O ser, o agora, o sempre

         

 

VALTER DA ROSA BORGES. O SER, O AGORA, O SEMPRE. 1996.

 

 

 

SOLIDARIEDADE

 

O unguento da mão afetuosa

seda melhor a dor e acalma o medo

do que todo arsenal da medicina.

 

O amor substitui todas as técnicas.

 

Estar ao lado é o melhor dos tônicos

e sedativo em todos os tormentos.

 

 

 

 

INCÓGNITO

 

 

Quem morre não é, está onde

não existe qualquer lugar.

 

Deixou de ser quando e como

e do seu ser não se sabe

além do que antes foi.

 

Quem morreu, saiu do tempo:

não foi, não é, nem será.

 

 

 

 

PAUSA

 

 

O moribundo é o maior

de todos os seres vivos.

 

Iniciou-se na morte.

 

Pontífice de dois mundos,

todo seu ser é discurso,

de intraduzíveis segredos

de coisas que nunca soube.

 

Seus olhos agora enxergam

como jamais enxergaram.

 

Mais que homem, é pausa

entre o  ser e o não-ser.

Um deus nascendo da morte

da crisálida humana.

 

E, de repente, o mistério

do não-ser invade o quarto

 

Só existe agora o corpo

como estação solitária.

 

 

 

O QUE SABES?1

 

Se sabes o que é a vida,

sabes o que é a morte

 

Se sabes o que é a morte,

sabes o que é a Vida.

 

Qual das duas tu sabes?!

 

 

 

 

A INESPERADA

 

Um dia, ela virá e nos veremos,

como se há muito já nos conhecêssemos.

Íntima de mim a cada instante,

embora oculta em todas minhas mortes,

nos meus pequenos egos celulares.

Eu que a temo, pois não a conheço

(seu rosto é vario nos amigos mortos)

talvez não me amedronte à sua vinda

e até me agrade deste encontro único,

onde o tempo, de súbito, se acaba.

 

 

 

 

TEMPOS

 

Há um tempo de fazer,

um tempo de desfazer,

um tempo de procurar,

um tempo de desistir.

 

Há um tempo de crescer,

outro de diminuir,

um tempo de se apegar,

outro, de restituir.

 

Há um tempo de ser mais

e outro de não mais ser.

 

 

 

MEDITAÇÕES SOBRE O AGORA

 

 

Quem passou? O que passou?

Tudo o que existe é agora.

 

O agora é sem bagagem:

tudo o mais é fardo inútil.

 

Somente o agora é sólido.

 

A ilusão da permanência:

o oficio de embalsamar

os cadáveres do tempo.

 

Não há dois num só agora:

cada qual se relaciona

com o passado dos outros.

 

Nunca fomos, nem seremos:

o nosso quem é agora.

 

 

 

AQUI

 

Na ausência, o amor aumenta

a presença dos ausentes:

o longe se faz aqui.

 

Mas o aqui dos desamados

é mais longe que as galáxias.

 

 

 

DORMENTES

 

Para muitos, a vigilia

é uma forma de dormir.

 

Quem acordar, verá.

 

 

 

VISGO

 

Nada existe que nos prenda:

todo visgo está em nós.

 

 

  

INCOMPLETUDE

 

O homem não acontece

completamente no mundo:

só pouco do que ele quis

e  muito do que não quis.

 

O que de nos não se fez

lateja como um tumor.

 

 

 

TRAJETÓRIA

 

Do pouco que me resta fica o rosto,

agonizando em luz no meu poente.

Tantos caminhos que eram labirintos

marcaram-me de rugas a epiderme.

 

De tudo o que não fui e o que já fui

inventario cinzas. Onde o sonho

que crepitava na fogueira antiga

do corpo inconsumível como a sarça? !

 

Trocar o sol por múltiplas estrelas!

Pupilas dilatadas pela noite

à procura da luz que já não é.

 

Creio na alvorada em meio às sombras.

Ancoro em minha cama. Entro no sono

e descubro que nunca estive aqui.

 

 

 

MATINAL

 

Gosto de ouvir bem alto este silêncio.

O domingo servido como pão

claro e quente na mesa de madeira.

O saciado olhar nos coisas simples.

A estrada é mais humana sem ninguém.

O amor é mais total sem objeto.

Encontro coisas se não as procuro.

Enxergo muito quando apenas olho.

