Arthur Schopenhauer (1788-1860)

 

 

VRB – Há pessoas fascinadas pela glória. Tudo fazem para alcançá-la ainda em vida. Mas também acalentam a esperança de obtê-la depois da morte. No entanto, a glória post-mortem é órfã de nascença.

 

Arthur Schopenhauer – A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.

 

VRB – A durabilidade da glória, após a morte, em nada beneficia o seu titular. E não é suficiente para preencher ou suavizar a solidão.

 

Arthur Schopenhauer – A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.

 

VRB – Quanto mais sabemos, nossas certezas diminuem, e aumenta o mistério do existir.

 

Arthur Schopenhauer – Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência.

 

VRB – Os milênios se passam, e Mamon nunca perdeu o seu poder. Ao contrário, ele tem aumentado cada vez na nossa época dominada pelo consumismo. Ter parece ser a única felicidade garantida.

 

Arthur Schopenhauer – O dinheiro é uma felicidade humana abstrata; por isso aquele que já não é capaz de apreciar a verdadeira felicidade humana, dedica-se completamente a ele.

A riqueza influencia-nos como a água do mar. Quanto mais bebemos, mais sede temos.

A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos.

 

VRB – Apesar de tudo, o dinheiro tem a sua importância

 

Arthur Schopenhauer – O dinheiro é a coisa mais importante do mundo. Representa: saúde, força, honra, generosidade e beleza, do mesmo modo que a falta dele representa: doença, fraqueza, desgraça, maldade e fealdade.

 

VRB – Mas, a busca obsessiva pela riqueza tem seus inconvenientes.

 

Arthur Schopenhauer – O maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem.

 

VRB – O que revela a sua insensatez.

 

Arthur Schopenhauer – A ignorância só degrada o homem quando se encontra em companhia da riqueza.

 

VRB – A morte é uma perda, não para quem morreu, mas para as pessoas que o amaram. Há alguma compensação para a morte?

 

Arthur Schopenhauer – O amor é a compensação da morte.

 

VRB – Mas, não elimina o temor que quase todas as pessoas têm da morte.

 

Arthur Schopenhauer – Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte.

Por mais temida que seja, a morte não pode ser um mal.

Quem concebe sua existência apenas como simples efeito do acaso, sem dúvida deve temer perdê-la pela morte.

São apenas as cabeças pequenas e limitadas que temem seriamente na morte a destruição total do ser; dos espíritos verdadeiramente privilegiados tal medo fica completamente afastado.

 

VRB – Concebo a arte como a expressão mais elevada da natureza humana.

 

Arthur Schopenhauer – A arte é uma flor nascida no caminho da nossa vida, e que se desenvolve para suavizá-la.

 

VRB – O sofrimento físico é comum a todos os seres vivos. Psicologicamente, porém, o sofrimento é diferente para cada pessoa.

 

Arthur Schopenhauer – Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre.

 

VRB – O casamento é uma das mais complexas experiências do ser humano, e nem sempre feliz. Mesmo assim pode durar até a morte de um dos cônjuges.

 

Arthur Schopenhauer – Casar-se significa duplicar as suas obrigações e reduzir a metade dos seus direitos.

 

VRB – Como conciliar determinismo e livre-arbítrio, se for possível essa conciliação?

 

Arthur Schopenhauer – O destino baralha as cartas, e nós jogamos.

 

VRB – A filosofia grega proclamava o lema do corpo são em uma mente sã.

 

Arthur Schopenhauer – Em geral, nove décimos da nossa felicidade baseiam-se exclusivamente na saúde. Com ela, tudo se transforma em fonte de prazer.

 

VRB – Não podemos negar a importância da leitura para a formação intelectual das pessoas. Porém, o mais importante não é apenas ler e, sim, o que se lê.

 

Arthur Schopenhauer – Ler quer dizer pensar com uma cabeça alheia, em lugar da própria.

 

VRB – A honra é um bem inestimável para certas pessoas. É a alma da personalidade. É maior do que a vida, que, sem ela, perde o sentido.

 

Arthur Schopenhauer – A honra é, objetivamente, a opinião dos outros acerca do nosso valor, e, subjetivamente, o nosso medo dessa opinião.

 

VRB – O tempo influi na nossa percepção da vida.

 

Arthur Schopenhauer – Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve.

 

VRB – A felicidade é a nossa maior aspiração. Cada pessoa tem ou procura uma fórmula para encontrá-la. 

 

Arthur Schopenhauer – O que temos dentro de nós é o essencial para a felicidade humana.

O que nos torna imediatamente felizes é a alegria do pensamento, pois essa boa qualidade se recompensa logo, por si mesma.

 

VRB – No entanto, as religiões afirmam que a verdadeira felicidade não se encontra neste mundo, onde tudo é transitório.

 

Arthur Schopenhauer – Num mundo como este, onde nada é estável e nada perdura, mas é arremessado em um incansável turbilhão de mudanças, onde tudo se apressa, voa, e mantém-se em equilíbrio avançando e movendo-se continuamente, como um acrobata em uma corda – em tal mundo, a felicidade é inconcebível.

 

VRB – A religião é uma necessidade do ser humano que se manifesta com intensidade por ocasião das desgraças individuais e coletivas. É um analgésico no sofrimento e um fósforo aceso da escuridão.

