Jean de La Bruyère (1645-1696)

  

VRB – A linguagem, além de comunicação, é uma forma poderosa de sedução. Escritores e oradores fascinam multidões. Quem pensa e fala com propriedade sempre exerce uma forte influência sobre as pessoas.

 

Jean de La Bruyère – Deve-se procurar somente pensar e falar com acerto, sem querem sujeitar os outros ao nosso gosto e a nossos sentimentos. É uma empresa demasiado grande.

 

VRB – A simplicidade é uma das coisas mais difíceis na arte de escrever, de falar e de se comunicar com as pessoas. O desejo que elas têm de impressionar ouvintes e leitores pela erudição ostensiva e linguagem afetada, tornam-nas, às vezes, antipáticas.

 

Jean de La Bruyère – As coisas maiores só devem ser ditas com simplicidade; a ênfase estraga-as. As menores, precisam ser ditas com solenidade; elas só se sustentam pelo modo de expressão, pela atitude e pelo tom.

 

VRB – O conhecimento, por si só, não dá sabedoria. A sabedoria é a arte de ser livre.

 

Jean de La Bruyère – O sábio não permite que o governem, nem tampouco pretende governar os outros; o que quer apenas é que a razão governe sozinha e sempre.

 

VRB – A sensatez é um constante aborrecimento neste mundo maluco em que vivemos.

 

Jean de La Bruyère – O homem sensato evita às vezes o mundo, com medo de se aborrecer.

 

VRB – As pessoas exageradamente vaidosas sofrem de incurável miopia: não conseguem perceber além de si mesmos.

 

Jean de La Bruyère – Quase ninguém se apercebe, por si próprio, do mérito de outra pessoa.

 

VRB – A solidão, na maioria das vezes, é angustiante para muitas pessoas. Não sabem ser íntimas de si mesmas. Temem estar sozinhas, porque se sentem desprotegidas.

 

Jean de La Bruyère – Todo o nosso mal provém de não podermos estar sozinhos: daí o jogo, o luxo, a dissipação, o vinho, as mulheres, a ignorância, a desconfiança, o esquecimento de nós mesmos e de Deus.

 

VRB – É comum as pessoas falarem em passar o tempo, em matar o tempo, como se fosse algo incômodo, quando nada sabem fazer com ele. E há aquelas que não sabem utilizá-lo proveitosamente e se lamentam da rapidez como, na sua percepção, o tempo passa.

 

Jean de La Bruyère – Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se da sua brevidade.

 

VRB – Sempre fui contra ao direito de herança. A experiência tem demonstrado que é uma fonte de conflito na família, ensejando ódios, agressões, assassinatos.

 

Jean de La Bruyère – Os filhos seriam, talvez, mais caros a seus pais e, reciprocamente, os pais aos filhos, sem o título de herdeiros.

 

VRB – Há uma velha afirmativa ingênua de que a justiça será feita, ainda que demore. Infelizmente, nem sempre a justiça é feita.

 

Jean de La Bruyère – Uma coisa essencial à justiça que se deve aos outros é fazê-la, prontamente e sem adiamentos; demorá-la é injustiça.

 

VRB – A melhoria de status social é a meta de quase todas as pessoas, principalmente nas sociedades que estimulam a competição. Elas usam de todos os meios para alcançar este fim.

 

Jean de La Bruyère – Há apenas duas formas de subir na vida: pelo nosso engenho ou pela estupidez dos outros.

 

VRB – Segundo os Evangelhos, Jesus teria recomendado amar os inimigos. É uma recomendação extremamente difícil de ser obedecida. É utópico amar a quem odiamos. Amamos ou não amamos. Não podemos querer ou dever amar.

 

Jean de La Bruyère – É por fraqueza que odiamos um inimigo e pensamos em nos vingar; é por preguiça que nos acalmamos, desistindo da vingança.

 

VRB – As religiões, de um modo equivocado, falam do dever de amar. Ora, o amor é um sentimento que pode acontecer ou não acontecer com um ser humano. Assim, o amor é um sentimento não depende nem da vontade, nem do dever.

 

Jean de La Bruyère – Ser-se livre não é nada fazer, é ser-se o único árbitro daquilo que se faz ou daquilo que se não faz.

 

VRB – O poder, seja qual ele for, modifica a quase totalidade das pessoas. Muda-lhes a percepção das coisas e modifica-lhes os afetos. Quem está fascinado pelo poder não é mais confiável.

 

Jean de La Bruyère – É alcançar muito de um amigo se, tendo subido ao poder, ainda se recorda de nós.

 

VRB – A gentileza é uma forma sutil de sedução. A pessoa gentil sempre causa boa impressão e isso, em alguns, pode representar um perigo para quem se deixa seduzir.  A gentileza exagerada é, quase sempre, suspeita.

 

Jean de La Bruyère – A gentileza faz com que o homem pareça exteriormente, como deveria ser interiormente.

 

VRB – Quem se julga infeliz geralmente vive a destilar o seu azedume. Sofre e, algumas vezes, constrange os outros.

 

Jean de La Bruyère – Quem afirma que não é feliz, poderia sê-lo com a felicidade do próximo, se a inveja lhe não tirasse esse último recurso.

 

VRB – A tortura é uma velha prática da humanidade, seja de natureza física ou psicológica.  Apesar de aparentemente negada e combatida, ela permanece sendo usada furtivamente em qualquer regime político.

 

Jean de La Bruyère – A tortura é uma invenção maravilhosa e absolutamente segura para causar a perda de um inocente.

 

VRB – As crianças, que julgamos ser a esperança do futuro, moram e vivem no presente, enriquecidas pela sua imaginação.

 

Jean de La Bruyère – As crianças não têm passado, nem futuro, e coisa que nunca nos acontece, gozam o presente.

