Marquês de Maricá (Mariano José Pereira da Fonseca) (1773-1848)

 

VRB – A riqueza material é a meta de quase todas as pessoas. Mas, a riqueza nem sempre é uma realidade objetiva.

 

Marquês de Marica – É muito rico aquele homem que possui um grande capital de desenganos e verdades.

 

VRB – As religiões pregam a pobreza como virtude e satanizam a riqueza

 

Marquês de Maricá – Fazer da pobreza virtude é hostilizar a riqueza, que ministra à caridade os recursos do que carece.

A pobreza é estéril; não assiste nem promove a caridade.

Os pobres divinizam a sua pobreza para se consolarem de não serem ricos.

Se déssemos aos pobres tudo o que possuímos, eles não ficariam ricos, e nós cairíamos na

penúria e miséria de que quiséssemos salvá-los.

As sociedades modernas rejeitam a doutrina velha de padecer neste mundo para no outro

gozar. É uma das causas principais da fermentação e movimento geral da humanidade para novas instituições civis e políticas, e melhoramentos morais e materiais dos povos.

 

VRB – A pobreza, quando exaltada, é sinal de hipocrisia ou de compensação.

 

Marquês de Maricá – São sempre suspeitos os louvores dados à pobreza pelos ricos, ou pelos pobres.

 

VRB – A moderação é sempre recomendável em qualquer situação?

 

Marquês de Maricá – A moderação em muitos homens é o reconhecimento da própria fraqueza ou mediocridade.

 

VRB – Às vezes, é preferível estar entretido com os livros do que com as pessoas. O tempo que se perde com muitas delas é um prejuízo intelectual irreparável.

 

Marquês de Maricá – A companhia dos livros dispensa com grande vantagem a dos homens.

 

VRB – A opinião pública tem servido de bússola para a conduta de muitas pessoas.

 

Marquês de Maricá – O homem que despreza a opinião pública é muito tolo ou muito sábio.

 

VRB – A liberdade nem sempre nos faz bem, quando nos parece pouca, ou quando dela abusamos.

 

Marquês de Maricá – A liberdade embriaga como o vinho, e nos impele a iguais desatinos.

A liberdade não consiste só no querer, mas também em podermos executar o que

queremos.

Os que reclamam para si maior liberdade são os que ordinariamente menos a toleram e

permitem nos outros.

 

VRB – Poucas pessoas sabem lidar com a liberdade.

 

Marquês de Maricá – Os maus não querem liberdade para se fazerem bons, mas para se tornarem piores.

A paixão de liberdade em muita gente não é mais do que desejo de licença e impunidade.

Nunca devemos recear-nos tanto de nós mesmos como quando gozamos de maior e mais

ampla liberdade.

 

VRB – Há povos que não sabem administrar a sua liberdade, o que resulta, algumas vezes, no afrouxamento dos costumes.

 

Marquês de Maricá – Nunca os povos sofrem tanto como quando se fala mais em liberdade e menos em virtude e obediência.

 

VRB – Qual o melhor indício para se avaliar uma pessoa?

 

Marquês de Maricá – É fácil avaliar o juízo ou a capacidade de qualquer homem, quando se sabe o que ele mais ambiciona.

 

VRB – A firmeza de caráter confere um cunho de dignidade a quem a possui.

 

Marquês de Maricá – O que se qualifica em alguns homens como firmeza de caráter não é ordinariamente senão emperramento de opinião, incapacidade de progresso, ou imutabilidade da ignorância.

 

VRB – A vida social seria mais agradável se todas as pessoas agissem com civilidade.

 

Marquês de Maricá – A civilidade é uma convenção tácita entre os homens de se enganarem reciprocamente com afetada gentileza e benevolência.

 

VRB – Há escritores, filósofos e mestres espirituais que afirmam ser a esperança uma ilusão a ser evitada. É ela sempre inútil e até maléfica?

 

Marquês de Maricá – A esperança descobre recursos, a desesperação os renuncia.

 

VRB – A vaidade faz parte da natureza humana. Ela varia de pessoa a pessoa, como também em questão de grau. O inconveniente da vaidade de alguém é que ela incomoda a vaidade dos outros.

 

Marquês de Maricá – Argüimos a vaidade alheia porque ofende a nossa própria.

A vaidade convive com o amor-próprio e o acompanha freqüentemente.

 

VRB – Desconfio das pessoas que costumam contar seus defeitos, vaidosamente dizendo reconhecê-los.

