Paul Valéry (1871-1945)

 

VRB – A solidão é, às vezes, uma necessidade. O momento de privarmo-nos temporariamente da companhia dos outros.

 

Paul Válery – Um homem só está em má companhia.

 

VRB – Em qualquer circunstância?

 

Paul Válery – Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade.

 

VRB – Fundamentalmente, não há ninguém que nos preserve contra a solidão. Pessoas, nesta circunstância, são analgésicos.

 

Paul Válery – Deus criou o homem e, não o achando bastante solitário, deu-lhe uma companheira para fazê-lo sentir melhor a sua solidão.

 

VRB – Penso que, na maioria das vezes, a maldade resulta da infelicidade. Quem é feliz, dificilmente pratica uma ação que possa prejudicar alguém.

 

Paul Válery – É por vezes um espinho oculto e insuportável, que temos cravado na carne, que nos torna difíceis e duros para com toda a gente.

 

VRB – Todos os espiritualistas afirmam que o eu é a fonte de todos os nossos problemas e que é preciso “matar” o eu para sermos felizes.

 

Paul Válery – O eu é odioso... mas trata-se do eu dos demais.

Pois se o eu é odioso, amar ao próximo como a si mesmo torna-se uma atroz ironia.

A vaidade, grande inimiga do egoísmo, pode engendrar todos os efeitos do amor ao próximo.

 

VRB – A história não é confiável. O que podemos aprender com ela, se cada fato é interpretado diferentemente pelos historiadores?

 

Paul Válery – A história justifica tudo quando se quer. Ela não ensina rigorosamente nada, pois contém tudo e dá exemplos de tudo.

Nada, na história, serve para ensinar aos homens a possibilidade de viverem em paz. É o ensino oposto que dela se destaca - e se faz acreditar.

 

VRB – O importante é sermos livres de nossas idéias. O apego a elas é uma forma de escravidão.

 

Paul Válery – Nem sempre sou da minha opinião.

 

VRB – Você é um poeta. Mesmo assim, pergunto: o que é a ciência?

 

Paul Válery – Só se pode chamar ciência ao conjunto de receitas que funcionam sempre. Tudo o resto é literatura.

 

VRB – A observação é de fundamental importância na ciência. Uma observação errônea leva à construção de uma hipótese errônea.

 

Paul Válery – Um fato mal observado é mais pernicioso que um raciocínio errado.

 

VRB – O amor é um dos temas preferidos por poetas e filósofos. Mas, nem sempre é louvado. Qual é sua opinião?

 

Paul Válery – O amor é como a lua: quando cresce diminui.

Amar é ser estúpidos juntos.

 

VRB – A poesia, especificamente, pode ser um bálsamo para o sofrimento?

 

Paul Válery – Em poesia, trata-se, antes de mais nada, de fazer música com a própria dor, a qual diretamente não importa.

 

VRB – As pessoas são tentadas a admitir que aquilo que é tido como certo por várias gerações é indubitavelmente verdadeiro.

 

Paul Válery – O que tem sido acreditado por todos, e sempre, e em toda a parte, tem toda a probabilidade de ser falso.

 

VRB – Um fato, para nós, não é apenas o percebido, mas o interpretado. Por isso, é diferente, em maior ou menor grau, para cada indivíduo

 

Paul Válery – Dizem-nos por vezes - é um fato - inclinai-vos perante os fatos. Ou seja, «acreditai».

 

VRB – Geralmente quem tem poder abusa do poder

 

Paul Válery – O poder sem abuso perde o encanto.

 

VRB – A pintura é uma representação do presente e do passado, vista de maneira diferente pelas mais diversas escolas.

 

Paul Válery – Um pintor não devia pintar o que vê, mas o que será visto.

 

VRB – As pessoas não têm apenas uma face: ela muda em cada situação específica nas relações interpessoais. Mas, quase sempre, a face apresentada é verdadeira. É uma face ad hoc .

 

Paul Válery – Os homens distinguem-se por aquilo que mostram e assemelham-se por aquilo que escondem.

 

VRB – Penso, logo existo, como disse Descartes?

 

Paul Válery – Ora penso, ora existo.

 

VRB – Só conhecemos os seres vivos. Mas, as definições sobre o que é a vida não são satisfatórias.

 

 Paul Válery – A vida é a conservação do possível.

 

VRB – De um modo geral, o que são as revoluções sociais para a humanidade?

 

Paul Válery – A revolução faz em dois dias a obra de cem anos e perde em dois anos a obra de cinco séculos.

 

VRB – Como você definiria o belo?

 

Paul Válery - A definição de belo é fácil: é aquilo que desespera.

O natural é aborrecido.

 

VRB – O conhecimento, às vezes, é um empecilho à ação. Quem muito sabe, nem sempre está preparado para agir.

 

Paul Válery – Quantas coisas é preciso ignorar para agir!

 

VRB – Porém, em alguns casos, a simples ação traz resultados indesejáveis.

 

Paul Válery – A ação é uma loucura passageira.

 

VRB – Há pessoas que sonham com a glória. Tudo fazem para serem glorificados. Em que consiste a glória?

 

Paul Válery – A glória consiste em tornarmo-nos um assunto, ou um substantivo comum, ou um epíteto....

 

VRB – O Estado é um mal necessário. Talvez seja utópico dizer: por enquanto... No mínimo, é uma ficção duradoura. 

 

Paul Válery – Se o Estado é forte, esmaga-nos. Se é fraco, perecemos.

