Huberto Rohden (1893-1981)

 

VRB – Professor Huberto Rohden, eu o conheci, quando esteve a primeira vez no Recife, em 1954, sob os auspícios do Grêmio Cultural Joaquim Nabuco. E também estive presente em todas as ocasiões em que pronunciou palestras na nossa cidade. As suas ideias influenciaram a minha juventude, embora, hoje, não aceite algumas delas. Reconheço-o, porém, como um grande filósofo espiritualista e, por isso, sinto-me à vontade para entrevistá-lo, indagando-lhe inicialmente: Qual a sua concepção de Deus?

 

Rohden – Por Deus entendo a Realidade absoluta, eterna, infinita, universal, a Causa-prima de todas as coisas; a Consciência Cósmica; a Alma do Universo; ou, no dizer de Einstein, a grande Lei que estabelece e mantém a harmonia do Universo. O que admito é a Vida Universal, que em todos os seres vivos se reflete como vida individual. Estou com Paulo de Tarso, que disse aos filósofos de Atenas: "Deus é aquele Ser no qual vivemos, nos movemos e temos a nossa existência".

A Realidade Integral é, para o nosso ego, o Vácuo, o Nada, o Irreal.

Os nossos sentidos e a nossa mente funcionam como válvulas de redução e dispersão,assim como o diafragma da câmara fotográfica, que permite a entrada de um pouco de luz, para que esse misto de luz e trevas, de positivo e negativo, produza contraste e relevo na imagem; se abríssemos o diafragma totalmente, entraria a luz solar total, e, nesse caso, por excesso de luz, não se formaria imagem; a imagem exige diminuição de luz, luz parcial. Essa imagem corresponde ao nosso conhecimento.

 

VRB – Assim, o conhecimento da realidade total ou Deus é impossível.

 

Rohden - Realidade Ontológica é para nós o Nada – somente a Realidade Lógica (a conhecida) é que é algo.

Em hipótese alguma, o nosso conhecimento sobre Deus é a própria Realidade de Deus, a Divindade.

Nós só conhecemos o nosso Deus, mas não a Deus, a Divindade.

Quando um indivíduo nasce, passa do Ser Infinito para o Existir Finito, do grande Todo para o pequeno Algo; e, enquanto permanece nesse plano do Finito, o indivíduo "existe" (ex-siste está colocado para fora); quando morre, deixa de existir, mas continua a ser, porque o que é será para todo o sempre. O Ser não tem princípio nem fim; somente o existir começa e termina o seu processo existencial. Quando o indivíduo morre, volta ao seio do Mar imenso do Ser Universal; a onda recai ao seio do Oceano; o sansara do existir regressa ao nirvana do Ser.

Todas as criaturas, antes de serem criadas, estão no Ser Universal; ao nascerem passam do Ser para o Existir, e, enquanto vivem nesse plano, têm existência no tempo e no es­paço; depois des-existem (de-sistem da existência) e voltam ao Ser Universal.

 

VRB – Quando as coisas não acontecem segundo as expectativas das pessoas, elas ficam confusas, aflitas ou revoltadas em relação a Deus

 

Rohden – A tentativa de harmonizarmos os caminhos ignotos do espírito de Deus com a nossa conhecida lógica e matemá­tica, é um tentame visceralmente absurdo, baseado num postulado inicial absolutamente falso, e sem nenhuma esperança de solução satisfatória. Queremos e esperamos tacitamente que os desígnios de Deus se "ajustem" aos modelos criados pela nossa inteligência, mas eles não se "ajustam", e mesmo que, por vezes, pareçam bem "ajustados" ao nosso modo de pensar, é por simples aparência externa; na reali­dade não se "ajustam", isto é, são "desajustados" ou "injus­tos". Não nos arvoremos em advogados de Deus, querendo provar que o seu governo neste mundo seja "justo" ele não é "justo" segundo a nossa bitola intelectual; pode ser até extremamente "injusto", e isto nos escandaliza, porque supomos tacitamente que os desígnios de Deus devam ser ajustados ao nosso modo de pensar.

