A FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA

7 de fevereiro de 1969

 

 

A familia é a mais antiga manifestação associativa do ser humano, e, em razão dela, se estabeleceu a primitiva divisão de trabalho e funções.

A sociologia e a antropologia têm demonstrado a existência de variadas formas dessa instituição, onde se observa que o homem e a mulher nem sempre tiveram atribuições definitivas ou universalmente estabelecidas.

A forma mais antiga da família é a consangüínea, praticamente desaparecida, encontrando-se os seus vestígios em toda a Polinésia, em um certo sistema a que se denominou de parentesco havaiano. Nessa modalidade, os irmãos e irmãs casam entre si, o mesmo acontecendo com os primos em todos os graus. As teocracias egípcia, japonesa e asteca adotaram esse sistema, a fim de que o sangue real se conservasse puro. 

Outra forma da instituição é a família punaluana, que excluiu o casamento entre irmãos, sendo o seu traço característico essencial a comunidade recíproca de maridos e mulheres no seio de um determinado círculo familiar. Também denominada de família por grupos, é encontrada em todos os povos selvagens, notadamente na Austrália.

Já a chamada família sindiásmica, conhecida como casamento por pares, apresenta um certo progresso em direção à atual forma monogâmica ocidental. Nessa modalidade, o homem possuía uma mulher principal entre as suas numerosas esposas e, era para aquela, o esposo principal entre todos os seus ma­ridos.

O jus primae noctis, ou o direito da primeira noite, existiu durante a Antigüidade e na Idade Média, nos países célticos. Em Aragão, até o edito de Fernando, o Católico, em 1486, o senhor feudal podia passar a primeira noite com a noiva do camponês. Ainda há povos, onde o chefe da tribo exerce esse direito. Entre os báreas, na Absínia, os amigos e parentes do noivo, ou mesmo os convidados, têm o direito de manter relações sexuais com a noiva, antes do próprio esposo.

A poliginia, privilégio dos ricos e poderosos, é en­contrada no Oriente, à exceção da Índia e do Tibete, onde prevalece a poliandria. Entre os naires da Índia, existe o que Mac Lennan apelidou de matrimônio por clubes: três ou quatro homens têm uma só mulher em comum, podendo, no entanto, possuir, em conjunto com outros homens, outras tantas mulheres.

A monogamia se caracterizou pelo reconhecimento da paternidade, visto que, nos regimes anteriores, somente a maternidade era determinada. Essa circunstância, decorrente da estrutura do casamento monogâmico, assinalou o predomínio do homem sobre a mulher na civilizarão ocidental.

Na Idade Média, entre os senhores feudais, o matrimônio era, principalmente, um ato político, objetivando o aumento de poder mediante novas alianças.

Poderíamos falar, ainda, sobre o problema das gens, como a grega, a romana, a céltica e a germânica e, em nossos dias, o da gens iroquesa, mas isso extrapolaria o caráter sintético deste rela­tório.

A família brasileira, particularmente a nordestina, se alicerçou no patriarcalismo rural, no qual o homem pontificava como a figura central e dominante do grupo familial, à semelhança do pater familiae romano. Sua autoridade era inconteste e as suas decisões irrecorríveis. O pátrio poder se estendia muito além da maioridade legal dos filhos que, geralmente, só obtinham a verdadeira emancipação com a morte do genitor. O monopólio econômico do senhor rural lhe assegurava a posição de comando no organismo familiar.

O processo urbano, todavia, operou uma profunda e radical transformação nas estruturas da família patriarcal. Alteraram-se as relações entre marido e mulher, pais e filhos. Mudaram, e estão mudando, conceitos e preconceitos antes indiscutíveis. E a família se ressente dos impactos dessas mudanças. As suas causas são múltiplas e complexas, e as soluções nem sempre respondem adequadamente aos desafios da dinâmica da vida moderna, notadamente nas cidades de maior densidade demográfica.

A vida doméstica, então organizada sob os velhos moldes patriarcais, foi abalada em todos os seus alicerces. O apartamento substituiu a vivenda espaçosa, simplificando o ambiente interior, no objetivo da máxima funcionalidade no reduzido espaço vital. Modificaram-se os hábitos alimentares, alterando-se os horários das refeições. A televisão induziu novos interesses no organismo familiar. O homem perdeu a sua antiga posição de líder absoluto da família. A participação da mulher e, algumas vezes, dos filhos, no orçamento doméstico diminuiu a importância do marido na manutenção do lar. O fenômeno da explosão demográfica, a complexidade atordoante do mundo moderno, com as suas variadas solicitações, motivou nos casais uma necessidade revisionista quanto ao número da prole, e o planejamento passou a ser a tônica dominante, ensejando discursões a respeito da eficácia científica de certos métodos anticoncepcionais e de sua validade no campo do direito, da moral e da religião. O conteúdo e a validade dessas transformações e reformas, e as determinantes vocacionais da família contemporânea vão ser amplamente discutidos e analisados no programa desta noite.