Albert Einstein (1897-1955)

 

VRB – O que, na sua opinião, representa o maior perigo para a humanidade?

 

Einstein – A indústria dos armamentos representa concretamente o mais terrível perigo para a humanidade.

Com efeito, enquanto a possibilidade da guerra não for radicalmente supressa, as nações não consentirão em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo possível para esmagar o inimigo de uma futura guerra. Não se poderá evitar que a juventude seja educada com as tradições guerreiras, nem que o ridículo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a mitologia heroica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos cidadãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca.

 

VRB – A instituição do Estado reforçou a idéia do nacionalismo e, conseqüentemente, da manutenção das chamadas forças armadas para a defesa do país. Daí, por certo, se originou a indústria do armamentismo, estimulando a prepotência dos países militarmente mais poderosos.

 

Einstein – O Estado deve ser nosso servidor e não temos obrigação de ser seus escravos. Esta lei fundamental é vilipendiada pelo Estado, quando nos constrange à força ao serviço militar e à guerra. Nossa função de escravos se exerce então para aniquilar os homens de outros países ou para prejudicar a liberdade de seu progresso. Consentir em certos sacrifícios ao Estado só é um dever quando contribuem para o progresso humano dos indivíduos.

O que há de realmente valioso nesta epopeia da vida humana, não me parece ser o Estado, mas sim o indivíduo humano, criador e sensível, a humana personalidade; só ela cria coisas sublimes e nobres, ao passo que o rebanho como tal, permanece obtuso em seu pensar e obtuso em seu agir.

 

VRB – Enquanto o nacionalismo for um sentimento separativista, o militarismo permanecerá.

 

Einstein – Quem quer desenvolver o sentimento internacional e combater o chauvinismo nacional, tem de combater o serviço militar obrigatório. As violentas perseguições que se abatem sobre aqueles que, por motivos morais, recusam cumprir o serviço militar, serão menos ignominiosas para a humanidade do que as perseguições a que se expunham nos tempos passados os mártires da religião? Ousar-se-á hipocritamente proclamar a guerra fora da lei, como o faz o pacto Kellog, enquanto se entregam indivíduos sem defesa à máquina assassina da guerra em qualquer país?

A dignidade da pessoa humana está irremediavelmente aviltada pela obrigação do serviço militar.

 

VRB - E o que fazer para resolver esse problema?

 

Einstein - Continuo a afirmar que o meio violento da recusa do serviço militar é o melhor.

O nacionalismo, hoje espalhado por toda parte de maneira tão perigosa, se desenvolve perfeitamente partir da criação do serviço militar obrigatório, ou, belo eufemismo, do exército nacional. Exigindo dos cidadãos o serviço militar, o Estado se vê obrigado a  neles exaltar o sentimento nacionalista, base psicológica dos condicionamentos militares. Ao lado da religião, o Estado deve glorificar em suas escolas, aos olhos da juventude, seu instrumento de força brutal.

A introducão do serviço militar obrigatório. Eis a principal causa, a meu ver, da decadência moral da raça branca. Assim se coloca a questão da sobrevivência de nossa civilização e até mesmo de nossa vida! Por isto o poderoso influxo da revolução francesa traz inúmeras vantagens sociais, mas também a maldição que, em tão pouco tempo, caiu sobre todos os outros povos.

O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade.

O serviço militar obrigatório tem de ser combatido porque constitui o principal foco de um nacionalismo mórbido.

 

VRB – Mas, para isso, é preciso que modifiquemos a nossa mentalidade guerreira. Jeová ou Iavé era o deus dos exércitos. A mitologia tinha os seus deuses da guerra. Nós ainda cultuamos os grandes conquistadores sanguinários como Alexandre, Júlio César e Napoleão Bonaparte, entre outros.

 

Einstein – Detesto, de saída, quem é capaz de marchar em formação com prazer ao som de uma banda. Nasceu com cérebro por engano; bastava-lhe a medula espinhal.

A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia.

