Rabindranath Tagore (1861-1941)

 

VRB – É costume as pessoas se queixarem de que o mundo é mau. E se sentem infelizes por causa disso.

 

Tagore – Compreendemos mal o mundo e depois dizemos que ele nos decepciona.

 

VRB – Vencer, ter êxito na vida é o ideal da maioria das pessoas. Para isso, usam de todos os meios, lícitos ou não, para obter seu objetivo

 

Tagore – Há triunfos que só se obtêm pelo preço da alma, mas a alma é mais preciosa que qualquer triunfo.

 

VRB – Filósofos afirmam que o autoconhecimento é a descoberta de nós mesmos a cada instante.

 

Tagore – Não podes ver o que és. O que vês é a tua sombra.

 

VRB – Uma das coisas que causa medo a certas pessoas é o medo de errar. O seu perfeccionismo não admite o erro que se lhe afigura um fracasso.

 

Tagore – Se fechares a porta a todos os erros, a verdade também ficará lá fora.

 

VRB – Dividimos a nossa atividade social e trabalho e lazer. Para uns, o trabalho é uma necessidade, para outros um dever social. Uns entendem que o trabalho é uma escravidão, outros, que é uma punição divina. E há os que dizem que o trabalho enobrece o homem. No entanto, quando trabalhamos com amor, o trabalho passa a ser um lazer.

 

Tagore – O trabalho só nos cansa, se não nos dedicarmos a ele com alegria.

 

VRB – Falamos tanto de amor! Ele está mais para mistério do que para explicação.

 

Tagore – O amor é um mistério sem fim, já que não há nada que o explique.

 

VRB – Muitas pessoas estão convictas de que o poder de Deus se revela nas grandes catástrofes. Parece-me uma forma truculenta de demonstrar o seu poder, aterrorizando e destruindo os seres humanos.

 

Tagore – O poder infinito de Deus não está na tempestade, mas na brisa.

 

VRB – É a crueldade inerente à natureza do ser humano?

 

Tagore – Os homens são cruéis, mas o homem é bom.

 

VRB – A inteligência é uma faca de dois gumes. É um poder criador, mas também destruidor. Por isso, o futuro da humanidade é sempre incerto.

 

Tagore – A inteligência aguda e sem grandeza tudo fura e nada move.

 

VRB – Queremos liberdade. Mas o tamanho da nossa liberdade exterior preocupa mais o ser humano do que a liberdade interior.

 

Tagore – É tão fácil esmagar, em nome da liberdade exterior, a liberdade interior.

 

VRB – A solidão é refúgio para poucos e terror para muitos.

 

Tagore – O homem mergulha na multidão para afogar o grito do seu próprio silêncio.

 

VRB – O trabalho é ônus para muitos e alegria para poucos.

 

Tagore – Dormi e sonhei que a vida era alegria.

                Acordei e vi que a vida é serviço.

                Agi e, olhem só, serviço era alegria.

 

VRB – A história da humanidade pode explicar a real natureza do ser humano?

 

Tagore – Não existe mais do que uma história: a história do homem. Todas as histórias nacionais não são mais do que capítulos de uma maior.

 

VRB – Pátria é uma idéia perigosa, porque, muitas vezes, provoca a desunião entre os povos.

 

Tagore – A pátria não é a terra. No entanto, os homens que a terra nutre são a pátria.

 

VRB – A obsessão pela riqueza pode inutilizar as melhores qualidades de uma pessoa.

 

Tagore – Envolva em ouro as asas do pássaro e ele nunca mais voará no céu.

 

VRB – Já nascemos como um mundo biológico prévio e em um mundo cultural a que fomos condicionados. Somos, assim, conseqüência de tudo o que deu certo e de tudo o que deu errado na humanidade.

 

Tagore – Levo em meu mundo que floresce, todos os mundos que fracassaram.

 

VRB – A morte é o irmão gêmeo invisível e inseparável do corpo. 

 

Tagore – Como o mar, ao redor da ilha solitária da vida, a morte canta noite e dia sua canção sem fim.

 

VRB – O mais profundo amor não deve perder a sua dignidade perante a recusa da pessoa amada.

 

Tagore – O homem que precisa mendigar amor é o mais mísero de todos os mendigos.

 

VRB – Basicamente, ainda somos o animal que, superficialmente, foi domesticado.

 

Tagore – O homem é pior que a fera, quando nele domina a fera.

 

VRB – A distribuição das riquezas é ainda uma utopia sustentada por idealistas. As promessas dos governantes, em todos os tempos e lugares, são sempre enganosas e os ricos não querem abrir mão de seus bens.

 

Tagore – Levo dentro de mim um peso agonizante: o peso das riquezas que não são dadas aos demais.

 

VRB – Raras são as pessoas que não se revoltam quando insultadas. O revide é uma resposta orgânica condicionada contra a qual a pregação da não-violência quase nunca é suficiente para contê-la.

 

Tagore – A terra é insultada e oferece suas flores como resposta.

 

VRB – O que nos parece fraco pode ter um poder que nos escapa.

