental. Eis uma das razões por que os seguidores do Zen se opõem à mera prática da Dhyana. O corpo, quando mantido em atividade, conserva a mente fresca, total e alerta.

Moralmente, qualquer trabalho que implique consumo de força física assegura a solidez das idéias. Isto é certo, especial­mente no que diz respeito ao Zen. As idéias abstratas que não se reflitam na vida prática são consideradas sem valor. A convicção tem de ser ganha através da experiência e não através de abstrações. A afirmativa moral deve, em toda a parte, estar acima do julgamento intelectual, isto é, a verdade deve basear-se na experiência viva de cada um. O sonhar acordado não é assunto seu, afirmam os monges Zen. Eles, de certo, sentam-se e calmamente praticam o zazen. Isto tem de ser feito, se eles quiserem assimilar as lições recebidas durante o trabalho. Mas, como se opõem a ruminar todo o tempo, põem em prática as reflexões feitas nas horas de calma, para comprovar a sua validez no vasto campo da realidade. Acredito firmemente que se os mosteiros Zen não se empenhassem no trabalho de manter o sangue dos monges circulando, o Zen teria mergulhado num sistema soporífero e indutor de transe e que todos os tesouros colhidos pelos mestres da China e do Japão seriam atirados fora como montes de matéria apodrecida