 

VRB – Há alguma diferença entre a crença e a fé? A meu ver, a crença é um convencimento apenas intelectual, enquanto a fé é uma experiência espiritual.
 

Rohden – "Crer", "ter fé", é a mais arrojada aventura cósmica do homem. E' fechar os olhos dos sentidos e do intelecto e lançar-se ao tenebroso abismo do desconhecido, na certeza de que esse imenso vácuo de trevas é a plenitude da luz, e que essa morte total é a vida integral. É desnascer para tudo que sabemos e renascer para tudo que ignoramos. E' ultrapassar todas as horizontais do ego e entrar na grande vertical de Deus.

No princípio, é verdade, esse "crer" não passa de um simples "querer", de um ato de boa vontade, de um ingênuo "querer crer". Nem jamais deixará de ser esse débil "querer", enquanto não for fecundado pelo "viver", isto é, por uma vida diária em perfeita harmonia com a fé. Deve o crente viver como se já possuísse experiência de Deus e é precisamente nesse "como se" que está todo o tormento...Trilhar o caminho da vivência ética antes de atingir o mundo da experiência mística isto é imensamente difícil, isto é martírio de cada dia, é o "caminho estreito e a porta apertada", é o "fundo da agulha" de que nos fala o divino Mestre. Transcender o pequeno ego antes de atingir o grande Eu, renunciar ao Lúcifer antes de encontrar o Cristo isto é uma espécie de salto ao abismo, ou uma suspensão no vácuo.

 

VRB – Pode a fé resultar na morte do ego?

 

Rohden - "Crer" é um egocídio, uma morte do ego, que precede |necessariamente o nascimento do Eu, da "nova criatura em Cristo".

Morrer para viver é esta a grande verdade!

Quem não morreu não vive plenamente e quem não tem vida plena não pode crer. Não basta ser morto compulsoriamente é necessário morrer espontaneamente, para poder crer. Só um voluntariamente morto é que é um verdadeiro crente, e, neste caso, o seu "crer" é um verdadeiro "saber" e "saborear". Esse "saber" e "saborear", após a morte mística do egocídio voluntário, é que introduz o homem na vida eterna, numa vida que ultrapassou o precário nascer e o precário morrer e é um firmíssimo viver. Vida que ainda conheça nascer e morrer não é vida plena, é apenas uma pseudovida ou uma agonia prolongada, um ligeiro parêntese de luz entre duas trevas, um subitâneo lampejo na noite escura. Somente uma vida que brotou de uma morte voluntária é que é vida integral.

 

VRB – Suscito-lhe uma velha questão teológica: a graça de Deus é uma dádiva ou resulta do mérito da pessoa em obtê-la?

 

Rohden – O homem não pode, em hipótese alguma, ser causa da graça que Deus lhe concede; pode ser apenas condição para esse efeito. Se o homem fosse causa da graça, estaria Deus ligado, e não livre; teria obrigação de conceder 10 ou 100 ou 1.000 graus de prêmio a 10, 100 ou 1.000 graus de merecimento. Mas a Constituição do Universo não conhece essa compulsão mecânica.

A graça não corresponde matematicamente ao trabalho prestado, embora seja necessário um certo trabalho prestado, para que a graça possa operar, uma vez que o homem é um ser livre, e não um autômato passivo. Se eu não abrir o interruptor elétrico, não virá a mim a luz ou força da usina, mas essa luz ou força que vem não tem proporção alguma com o grau do esforço que emprego para possibilitar essa vinda. A luz ou força podem ser milhares e milhões de vezes maiores do que o esforço que empreguei para chamá-las, porque o esforço que faço em abrir o interruptor não é causa interna, mas simples condição externa para o advento da corrente elétrica. A causa é a usina.

