Millôr Fernandes  (Milton Viola Fernandes) (1923-2012)

 

 

VRB – Quem é Millôr Fernandes?

 

Millôr – Millôr Fernandes é jornalista amador, só recebe por fora, e não agride a camada de ozônio.

 

 

VRB – O que é o acaso? Se Deus existe, por que há coisas que acontecem por acaso?

 

Millôr – O acaso é uma besteira de Deus.

É evidente que o Universo foi feito por acaso – como a represa de Assuã, a Crítica da Razão Pura e a Capela Sistina.

 

VRB – Então, Deus existe?

 

Millôr – Se Deus me der força e saúde, hei de provar que ele não existe.

 

VRB – O ateísta concordaria com você.

 

Millôr – O ateísmo é uma espécie de religião que ninguém acredita.

No longo prazo, um ateu não tem futuro.

O cara só é verdadeiramente ateu quando está muito bem de saúde.

 

VRB – Que tal esse Deus antropomórfico, denunciado na Grécia clássica por Anaxágoras?

 

Millôr – Como dá trabalho acreditar em Deus!

Há padres que falam em Deus com tal convicção que a gente se convence de que Deus não existe.

 

VRB – A crença em Deus não melhorou o mundo.

 

Millôr – Com esse mundo desgraçado, e cada vez mais, em que fomos condenados a viver, uma coisa é certa: Deus não merece existir.

Tá bem, digamos que Deus existe. Mas é evidente que fez tudo isso aqui sem a menor atenção e foi tratar de outra coisa.

 

VRB – Deus fez o mundo tão mal feito...

 

Millôr – O mal do mundo é que Deus e o Diabo envelheceram, mas o Diabo fez plástica.

 

VRB – Talvez seja por isso que ele é tão prestigiado por seitas ditas satânicas e sempre presente nas práticas exorcistas. Seria essa a mais fácil explicação para o mal?

 

Millôr – Eu vou acabar acreditando em Deus. Tá difícil acreditar em qualquer outra coisa.

 

VRB – A Maçonaria proclama que Deus é o Supremo Arquiteto do Universo.

 

Millôr – Deus, como se sabe, pra fazer o mundo não usou régua e compasso, apenas o verbo. Daí a falta de perspectiva.

 

VRB – Se, por acaso, você se tornasse um místico, fundaria uma religião? Seria um guru?

 

Millôr – Já pensei em fundar uma religião, mas tenho medo de que me sigam.

 

VRB – A religião inventou o pecado para oferecer salvação.

 

Millôr – Que pena! Quando eu nasci já não havia mais nenhum pecado original.

Um cara que só confessa as coisas pros amigo é um ateu e faz concorrência à Igreja, porque o padre está aí para isso.

 

VRB – A religião também inventou que cada pessoa carrega sua cruz.

 

Millôr – Ainda bem que não sou religioso. Deve ter alguém por aí carregando duas.

 

VRB – “Bem-aventurados os pobres porque herdarão o reino dos céus”. Compensação ou alienação? Os ricos estão condenados?

 

Millôr – Bem-aventurados os filhos dos ricos, porque eles herdarão o reino dos seus.

Pensando nisso, por que pobre não faz voto de riqueza?

A verdade é que a riqueza estraga a maior parte das pessoas – mas você não gostaria de correr os riscos?

Aos pobres, que acham, com razão, que é difícil ficar rico, é conveniente advertir que, para os ricos, é ainda mais difícil ficar pobre.

A riqueza não traz felicidade. A pobreza muito menos.

 

VRB – Você defenderia a pena de morte para diminuir a criminalidade?

 

Millôr – A pena de morte tem um aspecto definitivamente positivo: culpado, o criminoso não volta a cometer o crime; inocente, o Estado não poderá repetir o erro.

Quem mata, oficialmente ou não (a lei é omissa), está sujeito à pena de morte. Portanto, se decretarem a pena de morte, o executor da pena deve ser condenado à morte. Quem vai executar o último?

Por que tanta discussão? Afinal a vida também é uma pena de morte.

Desde que nasci estou jurado de morte.

 

VRB – Se eu fosse legislador, me posicionaria pela abolição do Direito das Sucessões.

 

Millôr – Herança é o que os descendentes recebem quando o cara não teve a sabedoria de gastar tudo antes de morrer.

Mistérios econômicos: como é que um pai, pobre, cansado, mal instruído, consegue manter quatro ou cinco filhos, e quatro ou cinco filhos, uma vez criados e educados, não conseguem manter um pai?

E como dizem lá os portugueses: quem faz herdeiros cedo, não morre tarde.