Fico completo quando estou sozinho.

Na solidão conheço meu espaço,

as fronteiras reais do próprio ser.

Nada me falta quando sou eu mesmo

na vastidão da minha pequenez.

 

 

 

ENCONTRO

 

Deus nasce todo dia em cada homem

e aprende conosco o que Ele sabe.

Deus se deixa encontrar a cada instante,

sem ser chamado, sem ser procurado,

nos terrenos mais férteis ou mais sáfaros,

em meio à oração ou à heresia,

sem encontro marcado e em qualquer parte.

 

 

 

MAYA

 

Tudo o que sou é Deus

que quis se fazer eu.

 

Entre eu e Deus apenas

a ilusão de que existo.

 

 

 

O REINO

 

O reino dos céus jamais virá,

pois sempre esteve como agora está.

 

Não é questão de vir, porém de ver.

 

 

 

O PALCO

 

Máscaras de Deus só existimos,

enquanto Deus em nós se representa.

 

O Bem e o Mal são condições do palco

e cessam ao término do espetáculo.

 

O pecado é pensar que existimos

nos papéis que nos foram destinados.

 

No pior vilão, no excelso herói,

o mesmo Deus se exalta como ator.

 

 

 

ESSE

 

Quem é Esse do qual

apenas sou personagem?

Oculto em todos os vivos

e vivo em todas as mortes.

Hospede em todos os tempos,

embora more no eterno.

Tudo o que existe é sede

e endereço do Todo.

 

 

 

PARCERIA

 

Deus olha pelos meus olhos

as obras que Ele fez.

Escuta por meus ouvidos

todos os sons que criou.

Saboreia com meu corpo

o prazer de ser a Vida.

Ele me fez Seu sentir,

um Seu modo original

de Seus infinitos modos

em tudo quanto se fez.

 

 

 

ILUMINAÇÃO

 

 

Quando penso que sou eu,

esqueço-me de que sou Deus.

Mas, quando me acordo Deus,

descubro que nunca fui.

 

 

 

DEMIURGO

 

Ocasional Demiurgo,

invento o tempo, extraído

da massa da Eternidade.

 

Do espaço, que é minha carne,

brotam sóis e galáxias.

 

Mas permaneço infinito.

 

 

 

BOLHA

 

O ar dentro da bolha.

O ar fora da bolha.

 

Separação ilusória.

 

Quando a bolha estourar,

que ar deixou de ser ar?

 

 

 

NIRVANA

 

 

Sou o êxtase de um rochedo

que contempla a Eternidade.

 

 

 

O CAMINHO

 

Sim, há um Caminho:

uma vez trilhado,

já não é caminho,

nunca foi caminho

e nem foi trilhado.

 

 

 

O CAMINHEIRO

 

Aonde fores, irás ,

sempre a caminho de ti.

 

Ida e volta são sonhos:

nunca ninguém partiu.

 

É ilusão se chegar,

pois jamais alguém partiu.

 

 

 

VISÃO

 

O que não vejo é real.

O que vejo é ensinado.

 

 

 

PERCEPÇÃO

 

Quando percebo, não sou.

 

Existe a percepção,

quando não há quem percebe.

 

 

 

IRRECORRÊNCIA

 

O mesmo caminho

não é duas vezes.

 

A própria saudade

não é o que foi.

 

 

 

SOLIPSISMO

 

Os outros são nossa imagem

nos espelhos do real.

 

Nunca vemos os outros...

 

 

 

INVENTÁRIO

 

Tudo quanto sou inventario

e descubro que os bens que nunca tive

são o melhor de mim. No meu espolio,

o mundo é sempre o herdeiro necessário.

A todos quanto amei deixo em legado

a parte disponível do que sou:

lotes do tempo, espaço da saudade,

o passado vivido em condomínio

das velhas afeições indivisíveis.

Sou homem procurando a sua causa,

o ser sem equinócio e solstício,

num mundo solitário, viajando

ruma ao ápex do Desconhecido.

 

 

 

HERANÇA

 

Somos dádivas e dúvidas:

domínio, posse ou empréstimo?

 

O que realmente somos?

 

O que somos além de herança?

 

 

 

SOLIDÃO

 

Não juntos: em paralelo.

Substancialmente sós,

apenas aglomerados

na apertada solidão.

 

Não unidos, mas prensados

em pegajosa paixão.

