Pablo Picasso (1881-1973)

 

VRB – O que é a arte? Para mim, ela é outra versão da realidade.

 

Picasso – A arte é uma mentira que diz a verdade

 

VRB – Afirma-se que a arte é uma forma de catarse, que liberta o artista de seus problemas existenciais.

 

Picasso – Pintar é libertar-se, e isso é o essencial.

 

VRB – O que é um artista? Uma pessoa excêntrica, perdida no seu mundo interior e, por isso, desatento e desinteressado em relação à vida social?

 

Picasso – O que você acredita que é um artista? Um imbecil que só tem olhos se for pintor, ouvidos se for músico, ou uma lira em todos os andares do coração se for poeta? Muito pelo contrário, ele é ao mesmo tempo um ser estético, constantemente em alerta diante dos dilacerantes, ardentes ou doces acontecimentos do mundo, refletindo-os na forma como realiza sua obra. Como seria possível desinteressar-se dos outros homens? Graças a qual indolência, dissociar-se de uma vida que eles lhe trazem de modo tão abundante? Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo.

 

VRB – Qual o maior obstáculo para a livre manifestação da criatividade?

 

Picasso – O maior inimigo da criatividade é o bom senso ...

 

VRB – O bom senso é pragmático. É uma adaptação do ser humano à sociedade em que vive. É um censor do nosso modo de ver as coisas dentro de um padrão coletivo. E a criatividade é uma ruptura da realidade convencional.

 

Picasso – Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.

 

VRB – Há artistas e escritores que negam a inspiração e que o seu trabalho depende de sua experiência e esforço em seu ofício. Se existe inspiração, ela ocorre espontaneamente ou pode ser provocada?

 

Picasso – Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando.

 

VRB – Qual a relação, se é que existe, entre a pintura e a literatura?

 

Picasso – A pintura nunca é prosa. É poesia que se escreve com versos de rima plástica.

 

VRB – A pintura é uma representação da realidade ou da subjetividade do artista.

 

Picasso – Pinto as coisas como as imagino e não como as vejo.

 

VRB – Haveria uma influência psicológica afetando a percepção de cada pessoa em relação a determinados quadro numa exposição de pinturas com artistas diferentes?

 

Picasso – Um quadro bom no meio de quadros maus acaba por se transformar num mau quadro. E um quadro mau no meio de quadros bons acaba por se tornar um bom quadro.

 

VRB – A impressão de beleza de um quadro resulta na riqueza de cores?

 

Picasso – Na realidade trabalha-se com poucas cores. O que dá a ilusão do seu numero é serem postas no seu justo lugar.

 

VRB – Como ocorre a composição de um quadro? As regras estéticas convencionais podem ser violadas para a criação de um novo padrão de beleza?

 

Picasso – Dantes um quadro era uma soma de adições. Comigo um quadro é uma soma de destruições.

 

VRB – E quais as precauções neste processo criativo?

 

Picasso – É preciso ter muito cuidado com o que se faz, pois é justamente quando nos julgamos menos livres que estamos a ser mais livres.

 

VRB – O amor é a mais intensa experiência do ser humano?

 

Picasso – No mundo nada mais existe a não ser o amor. Qualquer que ele seja.

 

VRB – A arte, como todas as coisas, é afetada pela temporalidade?

 

Picasso – Não há, na arte, nem passado nem futuro. A arte que não estiver no presente jamais será arte.

Cansei-me de ser moderno. Quero ser eterno.

 

VRB – Como você se relaciona com os quadros que já pintou? Você ainda os vê como durante a sua criação?

 

Picasso – O que já fiz não me interessa. Só penso no que ainda não fiz.

 

VRB – A pintura é uma experiência. Há limites para ela?

 

Picasso - Em pintura pode-se experimentar tudo. Tem-se mesmo esse direito. Com a condição de nunca se recomeçar.

Só um sentido de invenção e uma necessidade intensa de criar levam o homem a revoltar-se, a descobrir e a descobrir-se com lucidez.

Não devemos ter medo de inventar seja o que for. Tudo o que existe em nós existe também na natureza, pois fazemos parte dela.

 

VRB – A liberdade decorre sempre da supressão de obstáculos sócio-culturais, impeditivos da plenificação da individualidade?

