Lucius Annaeus Sêneca (4 a.C. - 65 d.C)

 

 

 

 

VRB – Mestres espirituais têm ensinado que a verdade não deve ficar oculta. É possível dizer sempre a verdade em qualquer circunstância?

 

Sêneca – É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la.

 

VRB – Não sabemos se a vida tem uma finalidade. Mas, se não tiver, o ser humano também poderá viver apenas por viver?

 

Sêneca – A vida, sem uma meta, é completamente vazia.

Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.

Um timoneiro que se preze continua a navegar mesmo com a vela despedaçada.

 

VRB – Então, o que significa a vida?

 

Sêneca – Viver significa lutar.

 

VRB – Espinosa afirmava que não há esperança sem medo nem medo sem esperança.

 

Sêneca – Deixarás de temer quando deixares de ter esperança.

 

VRB – Desejos frustrados geram insegurança

 

Sêneca – A supressão dos desejos é também um remédio útil contra o medo.

 

VRB – O medo é um mecanismo de sobrevivência de todos os seres vivos. Os humanos não são exceção.

 

Sêneca – As coisas que nos assustam são em maior número do que as que efetivamente fazem mal, e afligimo-nos mais pelas aparências do que pelos fatos reais.

Justamente aquelas coisas que provocam mais medo são menos temíveis.

 

VRB – No entanto, quase todos nós tememos a morte.

 

Sêneca – Não é da morte que temos medo, mas de pensar nela.

A ignorância, ou melhor, a demência humana é tão grande que alguns são levados à morte justamente pelo medo da morte.

 

VRB – É a morte o fim de tudo, ou o ser humano sobrevive a ela?

 

Sêneca – Depois da morte não há nada e a morte também não é nada.

Cada hora do nosso passado pertence à morte.

Morremos a cada dia, a cada dia falta uma parte da vida.

Morremos como mortais que somos, e vivemos como se fôramos imortais.

 

VRB – Quem impõe medo aos outros, sente-se seguro?

 

Sêneca – Quem é temido, teme: não pode ficar tranqüilo quem é objeto do medo alheio.

 

VRB – O ser humano não apenas sofre, mas sofre pelo medo de sofrer.

 

Sêneca – O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário.

 

VRB – E há pessoas que estão convictas de que são infelizes.

 

Sêneca – Desventurado é aquele que por tal se julga.

Cada um é tão infeliz quanto acredita sê-lo.

 

VRB – O sofrimento passado pode ser reconceituado como proveitosa experiência. É uma estratégia de absorver o mal sofrido, transformando-o em enriquecimento para a nossa vida.

 

Sêneca – Aquilo que foi doloroso suportar torna-se agradável depois de suportado; é natural sentir prazer no final do próprio sofrimento.

 

VRB – Precisamos confiar nas pessoas, porém oscilamos entre a confiança e a desconfiança. Quem afirma que confia, desconfiando - o que é um paradoxo -, na verdade deseja confiar, mas tem medo de sofrer uma decepção.

 

Sêneca – É errado quando acreditas em cada um, mas também é errado quando não acreditas em ninguém.

 

VRB – Não há sentimento mais forte do que o amor. E cada pensador procura defini-lo tal como o sente.

 

Sêneca – O amor não se define; sente-se.

 

VRB – Há algo mais proveitoso para o ser humano do que o amor?

 

Sêneca – A amizade sempre é proveitosa, o amor às vezes é.

 

VRB – A educação é de fundamental importância para a formação do indivíduo e o progresso de um país. Mas, sem uma pedagogia adequada, a educação não alcança sua finalidade.

 

Sêneca – A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida.

Os progressos obtidos por meio do ensino são lentos; já os obtidos por meio de exemplos são mais imediatos e eficazes.

 

VRB – A educação formal não passa de instrução. Não prepara o aluno para a vida, mas apenas para o mercado de trabalho.

 

Sêneca – Não estudamos para a vida, mas para a escola.

 

VRB – Acredita que a educação possa anular as más tendências de uma pessoa.

 

Sêneca – Tudo o que é enraizado e congênito pode ser atenuado pela educação, mas não vencido.

 

VRB – Qual o maior benefício de quem ensina?

 

Sêneca – Ensinando, aprende-se.