 

VRB – A História é uma ciência? Podemos conhecer melhor o ser humano sob a óptica dos milênios?

 

Millôr – A História é um troço inventado por historiadores que não concordam com que os outros historiadores inventaram antes.

A história é uma lenda, só que muito mais mentirosa.

 

VRB – Apesar disso, acredita-se que a História se repete.

 

Millôr – A história sempre se repetiu. Mas, com a energia nuclear, possivelmente o que vai se repetir é a pré-história.

 

VRB – Parece que a honestidade, no ser humano, é uma raridade.

 

Millôr – Basta olhar em volta pra ver que a honestidade não é coisa natural. Toda pessoa honesta tem um ar extremamente ressentido.

O honesto é um amador que atrapalha fundamentalmente o trabalho dos canalhas, todos profissionais.

Se a ocasião faz o ladrão, a falta de oportunidade faz a honestidade?

 

VRB – Mostrar-se cético parece mais exibição do que convicção.

 

Millôr – Cético é um sujeito que nega até Mateus – quer ver para não crer.

 

VRB -  Você se preocupa com a morte?

 

Millôr – A morte é uma coisa que se deve deixar para depois.

 

VRB – Nas lides judiciais, mentir parece um direito, porque é amplamente exercido.

 

Millôr – A advocacia é a maneira legal de burlar a lei. O advogado é sócio do crime.

           A notoriedade do advogado de defesa aumenta na medida em que faz voltar à circulação, com atestado de homens de bem, os piores assassinos, ladrões e contraventores.

 

VRB – Você acredita que a alma é o que de nós sobrevive após a morte?

 

Millôr – Não possuo alma. Sou, como todo mundo, uma alucinação holística e holográfica.

 

VRB – O ter satisfaz o ser?

 

Millôr – Triste é a angústia do pobre, que nunca teve nada. Mas, e angústia do rico , que sabe que não adianta ter tudo?

 

VRB – Os meios de comunicação, apesar de todo alarde, não têm contribuído para melhorar a capacidade intelectual das pessoas.

 

Millôr – Sempre houve muita besteira no mundo. Mas, no momento em que a tecnologia da comunicação se juntou com o engodo ideológico, as besteiras tornaram-se mais amplas e mais sinistras.

 

VRB – A tendência do mundo não é apenas a aldeia global, como pensou MacLuhan, mas o Big Brother de George Orwel.

 

Millôr – Em qualquer regime político tem sempre um Big Brother te vigiando. Felizmente, é incompetente.

 

VRB – O casamento é uma forma de escravidão consentida?

 

Millôr – O casamento ainda é a melhor forma de duas pessoas descobrirem que casamento não dá certo.

 

VRB – Você já encontrou alguém que sinceramente confessou ser vaidoso?

 

Millôr – Não ter vaidade é a maior de todas.

Ninguém jamais atingiu a satisfação total de sua vaidade.

 

VRB – Você acredita no Brasil, apesar da política?

 

Millôr – Este é o país onde há a maior possibilidade de se criar um mundo inteiramente novo.  Caos não falta.

Brasil, condenado à esperança.

Brasil, país do futuro. Sempre.

Ser brasileiro me deixa muito subdesenvolvido.

 

VRB – Atualmente, os políticos brasileiros falam muito em governabilidade.

 

Millôr – Todos os países são difíceis de governar. Só o Brasil é impossível.

 

VRB – Alguns filósofos não aceitavam a democracia.

 

Millôr – Democracia é eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim.

Parodiando Santo Agostinho: “Se ninguém me perguntar o que é democracia, eu sei. Mas, se alguém me perguntar, eu não sei.”

O verdadeiro milagre brasileiro: uma democracia completamente isenta de democratas.

Democracia é a crença de que uma multidão de idiotas juntos pode resolver problemas melhor do que um cretino sozinho.

O medo das ditaduras levou-nos à ditadura da democracia.

 

VRB – Já que você falou em ditadura...

 

Millôr – A diferença entre uma democracia e um país totalitário é que numa democracia todo mundo reclama, ninguém vive satisfeito. Mas se você perguntar a qualquer cidadão de uma ditadura o que acha de seu país, ele responde sem hesitar: “Não posso me queixar.”

 

VRB – É a ditadura disfarçada em democracia.

 

Millôr – Quando você chega num país e toda a imprensa exalta a liberdade – o país é uma ditadura. Se, porém, a imprensa diz que o clima de restrições à liberdade é insuportável – você está numa democracia.

 

VRB – A economia é uma ciência, ou uma forma prestigiada de adivinhação? O economista é sempre muito respeitado, mesmo quando erra, o que acontece na maioria das vezes.