E' assaz estranho que o homem queira reduzir a Deus a uma espécie de "sócio da mesma firma", impondo-lhe a obrigação de fazer isto ou aquilo: porque o homem fez tal e tal coisa, Deus tem de fazer isto ou aquilo! Não existe, na realidade, essa espécie de democracia niveladora; o universo de Deus é uma gigantesca hierarquia, onde nenhuma coisa é justaposta a outra, mas tudo é sub- e superordinado.

 

VRB – Essa concepção é resultado do antropomorfismo já denunciado, na Grécia antiga pelo filósofo Xenófanes.

 

Rohden – Projetamos para dentro da ordem divina e espiritual os nossos costumados conceitos humanos, jurídicos, sobre justiça, direito e obri­gação. Tratamos a Deus como se ele fosse um empregador, e nós os seus empregados, com direito a certo salário. Entre empregador e empregado vigora, certamente, uma relação jurídica de dar e receber, de trabalho e pagamento; depois que o empregado prestou o seu serviço, o empregador tem de lhe pagar esse serviço; é questão de justiça. O dinheiro que o empregador paga ao empregado é o equivalente ao trabalho por este prestado e assim os dois estão quites.

E' muita ingenuidade transferir esta relação para Deus. A noção jurídica vigora no plano horizontal, de indivíduo a indivíduo, de finito a finito; mas não pode de forma alguma ser transferida para o plano vertical, de indivíduo a Universal, de finito a Infinito. Supomos tacitamente que a mesma relação que vigora de finito a finito, de homem a homem, deva vigorar também entre finito e Infinito, entre o homem e Deus.

E' intrinsecamente impossível que o homem finito possa "merecer" algo do Deus infinito. A desproporção é absoluta. A concepção jurídica do "merecimento" vigora exclusivamente nas relações humanas. Tudo que o homem recebe de Deus é invariavelmente "graça", dom gratuito, e não paga­mento.

No plano finito do mérito vigora a relação de causa e  efeito mas no plano divino não há causalidade, há tão-somente graça ou gratuidade. A lei de causa e efeito supõe igualdade de nível, horizontalidade entre os dois interessados ou contratantes, porque esta lei é derivada do mundo dos fenômenos materiais, finitos, não tendo aplicação alguma no mundo espiritual, Infinito.

A única coisa que o homem pode e deve fazer em face de Deus e do mundo espiritual é criar uma condição propícia, isto é, um ambiente, uma disposição interna, uma atmosfera ou receptividade que possibilite o advento da graça; mas essa condição externa nunca equivale a uma causa interna. O homem pode, por assim dizer, abrir uma janela em sua alma, e a luz solar da graça entrará por essa janela, mas isto não quer dizer que a janela tenha causado a iluminação da sala; se lá fora não houvesse sol, nada adiantaria abrir janela. O abrimento da janela é apenas uma condição indispensável para que a luz solar possa entrar na sala.

 

VRB – As pessoas religiosamente simples acreditam em milagres, atribuindo-os a uma ação de Deus para mostrar aos crentes o seu poder de modificar a natureza.

 

Rohden – Milagre em latim miraculum é algo que a gente "admira" ou "estranha", como diz a própria palavra. Porque alguém estranha um fenômeno? Porque lhe ignora a causa. Ninguém admira, estranha, algo cuja causa conhece . Milagre é, pois, algum fato ou processo que ultrapassa o alcance do meu conhecimento. Mas daí não se segue que ultrapasse as barreiras da natureza a não ser que alguém julgue conhecer todas as forças da natureza. A natureza é infinitamente mais vasta do que o alcance dos nossos conhecimentos. Abrange todas as realidades, mesmo as que ultrapassam os sentidos e a inteligência. Também as forças espirituais fazem parte da natureza. A natureza é material-mental-espiritual, e tudo quanto acontece dentro deste âmbito é natural. Também Deus faz parte da natureza, tanto assim que ele é a causa única de todos os efeitos. E' anticientífico definir a natureza em termos de "matéria e força", entendendo-se com isto apenas as matérias e forças acessíveis aos sentidos e ao intelecto analítico.