Um Estado é tanto mais forte quanto pode conservar em si mesmo o que vive e age contra ele.

 

VRB – Temos necessidade de ordem: é uma tentativa de compreender o universo. Talvez uma necessidade de segurança. A impressão de que se soubermos sobre as coisas, poderemos dominá-las. Mas, por outro lado, e paradoxalmente, temos um certo fascínio pelo caos, pela desordem, como forma de darmos férias ao habitual.

 

Paul Válery – O nosso espírito é feito de desordem, acrescido de um desejo de ordenar as coisas.

 

VRB – Necessitamos também dos contrários. Eles garantem o equilíbrio do mundo.

 

Paul Válery – O mundo só vale pelos radicais e só dura graças aos moderados.

Os pequenos fatos inexplicados contêm sempre algo com que deitar abaixo todas as explicações dos grandes fatos.

Estamos ameaçados por duas calamidades: a ordem e a desordem.

Se a regra é a desordem, pagarás por instituir a ordem.

 

VRB – Arte é criatividade. Não me parece que ela tenha um objetivo.

 

Paul Válery – O objetivo profundo do artista é dar mais do que aquilo que tem.

 

VRB – As pessoas não se conformam com a morte e procuram um significado para ela.

 

Paul Válery – A morte fala-nos com uma voz profunda para não dizer nada.

A morte rouba toda a seriedade à vida.

 

VRB – Apesar de ser uma condição de sobrevivência de todos os seres vivos, o egoísmo é combatido e desestimulado.

 

Paul Válery – Todos os homens fecundos da natureza se desenvolvem de uma maneira egoísta; o altruísmo humano, que não é egoísta, é estéril.

 

VRB – Costuma-se falar mal dos empresários como se fossem pessoas que têm um só objetivo: enriquecerem cada vez mais. No entanto, sempre houve mecenas, que utilizaram parte de seus recursos para incentivar a cultura em suas variadas manifestações. Como você definiria essas pessoas?

 

Paul Válery – Um homem de negócios é um cruzamento entre um dançarino e uma máquina de calcular.

 

VRB – Os tolos e os inteligentes invariavelmente se comportam como são em todas as circunstâncias?

 

Paul Válery – É um grande erro especularmos acerca da tolice dos tolos e um erro ainda maior fiarmo-nos na inteligência dos inteligentes. Eles afastam-se uma vez por dia da sua natureza.

 

VRB – Você admite que o ser humano sabe potencialmente todas as coisas?

 

Paul Válery – Todos os homens sabem uma quantidade prodigiosa de coisas que ignoram saber. Sabermos tudo quanto sabemos? Essa simples investigação esgota a filosofia.

 

VRB – Se soubéssemos tudo, perderíamos o prazer do inédito.

 

Paul Válery – Se tudo fosse claro, tudo nos pareceria inútil.

 

VRB – A meditação é uma ajuda indispensável para o autoconhecimento. Concorda?

 

Paul Válery – A meditação é um vício solitário que cava no aborrecimento um buraco negro que a tolice vem preencher.

 

VRB – E filosoficamente falando?

 

Paul Válery – Meditar, em filosofia, é encaminharmo-nos do conhecido para o desconhecido, e aqui defrontar o real.

 

VRB – A felicidade é uma condição que varia de pessoa a pessoa.  O que você pensa a respeito?

 

Paul Válery – O homem feliz é aquele que ao despertar se reencontra com prazer e se reconhece como aquele que gosta de ser.

 

VRB – Presumimos que conhecemos com clareza os nossos amigos, apesar de sabermos que tudo é mutável.

 

Paul Válery – Os corações dos nossos amigos são com frequência mais impenetráveis que os dos inimigos.

 

VRB – Acredita-se que a força pode ser a solução para muitos problemas. É a lei do mais forte.

 

Paul Válery – A fraqueza da força é só crer na força.

 

VRB – O presente é sempre a oportunidade de reinterpretar o passado e escolher as melhores opções para o futuro.

 

Paul Válery – O passado, mais ou menos fantástico, ou mais ou menos organizado posteriormente, age sobre o futuro com um poder comparável ao do próprio presente.

 

VRB – Amar a si mesmo. Que mal há nisso? Poucas são as pessoas que amamos como a nós mesmos. Podemos, no entanto, ser gentis com os outros. E isso já os agrada.

 

Paul Válery – Agradar a si mesmo é orgulho; aos demais, vaidade.

 

VRB – Dá-se um valor exagerado à seriedade. A pessoa séria é tida como confiável e ponderada. Seriedade, para mim, é carência de bom humor.

 

Paul Válery – Um homem sério tem poucas idéias. Um homem de idéias nunca está sério.

 

VRB – Ser é agir. Mesmo quando dormimos, continuamos agindo psiquicamente.

 

Paul Válery – Como fazer para não fazer nada? Não conheço no mundo nada mais difícil. É um trabalho de Hércules, um aborrecimento de todos os instantes.

 

VRB – Os grandes homens sempre são lembrados. Os seus nomes se preservam do esquecimento. O que é um grande homem?

 

Paul Válery – Um grande homem é aquele que morre duas vezes. Primeiro, como homem; e depois, como grande homem.

 

VRB – A mentira tem múltiplas faces. A verdade, uma só. Então, por que é tão difícil encontrar a verdade?

 

Paul Válery – Mesmo a mentira mais complicada é mais simples que a verdade.