 

VRB – Acredita que, um dia, a guerra será apenas uma lembrança do passado?

 

Einstein – Creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político.

Não se pode manter a paz pela força, mas sim pela concórdia.

 

VRB – Teoricamente, todos os seres humanos anseiam pela paz. Digo teoricamente porque, se isso fosse verdade, não haveria a guerra.

 

Einstein – A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.

O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.

Há apenas um caminho para a paz e para a segurança: o da organização supranacional. O armamentismo unilateral, em base nacionalista, apenas intensifica a incerteza e a confusão generalizadas, sem constituir-se em proteção eficaz.

 

VRB – Posso concluir que você tornou-se pessimista em relação à humanidade?

 

Einstein – Não podemos desesperar dos homens, pois nós mesmos somos homens.

O ser humano vivência a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior.

 

VRB – Qual o seu maior objetivo como um pensador?

 

Einstein – Quero conhecer os pensamentos de Deus... O resto é detalhe.

 

VRB – Deus é o maior de todos os mistérios e, por isso, insondável para o ser humano, mesmo para quem o substitui pela palavra natureza. Aliás, não sei se Deus pensa, tal como entendemos o que seja o pensamento, pois esse modo de pensar é um ranço do nosso antropomorfismo.

Mudando, porém, de assunto: na sua opinião, o universo é finito ou infinito?

 

Einstein – Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.

 

VRB – É uma crença popular que uma pessoa erudita é também sábia. Discordo, porém, dessa presunção. A erudição, por si só, não confere sabedoria e esta, em muitos casos, não precisa daquela. Porém, ambas podem conviver produtivamente.

 

Einstein – O homem erudito é um descobridor de fatos que já existem - mas o homem sábio é um criador de valores que não existem e que ele faz existir.

O estudo em geral, a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida.

 

VRB – Apesar de todo progresso científico e tecnológico, a inércia psíquica é um grande obstáculo para as pessoas se adaptarem às mudanças sociais, e se livrarem de seus condicionamentos culturais já inadequados. A quase totalidade das pessoas continua presa aos preconceitos do passado.

 

Einstein – Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.

A tradição é a personalidade dos imbecis.

Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos.

A personalidade criadora deve pensar e julgar por si mesma, porque o progresso moral da sociedade depende exclusivamente da sua independência.

 

VRB – A ciência é a vaca sagrada dos nossos dias. O conhecimento que não é científico é tido como desnecessário e até mesmo prejudicial por contribuir para alienação do ser humano.

 

Einstein – Existe uma coisa que uma longa existência me ensinou: toda a nossa ciência, comparada à realidade, é primitiva e inocente; e, portanto, é o que temos de mais valioso.

 

VRB – O conhecimento é o que há de mais importante para o ser humano?

 

Einstein – O conhecimento auxilia por fora, mas só o amor socorre por dentro. Conhecimento vem, mas a sabedoria tarda.

Somente seres humanos excepcionais e irrepreensíveis suscitam idéias generosas e ações elevadas.

 

VRB – O conflito entre a ciência e a religião parece não ter fim. Em algumas ocasiões se estabelece um armistício entre elas, mas não a paz. Você admite a possibilidade de que as duas, sob certos aspectos, possam auxiliar-se reciprocamente?

 

Einstein – A ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega.

A religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica.

A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia. Abrangendo os terrenos material e espiritual, essa religião será baseada num certo sentido religioso procedente da experiência de todas as coisas, naturais e espirituais, como uma unidade expressiva ou como a expressão da Unidade. O budismo corresponde a essa descrição.

Sem a convicção de uma harmonia íntima do Universo, não poderia haver ciência. Esta convicção é, e continuará a ser, a base de toda a criação científica. Em toda a extensão de nossos esforços, nas lutas dramáticas entre as velhas e as novas concepções, entreve­mos a ânsia eterna de compreensão, a intuição inabalável da harmonia universal, que se robustece na própria multipli­cidade dos obstáculos que se oferecem ao nosso entendimento.

 

VRB – Você tem alguma religião?