 

VRB – Em uma sociedade consumista, as pessoas são levadas a aumentar sempre os seus ganhos para gastar casa vez mais. Qual será outra fonte de receitas para assegurar o equilíbrio financeiro dos que são ainda capazes de resistir à sedução do consumismo?

 

Sêneca – A economia por si só é uma grande fonte de receitas.

 

VRB – Talvez a maior aspiração do homem moderno seja a qualidade de vida e a longevidade sadia.

 

Sêneca – O importante é viver bem, não viver por muito tempo; e muitas vezes vive bem quem não vive muito.

Ninguém se preocupa em ter uma vida virtuosa, mas apenas com quanto tempo poderá viver. Todos podem viver bem, ninguém tem o poder de viver muito.

Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.

 

VRB – A riqueza sempre foi tida como perigosa para os místicos. A pobreza, ao contrário, é louvada e estimulada.

 

Sêneca – É grande quem usa vasos de argila como se fossem de prata, mas não é inferior quem usa vasos de prata como se fossem de argila. Uma alma fraca não sabe suportar a riqueza.

Uma grande riqueza é uma grande escravidão.

É grande quem sabe ser pobre na riqueza.

 

VRB – A pobreza é apenas a privação do que é necessário?

 

Sêneca – Pobre não é aquele que tem pouco, mas antes aquele que muito deseja.

 

VRB – Hoje, o lazer é tão valorizado quanto o trabalho. O ócio pode ser uma atividade criativa. E este é o pensamento do sociólogo Domenico de Masi.

 

Sêneca – O lazer sem as belas-letras é como a morte e a sepultura do homem vivo.

O ócio sem estudos é como a morte e a sepultura do homem vivo.

 

VRB – Porém, a maioria das pessoas faz do lazer apenas diversão ou um descanso prolongado.

 

Sêneca – Existe muita diferença entre uma vida tranqüila e uma vida ociosa.

 

VRB – A ociosidade improdutiva é uma das causas de muitos males.

 

Sêneca – O trabalho espanta os vícios que derivam do ócio.

O trabalho é o alimento das almas nobres.

 

VRB – Preocupamo-nos com o futuro e esquecemo-nos de viver o presente. Contemplamos o passado e valorizamos excessivamente o amanhã

 

Sêneca – Infeliz é o espírito ansioso pelo futuro.

Dedica-se a esperar o futuro apenas quem não sabe viver o presente.

Enquanto protelamos, a vida passa por nós a correr.

Ai daquele que se inquieta com o futuro!

 

VRB – Que conselho você daria para os trânsfugas do presente?

 

Sêneca – Trabalha como se vivesses para sempre. Ama como se fosses morrer hoje.

 

VRB – O amor é somente desejável na juventude? Há uma idade própria para o amor? Ou o amor é sempre belo em todas as fases da vida?

 

Sêneca – Útil é ao mancebo amar, indecoroso ao velho.

 

VRB – As pessoas sempre buscam o prazer, seja ele material ou espiritual. O prazer também pode ser um antídoto contra o sofrimento.

 

Sêneca – É justamente através dos prazeres que nascem as causas da dor.

 

VRB – A arte é uma expressão estética que cria novas formas de percepção da natureza?

 

Sêneca – Toda a arte é imitação da natureza.

 

VRB – É natural ao ser humano a busca pela felicidade. Mas, a felicidade não é algo monolítico. Ela é feita de momentos que nunca se repetem.

 

Sêneca – Toda a felicidade é incerta e instável.

 

VRB – Há pessoas que querem a felicidade a todo custo.

 

Sêneca – Não se pode acreditar que é possível ser feliz procurando a infelicidade alheia.

 

VRB – O nascimento de uma criança é sempre uma esperança para a humanidade. Porém, há muitas pessoas, que, devido às mais diversas circunstâncias, não pensam assim.

 

Sêneca – Até mesmo de um corpúsculo disforme pode sair um espírito realmente forte e virtuoso.

 

VRB – Poucos são aqueles que preferem o sossego de sua privacidade à convivência com a multidão. Eu sou um deles.

 

Sêneca – A companhia da multidão é nociva: há sempre alguém que nos ensina a gostar de um vício, ou que, sem que percebamos, transmite-nos esse vício por completo ou em parte. Quanto mais numerosas forem as pessoas com as quais convivemos, maior é o perigo.

