A PROSTITUIÇÃO

8 de novembro de 1968; 29 de janeiro e 5 de fevereiro de 1971.

 

 

A prostituição é um fenômeno social, que existiu em todos os tempos e em todos os lugares, sob as mais diversas formas de manifestação.

Os hebreus adotaram a prostituição hospitaleira, costume este ainda vigente entre alguns povos contemporâneos.

Na Babilônia, por força da Lei de Nenrod, todas as mulheres eram obrigadas a se prostituir nos altares da deusa Milita, pelo menos uma vez na vida. A prostituição religiosa, que enriqueceu a Babilônia, também era praticada na Fenícia, em Chipre, na Lídia, na Pérsia, no Egito e em Cartago. Ródope foi a mais famosa prostituta egípcia e, segundo a lenda, com a fortuna que acumulou no seu ofício, ajudou a construção da pirâmide de Mikerinos.

Durante a idade áurea da cultura grega, as prostitutas desempenharam um papel preponderante em cidades como Atenas e Corinto, enriquecendo, principalmente, esta última. Conta-se que o próprio Sólon prescrevia a freqüência aos bordéis como único remédio eficaz contra a prática da homossexualidade. Atribui-se, ainda, a Sólon a fundação do primeiro bordel ateniense.

A prostituição na Grécia chegou a tal ponto que uma cer­ta mulher, chamada Nicarita, educava meninas para a profissão de prostituta.

Em Atenas, o Estado tributava a prostituição, e Sólon imaginou uma vestimenta especial para as meretrizes.

A História guardou o nome de famosas hetaíras, ou seja, as prostitutas que se destacavam pela sua intelectualidade e que se tornaram companheiras de celebres artistas, filósofos e guerreiros, como Aspásia, amante de Péricles, Taís, amante de Alexandre Magno, Frinéa, aman­te de Hipérides e famoso modelo de Praxíteles e, final­mente, Laís, que se tornou amante de alguns personagens históricos.

Na Grécia, as “Dionisíacas”, que eram orgias populares, tinham a participação de todas as famílias, sem distinção de sexo e idade.

Em Roma, se comemoravam as "Lupercais" e as "Florais”, no mesmo estilo das "Dionisíacas" gregas. Roma chegou a apresentar o alto índice de 35.000 pros­titutas, destacando-se, entre as mais famosas, Messalina, Cíntia, Lésbia e Clódia.

Durante os tempos de Tibério, Calígula e Cláudio, a prostituição atingiu o auge, inclusive com a instalação de lupanares no palácio dos Césares. Catão, no V século a.C., instituiu a primeira censura contra a atividade das prostitutas, e o escritor satírico Marco Valério Marcial procurou ridicularizá-las nos seus escritos. Entre as mais célebres cor-tesãs romanas, se destacou Teodora, que se tornou esposa do imperador Constantino.

Na Idade Média, a profissão de prostituta estava regularizada na Europa e sujeita, assim, à tributação. A própria Igreja Católica arrecadava rendas das casas alugadas aos proprietários de bordéis. A prostituta, todavia, era obrigada a usar marcas distintivas nos ombros ou no braço e, em algumas cidades, tinham, como função, receber visitantes ilustres, prestar-lhes as honras de estilo e participar, ativamente, das festividades públicas.

As prostitutas medievais seguiam os exércitos e estavam subordinadas à disciplina de um único homem, que era chamado de “sargento das prostitutas”. A prostituição nos conventos medievais constituiu uma das páginas mais escandalosas da civilização ocidental,

Em Roma, no tempo do Papa Sixto IV, o número de meretrizes atingiu a cifra de 7.000 para uma população de 70.000 habitantes, percentual este jamais ultrapassado pelas metrópoles modernas.