 

Marquês de Maricá – Somos muitos francos em confessar e condenar os nossos pequenos defeitos, contanto que possamos salvar e deixar passar sem reparo os mais graves e menos defensáveis.

 

VRB – Dizem que se todas as pessoas fossem virtuosas, a sociedade seria perfeita. Eis uma grande utopia.

 

Marquês de Maricá – Em geral o temor ou medo, e não a virtude, mantêm a ordem entre os homens.

 

VRB – A democracia se fundamenta na grande ilusão da igualdade.

 

Marquês de Maricá – A democracia é como a tesoura do jardineiro, que decota para igualar; a mediocridade é o seu elemento.

 

VRB – Embora a igualdade entre as pessoas seja uma quimera, ela sempre é um tema de caloroso debate.

 

Marquês de Maricá – Os apologistas e defensores da igualdade são os que mais trabalham por desigualar-se.

A igualdade repugna de tal modo aos homens que o maior empenho de cada um é distinguir-se ou desigualar-se.

 

VRB – Prega-se a paciência como uma grande virtude. Mas, ela tem seu limite.

 

Marquês de Maricá – A paciência em muitos casos não é mais senão medo, preguiça ou impotência.

 

VRB – A razão e a imaginação são as mais poderosas ferramentas do conhecimento. E também dos prazeres delas resultantes.

 

Marquês de Maricá – Bem curta seria a felicidade dos homens se fosse limitada aos prazeres da razão; os da imaginação ocupam os maiores espaços da vida humana.

A imaginação tem sido e é a mais fecunda das entidades fabulosas boas e más, que infestam as crenças e religiões deste mundo.

A razão é escrava quando a fé e autoridade são senhoras.

 

VRB – A imaginação, em certos casos, pode ser prejudicial.

 

Marquês de Marica – A imaginação é o paraíso dos afortunados, e o inferno dos desgraçados.

Quereis persuadir e dominar os homens, falai à sua imaginação, e confiai pouco na sua razão.

A imaginação exagera de tal modo os nossos bens ou males futuros que nos admiramos, quando chegam, de não corresponderem às nossas esperanças ou receios.

 

VRB – A felicidade é uma das maiores aspirações do ser humano. Mas, ela varia de pessoa a pessoa.

 

Marquês de Maricá – Ninguém se queixa tanto dos males da vida humana como aqueles que têm menos motivos de queixar-se: a felicidade os tornou tão suscetíveis e melindrosos, que o menor incômodo, dor ou contradição, os impele a queixumes intermináveis.

É muito precária a felicidade que depende dos outros e não tem a sua nascente em nós

mesmos.

 

VRB – A felicidade não pode ser avaliada objetivamente

 

Marquês de Maricá – Não devemos avaliar a nossa felicidade somente pelos bens que gozamos, mas também pelos males que não sofremos.

Não podemos conhecer e avaliar a felicidade sem haver tomado lições na escola da adversidade.

Há uma felicidade positiva, que consiste em gozar; e outra negativa, em não sofrer.

O velho crê-se feliz em não sofrer, o moço infeliz em não gozar.

 

VRB – Muitas pessoas ignorantes são felizes.

 

Marquês de Maricá – A ignorância é talvez um dos principais elementos da felicidade de muita gente.

 

VRB – A vaidade de uma pessoa, quando não satisfeita, pode torná-la infeliz.

 

Marquês de Maricá – A vaidade é talvez um grande condimento da felicidade humana.

 

VRB – Em alguns casos, a felicidade de uma pessoa pode causa a infelicidade de outras.

 

Marquês de Maricá – Não toleramos de bom grado a felicidade alheia quando nos reconhecemos por infelizes.

 

VRB – A ambição desmedida de quem assumiu o poder, geralmente o transforma em tirano.

 

Marquês de Maricá – A tirania é o talento dos homens ordinários e ignorantes, quando governam.

Os que mais clamam contra o despotismo e arbitrariedade, são os maiores tiranos quando alcançam autoridade.

 

VRB – A tirania também resulta das revoluções sociais, trocando-se um ditador por outro.

 

Marquês de Maricá – A anarquia é tão grande flagelo nas nações, que o tirano que prevaleceu e chegou a suprimi-la é reputado o salvador do povo e o seu melhor amigo.

Quando em um povo só se escutam vivas à liberdade, a anarquia está à porta e a tirania pouco distante.

 

VRB – É comum se dizer de certas pessoas que elas se dedicam tanto aos outros ao ponto de se esquecerem de si mesmas.