 

Millôr – O economista é um ficcionista que venceu na vida.

Pro homem comum, economia é guardar dinheiro. Pro economista, economia é gastar dinheiro do homem comum.

Que seria dos economistas se o que eles pregam desse certo? 

                          

VRB – A psicanálise não é uma ciência. Mas, apesar disso, possui alguma eficácia?

 

Millôr – Os psicanalistas podem não resolver o problema dos neuróticos. Mas os neuróticos resolvem o problema dos psicanalistas.

 

VRB – As pessoas estão, cada vez mais, preocupadas com a saúde, como meio científico de exorcizar as doenças.

 

Millôr – Por que os cientistas vivem descobrindo novas formas de doenças de doenças e não conseguem  descobrir uma forma definitiva de saúde?

 

VRB – Enfatiza-se muito a coerência. Se tudo muda, se estamos sempre mudando, por que essa mania de sermos semelhantes ao que já não somos?

 

Millôr – Coerente é o sujeito que nunca teve outra ideia.

 

VRB – A sociedade está dividida entre os que são contra e os que são a favor do aborto. A vida de um ser humano, em qualquer situação, deve ser defendida?

 

Millôr – Pela lei das compensações, o aborto só deve ser permitido se, na outra ponta, os filhos eutanasiar os pais.

 

VRB – Há quem defenda o controle demográfico com a eliminação dos seres humanos tidos como inúteis à sociedade.

 

Millôr – A que altura da vida começar o controle da população? Com o aborto antes de três meses; ou com a eutanásia depois dos 60 anos?

 

VRB – Os covardes se envergonham de sua covardia e procuram escondê-la. Anseiam pela coragem que lhes falta.

 

Millôr – Coragem é essa estranha qualidade que nos falta exatamente no momento em que estamos mais apavorados.

Confessar covardia: que coragem!

 

VRB – O poder corrompe e muitos são aqueles que alegam ser contra a corrupção.

 

Millôr – Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.

Invejar os corruptos já é meia corrupção.

Muita gente que fala o tempo todo contra a corrupção está apenas cuspindo no prato em que não conseguiu comer.

Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil.

 

VRB – Parece-me uma catástrofe: há um dilúvio de escritores no Brasil. Qual o futuro das árvores?

 

Millôr – A maior parte dos escritores não merece as árvores cortadas por causa deles.

Certos escritores, de original, só têm mesmo a caligrafia.

 

VRB – Destino ou livre-arbítrio?

 

Millôr – Não há acordo possível entre um homem e seu destino. O dedo do destino não deixa impressão digital.

Passei a vida pensando que diabo, afinal, estou fazendo neste mundo. Descobri – nada. Sou visita.

 

VRB – E a liberdade? Podemos ter livre-arbítrio, mas não liberdade, que, ao meu ver, é uma questão social.

 

Millôr – A liberdade começa quando a gente aprende que ela não existe.

A liberdade é apenas uma lamentável negligência das autoridades.

 

VRB – Segundo a Bíblia, depois da construção da torre de Babel, os homens se desentenderam, porque passaram a falar idiomas diferentes. Até hoje, temos saudade deste mito e buscamos um idioma universal.

 

Millôr – Todos os animais falam mesmo uma língua internacional? Ou cachorro americano late em inglês e gato argentino mia em espanhol?

 

VRB – Ter ou não ter dinheiro. É essa a questão?

 

Millôr – Se o cara acha que o dinheiro não é tudo, é rico. Se acredita que o dinheiro é tudo, é pobre.

 

VRB – Não Brasil, ainda é válido afirmar que o crime não compensa?

 

Millôr – Não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, muda de nome.

O crime não compensa: o cara pode roubar, corromper e se locupletar. Mas acaba a vida cercado de lindas mulheres puxa-sacos, morando em horrendos palácios com mil criados ambiciosos e naufragando num iate superluxuoso, cheio de quadros e obras de arte.

O crime não compensa? E de que é que vivem carcereiros, policiais,  fabricantes de cofres, advogados e juízes?

 

VRB – E quanto ao crime organizado?

 

Millôr – As autoridades dizem a toda hora que estão profundamente preocupadas com o crime organizado. Por que? Preferem o crime esculhambado?

O crime se organizou porque já não aguentava mais os assaltos da polícia.

 

 VRB – A beleza não tem utilidade. Ela é puro prazer.

 

Millôr – A beleza não põe mesa. E desarruma a cama.

 

VRB – A erudição é uma riqueza imaterial, cujo dono, na maioria das vezes, gosta de exibi-la.

 

Millôr – Ainda está pra nascer o erudito que se contenha em saber só o que sabe.

