O HOMEM E AS MEGALÓPOLES

18 de abril de 1969

 

 

A Organização Mundial da Saúde definiu a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”.

A intensa agitação das grandes metrópoles, o ritmo acelerado das transformações sociais, a natureza competitiva da vida profissional têm sido as causas de um fenômeno

específico – o stress.

Hans Selye, professor e diretor do Instituto de Medicina e Cirurgia Experimental da Universidade de Montreal, e que granjeou enorme notoriedade pelas suas teorias relativas às conseqüências físicas da tensão prolongada sobre os seres humanos, definiu o stress como a síndrome geral de adaptação. Entende o Dr. Selye que a vida, em grande parte, é um processo de adaptação às circunstâncias, e que, até na doença, existe um elemento de adaptação. Daí, a sua afirmação de que “a vida é impossível na ausência de tensão”.

A concentração urbana, cada vez mais intensa, tem contribuído para tornar mais agudo o problema da sobrevivência emocional e psíquica do ho­mem nas grandes metrópoles. Tóquio apresenta um índice populacional de 12.333.000 habitantes. Em seguida, vem Nova Iorque com 11.305.000 habitantes, inclusive a área metropolitana. Londres vem logo após com 9.380.000 habitantes, também incluindo a área metropolitana. Moscou possui 8.450.000 habitantes. Buenos Aires, incluindo a área metropolitana, apresenta um índice de 7.000.000 habitantes. E, finalmente, Bombaim conclui a lista das cidades mais densamente po­voadas, com os seus 5.740.000 habitantes.

Alguns estudiosos afirmam que uma altíssima densidade populacional não é incompatível com uma vida longa e saudável. Apontam, como exemplo, a Holanda que, conquanto seja o país mais densamente povoado do mundo, é, não obstante, o mais saudável. Durante mais de um século, os céus da Europa do Norte industrial, notadamente a Inglaterra, foram poluídos por um tipo característico de fumaça, proveniente da queima do carvão betuminoso. No entanto, os habitantes destas áreas industriais, acabaram aceitando a fuligem. Observou-se que o seu tempo de vida não difere muito do das pessoas que habitam áreas não poluídas, nem é mais baixo o seu índice de natalidade e a sua capacidade de trabalho.

Um dos inconvenientes da civilização moderna con- siste na dissociação da vida humana dos ritmos e ciclos cósmicos, pois o homem, nas suas atividades fisiológicas e bioquímicas, possui o seu mecanismo orgânico adaptado aos eventos específicos do nosso planeta. O homem, contudo, é tão adaptável que pode trocar o dia pela noite, ignorar mudanças sazonais e se deslocar a velocidades supersônicas de uma a outra latitude, com transtornos mínimos em sua sinergia orgânica.

A poluição atmosférica tem produzido as mais diversas formas de moléstias respiratórias crô­nicas, sobretudo a bronquite. Os cientistas discutem se o câncer pulmonar não seria a conseqüência mais terrível da poluição nos grandes centros urbanos. A concentração de poluentes pode forçar, inclusive, uma inversão de temperatura e, segundo as amostragens, o poluente mais encontrado na atmosfera é o bióxido de enxofre, oriundo da queima de combustível das industrias e dos veículos. Além da poluição atmos- férica, as grandes metrópoles se debatem com o problema da poluição das águas, causado pelos esgotos domésticos e industriais. Também convém enfatizar o problema da poluição sonora, que tem contri­buído para o aumento da surdez, sobretudo na população infantil.

Conquanto a tecnologia venha proporcionando novas comodidades materiais aos habitantes das grandes cidades, o ritmo vertiginoso das transformações sociais tem produzido neuroses e psicoses, modificando as relações entre pais e filhos, entre os cônjuges, alterando as estruturas familiares e a própria vida de relação. Conforme recente estatística, existem, nos Estados Unidos da América do Norte, cerca de 600.000 pessoas internadas em clínicas psiquiátricas e, aproximadamente, 10.000.000 dos indivíduos sofrem de alguma forma de doença mental. As estatísticas acusam a elevação impressionante do índi­ce da criminalidade com exacerbação dos delitos contra o patrimônio, nas suas mais diversas modalidades, que vai do estelionato ao latrocínio. Cresce o consumo dos psicotrópicos, incrementando a delinqüência juvenil. O lenocínio estende os seus tentáculos, alcançando jovens das mais diversas classes sociais e os chamados “inferninhos” atraem a juventude para o envolvimento com a prostituição. A poluição moral é, também, por conseguinte, um dos problemas mais relevantes das agitadas megalópoles.

A pressa, o vazio da solidão, a necessidade compulsiva de distrações, as técnicas de aliciamento da propaganda comercial, o sensacionalismo da imprensa, a elevação do custo de vida e tan­tas outras múltiplas pressões de toda natureza têm produzido, no homem urbano, um permanente estado de tensão psíquica e angústia existencial.