 

Einstein - Minha religião consiste numa admiração humilde ao Espírito Superior e Ilimitado que se revela a si mesmo nos mínimos pormenores, que es­tamos aptos a captar com nos­sas fracas e irrelevantes men­tes. A profunda certeza de um Poder Superior que se revela no Universo, difícil de ser compreendido, forma a minha ideia de Deus.

 

VRB – Como seria um religioso, mesmo sem religião?

 

Einstein - Os gênios religiosos de todas as épocas têm-se distinguidos do comum dos mortais por uma espécie de sentimento religioso cósmico, que não conhece dogmas nem concebe um Deus à imagem do homem. Por isso não pode haver igrejas cujos ensinamentos cen­trais se apoiem nesse sentir. Será, portanto, entre os heré­ticos de todas as épocas que vamos encontrar homens impregnados do mais elevado sentimento religioso, considerados por seus contemporâ­neos, ora como ateus, ora como santos. Através desse prisma, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza estão muito próximos uns dos outros.

Saber que existe algo insondável, sentir a presença de algo profundamente racional, radiantemente belo, algo que compreendemos apenas em forma rudimentar — esta é a experiência que constitui a atitude genuinamente religiosa. Neste sentido, e neste sentido somente, eu pertenço aos homens profundamente religiosos.

O característico do homem religioso consiste no fato de se ter libertado das algemas do seu egoísmo, construindo, por seu modo de pensar, sentir e agir, um mundo de valores suprapersonais, aprofundando e ampliando cada vez mais o seu impacto sobre a vida.

 

VRB – Qual a sua concepção sobre Deus?

 

Einstein – Deus é a lei e o legislador do Universo.

Não tento imaginar um Deus pessoal; basta admirar assombrado a estrutura do mundo pelo menos na proporção em que ela se permite apreciar por nossos sentidos inadequados.

É claro que era mentira o que você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Não acredito num Deus pessoal e nunca neguei isso, e sim o manifestei claramente. Se há algo em mim que possa ser chamado de religioso, é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo, do modo como nossa ciência é capaz de revelar.

Sou um descrente profundamente religioso. Isso é, de certa forma, um novo tipo de religião.

Jamais imputei à natureza um propósito ou um objetivo, nem nada que possa ser entendido como antropomórfico. O que vejo na natureza é uma estrutura magnífica que só compreendemos de modo muito imperfeito, e que não tem como não encher uma pes­soa racional de um sentimento de humildade. É um sentimento genuinamente religioso, que não tem nada a ver com misticismo.

A ideia de um Deus pessoal me é bastante estranha, e me parece até ingênua.

 

VRB – Conseqüentemente...

 

Einstein – Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação.

Aceito o mesmo Deus que Spinoza chama de Alma do Universo. Não aceito um Deus que se preocupe com as nossas necessidades pessoais.

Basta de dizer a Deus o que ele deve fazer.

Durante o período juvenil da evolução espiritual da humanidade, a fantasia humana criou a sua própria imagem “deuses” que, por seus atos de vontade, supostamente determinariam ou, pelo menos, influenciariam o mundo fenomênico. O homem procurava alterar a disposição desses deuses a seu próprio favor, por meio da magia e da prece. A ideia de Deus, nas religiões ensinadas atualmente, é uma sublimação dessa antiga concepção dos deuses. Seu caráter antropomórfico se revela, por exemplo, no fato de os homens recorrerem ao Ser Divino em preces, a suplicarem a realização de seus desejos.

Certamente, ninguém negará que a ideia da existência de um Deus pessoal, onipotente, justo e todo-misericordioso é capaz de dar ao homem consolo, ajuda e orientação; e também, em virtude de sua simplicidade, acessível às mentes menos desenvolvidas. Por outro lado, porém, esta ideia traz em si aspectos vulneráveis e decisivos, que se fizeram sentir penosamente desde o início da história. Ou seja, se esse ser é onipotente, então tudo o que acontece, aí incluídos cada ação, cada pensamento, cada sentimento e aspiração do homem, é também obra Sua; nesse caso, como é possível pensar em responsabilizar o homem por seus atos e pensamentos perante esse Ser 'todo-poderoso'? Ao distribuir punições e recompensas, Ele estaria, até certo ponto, julgando a Si mesmo. Como conciliar isso com a bondade e a justiça a Ele atribuídas?

