A EDUCAÇÃO SEXUAL

20 de dezembro de 1968

 

 

Em época alguma como a nossa, o homem se preocupou tanto com o problema do sexo. Um dilúvio editorialista inunda as nossas livrarias e bancas de jornal com publicações nem sempre de caráter científico, objetivando interesses, não raramente, inconfessáveis.

A história demonstra que o sexo nem sempre foi a preocupação básica do espírito humano. Nem todos os povos fizeram da relação se­xual a razão fundamental de sua própria existência.

Sexo e religião sempre estiveram intimamente entrelaçados. O ato sexual está presente em todas as cosmogonias, mas revestido de um simbolismo, nem sempre compreendido por certos estudiosos do assunto. As religiões antigas entendiam a criação cósmica como resultante de um ato genésico da divindade.

É questionável a afirmativa de que a chamada prostituição religiosa na Índia, Pérsia, Egito, Cartago, Fenícia e Babilônia tivesse uma finalidade orgiástica, de natureza tipicamente libidinosa,

É evidente que as comodidades materiais podem induzir o homem a superestimar os prazeres sensoriais, entre eles, notadamente, os proporcionados por uma vida sexual satisfatória. Assim aconteceu no apogeu de Roma. Assim acontece, via de regra, entre as classes e os indivíduos abastados.

Se a liberdade sexual conduziu a humanidade a inevitáveis exageros e aberrações, também a sua repressão violenta proporcionou desajustamentos e neuroses, rotulados de misticismo, como aconteceu nos mosteiros medievais. Acreditavam aqueles cristãos misoneístas e ginófobos que o corpo era a sede do pecado e se martirizavam com macerações, jejuns e flagelações para acalmar a luxúria satânica do desejo sexual. O se­xo era a perdição do homem, assim ensinavam os Doutores da Igreja, esquecidos de que Deus ordenara, segundo o livro do “Gênesis”, que os seres humanos crescessem e se multiplicassem.

A seita dos essênios, à qual, conforme alguns autores, o próprio Jesus pertencera, pregava a castidade, sem, contudo, adotar qualquer atitude violenta contra a relação sexual,

A Idade Média se caracterizou pelos paradoxos sexuais, onde a castidade, nem sempre espontânea, se alternava com impressionantes manifestações de bestialidade e perversão. As seitas dos Valdenses e Turlupinos praticavam a comunidade das mulheres e rejeitavam a violência em quaisquer de suas formas. Os Picardos ou Adamitas costumavam andar nus, pois consideravam a roupa um sinal de escravidão e de pecado. Também, no Oriente Próximo, a seita dos Ismaelitas, mais conhecidas pelo nome de haxixins (comedores de haxixe), praticavam a comunidade das mulheres.

Na Rússia, durante o reinado de Pedro, o Grande, apareceu a curiosa seita dos Scopitas, ou castrados. Diziam os seus adeptos que o pecado original não pode extirpar-se senão pela amputação das partes genitais dos homens e dos seios das mulheres. A castração era, assim, o preço do paraíso. Os duobores, que surgiram na Rússia em meados do século XVIII, impressionaram o mundo por seus elevadíssimos princípios éticos, conquanto fossem nudistas. Ainda neste século, escritores como Sade e Masoch se fizeram, através de seus escritos, os representantes típicos de certas formas de aber­ração sexual, que passaram a ser conhecidas pelos nomes de sadismo e masoquismo. A literatura erótica da época teve, como seu representante máximo, Retif de La Bretonne, e o amor aventureiro e irresponsável, o famoso Casanova de Seingalt.

O sexo, de conformidade com as épocas e os lugares, foi exaltado e humilhado, liberado e proibido, santificado e depravado, isola­do da vida ou integrado nela.

Freud, a princípio, definia a libido como apenas energia sexual. Porém, milênios antes dele, os iniciados hindus identificavam a energia sexual com a kundalini, misteriosa força vital, ador­mecida no chacra básico, situado à altura dos órgãos genitais. O despertar da kundalini, mediante certas técnicas específicas, produzia a sua subida até o chacra coronário, situado no alto da cabeça, o que resultava na iluminação do homem e na sua libertação definitiva do ciclo reencarnatório.

A educação sexual, que se fundamenta no aproveitamento racional e no uso adequado das funções genitais, constitui um interesse fundamental da sociedade. Os mais renomados educadores se têm debruçado sobre os problemas resultantes da sexualidade, observando as tendências pessoais de cada indivíduo, a condição social em que vive e a sociedade a que pertence. O dogmatismo e o liberalismo, por suas posições extremas, contribuem, de certo modo, para aumentar a complexidade das relações sexuais.