 

Marquês de Maricá – Nunca nos esquecemos de nós, ainda quando parecemos que mais nos ocupamos dos outros.

 

VRB – Tudo está em contínua mudança. Durante toda nossa vida somos inúmeras versões de nós mesmos.

 

Marquês de Maricá – Em diversas épocas da nossa vida somos tão diversos de nós mesmos como dos outros homens.

 

VRB – Por mais semelhantes que sejamos, cada ser humano é único.

 

Marquês de Maricá – A morte quebra em cada homem um tipo de forma especial, que não terá mais cópia ou igual em toda a espécie humana.

 

VRB – Muito se discute se a vida é um bem ou um mal.

 

Marquês de Maricá – Se a vida é um mal, por que tememos morrer; e se um bem, porque a abreviamos com os nossos vícios?

 

VRB – Filósofos há que não vêem qualquer utilidade na religião.

 

Marquês de Maricá – A Religião é necessária ao homem feliz para não abusar, ao infeliz para não desesperar.

A Religião é tão boa companheira na adversidade como excelente conselheira na ventura.

As religiões são sempre úteis aos homens, quando esperançam os bons e ameaçam os maus.

A religião amansa os bravos e alenta os fracos.

 

VRB – A filosofia é, às vezes, adversário da religião.

 

Marquês de Maricá – A filosofia solapa e derruba as religiões, mas não as pode substituir.

As crenças religiosas inspiram geralmente menos amor e temor de Deus do que incutem terror e medo da divindade : os homens não podem imaginar um poder vastíssimo sem tirania ou despotismo.

 

VRB – A religião inventa mistérios e se sustenta e razão deles. É um sedativo para os problemas da existência.

 

Marquês de Maricá – Todas as religiões têm a sua mitologia, sem a qual não podiam ser populares.

Quando tudo são mistérios na natureza, propor novos mistérios à crença dos homens é agravar a ignorância humana, zombar e abusar da sua credulidade.

Não é este mundo concreto e material que assusta os homens, mas o fantástico, abstrato e ideal, que eles mesmos criaram e imaginaram.

 

VRB – Certos sonhos também contribuem para aumentar a credibilidade das pessoas.

 

Marquês de Maricá – Os sonhos, com o nome especioso de visões e revelações, têm contribuído muitas vezes para iludir e enredar os homens nas suas opiniões e crenças religiosas.

 

VRB – A vida é versátil, muitas vezes imprevisível. Como podemos ser coerentes em meio a tantas mudanças?

 

Marquês de Maricá – A inconstância humana é o produto necessário das variações da natureza, das circunstâncias e dos eventos.

Os povos, como as pessoas, variam de opiniões e gostos, e na sua inconstância passam freqüentes vezes de um a outro extremo.

 

VRB – Dizer sempre a verdade, ser sincero com todas as pessoas não passa de uma utopia.

 

Marquês de Maricá – Se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos reciprocamente odiosos e não poderíamos viver em sociedade.

A sinceridade é muitas vezes louvada, mas nunca invejada.

A sinceridade imprudente é uma espécie de nudez que nos torna indecentes e desprezíveis.

 

VRB – A experiência nos ensina que a verdade nem sempre pode ser dita, porque é inconveniente e até perigosa.

 

Marquês de Maricá – Tempos há em que é menos perigoso mentir que dizer verdades.

 

VRB – Há ocasiões em que os nossos inimigos, sem saber, nos ajudam e os nossos amigos, sem querer, nos atrapalham.

 

Marquês de Maricá – Os nossos inimigos contribuem mais do que se pensa para o nosso aperfeiçoamento moral.

Eles são os historiadores dos nossos erros, vícios e imperfeições.

 

VRB – As ilusões, apesar de não corresponderem à realidade, podem ser, em certas circunstâncias, necessárias ao equilíbrio emocional das pessoas.

 

Marquês de Maricá – Os homens preferem geralmente o engano, que os tranqüiliza, à incerteza, que os incomoda.

Todos nos enganamos reciprocamente: umas vezes de boa fé, outras sem ela.

 

VRB – Em alguns casos, a solidão é a melhor companhia.

 

Marquês de Maricá – A solidão nos liberta da sujeição das companhias.

 

VRB – O que é a velhice?

 

Marquês de Maricá – A velhice é prêmio para uns e castigo para outros.

A velhice, quando não melhora, deteriora os homens.

A velhice é a idade dos desenganos, como a mocidade a das ilusões.

 

VRB – Nem sempre a longevidade impõe respeito.