Não há dúvida de que a doutrina de um Deus pessoal que interfere nos eventos naturais jamais poderia ser refratada, no sentido verdadeiro, pela ciência, pois essa doutrina pode sempre procurar refúgio nos campos em que o conhecimento científico ainda não foi capaz de se firmar. Estou convencido, porém, de que tal comportamento por parte dos representantes da religião seria não só indigno como desastroso. Pois uma doutrina que não é capaz de se sustentar à "plena luz", mas apenas na escuridão, está fadada a perder sua influência sobre a humanidade, com incalculável prejuízo para o progresso humano. Em sua luta pelo bem ético, os professores de religião precisam ter a envergadura para abrir mão da doutrina de um Deus pessoal, isto é, renunciar a fonte de medo e esperança que, no passado, concentrou um poder tão amplo nas mãos dos sacerdotes. Em seu ofício, terão de se valer daquelas forças que são capazes de cultivar o Bom, o Verdadeiro e o Belo na própria humanidade. Trata-se, sem dúvida, de uma tarefa mais difícil, mas incomparavelmente mais valiosa. Quando tiverem realizado esse processo de depuração, os professores da religião certamente hão de reconhecer com alegria que a verdadeira religião ficou enobrecida e mais profunda graças ao conhecimento científico.

 

VRB – Você admite a possibilidade da sobrevivência post-mortem do ser humano?

 

Einstein – Não posso fazer idéia de um ser que sobreviva à morte do corpo.

 

VRB – É possível um relacionamento proveitoso entre a ciência e a religião? O que a ciência pode fazer em benefício da religião?

 

Einstein - A Ciência não apenas purifica o espírito religioso do azi­nhavre de seu antropomorfismo, mas contribui também para uma espiritualização religiosa de nossa compreensão da vida.

Se um dos objetivos da religião é libertar a humanidade, tanto quanto possível, da servidão dos anseios, desejos e temores egocêntricos, o raciocínio científico pode ajudar a religião em mais um sentido.

A meu ver, portanto, a ciência não só purifica o impulso religioso do entulho de seu antropomorfismo, como contribui para uma “espiritualização” religiosa de nossa compreensão da vida.

Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, mais certo me parece que o caminho para a religiosidade genuína não passa pelo medo da vida, nem pelo medo da morte, ou pela fé cega, mas pelo esforço em busca do conhecimento racional.

 

VRB – As pessoas, em geral, têm, como objetivo de vida, o prazer e a felicidade. Na minha opinião, prazer e felicidade não são objetivos, mas consequências do nosso modo de ser.

 

Einstein – Jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.

 

VRB – Qual o seu ideal político?

 

Einstein – O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado.

 

VRB – Qual a importância da teoria na investigação científica?

 

Einstein – É a teoria que decide o que podemos observar.

Se os fatos não se encaixam na teoria, modifique os fatos.

 

VRB – Todos nós, de um modo ou de outro, temos um propósito para a nossa existência e lutamos pela sua realização. Isso, porém, não nos impede de termos objetivos secundários. Qual, na sua opinião, é a meta prioritária?

 

Einstein – A luta pela verdade deve ter precedência sobre todas as outras.

 

VRB – A tecnologia nos melhorou como seres humanos ou apenas nos cercou de objetos que tornaram a nossa vida mais prática?

 

Einstein – Tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.

A liberação da energia atômica mudou tudo, menos nossa maneira de pensar.

 

VRB – Você acredita que o homem faz o seu destino?

 

Einstein – Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos.

 

VRB – Então, você admite que o ser humano é livre?

 

Einstein – Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior mas também de acordo com uma necessidade interior.