 

VRB – Como conciliar o Ser de Parmênides com o devir de Heráclito?

 

Rohden – A Realidade Total é tanto Ser como Devir, Passiva e Ativa, Inconsciente e Consciente, Dativa e Receptiva. A Divindade e os mundos não são duas realidades disjuntivas e separadas; são uma única Realidade, que, como o Real, é Causa causante e invisível, e, como Realizado, é o Efeito causado e visível.

 

VRB – É o universo finito ou infinito?

 

Rohden – O Universo é infinito na sua realidade transcendente – porém finito em seu aspecto imanente.

Com outras palavras: o Universo como real e realizante é infinito – o Universo como realizado é finito.

O Infinito, que está finitamente em qualquer finito, está infinitamente no Infinito. A imanência é, pois, uma presença limitada do Ilimitado, ao passo que a transcendência é uma presença ilimitada do Ilimitado.

Não envolve contradição afirmar que o Infinito está finitamente no finito, uma vez que essa limitação não vem da essência do Infinito, mas sim da sua existência;o Infinito em si continua Infinito, quando imanente no finito; apenas a sua maneira de se manifestar existencialmente é que é modificada por esse recipiente finito. O Imanifesto continua ilimitado dentro de todos os manifestos limitados.

No verdadeiro monismo, o Todo Infinito transcende infinitamente qualquer Algo finito, ou a soma deles; o Todo está parcialmente imanente em cada Algo, ao passo que qualquer Algo está totalmente imanente no Todo.

Essencialmente, é verdade, a Divindade está toda no mundo e em qualquer das suas parcelas; mas existencialmente se revela nelas apenas parcialmente; a sua presença essencial é total, mas a sua manifestação existencial é parcial, porquanto "o recebido está no recipiente segundo a capacidade do recipiente"; a finitude do recipiente limita a infinitude do recebido — limita-o em sua imanência existencial, e não em sua  transcendência essencial.

Sendo que o finito só conhece o Infinito transcendente segundo a sua capacidade finita imanente, e não segunda a realidade infinita do transcendente, segue-se que a percepção ou consciência que qualquer finito tem do Infinito é finita, limitada. Essa consciência finita, é claro, admite graus de intensidade; um finito de 10 graus percebe o Infinito como sendo 10; outro finito de grau 20 ou 50 percebe o Infinito como sendo 20 ou 50. Quer dizer que a ordem lógica do conhecer (finito) nunca coincide com a ordem ontológica do ser (infinito). O finito em demanda do Infinito está sempre a uma distância infinita.

 

VRB – A Igreja ainda insiste no mito do inferno e do sofrimento eterno para os pecadores.

 

Rohden – Pensar que Deus dê ao homem a possibilidade de cair nesse inferno e depois lhe negue a possibilidade de sair dele, é flagrantemente anti-racional, além de supinamente blasfemo. Que diríamos de um pai humano que permitisse a um filho ofendê-lo, mas depois lhe negasse a possibilidade de se arrepender e pedir perdão? Esse pai monstruoso é o Deus das nossas teologias. Que admira que muitos homens pensantes e sinceros se afastem das igrejas e pratiquem a sua religião fora das organizações eclesiásticas? O ateísmo é produto específico do nosso cristianismo teológico; fora do cristianismo não há ateus. O ateu nunca nega o Deus verdadeiro, nega aquela caricatura de Deus que os teólogos lhe apresentaram e que sua razão esclarecida repele; e, como muitos não encontram outro Deus fora daquele que rejeitaram, por motivos de sinceridade consigo mesmos, dizem-se ateus. No dia e na hora em que chegam a conhecer o Deus verdadeiro deixam de ser ateus.

