HABITAÇÃO

29 de novembro de 1968

 

 

Desde os tempos mais remotos, o homem procurou um refúgio para defender-se da hostilidade da natureza e da agressão dos animais selvagens. De conformidade com a localização geográfica e o material disponível, ele construiu os mais di­versos tipos de habitação.

Os caçadores e os pescadores pré-históricos habitavam em cavernas; os pastores, em toldos de pele, levantados sobre postes; os lavradores fabricavam choças com ramas entrelaçadas e cobertas de barro. Foram estas as formas primitivas de habitação.

Durante o neolítico, em determinadas regiões da Itália, Suíça e norte da Europa, apareceram as palafitas, ou seja, habitações de madeira sobre plataformas suspensas por espécies de pilotis à superfície dos rios.

No Egito, a arquitetura teve um caráter predominantemente religioso. Os seus edifícios mais notáveis são os templos e os túmulos geralmente construídos de pedra. O povo, no entanto, habitava em casebres e o próprio faraó em palácio feito de tijolo. A arquitetura mesopotâmica pou- co subsistiu face à fragilidade do material utilizado nas   construções.

Creta também se notabilizou por seus palácios, notadamente no período compreendido entre 1700 a 1200 a.C. A arquitetura grega, que influenciou, sob muitos aspectos, a concepção arquitetônica européia, atingiu seu ponto culminante entre os séculos V e IV a.C. Exemplos disso são o Partenon, o Teatro e o Ágora. Roma introduziu um sentido mais funcional e pragmático à sua arquitetura, conquanto sofresse forte influência helênica. Notabilizou-se pelo emprego de técnicas próprias, cabendo-lhe a descoberta do concreto e a construção de casas de vários andares. A construção civil romana destacou-se pela criação de foros, anfiteatros, termas, aquedutos e pontes. Entre eles, os mais famosos foram o Panteão e o Coliseu.

Com o advento do Cristianismo, a arquitetura religiosa tornou-se, mais uma vez, preponderante com a adaptação de velhas formas arquitetônicas romanas. Bizâncio criou um estilo peculiar, caracterizado pela exuberante decoração de mosaicos. Data desta época, o aparecimento da cú­pula, que culminou com a construção da famosa Catedral de Santa Sofia, no século VI d.C.

A chamada arquitetura românica é um misto de arquitetura romana, pelo aspecto formal, e cristã pelo espírito que a orientava. Caracteriza-se pela integração de escultura e ornamentação.

No século XIII, surgiu, na Europa, em substituição à arquitetura românica, o estilo gótico, que se caracterizou pela verticalidade e leveza, ao contrário do românico, horizontal e pesado. Estruturalmente, ele se personalizou pelo arcobotante e pela abóbada ogival,

O século XVII marcou o aparecimento da arquitetura renascentista, que se impôs em toda a Europa, apresentando certas variações regionais. Dentro dessa concepção arquitetônica renascentista, surgiu o estilo barroco, que se desenvolveu, principalmente, na Itália e na Espanha.

No século XVIII, o barroco francês se destacou dos demais e desenvolveu um estilo próprio, co­nhecido pelo nome de rococó, que, mais tarde, foi transportado para o continente americano.

A arquitetura islâmica, cujas formas típicas são a abóbada, o minarete e o arco em ferradura, também se tornou peculiar pela decoração abstrata, chamada de arabesco.

A arquitetura chinesa, refletindo as idéias religiosas e filosóficas do seu povo, teve como forma característica, o pagode, as pontes e os quiosques. A arquitetura chinesa influenciou, decisivamente, a japonesa, que dedicou grande importância aos jardins, sendo a madeira o material favorito de suas construções.

Se, no século XIX, os arquitetos procuraram imitar os velhos modelos clássicos, os seus colegas do século XX desenvolveram uma concepção arquitetônica, que se caracterizou pela simplicidade e funcionalidade.

Os pobres, em sua maioria, não possuem uma casa para morar. Na Europa, por exemplo, no inicio da era industrial, grande era o número de pessoas, que dormiam na rua. Em Cal­cutá, até data recente, 600.000 mil pessoas dormem ao relento. Um recenseamento efetuado em Bombaim, no ano de 1963, revelou que, em cada 66 pessoas, uma vivia desabrigada, enquanto outras 77.000 moravam embaixo de escadas, em currais de gados e outros lugares semelhantes.

Ao lado do fenômeno social conhecido pelo nome de grilagem, ou seja, pessoas que não têm onde morar, existe o problema das favelas e da sua superpopulação. Em 1948, em Bombaim, o número de pessoas que ocupavam um quarto atingia a média de 7, não sendo incomum o aglomerado de 10 pessoas num espaço de 3,00x4,50. No Panamá, num quarto de 4,50x4,50 residem até 20 indivíduos, que dormem em sistema de revezamento. Em Kingston, Jamaica, 9 pessoas ocupam uma área do 1,80x3,00 metros. Em Ghana, na cidade de Acra, no ano de 1960, a ocupação média, por residência, era de 19 pessoas. Em Hong-Kong, 5 ou 6 pessoas ocupam cubículos, que medem, aproximadamente 3,70 m2.  Em Singapura, 6 a 8 pessoas, inclusive até 5 crianças, dormem no espaço de  2,10x3,00 metros.

A grilagem é um fenômeno inerente às regiões subdesenvolvidas, apresentando maior índice de incidência na Ásia, África e América Latina. Atualmente, na Turquia, há cerca de 240.000 grileiros. Eles constituem 45% da população de Ancara, 21% da de Istambul e 18% da de Izmr. Em 1951, totalizavam um número de 600.000 em Bagdá e de 20.000 em Basra, no Iraque. Em Karachi, representam 1/3 da população. Eles constituem 20% da população de Manilha e, na Venezuela, a sua proporção é de 65%. Em Cali, na Colômbia, o índice de grileiros é de 30%. Em Santiago do Chile, 25%, em Singapura 15% e em Kingston, Jamaica, 12%. Em Delhi moram cerca de 150.000 grileiros.

As catástrofes, como terremotos, furacões e enchentes, têm contribuído para o agravamento do problema habitacional. Os furacões nas Índias Ocidentais destroem, freqüentemente, centenas de residências. Terremotos no Chile e enchentes no Extremo Oriente têm produzido os mesmos efeitos catastróficos. Milhões de pessoas enfrentam, continuamente, o perigo de enchentes na Índia e, em 1965, quando o Mahanadi, o maior rio da pro­víncia de Orissa, atingiu seu mais alto nível, deixou ao desabrigo cerca de 300.000 pessoas. Recentemente, os países têm-se preocupado seriamente com o problema habitacional, exercendo pressão sobre as Nações Unidas, exigindo-lhe uma ação mais ampla nesse sentido.

No Brasil, esse problema tem sido um dos mais angustiantes, em virtude mesmo da diversidade demográfica, ecológica e econômica de suas regiões.