OS PRECONCEITOS

28 de fevereiro de 1969

 

 

Diz a Declaração Universal dos Direitos do Homem, no seu artigo 12: “Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São do­tados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de  fraternidade”.

No século XVIII, a Revolução Francesa adotara, como princípio fundamental o lema: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. E o Cristianismo se alicerçou no ideal universalista do “Amai-vos uns aos outros”.

Apesar de tudo isso, o homem ainda se relaciona com o seu semelhante de maneira preconceituosa de conformidade com o seu sexo, sua cor, suas idéias e sua nacionalidade. A possibilidade de um entendimento fraterno entre os homens se reduz, assim, a uma eventual tolerância, quase sempre inconsistente e superficial.

Segundo a lenda bíblica (Gênesis 3:16), quando Deus expulsou o primeiro casal do paraíso, disse à mulher: “Multiplicarei grandemente a tua dor e a tua conceição; com dor terás filho; e o teu desejo será para o teu marido e ele te dominará”.

No mundo ocidental de hoje, a mulher forceja para alcançar a sua definitiva emancipação e revogar, assim, a imaginária maldição divina. A dominação masculina, aos poucos, vai cedendo terreno, reconhecendo, na mulher, uma pessoa humana e uma realidade histórica. Todavia, subsistem, no inconsciente masculino, os resquícios feudais de sua antiga posição hierárquica em relação à mulher. No íntimo, a maioria dos homens não admite que ela seja diferente daquele estereótipo a que se acostumaram.

Conforme o Gênesis (9:25), Noé amaldiçoou seu filho Canaã, porque este zombara dele, ao vê-lo desnudo e embriagado: “Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos”. Segundo alguns estudiosos, os descendentes de Canaã eram homens negros. No século XIX, Gobineau e Chamberlain pregaram o princípio da supremacia da raça ariana, que, mais tarde, se tornou um dos alicerces da filosofia nazista. Aliás, desde o século XV, o continente africano vinha sendo explorado pelo colonialismo europeu. A luta pela emancipação do negro, em nossos dias, vem assumindo aspectos dramáticos, principalmente em alguns Estados norte-americanos. A partir do término da 2ª Guerra Mundial, ou seja, em 1945, se iniciou um movimento nacionalista africano, com o objetivo de tornar independente várias nações daquele continente da incômoda tutela européia.

Ainda no Gênesis (13:15-16) Iavé fez uma promessa a Abraão: “Porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti e a tua semente para sempre. E farei a tua semente como o pó da terra; de maneira que se alguém puder contar o pó da terra, também a tua semente será contada.” Israel recebeu, assim, a promessa de fecundidade genealógica e de vocação cosmopolita. O Velho Testamento é o registro de todas as peripécias por que passou o povo judeu. No século X a.C., Israel atingiu o seu fastígio durante o reinado de Sa­lomão e Davi. Em seguida, veio a debacle com a divisão do povo hebreu em reino de Israel e reino de Judá, que foram destruídos, respectivamente, pelos assírios e por Nabucodonosor.

Durante séculos, o povo hebreu viveu disperso pelo mundo e hostilizado em alguns países. Finalmente, em 1948, sob a chefia de David Ben-Gurion, o Estado de Israel se tor­nou uma realidade, constituindo, atualmente, um dos países economicamente mais de­senvolvidos no concerto das nações.

O homossexual foi veementemente repudiado pelo apóstolo Paulo, na sua 1ª Epístola aos Romanos (1:27): “Semelhantemente, os homens também deixando o contacto natural da mulher, se inflamaram mutuamen­te em sua sensualidade, cometendo torpezas, homens com homens, e recebendo em si mesmo a merecida punição do seu erro.” Exaltado, hos­tilizado, ou apenas tolerado, de conformidade com os tempos e lugares, o homossexual é, ainda, em nossos dias, motivo de acirradas polêmicas. O desenvolvimento da endocrinologia e da terapêutica hormonal tem contribuí­do para modificar a fisiologia daqueles que, subjetivamente, se sentem incompatibilizados com o seu corpo. A legislação inglesa reconheceu a validade jurídica de suas opções amorosas. O resto do mundo ocidental permanece, no entanto, em expectativa quanto ao problema de sua integração social.