 

VRB – Mas, há textos nos chamados “livros sagrados” que são contraditórios.

 

Rohden – Toda vez que algum texto sacro parece estar em conflito com o que sabemos espiritualmente de Deus, devemos explicar o texto material segundo a experiência espiritual. Sabemos, antes de abrirmos qualquer livro, que Deus é Amor e Justiça; se a análise de algum texto nos levar a uma conclusão contrária, temos absoluta certeza de que essa análise está errada; não pode a inteligência servir de guia à razão espiritual. Ora, afirmar que Deus dê ao homem liberdade para pecar e lhe negue a liberdade para se conver­ter, é abolir tanto o amor como a justiça de Deus. Admitir que lhe conceda 50 ou 80 anos de liberdade para pecar, e depois lhe negue essa liberdade por toda a eternidade, é o mesmo absurdo. Crer que Deus inflija um castigo infinito (eterno) por um erro finito (temporário) é não somente pecar contra o amor e a justiça de Deus, mas equivale também a um pecado mortal contra a lógica, uma vez que ne­nhum ser finito é capaz de um sofrimento infinito; o eterno, porém, é o infinito no tempo. Um sofrimento infinito aniquila qualquer ser finito, O finito só pode suportar um sofrimento finito.

 

VRB – Além disso, que felicidade gozaria o salvo no Paraíso, sabendo que alguns de seus entes queridos estão sofrendo no Inferno e que esse sofrimento é eterno? A felicidade dos eleitos seria um forte psicotrópico para mantê-los tranquilos e indiferentes ao sofrimento das pessoas que ele amou na sua vida terrena?

 

Rohden – Suponhamos, meu amigo, que você esteja salvo, no céu, e seus pais e irmãos estejam perdidos para sempre no inferno; se você fosse capaz de gozar eternamente a sua felicidade, sabendo que outros são eternamente infelizes, seria você um egoísta muito maior do que os condenados; aqueles seriam egoístas no sofrimento, e você seria um egoísta no gozo. Se eu tivesse a escolha de simpatizar ou com esta ou com aquela parte, creio que as minhas simpatias seriam antes para os egoístas no sofrimento do que para os egoístas no gozo. A obtusidade do nosso senso de solidariedade universal, a impossibilidade de experimentarmos a humanidade como uma família e sentirmos em nós a vida universal do cosmos é que torna possível essa monstruosa teologia de um céu eterno para os bons e um inferno eterno para os maus. Tolstói, Gandhi, Schweitzer e muitos outros clarividentes acharam tão revoltante a idéia de eles gozarem ao lado de milhões de sofredores que nivelaram as diferenças entre si e os outros, ou fugindo da sua prosperidade, ou fazendo outros participarem dela. Isto é solidariedade universal.

 

VRB – Hoje, há centenas de fatos, denominados, em Parapsicologia, de memória extracerebral que sugerem a reencarnação.

 

Rohden – Aceito qualquer fato histórico provado como tal. Se alguém me provar que fulano é a reencarnação de sicrano, que reapareceu em carne e osso depois de desencarnar (morrer), não tenho a menor dificuldade em aceitar esse fato.

No caso que seja necessário alguém reencarnar a fim de continuar a sua evolução ascensional, é claro que terá tudo que seja necessário para essa evolução.

Entretanto, em hipótese alguma, podemos equiparar a reencarnação física ao renascimento espiritual, de que falam Jesus e outros guias espirituais; nem devemos estabelecer nexo causal necessário entre este e aquela, fazendo o renascimento pelo espírito depender do renascimento pela carne. "O que nasce da carne é carne mas o que nasce do espírito é espírito; é necessário renascerdes pelo espírito". "A carne de nada vale o espírito é que dá vida".