 

Marquês de Maricá – É triste a condição de um velho que só se faz recomendável pela sua longevidade.

 

VRB – Como é possível a convivência da velhice com a mocidade?

 

Marquês de Maricá – Os velhos não pertencem às gerações novas, são ruínas ou fragmentos das antigas.

Os velhos, condenando as travessuras dos moços, censuram a história da sua pretérita

mocidade.

Os moços, por falta de experiência, de nada suspeitam, os velhos, por muito experimentados, de tudo desconfiam.

Os velhos invejam a saúde e vigor dos moços, estes não invejam o juízo e a prudência dos velhos: uns conhecem o que perderam, os outros desconhecem o que lhes falta.

Os conselhos dos moços derivam das suas ilusões, os dos velhos, dos seus desenganos.

Ambos se enganam, o velho quando louva somente o passado, o moço quando só admira o presente.

A novidade incomoda os velhos, a uniformidade os moços.

Os velhos são injustos com os moços quando exigem deles qualidades morais que a idade, estudo e uma longa experiência podem somente conferir-lhes.

A incredulidade que é da moda nas pessoas moças, torna-se o seu tormento na velhice.

O futuro, que atormenta a velhice, deleita a mocidade.

A imprudência nos moços promove a sua atividade, a prudência, nos velhos, a sua inércia.

 

VRB – A avareza é um dos piores males da velhice.

 

Marquês de Marica – Não admira que os moços sejam pródigos e os velhos avarentos: no físico e moral, a mocidade é expansão e a velhice, contração.

É bem singular que os moços sejam pródigos podendo esperar uma vida longa, e que os velhos sejam avarentos estando ameaçados de uma morte próxima ou iminente.

A avareza é mais um achaque adicional da velhice.

Os velhos são ordinariamente mais egoístas e menos filantropos que os moços.

 

VRB – Na velhice, as pessoas deveriam ser desobrigadas de todos os compromissos.

 

Marquês de Maricá – Os homens parecem exigir que vivamos sempre para eles: todavia, na velhice, é justo que vivamos especialmente para nós.

 

VRB – Guarda por guardar é o sofrimento do avarento. Por que permitir que os outros dissipem o que se guardou? O avarento nem sequer percebe que é a expectativa de felicidade de seus herdeiros.

 

Marquês de Marica – O avarento é o mais leal e fiel depositário dos bens dos seus herdeiros.

 

VRB – Cuido ser uma ilusão pensar que, na velhice, as pessoas se tornem, necessariamente, mais racionais.

 

Marquês de Marica – A razão prevalece na velhice, porque as paixões também envelhecem.

 

VRB – Na velhice, o passado quase sempre é mais visível do que o presente.

 

Marquês de Maricá – Os velhos se deleitam e se entretêm com o tempo e o mundo que já passou.

O velho teme o futuro e se abriga no passado.

Os velhos caluniam o tempo presente atribuindo-lhes os males de que padecem, conseqüências do passado.

 

VRB – A idade modifica o conceito de amor

 

Marquês de Maricá – A mocidade é a estação da felicidade sensual, a velhice, a da moral e intelectual.

O amor na mocidade é ocupação, na velhice distração ou alienação.

 

VRB – A maioria dos velhos se aposenta da vida.

 

Marquês de Maricá – Velhos há que bem merecem ser comparados aos vulcões extintos.

O amor nos velhos é como o fogo no borralho que em cinzas se entretêm.

 

VRB – É na velhice que as pessoas mais se preocupam com a morte.

 

Marquês de Maricá – Os velhos se ocupam muito da morte, como os viajantes, em vésperas de viagem, dos seus arranjos relativos.

A morte para os velhos quanto mais tarda mais se aproxima.

É prova do pouco juízo em um velho interessar-se demasiadamente nos negócios deste mundo, de que a morte lhe anuncia a retirada.

Estuda-se mais na velhice para bem morrer do que se estudou na mocidade para bem viver.

 

VRB – Muitos velhos se tornam pessimistas e, por isso, padecem.

 

Marquês de Maricá – Os velhos, porque padecem, acreditam que tudo piora e degenera.

 

VRB – A prudência deveria ser uma das características da velhice

 

Marquês de Maricá – O velho que não tem prudência não se aproveitou da experiência.

A prudência supre a força que falece na velhice.

A velhice não tem graça; quando muito, tem juízo ou prudência.

 

VRB – A prudência, na velhice, pode ter também efeitos colaterais.

