A REVOLUÇÃO FEMININA

11 de outubro de 1968

 

 

O nosso século presencia o proces­so irreversível de uma das maiores revoluções: a revolução feminina. A mulher que, em passado ainda bem próximo, era uma simples projeção dos interesses masculinos, começa, aos poucos, mas seguramente, a assumir a direção do seu próprio destino, definindo a sua posição na sociedade. A tradição de sua inferioridade foi um estigma, que, infelizmente, ainda não se apagou da me­mória social, revelando os longos séculos de impiedosa dominação masculina.

Na antiga civilização indo-européia, a mulher era considerada propriedade do marido. Não possuía prenome. Não herdava. Não podia divorciar-se, mas a lei permitia que fosse repudiada pelo ma­rido. Quando morria, não restava sequer a sua lembrança, vis­to não merecer nenhum culto especial.

Durante toda a sua vida era tutelada pelo homem, quer na qualidade de pai, quer na de esposo, filhos e parentes. O parto era considerado uma im­pureza e, por isso, o filho tinha de ser purificado mediante um ritual.

Em Roma, segundo informa Plutarco, as mulheres não podiam comparecer perante a Justiça como demandistas, acusadoras e acusadas, nem mesmo na qualidade de testemunhas.

Na Grécia, durante a época clássica, a mulher mereceu alguns pequenos privilégios, como, por exemplo, o de divorciar-se.

Na Índia, até as primeiras déca­das do século XIX, as viúvas, ou eram forçadas a passar o resto da vida em reclusão, ou queimadas vivas na pira funerária do marido. O Código de Manu prescrevia:

“A mulher, durante a infância, depende do pai; durante a juventude, do marido; por morte do marido, depende dos filhos; se não tem filhos, depende dos parentes próximos do marido, porque uma mulher jamais deve governar a sua vontade.”

Os filósofos gregos, em que pese o seu alto espírito humanístico, não proporcionaram à mulher um tratamento melhor. Aristóteles a equiparava ao bárbaro e ao escravo.

Entre os povos da Antiguidade, ela constituía troféu de guerra, após a vitória.

O adultério da mulher, nas legislações mais antigas, era punido com a morte, e o homem, por esse fato, não sofria qualquer punição. Entre os judeus, era condenada à pena de lapidação. No século XVII, nas comunidades puritanas da Nova Inglaterra, a adúltera era marcada com um A vermelho.

A religião judaica considera a mulher responsável pela queda espiritual do homem. O Gênesis relata a terrível maldição que Iavé impôs a Eva, após a expulsão do primeiro casal humano do paraíso: “Multiplicarei grandemente a tua dor e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”. O mênstruo era considerado impureza e, nesse período, tudo o que a mulher tocasse se tornava, também, impuro.

A lenda grega de Pandora é uma réplica da Eva judaica. A curiosidade - a decantada curiosidade feminina - de Pandora levou-a a abrir a caixa proibida e todos os males, que ali se achavam, se espalharam pela Terra.

A religião islâmica ensina que a mulher é desprovida de alma. As huris, que existem no paraíso muçulmano, não são as almas das mulheres que morreram, mas criações de Alá para a satisfação da luxúria dos seus fervorosos beatos. Aliás, diga-se de passagem, que, em certo concílio, os padres da Igreja Ca­tólica discutiram a possibilidade de a mulher possuir uma alma. Felizmente, o resultado lhe foi favorável.

O Cristianismo, também, se colocou ao lado da corrente antifeminista. São Paulo, na sua 1ª Epístola a Timóteo 2:12, doutrina: “Não permito que a mulher ensine nem que exerça autoridade sobre o marido”. Na 1ª Epístola aos Coríntios 11:9, preceitua: “O homem não foi criado por causa da mulher e, sim, a mulher por causa do homem”. E, finalmente, na Epístola aos Efésios, 5:24, adverte que “as mulhe­res sejam em tudo submissas a seus maridos”.