 

Tagore – Que pequena é a raiz da relva. Sim, mas ela tem toda a Terra a seus pés.

 

VRB – O fascínio do poder seduz quase todos os que o detém.

 

Tagore – Agradeço por não ser uma das rodas do poder, mas sim uma das criaturas que são esmagadas por elas.

 

VRB – Por que precisamos provar que existimos?

 

Tagore – A vida é a constante surpresa de saber que existo.

 

VRB – A nossa relação com a natureza é uma questão controversa: como preservarmo-nos e como preservá-la?

 

Tagore – Converta uma árvore em lenha e poderás aquecer-te; mas ela já não produzirá flores nem frutos.

 

VRB – O prazer é a única razão de ser dos hedonistas. O que você diria a eles?

 

Tagore – O prazer é tão pouco consistente como a gota do orvalho: brilha e morre.

 

VRB – Há pessoas que se sentem obcecadas para fazer o bem. Sentem remorsos quando não o fazem.

 

Tagore – Aquele que se ocupa demais em fazer o bem não tem tempo para ser bondoso.

 

VRB – O que é a poesia?

 

Tagore – A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos.

 

VRB – Facilmente o ser humano se escraviza às pessoas e às coisas. A essa escravidão deu-lhes os nomes de amor, afeto, zelo...

 

Tagore – O homem em sua essência não deve ser escravo, nem de si mesmo, nem dos outros, mas sim um amante. Sua única finalidade está no amor.

 

VRB – Como poderíamos distinguir as coisas se não houvesse o contraste? Ou o seu contrário?

 

Tagore – O bosque seria muito triste somente com os cantos dos pássaros que cantam bem.

 

VRB – Para muitas pessoas, as perdas materiais, por mínimas que sejam, lhes parecem uma catástrofe pessoal.

 

Tagore – Perdi minha gotinha de orvalho!, diz a flor ao céu do amanhecer, que perdeu todas suas estrelas.

 

VRB – Nada muda um conceito, embora a forma que o exprime seja alterada ou destruída.

 

Tagore – Ainda que lhe arranque as pétalas, não privarás a flor de sua beleza.

 

VRB – O pranto que alivia também ofusca a nossa percepção das coisas.

 

Tagore – Se choras por ter perdido o sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas.

 

VRB – A amizade resiste ao desgaste produzido pela lixa do tempo?

 

Tagore – A verdadeira amizade é como a fosforescência, resplandece melhor quando tudo escurece.

 

VRB – E o amor?

 

Tagore – O amor é o significado final de tudo o que nos rodeia. Não é um simples sentimento, é a verdade, é a alegria que está na origem de toda a criação.

 

VRB – Cada um é o seu próprio caminho. Como é o seu?

 

Tagore – Sou como um caminho noturno, que escuta em silencio os passos de suas recordações.

 

VRB – É insuportável, para quase todas as pessoas, o anonimato de tudo o que fazem.

 

Tagore – A noite abre as flores em silêncio e deixa que o dia receba os agradecimentos.

 

VRB – Quem não gosta de elogios? Poucos, no entanto, são sinceros. É preciso distingui-los da bajulação e da manipulação. É um perigo sermos publicamente elogiados, porque os aplausos podem ser apenas um ato coletivo de cortesia.

 

Tagore – Elogios me acanham, mas secretamente imploro por eles.

 

VRB – Tudo o que nos acontece na vida se inscreve, como tatuagem, em nosso corpo.

 

Tagore – Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver as minhas cicatrizes, e então saberás que eu me feri e também me curei.

 

VRB – A bibliofilia acomete algumas pessoas e possui vários significados. O que é um livro para você?

 

Tagore – Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora.

 

VRB – Somos parte de um todo, mas raros são os que têm consciência da nossa ligação com o universo e do universo conosco.

 

Tagore – A mesma torrente de vida, que dia e noite, percorre as minhas veias, percorre o mundo em cadenciadas maneiras.

 

VRB – A alegria é um sintoma de saúde física e/ou mental. Tudo é alegria quando estamos alegres.

 

Tagore – A vida revela-se ao mundo como uma alegria. Há alegria no jogo eternamente variado dos seus matizes, na música das suas vozes, na dança dos seus movimentos.  A morte não pode ser verdade enquanto não desaparecer a alegria do coração do ser humano.

 

VRB – A fé é a certeza sem provas.

 

Tagore – Fé é o pássaro que sente a luz e canta quando a madrugada é ainda escura.

 

VRB – Quem vê o mundo apenas pelo olho da razão é caolho.

 

Tagore – Uma mente inteiramente lógica é como uma faca completamente cortante. Ela faz sangrar a mão que a usa.

 

VRB – Vivemos ocupados e preocupados com o tempo. Vivemos em função dele e apenas concebemos intelectualmente a intemporalidade.

 

Tagore – Deixe sua vida dançar suavemente nas bordas do tempo como uma gota de orvalho na ponta de uma folha. Deixe sua vida dançar suavemente nas bordas do tempo como uma gota de orvalho na ponta de uma folha.