 

VRB – É hábito jurar-se para garantir o que se diz. Mentirosos adoram jurar. A palavra de uma pessoa deve ser a garantia do que ela diz. O juramento, mesmo em nome de Deus, é uma fórmula mágica de se garantir que o que se diz tem o aval de Deus.

 

Jean de La Bruyère – O homem honrado nunca jura; contenta-se com dizer: isto é ou isto não é. O seu caráter jura por ele.

 

VRB – Nem sempre é possível conciliar mérito e modéstia. O mérito geralmente adula a vaidade.

Costuma-se louvar a modéstia como um indicativo de pessoa superior e que, por isso, não se envaidece com o seu talento. As pessoas sinceramente modestas nunca dizem que o são.

 

Jean de La Bruyère – A modéstia é para o mérito o que as sombras são para um quadro. Dão-lhe forma e relevo.

A falsa modéstia é o último requinte da vaidade.

 

VRB – A ambição é um sentimento que causa sempre polêmica entre as pessoas: umas, o repudiam, outras, o prestigiam.

 

Jean de La Bruyère – O escravo apenas tem um senhor, o ambicioso tem tantos quantos lhe puderem ser úteis para vencer.

 

VRB – Muitos vivem preocupados com a riqueza e os meios mais eficazes de obtê-la. Aliás, esse é o único objetivo de suas vidas.

 

Jean de La Bruyère – É preciso um espírito especial para se fazer fortuna, sobretudo uma grande fortuna; não se trata nem do espírito bom nem do belo, nem do grande nem do sublime, nem do forte nem do delicado; não sei precisamente de qual se trata, e espero que alguém me possa esclarecer a tal respeito.

 

VRB – A riqueza é ilusória, embora cause a impressão de que é a forma mais eficaz para se ter felicidade.

 

Jean de La Bruyère – Não invejemos as riquezas de certas pessoas; pagaram por elas um preço elevado que não nos convinha: trocaram-na pelo sossego, pela saúde, pela honra e pela consciência; isso é caro demais e não há nada a ganhar por esse preço.

 

VRB – Somos incentivados a “subir na vida”, adquirir status e respeitabilidade social.

 

Jean de La Bruyère – No mundo, apenas há duas maneiras de subirmos, ou graças à nossa habilidade, ou mediante a imbecilidade dos outros.

 

VRB – Há momentos na vida em que algumas pessoas sentem vergonha de ser felizes. Nas pessoas sensíveis, o sofrimento dos outros abala a nossa felicidade.

 

Jean de La Bruyère – Há uma certa vergonha em sermos felizes perante certas misérias.

 

VRB – E há, ainda, pessoas que fazem de suas vidas uma infelicidade crônica.

 

Jean de La Bruyère – A maior parte dos homens utiliza a melhor parte da vida para tornar a outra infeliz.

 

VRB – O amor, que é o nosso sentimento maior, nem sempre resiste ao desgaste do tempo

 

Jean de La Bruyère – O tempo que fortalece as amizades, enfraquece o amor.

Não temos o poder de amar sempre como não o tivemos de nunca ter amado.

O amor que nasce de repente é o que demora mais para ser debelado.

 

VRB – Qual o sintoma mais evidente de que amamos ou deixamos de amar?

 

Jean de La Bruyère – O começo e o declínio do amor fazem-se sentir pelo embaraço em que se fica ao estar só.

 

VRB – Nem sempre é fácil fazer uma distinção entre o amor e uma forte amizade.

 

Jean de La Bruyère – O amor e a amizade excluem-se mutuamente.

Na amizade confiamos nosso segredo; mas no amor ele escapa.

 

VRB – Pode uma forte amizade transformar-se, com o tempo, em amor?

 

Jean de La Bruyère – O amor começa pelo amor; não se pode passar de uma forte amizade senão para um amor fraco.

 

VRB – Nem sempre é fácil conservar uma amizade.

 

Jean de La Bruyère – Não podemos levar muito longe uma amizade se não estivermos dispostos a perdoar uns aos outros os pequenos defeitos.

 

VRB – A vida feliz, para muitas pessoas, tem os seus fantasmas.

 

Jean de La Bruyère – A vida, quando é miserável, custa a suportar; se é feliz, é horrível perdê-la. Uma coisa equivale à outra.

 

VRB – Um herói é quase sempre um guerreiro, um homem que ergue sua glória sobre um monte de cadáveres.

 

Jean de La Bruyère – Não construais estátuas aos vossos heróis, é melhor erguer estátuas ás vossas vítimas.

 

VRB – Os chamados grandes homens nem sempre são como parecem, quando melhor observados. 
 

Jean de La Bruyère – Quanto mais nos aproximamos dos grandes homens, tanto mais percebemos que são apenas homens.

Não se deve julgar o mérito de um homem pelas suas grandes qualidades, mas pelo uso que sabe fazer delas.

 

VRB – O ódio é um sentimento que nos torna confusos e contraditórios. Quem tem inimigos vive perturbado, mesmo quando eles não estão presentes e nem lhe façam mal. O ódio só prejudica a quem odeia.

 

Jean de La Bruyère – É por fraqueza que odiamos um inimigo e pensamos em nos vingar; é por preguiça que nos acalmamos, desistindo da vingança.

 

VRB – Geralmente, uma longa doença terminal é um fardo para o enfermo e seus familiares. Ela é percebida como um martírio inútil e que poderia ser abreviado.

 

Jean de La Bruyère – Uma longa moléstia parece estar colocada entre a vida e a morte, para que a própria morte se torne um alívio para os que morrem e para os que ficam.

 

VRB – Cada pessoa procura dar um significado à sua vida. Qual o seu?

 

Jean de La Bruyère – Vida é uma tragédia para quem sente e uma comédia para quem pensa.