 

VRB – Os religiosos geralmente confundem sobrevivência com imortalidade. Já tive, pessoalmente, problemas com alguns deles, por afirmar que a sobrevivência é passível de ser provada cientificamente, mas que a imortalidade é uma questão de fé.

 

Rohden – Pode a alma humana sobreviver à morte corporal por anos, séculos ou milênios, sem ser imortal. Sabemos, hoje em dia, mediante provas empíricas, que o corpo astral do homem sobrevive à destruição do seu corpo material, podendo até ser materializado visível e tangivelmente; mas nada disto prova a imortalidade da alma humana. Aliás, essas próprias entidades astrais são unânimes em afirmar que elas não são imortais, que sucumbirão à morte, e até a várias mortes.

Podem os mortos sobreviver séculos, e talvez milênios, em seus corpos astrais, etéricos, causais, mentais, ou que outro nome tenham; e essa sobrevivência temporária foi provada experimentalmente em milhares de casos. Mas nunca nenhuma experiência de laboratório, de física, de química, de matemática, nem o aparecimento espontâneo de uma entidade em corpo imaterial provou a imortalidade. Esta, por sua própria natureza, não pode ser objeto de provas científicas, mas é assunto exclusivo de uma experiência espiritual, íntima, dentro do próprio sujeito. Quem não viveu e vive a sua imortalidade, seja antes seja depois da morte física, esse não tem certeza da vida eterna, embora conheça a sobrevivência. A certeza da vida eterna não é presente de berço nem de esquife, não é dada pela vida nem pela morte mas é uma conquista suprema da vivência. Dela não sabem nem os vivos nem os mortos mas tão-sòmente os viventes os sempre viventes,  que existem, embora poucos, tanto entre os vivos como entre os sobreviventes, mas não se identificam nem com estes nem com aqueles.

 

VRB – Teoricamente, é possível ao ser humano imortalizar-se?

 

Rohden – O homem é possivelmente imortal, quer dizer que se pode imortalizar, e pode também falhar a sua imortalização; há, para êle, a possibilidade de uma "vida eterna" e de uma "morte eterna". Se o homem, no ciclo total da sua evolução, não criar o seu corpo-luz, integrando-se assim no Todo Universal (sem se diluir nele), então se desintegra individualmente e volta para donde veio. Os elementos ma­teriais voltam para a terra e o ar, e o seu elemento espiritual, a alma, volta para o Espírito Universal. O homem-indivíduo deixou de existir, embora o espírito divino dele continue a ser; mas esse Espírito Universal não é o homem, não é sua alma, seu Eu individual. O homem que cai vítima da morte eterna dissolve-se como os seres da natureza infra-humana.

 

VRB – Espiritualistas acreditam que a meditação é o caminho para o encontro com Deus.

 

Rohden – Meditação não é outra coisa a não ser calar-se para que Deus possa nos falar. Deus não fala pelo barulho, só fala pelo silêncio. Se alguém não consegue ficar silencioso, nunca vai saber nada de Deus; pode crer em Deus, e é bom que o faça, mas nunca vai ter nenhuma certeza de Deus, pois a certeza vem com a experiência, conseguida pela meditação em silêncio. Meditação não é pensar em alguma coisa. É esvaziar-se de todos os pensamentos e desejos próprios e ficar plenamente consciente.

 

VRB – É relativamente fácil abolir o ruído. Mas como impedir o ruído mental?

 

Rohden – É o ruído mental que impede que Deus nos fale. Deus não fala enquanto eu não me calar mentalmente! Mesmo que eu cale fisicamente, não resolve! É preciso entrar num silêncio mental. Alguns conseguem evitar o barulho mental, que se chama pensamentos, mas não conseguem se livrar de um outro ruído que se chama ruído emocional: os nossos queridos desejos, as nossas afetividades de todas as espécies! Sempre desejamos alguma coisa e enquanto nós desejamos, queremos alguma coisa, não estamos em nosso vazio e Deus não tem licença para nos visitar. Deus não pode nos falar enquanto nós não nos calarmos mentalmente e emocionalmente durante certo período de nossa vida e isso é muito difícil para o grosso da humanidade.

