A Saga do Existir

          

 

VALTER DA ROSA BORGES. A SAGA DO EXISTIR. 1999

 

Nascemos de uma explosão:

átomo ou ovo primordial,

a miniatura do nada.

Espaço, tempo, matéria

e o infinito num ponto.

Onde é que Deus estava

              nesta singularidade?

 

O Éden era a nudez

do ser que a si se bastava,

sem nada ter, tendo tudo

o que o presente ofertava.

O presente era um presente

de quem nada possuía

além do presente dado.

 

Eu estou aqui:

o aqui é meu lugar.

Ainda que exista o além,

eu ainda estou aqui.

O aqui é tudo agora,

o agora se vive aqui.

Tanto o além como o nada

não passa de opinião.

 

O homem é Deus que dorme,

sonhando estar acordado.

 

Quem sou eu, testemunha do real,

síntese, enfim, de um corpo inteligente,

ser coletivo do meu povo orgânico

e espírito geral das minhas células?

 

Sobreviver é reciclar-se sempre,

mantendo o Ser em todas as mudanças.

Tudo em nosso corpo é pensamento

dos átomos, moléculas e células.

 

Sentimentos e hormônios fluem juntos

na corrente sangüínea e entre os neurônios.

Todo meu corpo pensa, sente e age.

 

 

A Vida é a contínua digestão

de nutrientes e fatos, reciclando

o próximo organismo de amanhã.

Um vazio pulsante é o que somos,

vivendo na ilusão da solidez.

Matéria são vazios que colidem.

As formas são momentos do vazio.

Tudo é mudança.

Mas, o que dirige

a universal mudança no Vazio?

 

 

 

Não façamos da máquina

o sucedâneo do humano

ou seu mutante metálico.

Falta-lhe o senso do acaso,

do lúdico e do absurdo,

a convivência do equívoco.

O homem é o imprevisível,

o orgasmo do paradoxo,

e a aversão às repetências,

que é a essência do mecânico.

A máquina é a ordem sólida

oposta à fluidez do orgânico.

 

Então os homens disseram:

eis que o computador é como qualquer de nós,

sabendo o que nós sabemos.

(Também o bem e o mal?)

 

Não há essência do ser:

o nosso ser é passar

em solidez ilusória

em cada instante do estar.

 

Às vezes, lembramo-nos de coisas,

não como foram,

mas como desejaríamos que fossem.

Não o passado que foi,

mas o que poderia ter sido.

O nosso passado não é algo definitivo,

nem definido:

é uma permanente reinvenção mnemônica.

Somos uma biografia

sempre em mudança.

 

 

 

Eu sou aquele sem nome,

que o nome fez esconder.

Um dia, deixei meu nome,

como quem despe uma roupa

e vi-me em minha nudez.

Eu que pensei que era nome,

vi que o nome é fumaça.

E entendi que sou o rio

e não as ondas que passam:

por isso, nunca termino.

O nome é marca no corpo

e com o corpo se acaba.

O sem-nome é o que fica,

pois nunca foi, nem será.

 

 

 

 

Não somos  células e átomos em turbilhão,

nem espírito a parte,

porém corpos em sucessão.

 

 

 

Não há solidão real.

Estamos impregnados

do nosso viver com os outros.

 

 

Os mistérios são alucinógenos.

A mística é a embriaguez

de quem provou o infinito.

 

 

Tudo o que vejo é presente.

O presente não é tempo,

mas o corpo do espaço.

Tempo é passado e futuro,

que são ausências do espaço.

 

 

 

 

No universo em movimento, o lugar é o seu mover-se.

Todo estar é sempre um ir.

O universo se sustenta no vazio insustentável.

Não há direções, mas apenas o mover, sem rotas e sem lugar.

Todo lugar é mover-se no eterno ir sem lugar.

 

 

Orar é celebrar o estarmos vivos,

a magia das coisas rotineiras.

É deslumbrar-se com o cotidiano

e o mistério do que é familiar.

 

Orar não é pedir, é saborear

a vida que nos foi oferecida.

Orar é compreender que recebemos

o que era necessário sem pedirmos.

 

 

 

Há um olhar além do que se olha.

De tanto se olhar, não mais se vê.

Nem sempre o visto é aquilo que se olha.

 

 

 

Os olhos nos fazem ver.

Ou a visão fez os olhos

para a si mesma se ver

na infinidade das coisas,

que existem porque são vistas?

 

 

Quando morrer, não vou virar fantasma.

Hei de morrer completamente, sem

deixar restos de mim perambulando

em todos os lugares onde andei.

 

Fantasma é alguém que, embora morto,

sempre ressurge em cada invocação.

É a memória que imita a vida,

que já não sendo mais, procura ser.

 

Fantasma é o passado insepulto,

persistência de tudo o que já foi.

É o eco de uma voz que já não é.

 

Morrer completamente é libertar-se

do ser que já cumpriu a sua rota.

Só dessa morte nasce nova vida.

 

 

 

Os vivos são ocupados,

não podem pensar nos mortos.

Quem morre interrompe os vivos.