 

VRB – O seu pensamento científico sempre se norteou pela racionalidade?

 

Einstein – O mecanismo do descobrimento não é lógico e intelectual – é uma iluminação subitânea, quase um êxtase. Em seguida, é certo, a inteligência analisa e a experiência confirma a intuição. Além disso, há uma conexão com a imaginação.

Não existe nenhum caminho lógico para a descoberta das leis elementares do universo – o único caminho é a intuição. 

Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade se me revela.

 

VRB – E qual a consequência dessa experiência?

 

Einstein - Uma mente que se abre a uma nova idéia nunca mais voltará a seu tamanho original.

 

VRB – Qual o papel da imaginação na pesquisa científica?

 

Einstein – A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro.

A mente avança até o ponto onde pode chegar;mas depois passa para uma dimensão superior, sem saber como lá chegou. Todas as grandes descobertas realizaram esse salto.

O homem, como qualquer outro animal, é por natureza indolente. Se nada o estimula, mal se dedica a pensar e se comporta guiado apenas pelo hábito, como um autômato.

 

VRB – Os médicos, atualmente, recomendam uma intensa atividade intelectual, na chamada terceira idade, para criar novas sinapses e evitar ou procrastinar o advento de doenças degenerativas como o mal de Alzheim. A leitura é um dos exercícios mentais mais recomendados.

 

Einstein – A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo o homem que lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar.

 

VRB – A sociedade tem sido acusada de impedir o desenvolvimento das potencialidades do ser humano, quando em desacordo com as suas normas e valores. O que você pensa a respeito?

 

Einstein – O que há de melhor no homem somente desabrocha quando se desenvolve em uma comunidade.

O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através de seu devotamento à sociedade.

Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pes­soa. Testei o homem. É inconsistente.

 

VRB – Cientistas e filósofos procuram desvendar os mistérios da vida, principalmente com a utilização da razão. De minha parte, delicio-me com eles, porque tenho a convicção de que nem todos podem ser resolvidos, porque transcendem a nossa capacidade cognitiva.

 

Einstein – O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram.

 

VRB – Quais foram os ideais que nortearam a sua vida?

 

Einstein – Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade.

 

VRB – Acredita que a moralidade pode preservar a vida social apesar de todas as suas transformações?

 

Einstein – O sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua re­ligiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório.

A arte, mais do que a ciência, pode desejar e esforçar-se por atingir o aperfeiçoamento moral e estético. A compreensão de outrem somente progredirá com a partilha de alegrias e sofrimentos. A atividade moral implica a educação destas impulsões profundas, e a religião se vê com isto purificada de suas superstições.

O  terrível dilema da situação política explica-se por este pecado de omissão de nossa civilização. Sem cultura moral, nenhuma saída para os homens.

 

VRB – O especialista é, hoje, uma pessoa que inspira uma grande respeitabilidade científica. Mas, na minha óptica, o homem deve ser muito mais do que um especialista para compreender a complexidade cada vez maior do mundo moderno e das relações humanas dela decorrentes.

 

Einstein – Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade.

 

VRB – Cientista é só aquele que possui um diploma universitário e passa toda sua vida dentro de um laboratório, realizando pesquisas?

 

Einstein – Não considero automaticamente um homem de ciência aquele que sabe manejar instrumentos e métodos julgados científicos. Penso somente naqueles cujo espírito se revela verdadeiramente científico.

 

VRB – A matemática é um instrumento confiável para a investigação da realidade?

 

Einstein – As teses da matemática não são certas quando relacionadas com a realidade, e, enquanto certas, não se relacionam com a realidade.

 

VRB – As pessoas, geralmente, temem a solidão. Mas algumas são voluntariamente solitárias.

 

Einstein – Talvez algum dia a solidão venha a ser adequadamente reconhecida e apreciada como mestra da personalidade. Há muito que os orientais o sabem. O indivíduo que teve experiência da solidão não se torna vítima fácil da sugestão das massas.

Tomara que exista algures uma ilha para homens sábios e de boa vontade.