Clemente de Alexandria via na mulher o símbolo da luxúria. Santo Ambrósio e João Crisóstomos apregoavam a sua malignidade, e São Tomás de Aquino afirmava ser da ordem natural das coisas a eterna submissão da mulher ao homem.

Durante a Idade Media, ela foi perseguida como feiticeira e queimada, após julgamento sumaríssimo, nas fogueiras da Inquisição. Em 1484, os dominicanos Henry Kramer e Jacob Sprenger publicaram um guia para a caça às feiticeiras, de­nominado “Malleus Maleficarum” (O Martelo das Feiticeiras), onde se lê, entre outras coisas: “Toda feitiçaria provém da luxúria, que nas mulheres é insaciável”. E conclui: “Portan­to, para saciar seus apetites carnais, elas se associam até com o demônio.” O Papa Inocêncio VIII foi um grande incentivador dessa original caçada, que atingiu o seu ponto culmi­nante na Alemanha. Acreditava-se, na época, que o diabo dei­xava um estigma no corpo da feiticeira. Assim, qualquer si­nal no corpo de uma mulher era prova suficiente para levá-la à fogueira, sob acusação de feitiçaria.

Na Idade Média, a mulher era considerada um animal muito útil, servindo para carregar água, preparar comida, tecer roupas, criar meninos e inúmeras coisas mais, inclusive à sa­tisfação irrecusável do marido. O “Leges Alamannorum”, do Século IX, prescrevia que, se o homem matasse uma jovem, deve­ria pagar ao seu dono a importância de 200 sólidos e, se a mulher fosse madura, 600 sólidos.

No nosso mundo ocidental, até as primeiras décadas do século XIX, a mulher permaneceu, sob as mais diversas formas, subjugada aos interesses masculinos. Em quase todos os setores, ela era considerada inferior ao homem, preconceito este que influiu até no pensamento de filósofos como Schopenhauer e Nietzsche.

A História e a Antropologia nos demonstram a imensa varieda­de dos papéis desempenhados pela mulher nas mais diversas sociedades e nas mais diferentes épocas.

Na África, os tra­balhos mais pesados são atribuídos às mulheres.

No Irã, elas são consideradas frias e calculistas enquanto os homens são emotivos, intuitivos, preferindo a poesia à lógica.

A mulher italiana da Renascença era bastante passional e considerada uma verdadeira virago.

A inglesa da época vitoriana estava proibida de manifestar prazer sexual.

Entre algumas tribos primitivas, a mulher possui todos os atributos do homem ocidental. 

A biologia aponta dezenas de exemplos em que a fêmea é mais forte ou mais dominadora do que o macho, sendo, sexualmente, o parceiro ativo e conquistador.

Conquanto o movimento feminista se iniciasse, verdadeiramente, no século XIX, possui, no passado, notáveis precursores. Platão entendia não existir profissão especificamente mascu­lina ou feminina. No século XII, o médico e filósofo maometano Averróis, renomado intérprete de Aristóteles, argumentava que a mulher não era diferente do homem em qualidade, mas em grau, sendo capaz de desempenhar todas as ocupações masculinas, segundo as circunstâncias. No século XIV, William de Ockham sustentou a opinião de que a mulher possuía uma alma para salvar.

Uma das conseqüências da 2ª Guerra Mundial foi a de introdu­zir a mulher, definitivamente, na vida econômica, colocando-a ao lado do homem na disputa pelas melhores posições na es­trutura social. Nos Estados Unidos da América do Norte, se­gundo informam as estatísticas, 25 milhões de mulheres tra­balham fora de casa, dos quais 3 milhões são mães de filhos ainda pequenos. Em 1959, mais da metade delas possuía independência econômica, apresentando um índice de 33% de mulheres casadas. Em 1958, 35% das mulheres estavam inscritas em todas as instituições de ensino daquele país.

Pouco a pouco, principalmente nos países mais desenvolvidos, o homem vai aceitando a realidade da emancipação total da mulher. Quando, um dia, esta igualdade se transformar em realidade, a humanidade terá iniciado o seu ciclo mais produtivo na sua jornada para o Infinito.