 

Fundidos e confundidos

nos êxtases mais solúveis,

algo de nós permanece

em pertinaz solidez.

 

 

 

CEGUEIRA

 

A intimidade nos cega:

juntos, já não nos vemos.

 

 

 

CONFISSÃO

 

A todos os que não fui

peço perdão.

O único que me escolhi

é muito pouco.

 

 

 

COSMOS

 

Essa transmigração intergaláctica,

gerando cromossomos estelares.

No berço espaço-tempo se ouve o choro

do Salvador nascido entre as estrelas.

A música inaudível das esferas

ecoando nas órbitas celestes,

farol intermitente dos pulsares

- um coração de luz pulsando o Cosmos.

Argonautas sem rumo, navegando

à deriva da faixa de asteróides.

O tempo evaporado nos relógios

congela o viajor na Eternidade.

 

 

 

GÉIA

 

Planeta azul, o céu é que é escuro.

O céu está na Terra e não sabíamos.

 

(Os astronautas retomaram anjos

mais terrestres do que quando partiram.)

 

Somos a Terra e dela fomos feitos

e nela ficaremos confundidos

na irmandade telúrica do Nada.

 

 

 

ESCATOLOGIA

 

 

Que novo Prometeu roubou dos deuses

o segredo do fogo mais terrível?!

A fusão e a fissão, irmãos nascidos

do estupro dos átomos, se fizeram

anjos radioativos, vingadores.

Descendo à Terra, invadiram lares,

ceifando não somente os primogênitos.

Ai, dos sobreviventes que comeram

o pão ázimo em Páscoa inesperada

da dor em Hiroshima e Nagasaki.

Quem libertou Titãs aprisionados

e abriu, de novo, a caixa de Pandora?!

Perfilam-se as ogivas nucleares

e os mísseis fálicos no orgasmo bélico.

Em quantas naves ao espaço iremos,

testemunha orbital do Apocalipse,

tranformados, depois, em poeira cósmica

de deuses loucos que morreram homens.

 

 

 

ODE ÔNTICA

 

Decodificação de estranhos símbolos,

imprestáveis canais, falsas semióticas:

o amor fugindo às leis da cibernética,

a vida - simples expressão da heurística.

O homem perdido no infinito dédalo

dos campos e das linhas magnéticas

alonga a solidão dos telescópios,

navegante ocular do mar galáctico.

Onde encontrar a curvatura cósmica

final do mundo que se fecha em círculo?!

É necessário convocar Parmênides,

pois a aparência dá razão a Heráclito.

Onde encontrar o intransponível átomo,

a unidade do tempo irresolúvel?!

Tudo se esvai em turbilhão dialético

na provisoriedade, na emergência.

Nada mais resta, agora, da matéria,

mera aparência em turbilhão dinâmico,

um breve evento de impressão sensória,

condicionada, no capricho empírico,

pelas programações de cada cérebro.

Exorcizemos o fantasma entrópico,

que nos ameaça com a morte térmica,

pois a ciência tem as suas fábulas

para explicar os fatos e os mistérios.

Fragilidades epistemológicas

esbarram sempre nas muralhas ônticas.

Falham as estratégias da genética,

porque o Ser é de si hereditário

e não se explica por funções endócrinas

ou especiosas compulsões mecânicas.

Na autoconsciência de seu senso crítico

é da própria Razão o Primogênito.

 

 

 

HOMEM

 

 

Perturbação do Infinito,

pausa de Deus ou cochilo?

 

Coágulo do espaço-tempo

na límpida eternidade.

 

A alma é a trajetória

perdida no transitório.

 

Não há viagem, apenas

quem pensa ser o viajante.

 

 

 

ODE PAGÃ

 

A nostalgia da ausência

dos nossos antigos deuses...

 

O cotidiano nos pesa,

 

Porque o céu está deserto

a Terra se encheu de angústia.

 

Inútil o psicotrópico.

A fé não é conseqüência

do funcionamento endócrino.

 

O mistério é o oxigênio

do nosso espirito asmático.

 

Reconstruamos altares...

Queimemos, de novo, incensos...

 

Talvez os deuses retornem

 

 

 

FRAGMENTAÇÃO

 

A fé sem juros. A esperança em mora.

As isquemias da razão. O medo

a fermentar exóticas neuroses.

A revolta explodindo em urticárias.