 

VRB – O amor, embora gratificante, pode ser ameaçado pelas intempéries da vida.

 

Sêneca – O amor não pode coexistir com o temor.

 

VRB – Em geral, os grandes sofrimentos são silenciosos.

 

Sêneca – As dores ligeiras exprimem-se; as grandes dores são mudas.

 

VRB – Se, por hipótese, tivermos um destino, poderemos, de algum modo, modificá-lo?

 

Sêneca – O destino conduz o que consente e arrasta o que resiste.

 

VRB – Os sábios ainda se surpreendem com as estultices do ser humano?

 

Sêneca – Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida, e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza, mas a vida é distribuída entre muitos! São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza.

 

VRB – Muitas pessoas encaram a velhice como uma tragédia, uma perda de qualidade de vida, uma sensação de inutilidade, a privação definitiva de todos os prazeres da vida.

 

Sêneca – Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a. Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem. Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres.

 

VRB – O que você aconselharia aos velhos?

 

Sêneca – Agradar-me-ia questionar qualquer um dentre os mais velhos: “Vemos que já atingiste o fim da vida, tens cem ou mais anos. Vamos, faz o cálculo da tua existência. Conta quanto deste tempo foi tirado por um credor, uma amante, pelo poder, por um cliente. Quanto tempo foi tirado pelas brigas conjugais e por aquelas com escravos, pelo dever das idas e vindas pela cidade. Acrescenta, ainda, as doenças causadas por nossas próprias mãos e também todo o tempo desperdiçado. Verás que tens menos anos do que contas. Perscruta a tua memória: quando atingiste um objetivo? Quantas vezes o dia transcorreu como o planejado? Quando usaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste uma boa aparência, o espírito tranqüilo? Quantas obras fizeste para ti com um tempo tão longo? Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estavas perdendo? O quanto de tua existência foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu? Compreenderás que morres cedo.

O que está em causa então? Viveste como se fosses viver para sempre, nunca te ocorreu a tua fragilidade. Não te dás conta de quanto tempo já transcorreu. Como se fosse pleno e abundante, o desperdiças e, nesse ínterim, o tempo que dedicas a alguém ou a alguma coisa talvez seja o teu último dia.

 

VRB – Estamos na época da medicina preventiva. Assim, recomenda-se que as pessoas façam exames periódicos para detectar enfermidades no seu início, aumentando as possibilidades de sua cura.

 

Sêneca – Algumas doenças devem ser curadas com a ignorância do paciente; muitos morreram por conhecer a causa de seu mal.

 

VRB – Mas, uma vez instalada a doença, qual a melhor atitude do enfermo?

 

Sêneca – É parte da cura o desejo de ser curado.

Quando não podemos corrigir alguma coisa, o melhor a fazer é saber suportá-la

 

VRB – Há aqueles que sonham com a liberdade total e, por isso, se revoltam contra as normas sociais.

 

Sêneca – A primeira vítima da falta de temperança é a própria liberdade.

 

VRB – A crueldade é parte integrante da natureza humana ou depende de circunstâncias existenciais desfavoráveis?

 

Sêneca – Toda crueldade resulta de fraqueza!...

 

VRB – O tempo é a panaceia para todos os males? Ou a razão é o melhor remédio?

 

Sêneca – O tempo cura o que a razão não consegue curar.

 

VRB – O poder exerce um grande fascínio sobre quase todas as pessoas. Elas sentem necessidade de se sentirem poderosas.

 

Sêneca – Homem poderoso é aquele que tem poder sobre si mesmo.

 

VRB – O que identifica um sábio?  O que é a sabedoria?

 

Sêneca – O sábio autêntico vive em plena alegria, contente, tranqüilo, imperturbável; vive em pé de igualdade com os deuses. Analisa-te então a ti próprio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperança te aflige o ânimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mantém igual a si mesma, isto é, plena de elevação e contente de si própria, então conseguiste atingir o máximo bem possível ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, não buscas senão o prazer, fica sabendo que tão longe estás da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falharás o alvo se pensas vir a alcançá-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso será o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da angústia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfação e prazer, são apenas motivos para futuras dores.

VRB – O que fizemos do tempo? O que o tempo fez de nós?

Sêneca – Reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.

Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.

Aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar. E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem o tirou.