 

Marquês de Maricá – Os velhos tornam-se nulos e inúteis à força de prudência e circunspecção.

Os velhos, sendo prudentes, são acusados de indiferentes.

 

VRB – É um antigo preceito que nos recomenda a prudência em tudo o que fazemos. Assim, com fundamento nele, podemos afirmar que a ousadia deva ser, em qualquer circunstância, evitada?

 

Marquês de Maricá – Há muitas ocasiões em que a mesma prudência recomenda o aventurar-nos.

A prudência ou fraqueza dos bons é a causa mais ordinária da vitória e triunfo dos maus.

O homem prudente se humilha pela experiência, como as espigas se curvam por maduras.

A prudência é o resultado da consciência da nossa fraqueza: é um receio reflexionado dos males futuros pela experiência dos males pretéritos.

 

VRB – O que mais aborrece os outros na velhice?

 

Marquês de Maricá – A impertinência e rabugem da velhice procede em algumas pessoas do tédio e fadiga de sofrer por muitos anos a turba incômoda de loucos, tolos, néscios e velhacos.

 

VRB – Que visão do mundo podemos ter na velhice?

 

Marquês de Maricá – Inventariando e avaliando na velhice os nossos conhecimentos, reconhecemos com mágoa poucas verdades e inumeráveis erros.

É na velhice que se sabe melhor avaliar e apreciar saúde, ciência e riqueza.

O velho de juízo dá ao mundo a sua demissão antes que este o demita.

 

VRB – É na velhice que as pessoas mais se preocupam com a religião.

 

Marquês de Maricá – Na mocidade pouco se cuida na religião, é na velhice que as idéias religiosas ocupam especialmente o pensamento dos homens, que vendo escapar-lhes este mundo, necessitam para sua consolação de esperar uma vida futura, mais feliz e melhorada que a presente.

 

VRB – O que é pior na velhice?

 

Marquês de Marica – Quando a velhice nos faz retirar como atores do teatro do mundo já não servimos nem para espectadores: os sentidos obtusos da vista e ouvido com o torpor geral da sensibilidade nos privam da fruição dos dramas que se executam, restando-nos apenas a satisfação de ruminar o passado pela reminiscência e reflexão.

Na velhice provecta os cuidados e mágoas consomem a vida mais que os achaques e moléstias corporais.

 

VRB – A saudade é a sombra do passado que sempre nos acompanha.

 

Marquês de Maricá – As saudades crescem e avultam com os anos, e são inumeráveis na velhice.

 

VRB – Como nos situamos no mundo?

 

Marquês de Maricá – Vivemos entre dois infinitos, no tempo e no espaço: ocupamos um ponto da imensidade e duramos um instante da eternidade.

 

VRB – Só a reflexão nos permite avaliar melhor os imprevistos da nossa existência.

 

Marquês de Maricá – Convém não refletir e meditar muito para não chegarmos a desencantar-nos do mundo e da vida humana.

A profunda reflexão é também um dos achaques da velhice.

 

VRB – Apesar dos dissabores não perdemos o gosto pela vida.

 

Marquês de Maricá – A vida é um bem tão precioso que os velhos, gozando menos que os moços, são os que melhor a sabem prezar e avaliar.

Vivemos porque gozamos incomparavelmente mais do que sofremos: se sucedesse o contrário, morreríamos em breve tempo.

 

VRB – Há vida depois da morte?

 

Marquês de Maricá – De que nos serviria a outra vida se o nosso espírito não conservasse o cabedal de idéias e conhecimentos que adquiriu na primeira, e perdesse a memória da sua identidade individual e intelectual?

As noções sublimes de uma outra vida, e de um progresso intelectual ilimitado, não foram outorgadas pela divindade para nossa ilusão: se o gênero humano crê e espera semelhantes bens é porque tais crenças e esperanças lhe foram sugeridas por Deus, que não engana nem pode ser enganado.

 

VRB – O que seria esse ser sobrevivente?

 

Marquês de Maricá – A individualidade humana se extingue pela morte; outra qualquer que dela derive e lhe sobreviva é de natureza abstrusa e incompreensível à nossa inteligência.

E questão curiosa, se renascendo para uma segunda vida, não seríamos os mesmos que fomos, concorrendo em tudo as mesmas circunstâncias, condições e acidentes da primeira: a afirmativa parece provável com ressaibos de fatalismo.

Devemos congratularmo-nos de saber que ignoramos infinito; teremos de aprender eternamente, com variados corpos, em inumeráveis mundos.