 

VRB – Há alguma técnica para a meditação?

 

Rohden – Não há nenhuma técnica! Se existe uma técnica é o silêncio e não é nenhuma técnica: é simplesmente se esvaziar de todos os conteúdos humanos e ficar à disposição do Infinito... uma disponibilidade espiritual em face ao Infinito, nada mais é necessário. Fazer de si uma completa vacuidade...

 

VRB – E como isso é possível na agitada vida urbana em que vivemos? Na conturbação do mundo moderno? No assédio constante do cotidiano, gerando problemas e conflitos entre as pessoas?

 

Rohden – Isso exige algum exercício porque os nossos pensamentos são tirânicos! No geral, não pensamos aquilo que queremos. Somos bombardeados pelos nossos pensamentos! O nosso cérebro é uma praça pública por onde passam milhões de homens, mulheres e automóveis buzinando por todo lado! O nosso cérebro é uma praça pública invadido por todos os pensamentos sem a nossa licença! Os pensamentos entram e saem como todos os vagabundos entram e saem pela praça pública. E nós permitimos a passagem dos pensamentos pelo nosso cérebro. Desse modo, é impossível ter a experiência direta de Deus. É preciso transformar a praça pública do nosso cérebro num santuário silencioso de Deus! Você pensa que é fácil? Isto é um grande problema, mas é possível!

 

VRB – E como podemos libertarmo-nos de tudo isso, se os nossos pensamentos são de difícil controle?

 

Rohden – A grande libertação começa no Silêncio e termina no trabalho em meio ao barulho da sociedade. Para os principiantes é necessário fazer meditação e retiro espiritual em silêncio. Mas para os finalizantes, isto é possível no meio da sociedade, porque tudo que estamos fazendo e que hoje chamamos de autoconhecimento e de auto-realização, não é outra coisa se não Libertação.

Libertação não quer dizer fuga, não quer dizer o abandono da sociedade. Libertação começa com silêncio e com solidão, mas termina no meio da sociedade. Para o princípio nós precisamos do silêncio e da solidão, para nos consolidarmos no domínio espiritual, mas quando estamos devidamente consolidados no domínio espiritual, nós podemos voltar ao meio da sociedade e a sociedade já não nos faz mal, porque não podemos mais ser derrotados pela sociedade, pois já somos senhores da sociedade, senhores dos pensamentos e senhores das emoções.

 

VRB – As pessoas buscam a felicidade e tudo fazem para evitar o sofrimento.

 

Rohden – Não podemos resolver o problema central de nosso sofrimento, por meio das mais variadas formas de escapismo e camuflagem. De nada adianta narcotizar nossos sentimentos. É melhor enfrentar corajosamente a dolorosa realidade desse inevitável encontro com Deus. É uma operação cirúrgica sem anestesia, uma tremenda sangria do velho ego, mas o resultado é convalescença e vida...

Entretanto, são pouquíssimos os homens que possuam suficiente honestidade consigo mesmos para enfrentar lealmente esse doloroso encontro com Deus. O preço da felicidade é o egocídio, o total esvaziamento do ego não iniciado e sua definitiva integração no Eu vivenciado. Despossuir-se de todas as coisas a fim de possuir um "tesouro nos céus"...

 

VRB – A felicidade é talvez o maior objetivo do ser humano. Para muitas pessoas não é fácil ser feliz.

 

Rohden – Não faça sua felicidade depender do que não depende de você.

Quem se interessa por tudo, sem depender de nada, é profundamente feliz.

 

VRB – Como o senhor se sente, quando alguém lhe faz mal?

 

Rohden – Nenhum mal que os outros me fazem me faz mal, porque não me faz mau somente o mal que eu faço aos outros me faz mal porque me faz mau.