 

VRB – A geriatria é a medicina da moda. É uma espécie de exorcismo para conjurar a velhice.

 

Millôr – A gerontologia é uma ciência que faz o homem ficar cada vez mais velho.

As pessoas só começam a esconder a idade quando já não é mais possível.

De que serve mentir a idade se a tua cara já está tão cheia de cronologia?

Só existe uma maneira de remoçar: é andar sempre com pessoas vinte anos mais velhas do que você.

 

VRB – Há pessoas temerosas de que suas ideias estejam ultrapassadas. Ou não saibam que estão.

 

Millôr – A única maneira de jamais ter ideias ultrapassadas é não ter nenhuma.

 

VRB – Que tal o mito jurídico de que todas são iguais perante a lei?

 

Millôr – Todos são iguais perante a ausência de leis.

No Brasil todos nascem iguais perante a Dívida Pública.

 

VRB – Nunca ouvi falar de que, quem perdeu uma lide, reconheceu que a justiça foi feita.

 

Millôr – Sou um realista: exijo injustiça igual para todos.

Justiça – loteria togada.

Livrai-me da justiça, que dos malfeitores me livro eu.                   

 

VRB – Você acredita na famosa “idade da razão”?

 

Millôr – Idade da razão é quando a gente faz as maiores besteiras sem ficar preocupado.

 

VRB – A esperança quase sempre faz mal. Principalmente quando dura a vida toda.

 

Millôr – O desespero até que é uma boa. O que eu não aguento mais é essa esperança.

 

VRB – O que você acha confiável: o diagnóstico de um médico ou de uma junta médica?

 

Millôr – Junta é uma matilha de doutores.

Reuniu-se a junta de médicos. O doente morreu por unanimidade.

O médico é um cientista que aplica drogas que mal conhece em pessoas que nem conhece.

Quando um médico morre, o índice de mortalidade do país aumenta ou diminui?

A maior causa de mortalidade no mundo inteiro é esse mal terrível chamado diagnóstico.

 

VRB – A medicina preventiva tem melhorado a saúde das pessoas, melhorado a qualidade de vida e detectando precocemente as doenças, aumentando a possibilidade de cura. Não se trata de um progresso real?

 

Millôr – A medicina está fazendo tais progressos que já descobriu várias curas para as quais não há doenças possíveis.

 

VRB – Eu minto, sempre quando necessário. Principalmente a estranhos. E você?

 

Millôr – É inútil chamar alguém de mentiroso. Todo mundo é.

Fala-se muita mentira com extrema sinceridade.

Mentimos mesmo quando estamos sozinhos.

Você pode desconfiar de uma verdade. Mas uma mentira, como tal, é sempre rigorosamente verdadeira.

Quem me pede pra contar toda a verdade já está me exigindo uma mentira.

 

VRB – Principalmente quando se exerce um cargo de poder.

 

Millôr – A ética do poder é a mentira.

 

VRB – Se a beleza é essencial, como dizia Vinicius de Morais, ama-se o feio?

 

Millôr – Quem ama o feio leva muito susto.

 

VRB – O que você acha da mudança ortográfica, que nem sequer está sendo levada a sério em Portugal?

 

Millôr – O usuário deve usar a ortografia com total liberdade e até rebeldia.

 

VRB – A gramática é uma prisão?

 

Millôr – Quanto à gramática deve ser rejeitada qualquer uma imposta por gramáticos. Nenhuma língua morreu por falta de gramáticos. Algumas estagnaram por ausência de escritores. Nenhuma sobreviveu sem povo.

 

VRB – A velhice geralmente incomoda. Há muitos velhos que não vêem qualquer vantagem nela

 

Millôr – Você tem de sempre pensar no lado positivo das coisas. A velhice, por exemplo; já imaginou se as rugas doessem?

 

VRB – Hobby é vício sofisticado? Qual o seu?

 

Millôr – Meu maior vício é não exercer nenhuma das minhas virtudes.

Vício foi o nome que a virtude inventou pra empatar o gozo dos outros.

 

VRB – Errar é humano. E, quando o computador erra?

 

Millôr – Na era do computador, errar é desumano.

 

VRB – Há quem pense que, no futuro, o computador será como um ser humano. E até melhor do que ele

 

Millôr – Sempre que falam do computador, ele está adulterando contas bancárias, resultados de eleições, revelando segre­dos de Estado. Estou desconfiado de que o computador herdou e ampliou a falta de caráter do ser humano.

Um computador, afinal, funciona exatamente igual a um tecnocrata altamente especializado. Não usa a inteligên­cia humana.