 

Picasso - Suprimir os obstáculos não é dar liberdade, mas sim permitir o desregramento, que conduz à desestruturação, à monotonia, ao nada.

 

VRB – Acha que houve evolução como ser humano na sua vida de artista?

 

Picasso – Eu não evoluo, sou.

 

VRB – Está sempre a procura de novas formas para expressar sua arte?

 

Picasso – Eu não procuro. Descubro.

Em arte, procurar não significa nada. O que importa é encontrar.

 

VRB – Para cada tema há sempre uma verdade?

 

Picasso – Se apenas houvesse uma única verdade, não poderiam pintar-se cem telas sobre o mesmo tema.

 

VRB – O que você faz para aprimorar o seu processo criativo?

 

Picasso – Sempre faço o que não consigo fazer para aprender o que não sei.

 

VRB – O estilo que marca a individualidade estética de um pintor, de um compositor ou de um poeta pode, também, engessar a sua criatividade em uma forma definitiva?

 

Picasso – Estilo é uma coisa que nasce quando a pessoa morre. Não seja estilista de si mesmo, varie na sua criação

 

VRB – A morte talvez seja o maior tema existencial. Para a quase totalidade das pessoas é a maior perda que podem experimentar.

 

Picasso – A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nos enquanto vivemos.

 

VRB – Para o artista, existe essa entidade abstrata a que se deu o nome de mulher ideal? Ou isso pode ser um pretexto para o exercício de sua imaginação e criatividade?

 

Picasso – Um homem só encontrou a mulher ideal quando olhar no seu rosto e ver um anjo, e tendo-a nos braços ter as tentações que só os demônios provocam.

 

VRB – Parece-me que o desenho é uma expressão estética mais leve do que a pintura.

 

Picasso – O desenho não é uma brincadeira. É muito grave e misterioso o ato de que um traço possa representar um ser vivo. Não apenas sua imagem, mas, sobretudo, aquilo que ele representa, aquilo que ele realmente é. Que maravilha! Não seria isso mais surpreendente do que todas as prestidigitações e 'coincidências' do mundo?
 

VRB – A Guerra Civil Espanhola, que inspirou a pintura de seu mural conhecido pelo nome de Guernica, influiu na sua percepção estética em relação à guerra?


Picasso – Eu não pinto a guerra, por que não sou o tipo de pintor que, como um fotógrafo, vai à cata de um tema. Mas não há dúvida de que a guerra existe nos meus quadros.
 

VRB – O artista se sente sempre livre no seu processo criativo?


Picasso – O artista não é tão livre quanto se poderia crer. Isso também é verdade para os retratos que fiz de Dora Maar. Para mim, é uma mulher que chora. Durante anos, pintei-a sobre formas torturadas, não por sadismo ou por prazer. Eu apenas seguia a visão que se me impunha. Era a realidade profunda de Dora. Sabe, um pintor tem limites, e nem sempre são aqueles que se imagina.

 

VRB – Houve alguma influência da fotografia por ela exibir a realidade de um modo mais objetivo do que a pintura?
 

Picasso – Quando vemos o que pode ser expresso pela foto, nos damos conta de que tudo aquilo não pode mais ser preocupação da pintura... Por que o artista insistiria em realizar aquilo que, com a ajuda da objetiva, pode ser tão bem feito? Seria uma loucura, não? A fotografia chegou na hora certa para liberar a pintura de qualquer literatura, anedota e arte do tema. Em todo caso, um certo aspecto do tema pertence, daqui por diante, ao campo da fotografia... Não deveriam os pintores aproveitar sua liberdade reconquistada para fazer outra coisa? Seria muito curioso fixar fotograficamente, não as etapas de um quadro, mas suas metamorfoses. Talvez percebêssemos por quais caminhos o cérebro envereda para a concretização de seus sonhos. Entretanto, é realmente muito curioso observar que, no fundo, o quadro não muda, que a visão inicial permanece quase intacta, apesar das aparências. Muitas vezes vejo uma luz e uma sombra que pus no meu quadro e empenho-me em quebrá-las, acrescentando uma cor que crie um efeito contrário. Quando essa obra é fotografada, percebo que aquilo que havia introduzido para corrigir minha primeira visão desaparece, e que, definitivamente, a imagem dada pela fotografia corresponde a minha primeira visão, antes das transformações trazidas contra minha vontade.