Deixem os vivos passar.

Por isso, o morto incomoda,

lembra aos vivos seu futuro:

correr, correr... e parar.

 

 

 

Quando eu perder o medo de perder

e o medo também de me perder.

Quando eu perder o desejo de ganhar

e fazer pelo gosto de fazer

e fazer do viver um mero usar.

Quando eu usar sem precisar reter

e nem sequer reter o meu passar.

Quando eu passar, usando, sem reter,

no meu passar não haverá perder,

somente o meu passar, sem me reter.

 

 

Lamento  os erros que não cometi,

as tentações tão cedo rechaçadas,

apetitosos frutos do pecado

que não colhi na minha juventude.

 

Por que surdo me fiz à voz da carne,

sufocando paixões, sem arriscar-me

no turbilhão do instinto e no delírio

das emoções mais fortes e insensatas?

 

Procurei o cilício das renúncias,

o estoicismo brutal da abstinência

e o paladar amargo das virtudes.

 

Neguei o humano para ser divino.

O Céu não conquistei, perdi a Terra.

O que fazer de tudo o que não fiz?

 

 

 

Basta apenas mudares teu olhar

e encontrarás um mundo sempre novo.

Na verdade, o que chamas de rotina

é a imobilidade de teus olhos,

numa só direção da realidade.

 

Se nada é fixo

e tudo é móvel,

o nosso estar é passar.

 

Se a Vida é troca,

o que é que fica

na eterna troca?

 

E o que é a morte,

se tudo é troca?

 

E o que é real,

se tudo passa?

 

Se somos outros

a cada instante,

o que é que somos,

se nada fica

                e tudo está sempre a passar?

 

Se tirarmos as máscaras, o que seremos?

São elas que nos fazem socialmente visíveis.

São a nossa essência formal.

 

Atrás de cada máscara existe a vida

Num contínuo passar indivisível.

 

O social é coleção de máscaras.

Somos as máscaras que usamos e valemos

O que elas valem socialmente.

 

Onde estamos nós sem nossas máscaras?

 

O que somos nós sem nossas máscaras?

 

 

 

Um amigo é um irmão

que não nasceu da mesma carne,

mas que nasceu da confiança,

que o tempo consolidou.

 

O amigo é mais que o irmão,

porque nasceu da escolha

e não de um acaso genético.

 

O amigo é o espelho

do nosso lado melhor:

a nossa face de luz.

 

É a mão que seda a dor

quando a vida nos faz sofrer.

 

É o apoio seguro

dos momentos de fraqueza.

 

Ser amigo é ser igual:

mais gêmeo que o irmão gêmeo

na semelhança do espírito.

 

Quem encontrou um amigo,

deixou de ser solitário.

 

A vida se faz permuta,

a vida se faz partilha

para quem tem um amigo.

 

 

 

O que é necessário é para o hoje.

E somente o hoje é necessário.

O que morreu não é mais necessário.

A vida não precisa do que é morto.

 

 

Solidão é se estar íntimo de si.

Não é a negação dos outros.

 

 

É por falta de amor que existem regras.

As regras são as próteses do agir.

O amor é a ação que não tem regras.

 

 

 

Este momento de felicidade

é a eternidade temporária.

Nada existe maior do que o agora.

 

 

 

Os fatos se tornam sonhos

e sonhos se tornam fatos.

Qual deles é o real?

 O fato que já passou?

              O sonho que ainda é sonho?

 

 

Quando estou só, sou o mundo.

Os outros me deixam só.

O mundo, então, é menor.

Quando eu estou entre os outros,

sou fantasma entre fantasmas:

creio no mundo que vejo.

Neste convívio de mortos,

            fantasmas se pensam vivos.

 

 

Ter não é deter, nem se deter:

É um fluir com coisas e pessoas.

É aquele pegar sem se apegar,

Um tato deslizante sobre o mundo,

A negação de todas as inércias.

O verdadeiro ter é o passar.

 

 

 

Os nossos corpos se tocam.

As nossas mãos se apertam.

Nossos corpos são fornalhas.

Espaço e tempo se fundem

neste fogo indivisível.

Mas quando a paixão se apaga,

de novo o mundo retorna.

Acordamos separados,

pois nunca estivemos juntos.

 

 

 

 

Tudo o que restar é passageiro

e passará, um dia, sem restar.

Por que acumular, se nada fica,

pois a própria saudade é passageira

e a memória de tudo o tempo leva?!

Amigos e parentes se evaporam

e o que somos também se faz fumaça

até nada ficar, nem o lembrar.

Ninguém jamais ficou. Por que ficar

ancorado na esperança de seguir

na memória genética dos pósteros?!

O novo não se faz do que restou.

 

 

Eu me confesso, contrito,

pelo que não pude ser,

pelo que quis, mas não fiz,

pelo que fiz, mas não quis.

Não dói o tempo passado,

porém o tempo perdido

e o que se perdeu no tempo

sem ter sido utilizado.

O pecado que dói mais:

o que não foi cometido,

porque frustrado da glória

de um dia ser perdoado.