 

Arthur Schopenhauer – As religiões, assim como as luzes, necessitam de escuridão para brilhar.

 

VRB – A história nem sempre é um relato de fatos confiáveis. É principalmente uma interpretação dos fatos, comprometida pela subjetividade de cada historiador.

 

Arthur Schopenhauer – O que a história conta não passa do longo sonho, do pesadelo espesso e confuso da humanidade.

 

VRB – Há pessoas que buscam a sabedoria no saber. Se assim fosse, os eruditos seriam sábios.

 

Arthur Schopenhauer – Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os gênios, os iluminadores do mundo e os promotores do gênero humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo.

A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios.

No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa.

 

VRB – E, no seu entender, o que é a sabedoria?

 

Arthur Schopenhauer – Por sabedoria entendo a arte de tornar a vida mais agradável e feliz possível.

 

VRB – As religiões ensinam que o homem é divino ou tem algo de divino. O que, para você, seria esse algo?

 

Arthur Schopenhauer – O bom humor é a única qualidade divina do homem.

 

VRB – A compaixão pelos nossos semelhantes se manifesta por ocasião das catástrofes que destroem milhões de vidas. Parece-me rara essa compaixão pelos animais.

 

Arthur Schopenhauer – A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.

 

VRB – Somos seres temporais e, no entanto, polemizamos sobre o que é o tempo. Há um tempo objetivo. Há um tempo subjetivo. E estamos confusos na tentativa de compreendê-los. Talvez sejam as duas faces de uma mesma moeda.

 

Arthur Schopenhauer – O tempo é a forma graças à qual a vanidade das coisas aparece como a sua instabilidade, que reduz a nada todas as nossas satisfações e todas as nossas alegrias, enquanto nos perguntamos com surpresa para onde foram. Esse próprio nada é portanto o único elemento objetivo do tempo, ou seja, o que lhe responde na essência íntima das coisas, e assim a substância da qual ele é a expressão.

 

VRB – De um modo geral, como o ser humano convive com o tempo?

 

Arthur Schopenhauer – As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo.

 

VRB – O Cristianismo prega o perdão incondicional àqueles que nos feriram e também recomenda que amemos os nossos inimigos. Qual a sua opinião a respeito?

 

Arthur Schopenhauer – Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com freqüência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exatamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o caráter é absolutamente incorrigível e todas as ações humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente. Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exatamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade.

VRB – A distinção entre o talento e o gênio é apenas de grau?

 

Arthur Schopenhauer – Talento é quando um atirador atinge o alvo que os outros não conseguem. Gênio é quando um atirador atinge o alvo que os outros não vêem.

 

VRB – O amor, parece-me, é a razão de ser para a maioria das pessoas.

 

Arthur Schopenhauer – O amor é o objetivo último de quase toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.

 

VRB – No turbilhão do presente, não temos uma percepção nítida dos fatos, porque não dispomos de uma perspectiva confiável. Fazemos parte do turbilhão e, nesta condição, o nosso juízo crítico é sempre precário. Só o passado pode ser observado melhor, embora esteja contaminado pelas nossas necessidades do presente.

 

Arthur Schopenhauer – As cenas de nossa vida são como imagens em um mosaico tosco; vistas de perto, não produzem efeitos – devem ser vistas à distância para ser possível discernir sua beleza. Assim, conquistar algo que desejamos significa descobrir quão vazio e inútil este algo é; estamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, enquanto, ao mesmo tempo, comumente nos arrependemos e desejamos aquilo que pertence ao passado. Aceitamos o presente como algo que é apenas temporário e o consideramos como um meio para atingir nosso objetivo. Deste modo, se olharem para trás no fim de suas vidas, a maior parte das pessoas perceberá que viveram-nas ad interim [provisoriamente]: ficarão surpresas ao descobrir que aquilo que deixaram passar despercebido e sem proveito era precisamente sua vida – isto é, a vida na expectativa da qual passaram todo o seu tempo. Então se pode dizer que o homem, via de regra, é enganado pela esperança até dançar nos braços da morte!

 

VRB – Os mestres do Oriente ensinam que, enquanto desejarmos as coisas, permaneceremos seus escravos. Como eliminar o desejo que, à semelhança da Fénix, ressurge sempre das cinzas do que aparentemente foi saciado?


Arthur Schopenhauer – Novamente, há a insaciabilidade de cada vontade individual; toda vez que é satisfeita um novo desejo é engendrado, e não há fim para seus desejos eternamente insaciáveis.
Isso acontece porque a Vontade, tomada em si mesma, é a soberana de todos os mundos: como tudo lhe pertence, não se satisfaz com uma parcela de qualquer coisa, mas apenas como o todo, o qual, entretanto, é infinito. Devemos elevar nossa compaixão quando consideramos quão minúscula a Vontade – essa soberana do mundo – torna-se quando toma a forma de um indivíduo; normalmente apenas o que basta para manter o corpo. Por isso o homem é tão miserável.

 

VRB – Vivemos uma época de intensa poluição sonora, não só nas ruas agitadas das grandes cidades, como também na intimidade do lar. E, no entanto, há pessoas que se acostumaram com essa poluição e até se sentem bem com ela.

 

Arthur Schopenhauer – A soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa de sua capacidade mental.