Vacinas doutrinárias e lixívias

na prevenção da liberdade incômoda

para a preservação dos despotismos.

Os passos amarrados nas sandálias.

O salto congelado no trapézio.

A mídia a produzir seus anestésicos.

A Ecologia prega o Apocalipse.

O Salvador virá de outra galáxia.

Tudo o que não fomos se rebela

contra o que escolhemos para ser.

A solidão que desabrocha em síndromes

está além de todos os diagnósticos.

As sucatas do tempo abandonado:

todo o lixo dos fatos consumidos,

dos seres e das coisas em desuso.

As frases esmagadas pelo queixo

O grito liqüefeito na saliva.

O afeto intermitente. A mão suspensa

pelo gesto de amor incompletado.

O afeto dividido em sesmarias,

em condomínios de fidelidade.

A dor contida na mordaça química.

A Vida recolhendo os próprios restos.

O tempo separando homens diversos

na sucessividade de um só corpo.

 

 

 

MOSTEIRO

 

Neste silêncio se escuta

a respiração de Deus.

 

A eternidade entedia...

 

Aqui, a fuga é fechar-se.

 

 

 

FRANCISCANAMENTE

 

Sou grato a tudo o que amo:

o amor me faz melhor,

me exige em todo meu ser,

faz-me total no que faço.

Esvazia-me de mim,

derramando-me ao redor

das coisas cotidianas.

Enriquece-me a rotina,

de novo ativando as cores

dos gestos já desbotados.

E me põe nu frente ao mundo

como Francisco de Assis.

 

 

 

A DESCONHECIDA

 

Não veio, porque estava

e porque estava, veio,

como se nunca estivesse.

Por isso, não começou:

apenas apareceu

no tempo que não se conta,

porque contado já era.

Assim, a luz se fez carne

e a carne à carne ajuntou

na cosmogonia de dois

 

 

 

O TECELÃO

 

Nós somos feitos dos fatos,

das urdiduras, das tramas,

em nossa memória têxtil.

Nós somos o tecelão

que a si mesmo se tece

no seu invisível tear.

 

 

 

ORBITAL

 

Não há iguais. Há momentos

em que órbitas se cruzam.

Somos astros solitários

em nosso viver elíptico.

Na nossa rota não há

dois astros, apenas nós

e a cósmica solidão

do nosso próprio infinito.

 

 

 

UNIDADE

 

 

Lá fora é modo de ver

o nosso lado de dentro.

 

 

 

PAISAGEM

 

Sou apenas um dos olhos da paisagem

que a si mesma se vê de onde estou.

 

 

 

ZEN

 

Nós inventamos o fora...

Nós inventamos o dentro...

Nós inventamos a porta

 

 

 

SUBSTÂNCIA

 

Abro os olhos, vejo o mundo

- substância onde estou.

Fecho os olhos, vejo o mundo

- substância onde sou.

 

 

 

TESTEMUNHO

 

Por causa dos nossos olhos

O mundo é cheio de cores.

 

E por causa dos ouvidos

O mundo é cheio de sons.

 

Se as pessoas, de repente,

ficassem cegas e surdas,

o mundo teria cores,

o mundo teria sons?

 

Quem o testemunharia?

 

 

 

EM TRÂNSITO

 

Eis-me que sou outro embora o mesmo

e sempre o mesmo, embora sempre outro,

o passado, o passando, o passo próximo,

o que deixei, o que me segue, o que persigo,

indivisível nos meus fragmentos,

o mesmo íntegro ser de cada dia,

fiel à plenitude do momento.

Nunca sou o que fui, sou sempre o agora,

mas porque fui, o que fui é o que sou,

embora seja um outro em cada agora.

 

 

 

PLENITUDE

 

Viver densamente a cada instante

é a liberdade e a plenitude

do ser cravado no seu transitório,

sem mais nada querer ou esperar,

ocupado de si e do que faz

no pleno espaço de seus próprios atos.

 

 

 

LIBERDADE

 

 

Liberdade é mover-se

em todas as direções...

 

Onde estão as direções?!

 

 

 

ANTIGÜIDADES

 

Não falemos de coisas tão suspeitas

tais como o amor e a paz, velhas receitas

que não aviam mais os boticários

e em breve morrerão nos dicionários.

 

 

 

CREPÚSCULO

 

É nostálgico o crepúsculo

de quem não soube ser Sol

ao meio-dia.