Na China, por volta de 720 a.C, o Estado se preocupou com a regulamentação da atividade das prostitutas e, no Japão, em 1617, criou-se um bairro especial para elas, chamado Yoshivara, cujo luxo foi descrito por inúmeros viajantes,

Em Paris, os estudantes e as prostitutas, por causa de suas badernas, tornaram-se uma permanente ameaça à ordem pública. No século XIII, Luis IX (São Luis), mo­narca francês, resolveu combatê-las. Assim, em 1254, baixou o célebre Edito das Prostitutas, onde ameaçava de confisco de bens e expulsão da cidade aquelas que não renunciassem à sua profissão. Sorbonne, ao tempo deste soberano, ficou sendo conhecido como o bairro dos estudantes pobres e das prostitutas arrependidas. No século XIV, elas ficaram confinadas em determinadas zonas da cidade, e foram obrigadas a usar trajes especiais para distingui-las. Passaram a usar uma franja vermelha no ombro esquerdo, quando saíam a passeio e, semanalmente, eram submetidas a exame médico.

No século XVII, na França, as princesas Margarida de Borgonha, Joa­na de Poitiers e Branca de La Marche atraíam mancebos para as suas secretas bacanais na Torre de Nesle e, depois, mandavam matá-los, jogando seus corpos nas águas do rio Sena.

As mais famosas cortesãs francesas, durante o reinado de Luis XIII, foram Luisa Labé, Ninon Lenclos e Marion de Lorme, que reuniram, em torno de si, as figuras mais representativas da elite intelectual, artística e política da época. No campo político, se destacou Madame Pompadour, que exerceu poderosa influência sobre o rei Luis XV. Foi Pompadour quem criou o famoso bordel de mulheres jovens, chamado o Ermitage.

As cortesãs italianas da Renascença imitaram, em cultura, as hetaíras gregas. Entre elas, se tornaram famosas Impéria, que morreu riquíssima e cercada de grande prestígio, Túllia d'Aragona, Veronica Franco, Camilla de Pisa, Alessandra Fiorentino e Lucrezia de Aretino.

Sob o reinado, de Jorge III, na Inglaterra do século XVIII, foi criado um bordel especialmente para a Corte. Nos séculos anteriores, esse expediente era dispensável, pois se escrevia na porta de um aposento: “quarto das prostitutas do rei”. Entre as cortesãs inglesas se destacaram Madame Cornelys, Miss Chudleigh e Mrs. Pendergat.

Entre os séculos XVIII e XIX, floresceram, na Inglaterra, os prostíbulos de flagelação. E, até o século XIX, Bruxelas e Antuérpia se notabilizaram pelo comércio de escravas brancas.

Na Alemanha, durante a época de Frederico Gui-lherme II, existia um segu­ro municipal, de caráter compulsório, para as prostitutas, denominado de “Caixa de Salvação das Prostitutas”.

Na Rússia, ficaram célebres os bordeis de Dresdenska e Riedl, nos tempos de Frederico II e de Catarina II, respectivamente.

No século XIX, na França, o famoso Palais Royal foi considerado o maior bordel de sua época .

Na Revolução Francesa, as prostitutas subornaram os soldados, mostrando-lhes os corpos desnudos e prometendo entregar-se a eles, se passassem para o lado dos revolucionários, o que, de fato, aconteceu. As mulheres, comandadas por Théroigne do Méricourt, que foi amante de Desmoulins, Danton, Barnaves e Mirabeau, participaram das execuções e sevícias e, segundo os comentaristas da época, influíram, poderosamente, nos massacres e torturas cometidos em nome da Revolução.

No século XVIII, Rétif de la Bretonne, escritor versátil e profundo estudioso da prostituição, afirmou que, nos grandes centros, ela era necessária à conservação moral de certas mulheres. Em 1840, existiam, em Paris, 42.700 prostitutas registradas para uma população de 900.000 habitantes. A Belle Époque prestigiou as prostitutas e os lupanares, através de escritores e artistas famosos, como Baudelaire, Zola, Maupassant, Toulouse-Lautrec, Van Gogh e Degas. Entre as cortesãs desta época se destacaram a bela Otero e Casque d'Or.

Na Rússia, em 1918, a prostituição foi proibida e os bordéis, fechados. O mesmo ocorreu na Alemanha, em 1927, e a Liga das Nações, em 1929, condenou todos os países que toleravam, oficialmente, os prostíbulos.

A prostituição é um problema social, cuja complexidade reside na multiplicidade de suas causas. As duas guerras mundiais agravaram ainda mais certas facetas deste problema. Tudo indica que o fator econômico se­ja um dos mais preponderantes.