 

VRB – Em outra vida, teríamos necessidade de ter um corpo?

 

Marquês de Maricá – Na existência neste mundo não podemos duvidar da necessidade de um corpo unido à substância que chamamos alma; poderá esta existir sem ele nos outros mundos e sistemas? É provável que não.

Vires acquirit eundo, diz-se de um rio, outro tanto se pode dizer dos espíritos, na sua eterna viagem por mundos inumeráveis, com variados corpos adaptados a seus diversos sistemas.

 

VRB – Se há espíritos, de que eles são feitos?

 

Marquês de Maricá – Os espíritos ou átomos indivisíveis e imortais preexistem à sua união com os corpos organizados; antes dela, não têm consciência da sua existência, nem podem ter o exercício das faculdades sensíveis e intelectuais que os distinguem, e só podem ser provocadas pela ação do mundo externo sobre os órgãos, sentidos e contextura dos corpos a que são unidos.

Os espíritos são átomos indivisíveis que se tornam viventes, sensíveis e inteligentes,

colocados em certos pontos distintos e centrais dos corpos organizados destinados a servir-lhes de meio de comunicação com o universo externo e material, e a provocar deste modo o exercício das suas faculdades naturais, sensíveis e intelectuais.

Quando os espíritos ou átomos indivisíveis se unem e se condensam, então se materializam, ganham extensão, forma, figura e densidade, e tornam-se capazes de localidade, ação e movimento.

 

VRB – É possível a vida, tal como a conhecemos, em outros planetas?

 

Marquês de Maricá – Pode haver, e é provável que haja nos outros sistemas e mundos, criaturas vivas, que não sendo impassíveis pela sua organização corporal, se tornem tais pela sua superior inteligência.

 

VRB – Já se postulou que a Terra é um organismo vivo.

 

Marquês de Maricá – Muitos dos fenômenos misteriosos deste mundo, seriam melhor explicados e entendidos, decidindo-se que o mesmo mundo é também criatura viva e animada por um espírito de superior categoria e transcendente inteligência.

 

VRB – O instante da morte pode ser prazeroso?

 

Marquês de Maricá – Ainda não morremos uma vez; quem sabe se o instante da morte não é aprazível e voluptuoso? Alguns sintomas externos parecem anunciá-lo, como uma epilepsia de sensual prazer.

 

VRB – O que é a matéria?

 

Marquês de Maricá – Não sabemos o que seja a matéria em abstrato e em substância; só a conhecemos em sua forma concreta, figurada e fenomenal, sendo por isso perceptível aos nossos sentidos corporais e capaz de ser idealizada com representações correspondentes aos objetos materiais que fizeram impressão sobre nós.

Não existindo no Universo mais que inteligência e matéria, esta é destinada e constituída para significar e simbolizar a primeira.

 

VRB – O mundo, uma vez criado, é eterno?

 

Marquês de Maricá – Cada mundo começa como um ovo ou embrião, e se vai desenvolvendo por séculos e milênios até chegar àquele ponto de maturação, que lhe foi destinado, e se resolve então nas substâncias elementares de que foi formado.

 

VRB – Tudo é um processo dialético, a vida é a harmonia dos contrários e o equilíbrio resulta de desequilíbrios compensados.

 

Marquês de Maricá – O jogo da vida e sociedades humanas compõem-se de ação e reação, atração e repulsão, simpatia e aversão, amor e ódio: destes elementos contrários e antagonistas resultam o equilíbrio, ordem e harmonia social.

 

VRB – É sempre difícil o relacionamento do sábio com as pessoas comuns.

 

Marquês de Maricá – Se o sábio cala, não é conhecido; se diz o que sabe, está perdido.

 

VRB – Se tudo está em contínua mudança, as pessoas também mudam e agem segundo as circunstâncias.

 

Marquês de Maricá – Não somos sempre o que queremos, mas o que as circunstâncias nos permitem ser.

Queixamo-nos dos homens, mas não das circunstâncias que os obrigam, e por freqüentes vezes, a ser o que são.

Temos o mesmo nome nas diversas idades da vida, e contudo somos bem diferentes de nós mesmos em todas elas.

 

VRB – Qual o valor da filosofia?

 

Marquês de Maricá – Sem filosofia não há sabedoria: quem não é filosofo não pode ser sábio.

 

VRB – Qual a maior tolice que um filósofo pode cometer?

 

Marquês de Maricá – O erro máximo dos filósofos foi pretender sempre que os povos filosofassem.