 

VRB – Excetuando a prece pelos enfermos, qual o maior bem obtido por aquele que ora?

 

Rohden – O fim da prece não é alcançar algum bem é fazer-te bom. A prece te faz melhor, mais paciente, mais humilde, mais caridoso, mais sereno, mais leve, mais feliz, mais humano e mais divino.

 

VRB – Só o bem que fazemos espontaneamente aos outros nos faz bem. Quem faz o bem por outro motivo apenas beneficia àquele que o recebeu.

 

Rohden – Faze bem a ti mesmo, na pessoa dos outros. Faze o bem por amor ao bem dentro de ti mesmo e aos outros. O único meio de fazeres bem a ti mesmo e aos outros, é seres bom, intimamente bom.

O principal beneficiado da nossa caridade não é aquele que recebe, mas sim aquele que dá o benefício "há mais felicidade em dar do que em receber". O sujeito ou autor do benefício é mil vezes mais favorecido do que o objeto ou beneficiado. Deus pode fazer o bem que eu faço mas Deus não pode ser bom em meu lugar. Muito mais importante do que fazer o bem é ser bom. O beneficiado recebe o bem que eu faço mas o benfeitor se torna bom pelo bem que ele faz; logo, o principal beneficiado é o benfeitor; antes de realizar qualquer bem no outro, ele o realiza em si mesmo, pelo fato de ser bom; pelo fato de realizar nos outros os dons de Deus, esse homem realiza em si mesmo o próprio Deus...

 

VRB – Em que difere o seu evolucionismo do de Darwin?

 

Rohden – Afirmamos, pois, como evolucionistas, que todos os seres finitos superiores do mundo vieram através de seres finitos inferiores, porque este processo foi provado pela ciênciamas não afirmamos que os seres finitos superiores tenham vindo, como efeitos, de causas finitas inferiores, porque tal coisa não foi provada, nem será provada jamais, por ser intrinsecamente impossível. Nenhum fator finito causa outro fator finito maior do que o primeiro. O que não está contido no produtor não pode ser por ele produzido; nenhum produzido ou produto pode ser maior que seu produtor. Quando tal coisa parece acontecer na natureza, há equívoco ou engano de observação ou erro de conclusão da parte do homem.

Voltando ao ponto de partida: todos os finitos, quer do mundo mineral e vegetal, quer do mundo animal, intelectual e espiritual, nasceram e nascem do seio do Infinito, uma vez que a íntima natureza do Infinito é Essência eterna que, sem cessar, se revela em Existências temporárias. Nenhuma filosofia digna deste nome pode negar esta verdade.

No plano das Existências, porém, há um processo evolutivo, automático nos setores inferiores do simples instinto; livre e espontânea nos setores superiores da consciência e liberdade. Essa liberdade consciente permite tanto evolução como involução, progresso e regresso, movimento ascensional e movimento descensional.

Criação e evolução são processos complementares, e não contrários ou adversários. Criar é dar inícioevolver é continuar o que foi iniciado.

No plano dos finitos não há início, criação há tão-somente continuação, evolução.

Não há criação sem evolução nem pode haver evolução sem criação.

O homem veio do Infinito (criação), mas flui e flui ainda através de vários Finitos (evolução) – até, um dia, atingir o ponto culminante dos Finitos, o “ponto Omega”, o Cristo Cósmico.

 

VRB – Hoje, mais do que nunca, os cientistas pesquisam questões que, no passado, se restringiam ao campo da filosofia e da religião, tais como a natureza da realidade, as relações entre mente e cérebro. Então, como última indagação nessa entrevista, lhe pergunto: O que é a matéria? O que é a mente?


Rodhen – O que os materialistas chamam matéria são apenas os fenômenos perceptíveis dela; ninguém sabe o que é a matéria em sua essência indivisível.

A mente é o aspecto consciente e ativo da matéria.